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Órgão máximo, tolerância máxima. Cinco congressos dos cinco maiores partidos em apenas um ano e só uma mudança de líder: no CDS, e por iniciativa própria. Num ano sem eleições, todos os partidos viveram uma realidade diferente dos últimos anos: o PS era oposição, passou a Governo; o PSD e o CDS eram Governo e passaram a oposição; e o PCP e o BE, que sempre foram oposição, deixaram de o ser, sem passar a ser Governo.

Se ao princípio as bases estranharam, rapidamente assimilaram. Os quatro líderes que se mantiveram no cargo tiveram congressos tranquilos e saíram reforçados. Até Passos Coelho, que enfrentava a situação mais difícil, conseguiu ultrapassar o congresso com apenas um (sim, um) crítico declarado (até Costa, no Governo, teve em Assis um crítico mais forte).

O Bloco — que a direita chegou a prever que entraria em guerra civil de correntes internas por apoiar o Governo — reforçou a liderança, que deixou de ser de duas ou seis cabeças: Catarina saiu líder incontestada. O PCP adiou a sucessão e Jerónimo de Sousa saiu fortalecido de um congresso sem críticas, nem movimentos internos. Os militantes dos maiores partidos mostraram que não só toleram as mudanças que se verificaram no partido, como as apoiam de forma declarada.

PS. Primeiro teste partidário à “geringonça”

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Momento político

O PS de António Costa reuniu-se em Lisboa, no início de junho deste ano, num Congresso que foi o primeiro desde que os socialistas voltaram ao Governo e apoiados pelos partidos à sua esquerda na Assembleia da República. Tinham passado seis meses da existência dessa solução negociada por António Costa e a reunião foi aproveitada para alinhar o discurso face ao novo panorama político e numa altura em que o Governo socialista enfrentava na rua uma das suas primeiras contestações: as escolas com contratos de associação que protestavam contra a redução do financiamento a novas turmas.

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O momento estava de tal forma quente que, no último dia da reunião socialista, surgiu uma manifestação à porta do Congresso, com cartazes, gritos e declarações à imprensa, com ataques centrados no ministro da Educação. Os socialistas ainda ripostaram, perante a manifestação, mas a reação principal seria a de António Costa, diretamente do palco do Congresso, momentos depois: “Temos um ministro que tem a coragem de enfrentar os lobbies”.

E havia outra pressão sobre o Governo — e mais forte — vinda de Bruxelas, onde se estava prestes a decidir sobre a aplicação ou não de sanções a Portugal por ter violado o Pacto de Estabilidade em 2015, com um défice acima dos 3%. Costa também lhe dedicou tempo do seu discurso final, para desafiar as restantes forças políticas a aprovarem “por unanimidade uma resolução contra a aplicação de sanções a Portugal”. Como é que acabou? Dias depois, no Parlamento, depois de falhado um texto conjunto sobre o caso, acabaram por ser aprovadas duas resoluções contra as sanções, com a esquerda a recusar-se a assinar por baixo do texto do PSD onde estava escrito que o Governo anterior tudo tinha feito para cumprir o défice de 3%. O PS aprovou ambos os textos, mas as restantes forças dividiram-se. As sanções acabaram por não ser aplicada.

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Francisco Assis foi ao Congresso dizer o que pensava. Ouviu apupos

Críticos internos

Aguardavam-se dois discursos (que estavam, aliás, prometidos) de Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto. Dois confessos opositores da atual solução governativa que queriam tempo para falar no Congresso e a horas apropriadas — e não com intervenções remetidas para horas tardias, coisa que no Congresso anterior tinha deixado Assis irritado ao ponto de abandonar os trabalhos em protesto e sem falar. Perante esta sombra, a organização preparou um sistema de senhas para quem queria falar ao Congresso, a ordem de inscrição seria o único critério para definir o momento da intervenção. Mas a única das duas vozes críticas que acabou por se ouvir foi a de Francisco Assis que verbalizou perante os congressistas o que já se sabia que pensava: “Tenho uma opinião muito crítica em relação à forma como o partido tem vindo a ser conduzido”.

