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Cecilia Sala, a jornalista que conta "uma história do mundo todos os dias", dorme sobre uma manta numa cela iluminada 24 horas por dia

Este artigo tem mais de 1 ano

"Curiosa" e "prudente", jornalista italiana está detida no Irão desde 19 de dezembro. Podcast que apresenta foi retomado com o título "À espera de Cecilia". Esta semana, pôde falar com os pais.

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“Teerão, até do teu smog senti falta”

A fotografia, com uma fila de prédios amarelados a construir a linha do horizonte, e a Torre Milad ligeiramente camuflada pelo fumo da poluição, anunciava o regresso à capital iraniana de Cecilia Sala, que ali tinha estado pela última vez antes da pandemia de Covid-19. Estava de volta em trabalho, com um visto regular de jornalista, e a página de Instagram, embora não conte a história toda, ajuda a traçar alguns dos passos que ali percorreu.

Antes de ter sido detida, a 19 de dezembro, folheou o “álbum de família do Eixo da Resistência e as fotografias da vida de Hossein Kanaani, um dos fundadores, que “contam meio século de operações iranianas no Médio Oriente”, escrevia a jornalista, de 29 anos.

Jornalista italiana está detida há uma semana numa prisão do Irão. Motivo “ainda não foi formalizado”

Um comboio de fotografias mostrava “novos rostos e ruas de Teerão“, entre eles o de uma mulher de cabelo curto e vermelho, grupos de jovens na rua sem o véu islâmico, a conviverem no interior e no exterior. E, um dia antes da detenção, um retrato de Zeinab Musavi, a protagonista do seu último episódio de “Stories”, o podcast da Chora Media que assinava todos os dias desde 10 de janeiro de 2022 e em que conta “uma história do mundo todos os dias”, lê-se na sua biografia no Instagram.

Musavi, conhecida nas redes sociais como “imperador Kuzco”, é uma comediante iraniana de stand-up que “foi apanhada no meio da guerra entre a República Islâmica e o Instagram”, segundo a descrição do episódio. Vivia do rendimentos que o Instagram lhe trazia, até que foi proibido no país. “Quando perdeu os seus 750 mil seguidores, perdeu também o emprego.” Em 2022, Zeinab foi detida por “palavras proferidas por uma máscara”, quando desenhou uma das suas personagens, acrescenta Sala. “Hoje, diz que mesmo na solitária encontrou motivos para rir.”

Ao longo de 685 episódios, Cecilia Sala deu voz a protagonistas e desconhecidos de vários cantos do mundo, muitas vezes a partir de zonas de conflito ou de elevada tensão, onde o trabalho de jornalistas, quando possível, é dificultado. No verão de 2021, quando Cabul caiu nas mãos dos talibãs após a retirada dos EUA, esteve na cidade e, através das redes sociais, relatou o “fim da liberdade de um povo”. Foi para a Ucrânia logo após o início da invasão pela Rússia e fez o percurso inverso dos refugiados que fugiam de Kiev. Nas suas histórias, contou o dia-a-dia: das sirenes aos bunkers, aos alojamentos improvisados às doações de sangue na cidade.

Fez um podcast de seis episódios sobre o assassinato da estudante de 22 anos Marta Russo, na Universidade de Roma La Sapienza, publicado pelo Huffington Post, que deu um livro, escrito em coautoria com a também jornalista Chiara Lalli. No segundo livro, “L’incendio” [“O Fogo”], juntou as histórias que recolheu durante as reportagens, no Afeganistão, os protestos no Irão após a morte de Mahsa Amini, ou os desenvolvimentos na guerra na Ucrânia.

Cecilia Sala foi detida a 19 de dezembro, no Irão, que esta semana justificou a detenção com uma alegada violação das “leis da República Islâmica”, de acordo com um comunicado do Ministério da Cultura do país. Dias antes, o Departamento de Estado norte-americano sugeriu que a detenção poderia estar relacionada com a detenção em Milão (Itália) de um traficante de armas iraniano.

Irão confirma detenção de jornalista italiana por “violar as leis da República Islâmica”

No último vídeo antes da detenção, publicado no Instagram e citado pela imprensa italiana, Sala disse que as mulheres no país “já não usam o véu, ou pelo menos não da forma que a lei dita“. “E não têm medo de uma estrangeira como eu a tirar fotografias ou que as câmaras inteligentes de fabrico chinês espalhadas pela cidade lhes façam um scan dos rostos e enviem alertas para a polícia.”

