i

© D.R.

© D.R.

20 anos depois, ainda não esquecemos Jeff Buckley

Poucos artistas conseguem gravar o seu nome na história com apenas um disco lançado. 20 anos após a sua morte inesperada, porque é que ainda queremos ouvir a voz de Jeff Buckley?

Já se tinham passado quase três anos desde que Jeff Buckley lançara o seu disco de estreia, Grace. Mesmo com o selo da Columbia, as vendas não tinham sido as desejadas, sobretudo nos Estados Unidos. Mas a editora sabia que tinha um diamante entre mãos. Jeff Buckley tinha tudo: a paixão, uma cara bonita e, principalmente, uma voz elástica capaz de dar vida a vários estilos, do rock ao gospel, de baladas sentidas a incursões operáticas. Desde fevereiro de 1997 que o músico da Califórnia estava em Memphis, com a missão de compor as canções do seu próximo disco. Naquela noite de 29 de maio, deveria ter ido receber a banda com quem ia fazer os ensaios, mas perdeu-se na cidade labiríntica, onde se fizeram estrelas Elvis Presley, Aretha Franklin, Otis Redding e tantos outros. Frustrado, sugeriu ao músico Keith Foti um mergulho noturno, antes de voltarem à estrada que os levaria ao estúdio. Pararam junto à marina de Memphis e Buckley entrou vestido no Wolf River. As águas pareciam calmas. Pareciam, e por serem um engano a autarquia local tinha proibido os banhos, apesar de não haver nenhum sinal de proibição à vista. Foti tocava uma das suas composições, Buckley cantava “Whole Lotta Love” dos ídolos Led Zeppelin e cada vez se afastava mais. Os dois nunca chegaram a ir até ao local de ensaios receber a banda com quem iam gravar o disco. O disco nunca mais saiu. A voz de Buckley calou-se para sempre.

Não há muitos cantores ou bandas que tenham conseguido gravar o nome na história com apenas um álbum lançado. Os Sex Pistols conseguiram. Os Mother Love Bone também, por razões semelhantes — precursores de um movimento musical, embora no caso dos Mother Love Bone a morte de Andrew Wood e a posterior formação dos Pearl Jam ajude ao reconhecimento. Quando lançou The Miseducation of Lauryn Hill, Lauryn Hill já era um rosto conhecido do cinema — nomeadamente com o filme “Do Cabaret para o Convento” — e da música — nos The Fugees. À luz dos factos, Jeff Buckley era apenas um rapaz de 30 anos com um disco lançado há já três anos que não conseguiu melhor na estreia do que um 149.º lugar na tabela americana da Billboard.

© D.R.

Porque é que, 20 anos depois, ainda recordamos Jeff Buckley? Porque é que as gerações seguintes continuaram a descobri-lo, a idolatrá-lo e a comprar os discos que foram saindo com canções não terminadas, gravações ao vivo e versões de outros músicos? Sketches For My Sweetheart The Drunk, lançado um ano após a sua morte, conseguiu o lugar 64 da tabela da Billboard. O mais recente, You & I, lançado no ano passado com dois originais e oito versões que gravou em estúdio, em 1993, quando assinou pela Columbia Records, conseguiu o 58.º lugar da tabela da Billboard. Quase 20 anos após a sua morte, é com um disco maioritariamente feito de versões de outras bandas que Buckley alcança o seu melhor lugar de sempre.

O mito parece ter crescido. Será pela forma como morreu? Não há qualquer indício de que o afogamento tivesse sido voluntário. Por ser o namorado de sonho de qualquer adolescente? Todos os meses parece surgir mais um rapaz de voz doce e cara bonita nos inúmeros concursos de talentos que se inventam por todo o lado. Será pela herança que carrega? Tim Buckley, o pai ausente que morreu aos 28 anos de uma overdose de heroína, ainda hoje é admirado pelo percurso variado — do folk ao psicadelismo, passando pelo free jazz. Mas nos anos 60 e 70, quando estava no ativo, nunca conheceu o sucesso. Hoje, é mais fácil ser descoberto por fãs de Jeff Buckley do que o contrário.

[Versão ao vivo de “I know it’s over”, dos The Smiths. Destaque para o que se segue a partir dos 4:40]

Versão ao vivo de "I know it's over", dos The Smiths. Destaque para o que se segue a partir dos 4:40

Na dúvida sobre porque é que ainda vale a pena lembrar Buckley filho, o melhor é colocar Grace no gira-discos, na aparelhagem ou na plataforma de streaming mais próxima. Parar tudo o que se está a fazer e escutá-lo com atenção. Pode parecer um esforço hercúleo na era das distrações múltiplas e das solicitações infindáveis. Mas “Mojo Pin” rouba-nos logo a atenção, com o dedilhar da guitarra, a voz em crescendo, o sussurrar seguinte.

I’m lying in my bed
The blanket is warm
This body will never be safe from harm

Batem os primeiros 100 segundos do disco e já somos apresentados ao falsetto. Aquele falsetto que deu confiança a Thom Yorke dos Radiohead para arriscar fazer o mesmo. Será real? Será truque de estúdio? A boa notícia é que o que Jeff Buckley gostava mesmo de fazer era de cantar ao vivo. Ainda não havia YouTube nessa altura, mas havia cafés, pequenas salas de espetáculo, programas de rádio. Não faltam provas de que o mérito era dele e não da tecnologia do estúdio.

E é com uma interpretação ao vivo da segunda canção do disco, “Grace”, que Jeff Buckley consegue abrir o seu caminho numa Inglaterra que o olhava com desconfiança. Numa pequena entrevista à Greater London Radio, momentos antes de começar a primeira digressão no Reino Unido, chateado por ter ouvido antes demasiadas referências ao seu pai, agarrou na guitarra e provou que não precisava de viver na sombra de ninguém. Emma Banks, a promotora de espetáculos que até àquele momento se estava a ver aflita para conseguir vender bilhetes, recordou à BBC que, depois daquela atuação, a procura de bilhetes aumentou tanto que foi preciso arranjar uma sala maior.