A frase custou-lhe a vaia do Congresso. Alguns dos socialistas que estavam na sala não contiveram os assobios à única voz socialista que, por aqueles dias, se ouviu dizer que o partido “diverge em quase tudo o que é essencial do Bloco de Esquerda e do PCP” e que o Governo tem uma “situação de liberdade muito condicionada e permanentemente vigiado” por aqueles que “pensam e agem de forma radicalmente diferente” do PS.

Foi uma espécie de crítico útil num Congresso em que Sérgio Sousa Pinto acabou por não falar — e até aceitar um cargo na Comissão Nacional do partido, eleito pela lista de Costa, com quem rompera por causa da “geringonça” — e em que Álvaro Beleza, uma das caras do segurismo, se limitou a dizer que mantinha as reservas face à solução de Governo. O único opositor formal (com candidatura à liderança e lista alternativa) foi um quase anónimo, Daniel Adrião, que não fez história neste Congresso.

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Discurso do líder

No encerramento do Congresso, António Costa dedicou-se sobretudo a responder ao temas mais quentes da atualidade (sanções e colégios) mas também deixou um apelo aos socialistas: “Sejam otimistas”.

Dias antes, o Presidente da República tinha classificado Costa como “irritantemente otimista”, quando falava da economia. E a resposta do primeiro-ministro aí estava: “É verdade, sou otimista. E tem-me feito bem à saúde ser otimista. Nada vos vai correr pior por serem otimistas”.

E com isto Costa queria empenho para “vencer a descrença” que acreditava poder acontecer se o país “tiver a capacidade de se manter firme no médio e longo prazo, se for capaz de manter a estabilidade política para executar um programa de recuperação económica, de diálogo político e económico e de se bater na Europa, sem bravata, pelo que são os interesses nacionais”.

Este último ponto, era também ele um aviso: os compromissos com a União Europeia não são para rasgar. Era e continua a ser um dos pontos de atrito com os parceiros da esquerda, que foi estrategicamente colocado fora dos acordos da esquerda, e o PS aqui mantém a compustura face às instituições e compromissos europeus: “Por vezes é difícil ser socialista no quadro da União Europeia. Mas fora do quadro da União Europeia é impossível ser socialista”.

Como saiu o partido do Congresso

António Costa saiu com a liderança confirmada, seis meses depois do passo arriscado de se apoiar na esquerda para governar o país. A quase totalidade do PS que quis falar no Congresso apoiou a solução arquitetada por António Costa — Assis foi a única voz de peso dissonante –, o que não quer dizer que não existam discordâncias. Mas a verdade é que essas ficaram fora dos principais órgãos de direção do partido, onde Costa acabou por incluir um dos mais sonantes, Sérgio Sousa Pinto, mas mais nenhuma voz verdadeiramente crítica teve lugar.

Depois definiu ainda algumas linhas gerais relativamente ao combate eleitoral que se segue: as autárquicas de 2017. Sobretudo com avisos para a posição que o partido deve ter face a algumas candidaturas independentes, com a de Rui Moreira que, apesar de não ter referido na altura, vai apoiar. “Gosto muito do emblema da mãozinha, mas acho que o maior disparate que podíamos fazer era em nome do emblema da mãozinha sacrificar a qualidade da gestão de uma cidade que é fundamental para o país”. Quanto à possibilidade de estender a este plano os compromissos de esquerda a nível nacional, Costa também deixou claro que não ao dizer que cada força deve “fazer por si o melhor que puder e souber”.

PSD. No Congresso tranquilo, nenhum Cristo desceu à Terra

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Momento político

Não havia rodagens de Citroën previstas para o Congresso do PSD, com data para abril, em Espinho. Até porque os estatutos já não o permitem. O presidente do PSD tinha sido reeleito — como todos os líderes dos partidos portugueses que vão a votos sozinhos — com uma percentagem quase unânime: 95% dos votos. Passos sucedia, tranquilamente, a Passos. Isso não significava que não houvesse críticos internos a posicionarem-se no congresso de Espinho (que se realizou nos primeiros três dias de abril). O clima era perfeito para que os críticos aparecessem: o partido deixara de ser governo, a “geringonça” já tinha aprovado um Orçamento (e prometia fazê-lo mais vezes) e o CDS abandonava, pelo próprio pé, o ninho da PàF.