[Já saiu o terceiro episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo.]

O podcast “à espera de Cecilia”

Segundo o Corriere Roma, quem a conhece apelida-a como “curiosa“, “empreendedora“, “prudente“. Uma “rapariga apaixonada e sempre muito cuidadosa:  não é imprudente nem propensa ao risco”, caracteriza um amigo, à publicação. Já no Irão, terá avisado as autoridades iranianas sobre as entrevistas que pretendia fazer e onde iria estar. A detenção, enquanto estava no hotel, aconteceu na véspera do regresso a Itália e três dias depois da detenção em Milão de Mohammad Abedini-Najafabadi, de 38 anos, ao abrigo de um mandado de captura dos EUA.

O homem é suspeito de associação criminosa por fornecer uma organização terrorista estrangeira e, em violação das sanções em curso, traficar componentes de drones, alguns dos quais terão sido usados num ataque na Jordânia que causou mortos.

Cecilia Sala partiu de Roma a 12 de dezembro com destino ao Irão e deveria ter voltado à capital italiana oito dias depois. Estava no país para colocar em três episódios algumas das histórias recolhidas, mas desde a história de Zeinab Musavi que não voltou a publicar. O podcast “Stories”, depois de uma pausa forçada pela detenção da sua apresentadora, foi retomado pelos colegas, mas sempre com o título “À espera de Cecilia“.

“Vamos começar outra vez porque o jornalismo não é crime. Vamos começar outra vez para não deixar inacabado o trabalho iniciado por Cecilia há três anos quando o Stories nasceu”, de acordo com um comunicado da Chora Media, citado pela imprensa italiana. “Todos os dias a Cecilia Sala dá voz com o seu podcast às histórias do mundo e continuamos a falar-vos sobre ela e outras mulheres livres. Estamos a substituí-la temporariamente, com uma rotatividade da equipa editorial, para dar voz à história dela e à das mulheres que lutam pela liberdade e os direitos, o que a Cecilia sempre apoiou.”

Cecilia estudou Economia na Universidade Luigi Bocconi, em Milão, mas não terminou. Trabalhou na empresa de comunicação Vice e depois tornou-se freelancer. Quando ainda estava no liceu, participou no AnnoZero, um talk-show apresentado pelo jornalista italiano Michele Santoro. O Corriere Roma conta que esse contacto aconteceu depois de Sala ter dado nas vistas durante um discurso numa manifestação contra a máfia. Tornou-se ainda presença regular no programa Announo, dedicado à atualidade política, e foi estagiária noutro programa de Santoro.

Jornalista italiana terá sido presa no Irão em represália pela detenção de traficante iraniano em Itália

Escreveu para a Wired, a Vanity Fair e a L’Espresso sobre a América Latina e o Médio Oriente. Mas foi no primeiro podcast, “Polvere”, que escreveu com Chiara Lalli e publicado em 2020 para o Huffington Post, que se deu a conhecer ao público. Em 2022, recebeu o prémio Penna d’Oro de Sergio Mattarella. Nesse ano, foi para o jornal italiano Il Foglio, onde ainda está e cobre temas como o Afeganistão, a Ucrânia e o Irão.

Antes de ser jornalista, já lia grandes repórteres em cenários de crise. Tornou-se numa deles nomeadamente com o “Stories”, onde segundo a descrição no site, fala “do mundo através dos seus protagonistas, alguns já famosos e outros ainda por descobrir”. Através das suas histórias, revela “uma parte do mundo: os contextos, as crises e as boas notícias”. Mas não fica fechada numa sala à secretária: “Stories vai levá-lo na estrada com Cecilia para descobrir no terreno o que está a acontecer no mundo”.

Numa entrevista em junho de 2024, citada pela Elle Itália, contou que os guiões de Stories “têm uma pessoa no centro, uma história mais íntima“. “Interessam-me as personagens das pessoas, os pormenores, até os aspetos engraçados. O podcast permite-me chegar a mais pessoas, porque uma história humana poderosa não tem barreiras à entrada: é a chave com que atraio aqueles que me ouvem em diferentes contextos.”

