Entre frio, chuva, regras sanitárias e todas as críticas que se fizeram à manutenção do congresso comunista em plena pandemia, a reunião magna do partido fez-se mesmo. Desta vez Loures não viu mudar o líder (como aconteceu com Carlos Carvalhas em 1992), mas sim manter-se o que está. Limpou alguns “irritantes” das suas Teses e reforçou uma posição interna de relevo. Houve pouco daquilo que também faz um congresso partidário, no meio de tantas restrições, mas o Observador andou atento aos pequenos detalhes e aos discursos mais insólitos e apresenta-lhe aqui um outro olhar sobre este congresso do PCP. Estes são os prémios “Czar de Ouro” (também há categorias técnicas, atenção).

Prémio Pacto de Varsóvia. Albano Nunes

Desde a queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria que o discurso mais bélico entre blocos ideológicos (pelo menos no confronto Capitalismo Vs Comunismo) caiu em desuso. Mas Albano Nunes, histórico militante que aderiu ao PCP em 1962, ainda na clandestinidade, parece estar saudosista dos tempos da Primavera de Praga. Defensor indefectível da ideologia marxista-leninista, Albano Nunes disse do púlpito do Congresso que o capitalismo tem de ser “derrubado pela força”. A guerra ao imperialismo norte-americano, com balas de papel, foi habitual e recorrente no Congresso, mas no apelo ao uso da força o histórico comunista ficou mais isolado. Albano Nunes, que é membro da Comissão Central de Controlo, um dos órgãos mais importantes do partido, preferiu assim não controlar a agressividade do próprio discurso. Seria um apelo bélico ou uma força de expressão? Afinal, que força é essa, camarada?

Prémio Sibéria. O frio na tenda em Loures

Em termos de organização o PCP foi, como sempre, exímio, mas há algo que os comunistas não conseguiram controlar: a meteorologia. O PCP montou uma tenda gigante à porta do Congresso com o objetivo de proteger os delegados nos momentos de saída e para alguns serviços de apoio. Se as chuvadas foram controladas, o frio foi permanente e incomodativo, transformando as imediações e as várias tendas de trabalho no Pavilhão Paz e Amizade em Loures numa mini-Sibéria.

Prémio Photoshop. Ilda Figueiredo

A ex-eurodeputada Ilda Figueiredo subiu ao palco para falar das relações internacionais do partido e dos “povos que resistem”. Exemplos: Cuba, Venezuela, Síria, Bolívia ou Chile, disse. Nada sobre a Coreia do Norte — perdão, sobre a República Popular Democrática da Coreia –, regime comunista que sempre foi incluído na lista de Estados saudados solidária e elogiosamente nas Teses do partido (o documento que guia a ação comunista nos quatros anos que se seguem ao Congresso). O país liderado por Kim Jong-un evaporou-se do documento estratégico do partido sem uma explicação ou uma despedida. Fica-se, assim, por saber se o sumiço faz parte de alguma operação de maquilhagem do partido que até hoje, contra todas as críticas, sempre resistiu a desvincular-se daquela ditadura.

PCP deixa cair referências à Coreia do Norte

Prémio Carreira: Carlos Carvalhas

Pouco a pouco, os históricos do PCP lá vão calçando as pantufas. Desta vez é o antigo secretário-geral Carlos Carvalhas que passa “à reforma”, mas garante que continuará a dar contributos “sempre que o partido quiser”. Não é uma saída que surpreenda, já que o próprio Carvalhas tinha pedido já há quatro anos para sair, mas os camaradas na altura optaram por segurar mais uns anos o anterior líder no Comité Central. Este ano, ao que parece, houve mais consenso entre comunistas para o deixar ir. Uma carreira de 56 anos no Comité Central, em que 12 coincidiram com o papel de secretário-geral, que chegou ao fim neste Congresso.

Prémio KGB. Quando as câmaras se desligam

É habitual nos congressos do PCP: o momento em que as portas do pavilhão se fecham e os jornalistas ficam de fora. É aí que os delegados discutem a composição e elegem o Comité Central, que depois ainda se reúne nessa mesma noite (de sábado) para eleger os órgãos executivos do partido — desde a comissão política ao secretariado, passando pelo único órgão individual, o secretário-geral. Os resultados da eleição só são anunciados aos delegados — e aos jornalistas — na manhã seguinte. Não só as portas se fecham para a deliberação, como há música que sai das colunas consideravelmente ampliada. Pode ser para acautelar riscos de um camarada mais entusiasmado se fazer ouvir fora de portas, ou apenas para entreter os que ficam na rua com um repertório pouco variado de músicas de intervenção. Os jornalistas — os únicos que ficam do lado de cá — agradecem (ou não) o cuidado.