Alguns saíram logo de cena. O eterno candidato a candidato Rui Rio — que deu uma entrevista à TSF a dizer que não ia ao Congresso para não se tornar um dos protagonistas. Menos um, suspiraram os apoiantes de Passos. Na mesma semana, o líder do PSD ainda veria Nuno Morais Sarmento a confessar que não iria ao Congresso. Menos dois, portanto. Sobravam potenciais críticos como José Eduardo Martins e Pedro Duarte, mas não só são pouco conhecidos como não tinham tropas, nem forma de criar mossa (a não ser com os discursos) na reunião magna dos sociais-democratas. Do Congresso previa-se que tivesse tão pouca história, que, antes de começar. falava-se mais sobre quem não iria do que sobre quem iria.

Críticos internos

Mesmo com tudo controlado, havia a expectativa de que os críticos saíssem da toca. Não aconteceu. No seu discurso, Pedro Duarte criticou apenas António Costa e disse que era lembrar o PSD de Sá Carneiro, num discurso de matriz ideológica (e até programática) que não ensaiou sequer uma afronta a Passos. Pedro Duarte daria apenas o ar da sua graça quando Passos escolheu Maria Luís Albuquerque para vice-presidente. “Não seria a minha escolha”, admitiu Pedro Duarte, num congresso em que (quase) ninguém saía da linha. Quanto a José Eduardo Martins, andou meses a encher o balão de que iria criticar a política de Passos no Congresso e não desiludiu: foi o mais crítico do líder. Exigiu que o partido iniciasse uma nova fase de “política com inteligência e coerência” e a lógica de “votar contra tudo”.

Nem o slogan da moção de estratégia global, “Social-Democracia Sempre”, escapou: “Isso não se faz com slogans nem quando se está na oposição, isso faz-se no governo, aí é que é preciso ser social-democrata”. Fez ainda críticas à “forma fria” como o Governo de Passos cortou pensões e colocou a classe média numa “situação asfixiante” com um “brutal aumento de impostos”.

Ao maior crítico faltou-lhe as tropas. E acabou até por ser menos corrosivo do que em entrevistas a jornais. A Passos só lhe correu mal mesmo a escolha da comissão política permanente (em particular a de Maria Luís Albuquerque), tendo a pior votação desde que é líder (79,8%). Ainda assim, conteve os críticos com sucesso.

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José Eduardo Martins pediu que o partido recuperasse a matriz social-democrata. Com a sucessão de Passos adiada, resta saber o que fará no futuro

Discurso do líder

A mensagem de Passos Coelho no Congresso foi clara: aceitar de vez o resultado das eleições e desafiar o PS para se afastar da “extrema-esquerda” e fazer reformas ao centro. Passos Coelho abriu o congresso a admitir que a geringonça era uma “maioria positiva”, “consistente” e com “identidade”. Disse, porém, que o PSD “não tem pressa” para ser governo.

O líder do PSD acenou, no entanto, com o fantasma de um novo resgate. Após arrasar a estratégia económica do governo — lembrando os alertas da “única agência de rating que qualifica a dívida portuguesa” — o líder do PSD alertou na altura que se canadiana DBRS deixasse de o fazer, poderá ser inevitável uma “assistência externa”. Passos desafiou ainda o PS para duas reformas: Segurança Social e sistema eleitoral.

Como saiu o partido do Congresso

Passos Coelho e o PSD não saíram nem mais nem menos reforçados do Congresso do PSD. Se a balança pesasse para um lado, até seria o de o líder ter saído reforçado, pois conseguiu não ter críticos à altura, nem vozes discordantes de peso. Os maiores críticos não apareceram, os candidatos à sucessão que estiveram presentes não se impuseram e houve uma consagração do líder similar à de congressos anteriores.

Quanto ao efeito no partido, as sondagens saíram inalteradas, o aparelho foi controlado no sentido de apoiar o líder (tinha quase todas as distritais), num congresso ao jeito de Passos: sem grandes exuberâncias, sem grandes surpresas. Enfim, sem história.

Passos era líder da oposição, continuou a sê-lo. Passou, sim, a intensificar a agenda e, no Parlamento, o partido seguiu uma postura mais construtiva, que culminou no apresentar de propostas de alteração seis meses depois no Orçamento do Estado para 2017.

