A primeira vez que Nile Rodgers ouviu a versão original de “Get Lucky”, dos Daft Punk, achou que estava ali uma canção interessante, bem feita, mas que havia alguma coisa que não fazia click. Pediu ao duo para retirar tudo da canção exceto a batida e sentou-se com a sua guitarra a experimentar uma, duas, três, o número de malhas que fosse até chegar àquele ponto que uma antiga estrela do disco-sound tanto ambiciona: o momento em que um ritmo acerta em cheio tanto na anca como na alma.

Quando Rodgers pousou a guitarra deu pelos Daft Punk a sorrir – gostavam tanto da guitarra que a versão final de “Get Lucky” acabou por ser construída ao redor dela. Aliás: gostaram tanto da guitarra de Rodgers que lhe pediram ajuda em só mais uma canção; e depois outra e mais outra, ao ponto de aquelas seis cordas estarem por todo o lado em Random Access Memories, o terceiro disco do duo, que acabou por ser um êxito colossal à escala global muito por culpa daquela guitarra.

[“Get Lucky”, os Daft Punk com Nile Rodgers:]

Nada disto foi exatamente novidade para Nile Rodgers que terá, muito possivelmente, o melhor CV ao cimo da Terra desde que Prince se fartou de nós. Há quarenta anos, a 30 de julho de 1979, os Chic – a banda de Rodgers – lançaram o seu terceiro disco, Risqué, que incluía três singles gigantes (“Good Times”, “My Forbidden Lover” e “My Feet Keep Dancing”) e chegou ao 5º lugar da tabela de discos mais vendidos nos Estados Unidos e a 2º no Reino Unido. Também incluía canções menos faladas mas que eu adoro, como “Will You Cry (when you hear this song)” ou “What About Me”.

Risqué atingiu platina por vendas superiores a um milhão de discos mas não foi caso único: apenas uns dias depois, a 10 de agosto de 1979, Michael Jackson editou o seu quinto disco a solo, Off the Wall, mas que na realidade acaba por ser o primeiro – é o primeiro em que as opções são dele (mesmo com a imensa ajuda de Quincy Jones), é o primeiro em que ele faz música do seu tempo. Off the Wall vendeu mais de 20 milhões de discos e uma boa parte da responsabilidade assenta na primeira faixa, “Don’t Stop ‘Till You Get Enough”, a única declaradamente disco-sound – provavelmente a melhor faixa disco-sound de sempre (e uma das melhores, ponto).

[“Don’t Stop Till You Get Enough”, de Michael Jackson”:]

Agosto de 1979: este terá sido o pico do disco-sound, pelo menos até “Get Lucky”, quando demos por nós a reparar que as guitarras e baixos à Chic estavam de novo por todo o lado. Mas naquela altura, e tão depressa quanto surgira, o disco-sound não só desapareceu como ganhou mau nome: passado uns anos e o disco-sound era o embaraço dos filhos, aquela música pateta que os nossos pais dançavam em jantares que demoravam demasiado, motivo para usarem roupas ridículas e executarem passos de dança anacrónicos.

Para alguém nascido na segunda metade dos anos 70 o disco-sound era a mais baixa forma de vida humana – e, até há bem pouco tempo, era muito raro ouvir alguém que não fosse um melómano a elogiar o disco-sound. Alguém nascido naquela altura e que gostasse de rock’n’roll, se se desse ao trabalho de escavar, ia inevitavelmente ouvir os Sex Pistols, os Stooges, os Velvet – mas nunca o disco-sound, isso era proibido.

Mas eu sempre fui um fã de Prince (o único verdadeiro génio da música pop) e um dia ouvi a versão dos Tuxedomoon de “I Heard it Through the Grapevine” e isso levou-me a Marvin Gaye e a partir daí não houve mais regras: se tem uma linha de baixo voluptuosa e uma batida roliça, eu gosto, é tão simples quanto isso. Da soul fui para o funk e do funk cheguei um dia a isto, via Youtube:

“The Love I Lost”, the Harold Melvin & the Blue Notes, datada de 1973, é possivelmente a primeira canção disco-sound: tem a batida 4-on-the-floor (o ataque ao bombo em todos os tempos de um 4 por 4), o ataque à tarola no 2º e no 4º tempo combinado com o jogo de prato de choques, o baixo funk, as cordas, a grandiloquência.

No momento em que ouvi isto – e isto é uma canção absolutamente extraordinária – rendi-me ao disco-sound, que não é um género fácil de entender, porque no fundo é uma forma de funk mais suave e orquestrado e apropria-se de um sem número de outros géneros. Quando o disco-sound ainda não era disco-sound, numa festa disco-sound passavam-se canções como “Bla, bla diddly” (Giorgio Moroder), “Keep on Truckin’” (Eddie Kendricks), “You keep me hangin’ on” (Supremes), a estupenda “Soul Makossa” (de Manu Dibango) e, claro, “The love I lost”, de Harold Melvin e dos Blue Notes.

