100 anos de correios e telecomunicações: o design explicado às crianças /premium

11 Março 2019110

A Casa do Design em Matosinhos acolhe a exposição "Sinal. 100 anos de design das telecomunicações e dos correios de Portugal", para mostrar o que a passagem do tempo quase faz esquecer.

Depois de ter apresentado uma excelente mostra histórica e técnica alusiva aos 250 anos da Imprensa Nacional, a Casa do Design de Matosinhos exibe “Sinal. Cem anos de design das telecomunicações e dos correios de Portugal” (até meados de Julho). Há um claro propósito desta instituição, que começou a sua actividade em 2016 mostrando artefactos tradicionais reintrepretados por artistas contemporâneos, e motorizadas de fabrico português, em explicar a um público generalista — a quem o delirante ostracismo do jargão “académico” nada tem a dizer — como a nossa vida quotidiana é influenciada por objectos de uso corrente, que através do design têm uma reconfiguração contínua ou colapsam na presença efémera de uma etapa tecnológica que a voragem dos dias faz esquecer rapidamente.

Não tão longe assim vai o tempo em que telefonar implicava dar a uma manivela (que é isso?! — pergunta o gaiato), depositar moedas num mealheiro apenso a um aparelho arcaico ou, mais perto de nós, introduzir numa ranhura de aparelho telefónico de parede um cartão com certo crédito monetário (ainda existe, mas rareia). O próprio acto de telefonar tinha lugares próprios e confinados, onde era necessário aguardar pela vez. No espaço público, a cor vibrante de uma cabina telefónica ou de um posto postal de procedência britânica facilitava a sua localização (e isso também é design, e excelente design de facto).

Central Comutação Manual Ericsson

A muita gente da era do correio electrónico não deixará de parecer anacrónico ou absurdo que o serviço postal seja representado por um cavaleiro com corneta conhecido por postilhão (dirá, com toda a certeza, que cavalos e cornetas não passam há muito por aqui), ou que mensagens urgentes e breves (ditas telegramas, hoje substituídas pelo vulgar e instantâneo short message service: sms) tenham um dia sido distribuídas ao domicílio por jovens ciclistas fardados que, para galgarem as encostas mais íngremes de Lisboa, esperavam pela boleia de carros eléctricos — os da Carris, bem entendido —, cujos passageiros os observavam com natural complacência e curiosidade, quando não com a pequena inveja de uma vida aventurosa. Certos aparatos dos anos 1980-90 (uma época de grandes mudanças) têm já hoje praticamente o estatuto de pequenos dinossauros, ou de inconcebíveis trambolhos. Quase não dá para acreditar…

É quase um “ver para crer” quanto tudo mudou em décadas, ou meia dúzia de anos, graças à capacidade ou colaboração de inventores e designers, que criaram artefactos mais leves, mais rápidos e mais influentes, modificando todo o panorama da sociabilidade humana. Hoje, alguém num lugar remoto — de pólo a pólo — é contactável por som, imagem e texto, bastando-lhe lançar a mão ao bolso. A natureza humana, essa, não se alterou, antes insiste em mostrar mais e mais a sua pior face, mas o modo como humanos hoje se cruzam e comunicam entre si é totalmente diverso de há cem anos a esta parte, que não é mais do que um minúsculo período na longa história da humanidade.

Nos anos 1950-70, por exemplo, a Boa Reguladora, uma fábrica de Vila Nova de Famalicão, fornecia habitualmente os Correios, Telégrafos e Telefones com relógios de parede em madeira e latão, redondos e sonoros, estampando o conhecido emblema dos Correios no centro do mostrador.

O próprio tempo — e esta exposição não esqueceu os consecutivos relógios das estações de correio — foi sendo medido por objectos que carregam sinais diferenciadores da época em que foram produzidos e por quem. Nos anos 1950-70, por exemplo, a Boa Reguladora, uma fábrica de Vila Nova de Famalicão, fornecia habitualmente os Correios, Telégrafos e Telefones com relógios de parede em madeira e latão, redondos e sonoros, estampando o conhecido emblema dos Correios no centro do mostrador — os actuais, em plástico e bastante indistintos, por sinal, são feitos em Rio de Mouro (Sintra) pela Infocontrol —, mas nos anos 1930 havia-os produzidos pela poderosa Waterbury Clock Company norte-americana, representada em Lisboa por A. V. Fonseca, e muito mais tarde relógios italianos que fizeram época, fabricados pela Solari di Udine — a empresa que mais produz painéis para aeroportos e estações ferroviárias — mostravam hora, dia e mês em placas movidas por impulsos magnéticos.