O PSD saiu, aparentemente, unido do Congresso. Até nos sinais mais ténues Passos levou a melhor: as listas que apoiou (ao Conselho Fiscal e ao Conselho Nacional) acabaram por ter bons resultados. Os não-alinhados tiveram pouca expressão.

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O partido ficou unido, com Passos a mostrar uma capacidade de contrariar a tal “balcanização do PSD” dos tempos de Mendes, Meneses e Ferreira Leite. Tem conseguido esvaziar as oposições internas. Ficou também claro, que é uma união de porcelana: se as coisas correrem mal, também depressa se formam fações em busca de um sucessor ( a “guerra fria” Relvas/Marco António continua a sentir-se nas estruturas distritais e locais).

O ex-líder do PSD, Marques Mendes, até acredita que esta união dependa das sondagens. “Se disserem que Passos é quem tem melhores condições para enfrentar António Costa, os militantes escolhem Passos; se disserem que é Rio, os militantes escolhem Rio. Os militantes do PSD são muito pragmáticos”, disse Marques Mendes.

A grande prova de fogo de Passos Coelho vão ser as autárquicas. O líder do PSD elevou a fasquia no Congresso: quer conquistar mais autarquias que o PS e recuperar a liderança da Associação Nacional de Municípios. Neste momento não se afigura fácil cumprir o objetivo. O PS leva a dianteira e o PSD ainda não tem candidato nas duas autarquias mais importantes do país: Lisboa e Porto. A derrota de Passos nas autárquicas seria a machadada final na liderança. Há Congresso em março do ano seguinte, que pode ser antecipado. Até lá tem a vantagem de ninguém querer ser queimado em “lume brando” como líder da oposição. Mas Rui Rio e companhia já começam agora a pôr as garras de fora. Para o pós-autárquicas. Isso é mais evidente agora do que era a 3 de abril quando o Congresso acabou. Significa que os seus opositores internos vêem o seu fim mais perto agora.

Bloco de Esquerda. O congresso da reunificação

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Momento político

25 de junho de 2016. O pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, enchera-se para ouvir a coordenadora do Bloco de Esquerda e Catarina Martins não fez as coisas por menos: trazia no bolso os primeiros seis meses de uma solução política que, pela primeira vez na história da democracia, tinha a marca de água inegável do Bloco de Esquerda.

Catarina Martins estava ali para fazer prova de vida. Chamou para si e para o Bloco os ganhos de causa obtidos junto do Governo de António Costa e ainda anunciou várias medidas. O Bloco entrara com estrondo no chamado arco da governação. “Há momentos em que é necessário a coragem para começar de novo porque algo tem de ser feito, este é um desses momentos. Cumprimos a nossa palavra, e isto é só o início”, assegurou a dirigente bloquista.

Um início de ciclo que poucos julgavam ser possível a meses das eleições legislativas de 4 de outubro de 2015. Na última Convenção do partido, o Bloco estava a fragmentar-se e enfrentava uma luta fratricida pelo poder: Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do partido, desafiara Catarina Martins e João Semedo. O duelo acabou num impasse. A coordenação bicéfala, um erro estratégico como assumiriam mais tarde, deu lugar a uma comissão permanente de seis, que integrava as várias sensibilidades do partido. Era o desastre anunciado: se a dois não tinha resultado, a seis seria ainda mais difícil.

Se no plano interno os desafios eram enormes, no plano externo o cenário era preocupante. À esquerda do PS tinha nascido uma coligação que juntava vários dissidentes do Bloco de Esquerda e que se propunha a ser tudo o que os bloquistas não tinham sido desde a formação: um parceiro dialogante dos socialistas, parte da solução e não do problema. O Livre/Tempo de Avançar de Rui Tavares e Ana Drago prometia ocupar uma parte importante do espaço político do Bloco, acusado pelos críticos e dissidentes de ser um partido acantonado à oposição. Os resultados eleitorais, no entanto, contrariaram as expectativas geradas: o Livre ficou fora da Assembleia da República; o Bloco de Esquerda teve um resultado histórico.