Em 1973, quando Earl Young adicionou uma batida sincopada a esta canção de Harold Melvin, Nile Rodgers e Bernard Edwards ainda não haviam criado os Chic – eram músicos de estúdio em Nova Iorque, tecnicamente irrepreensíveis e com demasiado talento para os proverbiais três acordes do rock’n’roll.

O que não quer dizer que não gostassem de rock’n’roll: eram fãs de Roxy Music e de Marc Bolan e admiravam o sentido de espectáculo dos Kiss. Na fundação dos Chic está a exploração desse lado glamouroso, decadente – mas também queriam algo dançável. Os Chic imaginavam os anos 70 como o início do século XX, depois da primeira guerra, em que se combatia o desespero dançando e bebendo e usando as melhores roupas.

A capa de “Risqué”, dos Chic

Talvez a própria história de dificuldades de Rodgers influenciasse esta visão do mundo: quando ele nasceu a mãe tinha apenas 14 anos; tanto a mãe como o pai eram dependentes de heroína e boémios, o que talvez explique que aos 18 anos Rodgers andasse a meter LSD com Timothy Leary e a tocar guitarra com Jimi Hendrix – isto quando não marchava com os Black Panthers. O talento levá-lo-ia a uma procissão de festas e drogas que por pouco não o mataram. A palavra chave de tudo isto é, contudo, talento.

À conta da condição boémia dos seus pais, Rodgers passou a infância a mudar de escola; de modo que quando chegava a uma nova escola nas aulas de música davam-lhe os instrumentos que sobravam. Tirar vantagem das dificuldades é uma das características dos génios – e essa experiência de tocar o que ninguém queria permitiu a Rodgers conhecer um sem número de instrumentos, ao invés de se especializar na guitarra (que era, e continuou a ser, o seu instrumento principal).

Uma das características do disco-sound é a ubiquidade de uma cortina de violinos, a subir para chegar ao êxtase, a descer, criando tensão; quando Rodgers finalmente conseguiu convencer uma editora a pôr-lhe dinheiro nas mãos ele e Bernard Edwards – o seu baixista e metade do cérebro dos Chic – escreveram todas as notas de todos os arranjos de todas as canções da banda.

[“My Feet Keep Dancing”, dos Chic:]

O talento de Rodgers e Edwards como produtores e arranjadores era de tal ordem que em 1978 os Rolling Stones requisitaram os seus serviços (para as sessões que viriam a parir “Miss You”, a espantosa aventura dos Stones pelo reino do disco-sound); mas Rodgers e Edwards rejeitaram e preferiram trabalhar as Sister Sledge. O disco que daí nasceu – em janeiro de 1979, como que a confirmar que este foi o grande ano do disco – é, talvez, superior a Risqué e a Off the Wall. Sim, eu sei que isto parece polémico – mas não é.

“He’s the Greatest Dancer”, a faixa de abertura de We Are Family, das Sister Sledge, tem 6 minutos e 15 segundos mas bastam os primeiros compassos para ficarmos rendidos àquela espantosa guitarra funky e à linha de baixo; quando as vozes chegam – já depois das teclas e das cordas – o corpo já decidiu a favor do disco-sound, ilibando-o de todos os crimes que o género cometeu (e cometeu muitos).

Talvez não haja faixa que melhor sintetize a ideologia de Nile Rodgers que “Lost in music”, o segundo tema de We Are Family, das Sister Sledge: “We’re lost in music / feel so alive / I quit my 9 to 5”, cantam elas, por cima de uma guitarra espantosa e de uma vaga de violinos. Tirem 4 minutos e meio para apreciar este portento em que a música é vista como a salvação, a sanidade:

Risqué era um pouco mais arriscado – e é pena que até hoje ainda não seja visto como é: um disco sobre amores falhados, desejo não correspondido, a dificuldade que criamos uns aos outros nos nossos relacionamentos diários. Está repleto de cordas em staccato que lembram Bernard Herrmann e de sombras. Por trás da seda de “A Warm Summer Night” canta-se “Could You Love me Tonight?”; em “Will You Cry (when you hear this song)” as primeiras palavras que se cantam são “Love is Pain”. Apesar da sedução, há um negrume que por norma não associamos ao disco-sound.

Mas o disco-sound sempre teve esse lado de ser outra coisa – foi a banda-sonora das raparigas que gostavam de raparigas, dos rapazes que gostavam de rapazes, a banda-sonora de quem saía à noite e descobria que à noite podia ser o que bem quisesse, amar quem quisesse, vestir-se como quisesse. Convém não esquecer: as roupas garridas, a experimentação sexual escondiam a dor de não se poder mostrar, no dia a dia, a opção sexual (e detesto escrever opção). E o disco-sound sabia isto – e rapidamente se moldou a ser a banda-sonora da libertação.