Mas voltemos ao disco. “Last Goodbye” é uma canção bastante literal que nos recorda o primeiro amor que não correu bem, o tempo em que eramos adolescentes e chorávamos baixinho na almofada. Ouvir “Last Goodbye” na adolescência era tiro e queda. Depois de “Mojo Pin” e “Grace” estávamos agarrados. Mas ainda faltavam sete faixas e tudo podia mudar.

“Lilac Wine” quer o adulto que há em nós. Não é original — foi escrita em 1950 por James Shelton e cantada por diferentes vozes, entre as quais Nina Simone. Mas era a primeira amostra de como este norte-americano de 27 anos não tinha medo de se atirar a colossos. E que não se limitava a imitar. Sabia como tornar suas as canções de outros.

Os primeiros acordes de guitarra de “So Real” tiram-nos do transe introspetivo. Menos sensível, mais raivosa, a guitarra elétrica a crescer na intensidade, até que, aos 2:40 se faz silêncio. E aquela voz sussura:

I love you. But I’m afraid to love you.

Por esta altura, metade das adolescentes e alguns rapazes já estavam prontos para entregar o seu coração a este americano de pele branca e alma negra. Mas calma, que a seguir vem “Hallelujah”, portentosa versão do mestre Leonard Cohen, a segunda e derradeira prova do disco em como Buckley era um músico singular, e que essa singularidade não se desvanece só porque o corpo vivo já não existe. Há quem prefira a sua versão à de Cohen. A voz límpida, a honestidade com que a canta, a carga dramática que lhe dá levaram a que, nos dias que se seguiram ao atentado às Torres Gémeas, em 2001, a versão de “Hallelujah” de Buckley fosse um dos temas mais repetidos pelas televisões americanas. E séries como “West Wing” ou “The O.C.” também a usaram em momentos dramáticos.

O disco continua com “Lover, You Should’ve Come Over” e damo-nos conta da sequência inacreditável de canções. Não se desperdiça nem uma, não se muda um acorde, uma palavra. Too young to hold on / And too old to just break free and run. Analisando cruamente, “Lover, You Should’ve Come Over” está a um passo de resvalar para mais uma daquelas lamechices banais, mas a história narrada por uma voz assim desarma-nos. Dos graves iniciais aos agudos finais, é um dos melhores exemplos da extensão vocal de Jeff Buckley.

Acabasse Grace apenas com estas sete canções e já teríamos todos os motivos para idolatrar este americano desconhecido. De lembrá-lo pelo que fez, e colocá-lo no pedestal onde ficam as melhores vozes que já escutámos. Na lista dos 100 melhores cantores de todos os tempos, feita pela revista Rolling Stone em 2010, ei-lo no 39.º lugar, à frente de Chuck Berry, B.B. King, Tom Waits, Bjork, Jim Morrison, Thom Yorke. Ficou 52 lugares à frente de Morrissey, dos The Smiths, de quem cantou “I Know It’s Over” de forma sublime. Essa foi editada num dos vários discos póstumos — outros virão.

Ah, sim, Grace. A canção número oito é uma aproximação ao clássico. “Corpus Christi Carol” é a prova de que Buckley aguenta os agudos e o falsetto prolongadamente, não toca apenas e foge. Aqui, exposta sobre uma melodia ténue de guitarra a querer fazer de harpa, em todo o seu esplendor, parece feita de cristal. Se dúvidas houvesse, é pelo seu extraordinário instrumento vocal que ainda hoje recordamos Buckley. Que nos questionamos até onde poderia ter chegado, o quanto poderia ter feito, o tanto que nos poderia ter dado. Que caminho seguiria? A via sacra desta Corpus Christi Carol? O rock anos 90 de “Eternal Life”? A exigência sombria de “Dream Brother”, cereja no topo de um bolo que nunca tínhamos provado mas que sabemos que vamos querer comer mais vezes no futuro?

Nina Simone, Édith Piaf, Robert Plant, A cada comparação, um nome diferente, um estilo diferente. Jeff Buckley era, ao mesmo tempo, um camaleão e um talento único, identificável qualquer que fosse o género que estivesse a cantar. Era dono de uma voz que nos toca nas entranhas, que se perpetua na memória. A morte propícia a histórias, o passado do pai carregado no nome, a imagem apelativa aos olhos e ao coração, tudo isso combinado pode ajudar a que, 20 anos depois de se ter afogado nas águas do Mississippi, ainda queiramos escutar Buckley, recordar Buckley, imaginar como estaria hoje.

Thom Yorke, Adele e Rufus Wainwright citam-no como influência. “Lembro-me de estar deitada na cama com os auscultadores a ouvir Grace toda a noite, uma vez e outra vez e outra vez. Parecia combinar a paixão e a intensidade da música clássica com uma aspereza e um limite que eu achava incrivelmente viciante”, recordou Anna Calvi.

Jeff Buckley faz lembrar a tempos Chris Cornell, de quem ainda agora nos despedimos. Apesar das muitas diferenças — Buckley de ar certinho, Cornell inserido numa cena musical mais negra — ambos tinham uma aura especial e uma extensão vocal de deixar o comum dos mortais e suas míseras duas oitavas de voz (com sorte) de boca aberta. Os dois souberam mostrar a sua fragilidade, cada um à sua maneira. Os dois tiveram um fim trágico, com 20 anos de diferença quase exatos. A nenhum queríamos dar um Last Goodbye.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.