Catarina Martins soube interpretar os sinais. Durante a corrida eleitoral, no frente-a-frente com António Costa, a coordenadora bloquista teve um gesto determinante para o desenrolar de tudo o que viria a acontecer nos meses seguintes: disse de forma inequívoca e clara que o Bloco de Esquerda estava disposto a viabilizar um Governo minoritário do PS mediante algumas condições. Caía a primeira pedra do muro. A assinatura das posições conjuntas, a queda do Governo de Pedro Passos Coelho, a aprovação do primeiro Orçamento do Estado da “geringonça” nos meses seguintes fariam de Catarina Martins uma líder com legitimidade reforçada. E do Bloco de Esquerda um partido essencial no novo quadro político.

X Convenção Nacional do Bloco de Esquerda

Em 2014, Pedro Filipe Soares desafiou Catarina Martins e João Semedo. Dois anos depois era o símbolo da união do partido

Críticos internos

Dois anos depois do confronto aberto entre Catarina Martins/João Semedo e Pedro Filipe Soares, na X Convenção do Bloco de Esquerda as duas principais placas tectónicas do partido moveram-se em sintonia e em torno do mesmo projeto político. As críticas, as poucas que existiram, foram sopradas por um minoria de militantes, sem expressão política significativa.

É certo que houve quem falasse em “falta de coragem” de um partido que decidiu escolher a “via mais fácil”, aliando-se a um Governo subserviente a Bruxelas. Os (poucos) críticos de Catarina Martins acusaram a direção do partido de ter conduzido “uma convenção-comício”, onde não se discutiu o Orçamento do Estado para 2016, o plano para as autárquicas, um referendo interno a uma eventual rutura do acordo com o PS, como pretenderia o Bloco de Esquerda conquistar a maioria ou desobedecer à Europa.

Desta vez, no entanto, as críticas fizeram pouca ou nenhuma mossa. Ainda que alguns destacados bloquistas, como Luís Fazenda, por exemplo, não tenham escondido o ceticismo em relação ao futuro da solução política encontrada no Parlamento. “Sim, estamos numa maioria parlamentar, mas estamos a preparar uma alternativa. Nós não fazemos parte de uma coligação governativa, quem foi defender uma coligação governativa com o PS nas últimas eleições vaporizou-se. [Este não é] o Governo de esquerda que queremos. Queremos ir muito mais longe”, afirmou o fundador do partido. O rumo escolhido pelo partido, no entanto, foi celebrado quase por unanimidade. A rutura interna era já um fantasma do passado.

O discurso da líder

Para o encerramento da X Convenção do Bloco, Catarina Martins tinha dois trunfos escondidos: uma ameaça de referendo caso a Comissão Europeia avançasse com as sanções contra Portugal e um caderno de encargos para as negociações do próximo Orçamento do Estado para 2017 com o Governo. Aqui com três prioridades à cabeça: continuar a aumentar o salário mínimo, o aumento real das pensões em 2017 e o descongelamento do Indexante dos Apoios Sociais (IAS).

Quanto ao caderno de encargos, o Bloco de Esquerda conseguiu fechar praticamente todos os pontos enunciados. E, apesar de todas as ameaças, a Comissão Europeia acabou por recuar nas sanções contra Portugal. Caía assim a proposta de referendo ao Tratado Orçamental e evitava-se uma mais do que provável crise institucional entre bloquistas e socialistas.

No entanto, se houve algo que Catarina Martins deixou claro no discurso de encerramento da X Convenção do Bloco é que o partido não deixará de travar uma “guerra” contra esta União Europeia e uma batalha pela renegociação da dívida — uma reivindicação que, desde aí, os bloquistas têm levantado com maior insistência em discursos e intervenções parlamentares. “A nossa escolha não é entre estar isolados ou viver dominados. A nossa escolha é a democracia”, defendeu a coordenadora do Bloco de Esquerda. De uma ou de outra forma é o que tem vindo a repetir nos últimos meses. E a pressão sobre o PS aumenta.

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Que partido saiu do Congresso

Passaram seis meses desde a X Convenção do Bloco de Esquerda. Daí para cá, o partido viu a sua influência na solução política refletida em mais um Orçamento do Estado, o segundo com selo da “geringonça”. Quanto a Catarina Martins, conseguiu finalmente superar a herança de Francisco Louçã: depois da coordenação bicéfala e da comissão permanente a seis, tornou-se efetivamente a primeira coordenadora a solo na era pós-Louçã.