As Sister Sledge eram menos negras que os Chic e podiam dar-se ao luxo de cantar “Halston, Gucci, Fiorucci” em “He’s the Greatest Dancer”; mas “Don’t Stop Till You Get Enough”, de Michael Jackson, era toda luz, ritmo, felicidade absoluta e uma espécie de voracidade enunciada no título e que resume o espírito do género.

É a grande canção disco-sound, embora a competição seja feroz, e para falar em competição basta pensar em “I Feel Love”, de Donna Summer – autora de um dos melhores discos “disco”, Bad Girls. O disco-sound é tão amplo e tão confuso que se torna difícil fazer uma lista de melhores discos (mais ainda tendo em conta a quantidade absurda de grandes canções que foram editadas em discos menores), mas vamos lá tentar:

  • Donna Summmer, Bad Girls, 1979
  • Chic, Risqué, 1979
  • Michael Jackson, Off the Wall, 1979
  • Sister Sledge, We Are Family, 1979
  • Giorgio Moroder, From Here To Eternity, 1977
  • Gloria Gaynor, Never Say Goodbye, 1975,
  • Candi Staton, Young Hearts Run Free, 1976
  • Diana Ross, Diana, 1980,
  • Sylvester, Step II, 1979,
  • v/a, Philadelphia Classics, 1977.

Vale a pena perder um segundo com este último: trata-se de uma compilação das remisturas – hoje consideradas clássicas – que Tom Moulton fez para faixas de artistas da Philadelphia International Records: os O’Jays, Harold Melvin & The Bluenotes, as Three Degrees, o enorme Lou Rawls. Isto é o mais próximo que temos hoje em dia de saber o que se passava numa pista de dança naquela época – e é soberbo.

Mas em breve nada disto se ouviria mais – em breve a pop tal como ainda hoje a conhecemos tomaria conta do FM: começava a era das super-estrelas, Elton John, Michael Jackson, Prince, Madonna.

Não por acaso a ascensão de Maddona também tem o dedo de Nile Rodgers: é ele que produz Like a Virgin. Desde então, a lista de produções e composições em colaboração de Rodgers tornou-se verdadeiramente impressionante e inclui álbuns como Let’s Dance, de David Bowie (cuja faixa homónima Rodgers compôs) ou temas como “Upside Down” e “I’m Coming Out”, de Diana Ross; também produziu Cosmic Thing, dos B-52’s, Notorious, dos Duran Duran e Home of the Brave, de Laurie Anderson.

A lista é muito maior que isto mas na realidade pouco importa – porque o disco-sound (e, mais propriamente, a música de Nile Rodgers) renasceu no exato instante em que começou a definhar: escassas semanas após a saída de Risqué os Sugarhill Gang editaram “Rapper’s Delight”, que samplava a linha de baixo de “Good Times” – ainda hoje é uma das faixas de hip-hop mais conhecidas de sempre.

[“Good Times”, dos Chic:]

Não foi a única vez que aquela linha de baixo foi samplada: Grandmaster Flash usou-a em “The Adventures of Grandmaster Flash”, Will Smith em “It’s All Good”, Gabriel O Pensador em “2345Meia78”, entre outros. Por sua vez, “Triple Trouble”, dos Beastie Boys, sampla “Rapper’s Delight”; e a linha de baixo de “Another One Bites The Dust”, dos Queen, é uma imitação chapada da linha de baixo de “Good Times”.

A lista de todas as canções que usam samples dos Chic, das Sister Sledge, enfim, das canções produzidas ou compostas por Rodgers seria exaustiva – o ponto é este: no exato instante em que o disco-sound implodiu aquela combinação de guitarra picada e baixo sincopado permeou a cultura do hip-hop e começou a espalhar-se pela pop.

O som de Nile Rodgers estava no french touch, num sample de “Lady”, dos Modjo, estava nos Basement Jaxx, e estava num milhão de bandas que de uma forma ou de outra pilharam a estrutura rítmica ou os arranjos ou a ideia de canção dos Chic: estava nos Hercules and Love Affair, em Todd Terje, em Lindstrøm, nos Rapture, nos LCD Soundsystem, até mesmo nos Arcade Fire – e, claro, nos Daft Punk.

Quarenta anos depois daquele verão inacreditável, o disco-sound já não é uma anedota – é a base na qual assenta uma boa parte da música que nascia do R’n’B. Passámos 40 anos a tratar como génio um homem que fez um único grande disco (Off the Wall) e negligenciámos um génio que moldou a nossa forma de ouvir música.

Está mais que na altura de reconhecer o génio de Nile Rodgers.