Prémio Karpov. João Oliveira

Coube ao líder parlamentar montar o tabuleiro de xadrez por onde os comunistas se vão mover nos próximos meses. Em boa verdade, João Oliveira dispôs as peças para jogar para o empate e o PCP continua sem dizer ao que vai: ora é força de “oposição”, ora força empenhado em dialogar com os socialistas. Poderá haver uma altura em que o partido terá de decidir se joga à defesa ou à ataque. João Oliveira, instrumental para o sucesso da ‘geringonça’, até pelas boas relações que tem com vários dirigentes socialistas, será uma voz a ter em conta. Resta saber se terá força suficiente para fazer mover as peças certas.

Prémio Gagarin. João Ferreira

“A candidatura que assumo a Presidente da República, mais do que necessária, é indispensável e insubstituível!”. Calma, camarada João, calma. Nas últimas presidenciais, Edgar Silva teve apenas 3,95%, foi quinto e conseguiu apenas 30 mil votos a mais do que Tino de Rans. Fazer pior será difícil; ser indispensável numa corrida que tem um vencedor antecipado e um duelo a dois evidente — Ana Gomes e André Ventura — é outra coisa. Neste momento, as sondagens dão pouco mais de 4% ao candidato comunista e não é líquido, pelo histórico eleitoral dos comunistas, que venha a inverter o ciclo. É preciso manter os pés bem assentes na Terra para não entrar em, órbita. Em contrapartida, João Ferreira foi escolhido para a comissão política do Comité Central. Internamente, o céu parece ser o limite.

Prémio “Até 2024, camaradas”. Jerónimo de Sousa

“Não estamos aqui a prazo datado, nem em período experimental, mas sim disponíveis para fazer o que temos de fazer”. Esta frase não constava da versão final do discurso entregue à comunicação social e não deixa de ser um sinal relevante para dentro e para fora do partido. Depois de meses e semanas, entre rumores e especulações sobre a saída de Jerónimo de Sousa e/ou sobre a escolha de um secretário-geral adjunto, o líder comunista foi reeleito mais uma vez, ainda que, de forma inédita, com um voto contra.

Prémio Arkady Shevchenko. O secreto voto contra

Um galardão justo para o único dirigente comunista que decidiu votar contra a escolha de Jerónimo de Sousa como secretário-geral, algo absolutamente inédito em 16 anos. Shevchenko, o mais graduado oficial soviético a desertar para o Ocidente, fê-lo depois de se convencer que não era possível mudar o sistema por dentro. O camarada português anónimo (pelo menos para a comunicação social) ainda ousou tentá-lo — e o PCP não costuma lidar bem com tensões e cisões.

Prémio Paz e Amizade. PCP/PS

O nome do pavilhão em Loures dava mote a um congresso “fofinho”, como diria Santos Silva, e na verdade não se pode dizer que tenha sido o contrário disso. Para partido que se reclama de “oposição”, os comunistas foram brandos para o PS, ficando o ataque aos socialistas concentrado sobretudo nas palavras iniciais de Jerónimo de Sousa. Afinal, perante a ofensiva da direita (extremada pelo Chega), os comunistas parecem estar de pedra e cal junto do PS. Sabem que sozinhos não chegam lá, mas que este Governo não se faz sem o PCP. Prémio “Paz e Amizade” para o que sobra da “geringonça”.

Prémio Regresso à Clandestinidade. PCP-Açores

Não foram só rosas. Cátia Benedetti, delegada pelos Açores, subiu ao púlpito para pôr o dedo na ferida aberta na região autónoma, depois das eleições do final de outubro. “Se tivéssemos uma organização mais forte podíamos ter evitado a saída do parlamento”, disse diretamente ao Congresso. Ainda lembrou que um dos objetivos foi cumprido, com a perda da maioria absoluta pelo PS, mas o ganho foi para o Chega. O PCP-Açores passa a uma espécie de clandestinidade na região.

Prémio “Qual é o valor da tua ‘farramenta’?”. PCP de Rio Maior

Augusto Figueiredo, da comissão concelhia de Rio Maior, subiu ao palco entusiasmado. Nas suas notas levava resultados locais que iam ao encontro da “prioridade permanente” comunista de recrutamento e renovação e leu-as galvanizado: “Nestes quatro anos recrutámos 32 novos militantes, camaradas. E até ao fim do ano temos como objetivo recrutar mais dois!” É caso para dizer, à luz da explicação do conceito de cooperativa por um diligente comunista, na famosa cena do filme sobre a Herdade Torre Bela, que essa “farramenta” é de todos e, no fim, “ficas com mais roupa do que a que tens”. E não menos importante: com dois já se faz uma cooperativa.