Com as divergências internas mitigadas, a bordo de uma solução que, mesmo repleta de “contradições” e “limitações”, tem permitido devolver rendimentos e direitos sociais, e com uma estabilidade política que muitos achavam improvável, os bloquistas querem agora ir mais longe e libertar o país de todos os constrangimentos externos — a dívida pública e as regras orçamentais, leiam-se. O PS não está assumidamente disposto a travar essas batalhas em campo aberto.

A forma como os dois partidos vão gerir esta tensão nos dois anos que restam desta legislatura será um dado a acompanhar com atenção. Os ventos vindos de Bruxelas terão um papel decisivo nesta equação — até ao momento, as condições atmosféricas têm sido favoráveis. Resta saber o que acontecerá se o vento mudar.

CDS. A sucessão de um líder todo-poderoso

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Momento político

Foi o Congresso que abriu a época, logo em março em Gondomar, com o CDS a cortar o cordão com o seu líder de 16 anos, Paulo Portas, e a eleger uma nova presidente: Assunção Cristas. A tarefa era difícil, e Cristas reconhecia-a: “Paulo, é uma enorme responsabilidade suceder-te”.

95,59% dos votos indiciavam um bom começo, mas Cristas teve logo ali nos primeiros dias de liderança uma afirmação de oposição interna, protagonizada por Filipe Lobo d’Ávila. A verdade é que até agora não tem provocado qualquer dor de cabeça. Naquela altura, o Governo socialista estava prestes a aprovar o seu primeiro Orçamento do Estado, na primeira expressão de força da maioria de esquerda que se sentava agora no Parlamento.

Críticos internos

Assunção Cristas chegava para suceder a um líder carismático, que tinha o partido na mão, e a sua candidatura à liderança ainda esteve a ser negociada. Avançaria Nuno Melo, provocando uma cisão no partido? Não só não avançou, como teve um discurso pró-união do partido, apoiado pelo ex-líder Paulo Portas. Mas nem assim evitaram que se afirmasse publicamente uma dissidência. Foi Filipe Lobo d’Ávila, ex-deputado e apoiante de sempre do eurodeputado Nuno Melo, que assumiu essa posição, apresentando uma lista alternativa ao Conselho Nacional do partido.

Surgiu durante o Congresso, com Lobo d’Ávila a dizer mesmo que chegou a ponderar não avançar, acabando por decidir o contrário depois de ter sido “pressionado por muita gente”, segundo explicou na altura. Mas, para evitar confusões, distanciou-se de Melo (que assumira o cargo de primeiro vice-presidente do partido, na direção de Cristas): “Esta lista não é uma lista de apoiantes de Nuno Melo, é uma lista de militantes do CDS”.

A lista que apresentou ainda conseguiu 23% de representação no Conselho Nacional (órgão máximo entre congressos), contra os 77% conseguidos por Assunção Cristas. A líder viu tudo isto como “um sinal de pluralidade e de vivacidade do partido”, desvalorizando. E o facto é que do outro lado ouviu Lobo d’Ávila reagir assim ao seu discurso de encerramento: “Concordo praticamente com tudo”. Mas o que é certo é que a semente ficou plantada dentro do Conselho Nacional.

XXV Congresso do CDS-PP em Oliveira do Bairro

Filipe Lobo d’Ávila ensaiou a (tímida) oposição a Assunção Cristas. Sem efeitos visíveis até ao momento

Discurso da líder

Na plateia a ouvir o seu discurso de encerramento Assunção Cristas teve Pedro Passos Coelho, o presidente do PSD. Ainda que no Congresso tenha ficado a ideia de o CDS querer marcar alguma autonomia face ao parceiro de coligação nas últimas legislativas. Mas críticas só mesmo ao PS que dizia ter feito um “Orçamento de ilusão”, mas sobretudo quis pôr logo ali o desafio para uma reforma da Segurança Social. “Veremos qual a posição do PS, porque esta é uma prioridade. Se o PS recusar cairá a máscara a António Costa”, disse Cristas. O PS recusou mesmo e nada se tem ouvido sobre esta matéria.