Alguns dias antes de partir para a Ucrânia, em 2022, explicou em entrevista que se prepara para as suas reportagens “estudando com especialistas locais” em quem confia. Tem listas no Twitter divididas por áreas geográficas, onde coloca os perfis de utilizadores que acredita poderem contribuir para as suas histórias, desde políticos a youtubers locais ou desconhecidos. “Com o telemóvel pode fazer-se quase tudo. A power bank salva-nos.”

Vários dos amigos e apoiantes têm publicado nas redes sociais uma frase dita por Cecilia numa outra entrevista, em 2023: “Há uma diferença fundamental entre o medo e o pânico. O medo, em certas situações, é útil porque nos protege, ajuda a concentrarmo-nos, melhora a audição e a visão e reduz o risco de nos magoarmos. O pânico, pelo contrário, torna-nos mais perigosos para nós próprios do que a situação em que nos encontramos”.

Dorme no chão, sobre um cobertor, numa cela iluminada 24 horas por dia

Cecilia Sala dorme sobre um cobertor na cela na prisão de Evin, no Irão, e não vê ninguém desde 27 de dezembro, quando se encontrou com o embaixador italiano em Teerão, conta o Corriere della Sera. Nem com os guardas prisionais contacta — a comida é-lhe passada por uma abertura na porta. Tem uma manta para se tapar. Os óculos foram-lhe confiscados e nem uma máscara para esconder os olhos da luz néon que ilumina a cela 24 horas por dia, e que terá sido enviada numa caixa com outros bens pelo Estado italiano, pode usar.

Tudo isto terá sido contado por Cecilia à mãe, ao pai e ao namorado (o também jornalista Daniele Raineri), a quem pôde ligar esta quarta-feira. Em declarações aos jornalistas, a mãe disse que a filha lhe pediu várias vezes durante o telefonema para que se apressassem a tirá-la dali.

E têm sido vários os pedidos de libertação de Cecilia. Esta semana, os pais reuniram-se com a primeira-ministra, Georgia Meloni, que já garantiu que estão a ser feitos esforços para trazer a jornalista de volta a casa. A embaixadora italiana Paola Amadei encontrou-se esta semana com o responsável para a Europa do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano e reiterou o pedido de libertação imediata de Sala e que lhe fossem fornecidos bens de primeira necessidade na prisão.

Segundo o La Stampa, Majud Nili Ahmadabadi respondeu-lhe que a detenção de Mohammad Abedini-Najafabadi é um “ato ilegal, que prejudica as relações” entre Roma e Teerão, aumentando a crença de que a detenção de Sala possa ter sido uma retaliação à prisão de Abedini. As autoridades iranianas têm alegado que a detenção do homem de 38 anos aconteceu sob o pretexto de “falsas acusações”.

De acordo com o jornal, o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Riccardo Guariglia, pediu ao embaixador iraniano em Roma, Mohammad Reza Sabouri, a “libertação imediata” de Cecilia Sala, recordando que entrou com um visto regular de jornalista e que não fossem colocados em causa os seus direitos. Depois do encontro, a embaixada iraniana em Itália publicou um comunicado em que ligava as duas detenções.

“Eles estão a trabalhar e eu respeito o trabalho que estão a fazer“, afirmou Elisabetta Vernoni, mãe de Cecilia, após a reunião com a primeira-ministra Giorgia Meloni, aos jornalista. O governo italiano já admitiu a complexidade do caso e os pais, em comunicado, falaram numa fase “muito delicada” do processo, com “a sensação” de que “o grande debate mediático sobre o que pode ou deve ser feito corre o risco de prolongar o tempo [de detenção] e fazer com que a solução seja mais complicada e remota”.

Entretanto, Cecilia continua numa cela isolada em Teerão. Sobre o título do seu segundo livro “L’incendio” [“O Fogo”], explicou numa entrevista em 2023: “Esta palavra, para mim, também se refere ao que estes acontecimentos significaram: iludimo-nos de que estávamos a caminho de um mundo cada vez menos perigoso e caótico, mas agora é novamente claro para nós como as coisas más continuam a acontecer e, de uma forma ou de outra, acabam por nos envolver também”.

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