Na Direcção-Geral de Correios e Telégrafos, na década de 1930, entradas e saídas de funcionários eram registadas por pontómetro produzido pela especializadíssima National Time Recorder Company Ltd. londrina — um aparelho de apreciáveis dimensões e robustez certamente capaz de induzir no meio laboral o tal respeitinho que os actuais e discretos relógios de ponto por verificação digital não impõem de todo…

Uma cabine pública

Grandes fabricantes como Ericsson, Siemens, Standard Electric produziram telefones de parede ou mesa que se tornaram icónicos, antes mesmo de microfone e auscultador estarem reunidos numa peça única (que Salvador Dalí “eroticizou”, em 1936, com os seus telefones-lagosta!), uma solução ergonómica adoptada pela indústria muito mais tarde do que se pensa. Em 1879 — 13 anos antes de a Ericsson desenvolver o seu AC 110, um must have que iria perdurar em algumas redes portuguesas por quase quatro décadas —, o inventor luso Cristiano Augusto Bramão (1840-81), funcionário dos telégrafos pátrios, notabilizou-se por criar o seu telefone n.º 8, através do qual estações telegráficas da Grande Lisboa puderam falar pela primeira vez entre si, podendo por isso ser considerado um precursor internacional.

Progressivamente, madeira e metal foram substituídos nos aparelhos individuais por baquelite, uma resina sintética resistente, do mesmo modo que o marcador de disco haveria de ir cedendo vez ao de teclado (uma substancial mudança na gestualidade, comparável à do actual desligar de dedo sobre o ecrã de telemóvel). Em 1930 a Automatic Telephone Maufacturers Ltd, de Liverpool, criou o Aptofone Manual com marcador falso (dependia de um comutador geral), que se tornou um ex-líbris da Anglo Portuguese Telephone nas áreas metropolitanas.

A exposição não deixou de lado os velhos comutadores telefónicos — quase todos de marca Ericsson, centenária em 1976 —, nem o motor-gerador de corrente de chamada para centrais telefónicas desenvolvido pela sueca ABLME (sem data), ou um contador de impulsos gerados nos postos telefónicos públicos para efeitos de cobrança.

Outra versão deste telefone foi fabricada em exclusivo para esta companhia em 1940. Mas se em 1953 a Ericsson produzia o pesado e negro modelo DBH — o aparelho ideal para que num filme a preto e branco se comunicasse um crime —, muito utilizado no nosso país (rodando uma manivela lateral, carregava-se-lhe a bateria interna e disparava a indispensável chama electromagnética), quatro anos mais tarde a empresa sueca promovia o “luxuoso” (sic) Ericofon, de design arrojado, quase divertido, em baquelite azul clara, com o marcador de disco oculto na base. Os telefones deixariam de ser sempre negros. Nos anos 60, foi a espanhola Citesa a lançar o inovador modelo 5544, o Gôndola de cor verde clara, duas peças iguais sobrepostas, uma delas com auscultador e microfone, em que o marcador de disco surge pela primeira vez ao centro.

Duas décadas depois viria o IXT, um aparelho de cor bege com teclas de pressão e microtelefone com encaixe recortado na caixa do equipamento, produzido pela portuguesa Elotécnico mas criado originalmente pela britânica GEC Plessey Telecommunications Ltd. Outra fábrica nacional, a Automática Eléctrica Portuguesa, havia produzido em 1946 o seu 332, um belo modelo clássico em baquelite de cor marfim, mas foi o seu modelo 7, de 1962, negro e com disco, que haveria de ser produzido em larga escala para clientes residenciais, e redesenhado 14 anos depois como 7P, uma versão definitiva, já com teclado e em duas versões, bege ou verde.