Outro dos cavalo de batalha que a líder do CDS assumiu no seu Congresso de estreia era ter o Presidente da República a nomear o governador do Banco de Portugal. “Estamos fartos de ver bancos a cair e reconhecemos que a supervisão não funciona. Não sou de ficar calada e ignorar os problemas”, disse. Mas a questão — que exigiria uma alteração à Constituição — também não passou disso mesmo, de uma intenção, já que o PS a bloqueou dias depois do Congresso. Carlos César foi claro a rejeitá-la: “Há tanta coisa mais importante para resolver do que o processo de nomeação de uma entidade específica”.

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Como saiu o partido do Congresso

O que saiu — e já se confirmou entretanto — foi a vontade de uma aposta forte na candidatura do partido à Câmara de Lisboa. Logo em Gondomar, Assunção Cristas tinha colocado a questão de uma forma que se chegou a pensar que avançaria logo ali como candidata, mas acabou por guardar esse anúncio para uns meses mais tarde. No Congresso disse, no entanto, que o partido devia ter “coragem” para “apresentar uma candidatura forte e mobilizadora” à capital do país.

Mas houve outras questões relativas às autárquicas que ficaram ali definidas, como foi o caso do apoio à recandidatura de Rui Moreira à Câmara Municipal do Porto. Nas restantes câmaras, o objetivo traçado foi “reforçar a marca CDS” nas próximas autárquicas.

Mas o que de mais marcante saiu deste Congresso foi mesmo o desafio que se coloca a Assunção Cristas no que diz respeito à liderança de um partido que todos — incluindo as bases — se habituaram a ver como o partido de Paulo Portas. É essa a sombra que Cristas tem-se debatido por manter a uma certa distância e a eficácia desse esforço será medida, em votos, daqui a menos de um ano.

PCP. No arco da governação, assim se vê a força do PC

PCP: XX Congresso Nacional

Momento político

Os comunistas foram os últimos a reunir em Congresso e Jerónimo de Sousa teve uma vantagem de peso: enfrentou a reunião magna do partido de Almada com dois Orçamentos do Estado aprovados, ambos com a impressão digital do PCP, num ciclo de aparente estabilidade política e longe da sombra de Bruxelas — durante largos meses o cenário de uma eventual aplicação de sanções contra Portugal foi altamente provável.

Condições favoráveis para Jerónimo, portanto. O secretário-geral comunista foi o primeiro líder do PCP a ser capaz de forjar uma aliança com o PS e, com isso, a conseguir influenciar decisivamente o rumo do país. Agora, e depois de um ano de legislatura, o desempenho da atual solução política parece dar razão ao comunista: apesar de todo o ceticismo que acompanhou a formação da “geringonça”, apesar de todos os “limites” e “contradições” identificadas pelo PCP, a resistência deu lugar aos festejos. “Camaradas, valeu a pena lutar”, exultou Jerónimo de Sousa.

E os “camaradas” deram razão ao secretário-geral do partido, reeleito por unanimidade para o quarto mandato. Num Congresso onde a grande expectativa era perceber se a linha dura do partido condenava uma solução que não é, assumidamente, natural para o PCP, a reunião magna dos comunistas foi de celebração. O muro que separava PS e PCP caiu com estrondo.

Críticos internos

Críticos? Quais críticos? Durante três dias, não se ouviu uma única crítica no Complexo Municipal dos Desportos Cidade de Almada à forma como Jerónimo de Sousa tem conduzido o partido. Algo pouco comum até para o PCP, que costuma discutir as divergências entre portas e longe dos olhares da comunicação social. É certo que a proposta de teses, o documento de orientação política do partido, sofreu mais de mil alterações durante os meses que antecederam a organização do Congresso, mas nenhuma delas foi estruturante. Jerónimo de Sousa é, neste momento, um líder incontestado.

Mesmo António Costa e o Governo socialista foram passando pelos pingos da chuva. O PS “desacreditado”, “parceiro de tango do PSD” e vítima do “seu compromisso com a política de direita”, como descrevera Jerónimo de Sousa no Congresso de 2012, dera lugar em 2016 ao companheiro de jornada, ainda que teimoso seguidor das diretrizes de Bruxelas.

Só Carlos Carvalhas, antigo secretário-geral do PCP, elevou o tom das críticas aos socialistas, lembrando a todos que há de facto problemas no paraíso. “Os socialistas que não se iludam: é preciso passar a um outro patamar de exigência. É incompreensível que o país não esteja preparado para se libertar da submissão ao euro. Que se deixe o país desarmado perante processos de asfixia e chantagem da União Europeia”.

De resto, a grande vilã do XX Congresso do PS foi sem grandes dúvidas Bruxelas e tudo o que ela representa. Mais do que nunca, foram repetindo vários oradores, é preciso travar uma União Europeia entregue a um processo intenso de “centralização” e de “opacidade”, mergulhada numa uma deriva “securitária”, “anti-democrática”, “anti-comunista”, “racista” e “xenófoba”. O discurso de Jerónimo seria centrado precisamente nessa questão.

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Carlos Carvalhas não faz parte da oposição interna (longe disso). Mas foi o ex-líder comunista quem levou mais longe as críticas à União Europeia

Discurso do líder

Ao longo dos últimos meses, com especial destaque para o discurso de encerramento da Festa do Avante!, Jerónimo de Sousa tem aproveitado para assinalar a “total independência” do PCP em relação aos socialistas. No XX Congresso do partido não foi (nem podia ter sido) diferente. “O PCP não está domesticado pelo PS”, garantiu Jerónimo, respondendo às críticas dos opositores e tranquilizando os anseios de alguns militantes. Estava feita a primeira de muitas demarcações. O líder comunista voltaria à carga.

“Não era, e não é, a solução para responder ao indispensável objetivo de rutura com a política de direita e à concretização de uma política patriótica e de esquerda”, assumiu Jerónimo, antes de insistir, mais uma vez, que a atual solução política não representa um “Governo de esquerda”, nem sequer um “acordo de incidência parlamentar”, reiterou Jerónimo de Sousa, para logo depois insistir: “[A nossa intervenção] não alimenta ilusões em relação à política necessárias para resolver os problemas do país, nem esconde as insuficiências e limitações do quadro político da nova fase política nacional para lhes dar resposta”.

Mesmo lembrando todos os ganhos de causa alcançados pelo PCP desde que assumira a posição conjunta, Jerónimo de Sousa não perdeu a oportunidade de vincar o ponto que mais distingue, por esta altura, comunistas e socialistas: a questão da União Europeia. Sem rodeios, Jerónimo de Sousa afirmou que “a experiência recente demonstra que a União Europeia constitui uma matriz política e ideológica, impossível de ser democratizada, humanizada ou refundada. É a sua natureza de classe — capitalista — que determina as suas políticas e opções”.

Sem nunca referir o PS, que defende abertamente que a União Europeia pode e deve ser reformada por dentro, o líder comunista foi duro para os “hipócritas” que estão a tentar usar “a crise na e da União Europeia justificar novos saltos em frente no processo de integração capitalista”. A terminar, o secretário-geral do PCP deixou uma nota que dominaria toda o Congresso o comunista: “A questão que está colocada não é a de maquilhar, refundar ou democratizar a União Europeia. Não. Salvar a Europa significa cada vez mais derrotar a União Europeia”.

Como saiu o partido do Congresso

Depois de durante muito tempo se ter especulado sobre uma eventual passagem de testemunho de Jerónimo de Sousa, a verdade é que o secretário-geral comunista, reforçado por ter tido um papel fundamental no desenho do atual quadro político, saiu deste Congresso como líder incontestado e sem sombra de um número dois.

Quanto ao partido, enquanto a solução construída no Parlamento permitir recuperar e aumentar rendimentos e direitos sociais, não será pelos comunistas que a corda rompe. Com ou sem uma saída do euro, com ou sem uma revisão das regras orçamentais, com ou sem uma renegociação da dívida, o PCP não perderá uma oportunidade de melhorar as condições de vida dos portugueses, foram dizendo vários dirigentes do partido.

O grande desafio que se coloca no horizonte dos comunistas, no entanto, é a corrida autárquica de 2017. O PCP tem justas ambições de manter ou melhorar o resultado conseguido em 2013 e resta saber se o facto de estar, pela primeira vez em 40 anos, no arco da governação vai ou não influenciar os resultados locais. Qualquer resultado negativo pode levar os comunistas a repensarem a estratégia nacional. Só depois dessas eleições se saberá.

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