Sinalização dos Correios

Curiosamente, os últimos telefones ditos de cabine pública chegaram-nos de países nórdicos e asiáticos, que aparentemente deram preferência a um uso partilhado: o metálico Automatic A/S, fabricado pela Great Northern Telegraph Automatic, sediada em Copenhaga; o também metálico Landis & Gyr BTK, de origem norte-americana (para cartão telefónico); e o Tamura 670 PR, criado em baquelite vermelha pela japonesa Tamura Electric Works Ltd no ano 1972, e distribuído em Portugal dois anos depois, muito comum em cafetarias, salas de cinema ou teatro e galerias comerciais.

A exposição não deixou de lado os velhos comutadores telefónicos — quase todos de marca Ericsson, centenária em 1976 —, nem o motor-gerador de corrente de chamada para centrais telefónicas desenvolvido pela sueca ABLME (sem data), ou um contador de impulsos gerados nos postos telefónicos públicos para efeitos de cobrança (e que vieram até quase ao final do século passado), mas as maiores curiosidades são mesmo o telefone de campanha Ericsson, patenteado em 1923 (uma bolsa de madeira com alças, revestida a couro, movido a bateria e manivela, e de uso exclusivo do laboratório técnico e da administração da companhia de correios e telégrafos), o telégrafo do anglo-americano David Edward Hughes adoptado em Portugal em 1885, três décadas após a sua patente (o excepcional inventor tinha então 24 anos…), ou o telefone-telégrafo de parede criado em 1888-89 pelo belga François Van Rysselberghe (1846-93) e utilizado nas primeiras experiências telefónicas entre Lisboa e Porto, através das linhas telegráficas — certamente uma das principais relíquias da Fundação Portuguesa das Comunicações, cujo espólio está largamente representado nesta exposição.

É sobretudo na comunicação institucional — publicidade e propaganda, com serviço próprio também desde 1937 — que intervém a nata dos decoradores portugueses a partir dos anos 1930 em diante, dando-lhe ares de modernismo ou modernidade compatíveis com os progressos trazidos pelas telecomunicações em si mesmas e o papel social dos serviços postais.

Se a história do telefone é um longo roteiro, o do correio postal não o é menos. E é aqui que a “identidade corporativa” — profundo motivo desta exposição — mais se faz notar. Desdobra-se em variadíssimos aspectos, todos complementares e quanto possível orgânicos, ainda que em evolução contínua, como a sinalética urbana indicando estações, marcos do correio, caixas postais e comércio de selos, mas também certamente a filatelia (com vasta colaboração artística, e todo um mundo de dedicado coleccionismo), os uniformes dos distribuidores a domicílio (os tais ciclistas-boletineiros incluídos, sem esquecer nunca os intrépidos carteiros de posta rural motorizada), as ditas “ambulâncias” de transporte postal rodoviário e ferroviário, as malas do carteiro (em boa pele de carneiro), o actual carrinho de transporte e os grandes sacos de correspondência (em linho, nylon, serapilheira ou cânhamo), a publicidade e propaganda institucional, o fardamento do atendimento a clientes nos postos, etc. etc.

O design também se cruza com os CTT pelo plano de mobiliário criado em 1936-37 e que durou até 1952 — visando apetrechar dezenas de novas estações-tipo em construção —, produzido quase todo nas oficinas gerais da empresa (Carlos Bártolo escreveu sobre o assunto um instrutivo artigo no livro dirigido por João Paulo Martins Mobiliário para Edifícios Públicos: Portugal, 1934-1974, MUDE e Caleidoscópio, 2014).

Recetor Morse

Mas é sobretudo na comunicação institucional — publicidade e propaganda, com serviço próprio também desde 1937 — que intervém a nata dos decoradores portugueses a partir dos anos 1930 em diante, dando-lhe ares de modernismo ou modernidade compatíveis com os progressos trazidos pelas telecomunicações em si mesmas e o papel social dos serviços postais. E os selos ao longo de décadas encomendados a artistas plásticos de diferentes tendências são a expressão quotidiana (e, para mais, aderente…) dum vínculo societário singularíssimo, quase incomparável, que em todo o mundo uma tradição dinamizou e instituiu — e para a qual o mundo digital ainda não criou equivalentes…

A exposição na Casa do Design de Matosinhos (Rua de Alfredo Cunha, 15) está patente até 14 de Julho, de segunda a sexta-feira das 9 às 17h30 (encerra das 12h30 às 14h) e no sábado das 14h às 17h30.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)