No já mítico 13 de Maio de 2017, Salvador Sobral tornou-se no primeiro português a vencer o Festival da Eurovisão – e logo de cabazada, com uns recordistas 758 pontos, atropelando assim o fraquíssimo historial no certame que arrastávamos desde 1964. O seu discurso de vitória foi, como tanta coisa no percurso surpreendente do cantor, considerado polémico. Nele, Salvador decretava: “Vivemos num mundo de música descartável, de música ‘fast food’ sem qualquer conteúdo. Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta, que é o que verdadeiramente interessa.”

Concorde-se ou não com a mensagem, é fácil perceber que a história recente da Eurovisão está pavimentada com momentos nos quais o importante era decididamente o espectáculo em detrimento da música. Talvez seja isso parte do encanto do um evento com tanta purpurina e confetti por metro quadrado. Recordamos 25 momentos nos quais a forma suplantou o conteúdo.

Lordi dão vitória à Finlândia

2006

Os “monstrinhos”, como lhes chamou um confuso e tristíssimo Eládio Clímaco, que viu naquele ano implodir toda a lógica festivaleira que conhecia até então. Com fatos e máscaras em latex que os deixavam irreconhecíveis, a banda ainda aproveitou alguns meses de fama planetária, com actuações em galas de prémios da MTV. Com uma sonoridade mais próxima do metal, foram uma escolha polémica, mas certeira. A banda ganhou por uma margem significativa, com 292 pontos, 44 pontos sobre o segundo classificado, da Rússia, A vitória dos Lordi marcou um Antes e Depois na Eurovisão, escancarando as portas a que os países fizessem apostas mais ousadas.

Irlanda concorre com um fantoche em forma de peru

2008

Dois anos depois, em 2008, é a Irlanda a fazer coçar cabeças com a escolha de um peru em peluche, com ar de morador dos subúrbios menos glamourosos da Rua Sésamo. A escolha é particularmente bizarra se recordarmos que a Irlanda é o país com mais vencedores da história da Eurovisão. A votação para escolher o representante funciona num molde semelhante ao português (uma média entre o voto de um júri e o voto do público), e foram as pessoas alapadas nos seus sofás quem achou que a ave de capoeira (de seu nome Dustin) era uma ideia vencedora. Não foi: apesar no nome da canção ser “Irelande Douze Pointe”, não passou sequer da semifinal.

Lituânia tenta lavagem cerebral na letra da canção

2006

A Lituânia não se fez de falsamente modesta e decretou logo na letra que era a Dona Daquilo Tudo. Os LT United cantaram “We Are The Winners (of Eurovision)” (Nós Somos Os Vencedores da Eurovisão), e correu-lhes um pouco melhor que ao peru: ficaram em 6º na votação final, com 162 pontos.

Áustria com um piano em labaredas

2015

Em 2015, os austríacos The Makemakes tentaram elevar o tema “I Am Yours” com um piano em chamas no clímax refrão. Se esta tendência piromaníaca impressionou alguém? Nem por isso, ficaram em 26º lugar com uns estonteantes zero pontos.

Velhos são os trapos, não os DJs croatas

2008

Em 2008, a Croácia levou uma banda de teor mais humorístico, os Kraljevi Ulice & 75 Cents – mas quem roubou o protagonismo foi um DJ com ar de quem normalmente estaria no jardim a jogar dominó. Só que este festival não é para velhos: de 25 finalistas, ficaram na posição 21.

A Bielorrúsia dançando com lobos

2016

Em 2016, o jovem IVAN resolveu iniciar a sua canção com um vídeo no qual uiva. Nu. E acompanhado por um lobo. O PAN talvez aprovasse, mas na Eurovisão não convenceu – o tema “Help You Fly” não passou da semifinal.

Portugal da Troika leva o protesto dos Homens da Luta

2011

Poucas semanas depois da entrada da troika em Portugal, corria o ano de 2011, Portugal escolheu levar uma canção de intervenção bem disposta. Os Homens da Luta tanto participavam em manifestações como numa Eurovisão onde claramente não encaixavam. Não foram além sequer da semifinal.

Bósnia a lavar a roupa suja em palco

2008

Em 2008, Laka representou a Bosnia & Herzegovina com o tema “Pokušaj”. A coreografia começava com várias mulheres curvilíneas a estenderem roupa numa corda, para depois o interprete surgir do modo mais glamouroso da história da música pop: saltando de dentro de uma cesta da roupa suja. A canção ficou em décimo lugar na final, com 110 pontos atribuídos por pessoas que claramente reconhecem a importância de um bom detergente para roupa de cor.

Azerbaijão e a coreografia do aquário

2013

Lembram-se da famosa cena de “Romeu+Juliet”, de Baz Luhrmann, na qual o casal se apaixona enquanto se observa numa festa, cada qual do seu lado de um enorme aquário? Em 2013, o Azerbaijão fez a versão mais intensa disso: um homem e uma mulher dançam apaixonadamente, cada qual do seu lado de um aquário no qual um bailarino faz acrobacias e engole confetti em quantidades não recomendadas pela Organização Mundial de Saúde. Mas foi por uma boa causa: Farid Mammadov e a canção “Hold Me” ficaram em segundo lugar.

O colinho da Ucrânia

2013

Zlata Ognevich entra em palco carregada em braços por um homem gigantesco, que a pousa no palco para que possa cantar “Gravity”, a fazer lembrar vagamente a “Guerra dos Tronos”. Colinho ou não, ficou em terceiro lugar na final.

San Marino é a avó que tenta ser moderna

2012

Um dos maiores pânicos de alguém abaixo dos 35 anos é que alguém mais velho lhe peça ajuda com equipamento tecnológico. Por mais que se explique, nunca vão perceber a diferença entre um link e um browser ou entre um like e um share. Em 2012, Valentina Monetta  levou ao festival “The Social Network Song”, uma tentativa bué moderna de falar das redes sociais onde agora andam os putos tótil fixes e tal. A letra inclui preciosidades como “fazes log in e começas/o teu computador balança e leva o seu tempo/ a cena é digna de um socialite/estás na Internet em todo o lado e todo o tempo, dia e noite”. Tristemente, este hino dos nossos dias não passou da semifinal.

Itália leva a 534 piadas sobre o Macaco Adriano

2017

Francesco Gabbani e o seu “Occidentali’s Karma” foram os grandes favoritos até ao dia da final. Porém, a Eurovisão do ano passado não estava para grandes artifícios nem maluquices (efeito Salvador?), por isso nem todos gostaram de ver o italiano a partilhar o palco com um macaco dançarino. Itália não foi além do 6º lugar, com 334 pontos.

Roménia e o teclado ideal para se ter uma hérnia discal

2014

Corria o ano de 2014 e os romenos Paula Seling & OVI resolveram criar um teclado especial para levar a palco o tema “Miracle”. Era, contudo, pouco prático e foi usado durante apenas segundos. O teclado era uma roda de 360 graus, com o instrumentista no centro. E ainda por cima de esguelha. Rendeu um 12º lugar na final.

Ucrânia homenageia os hamsters deste mundo

2014

E por falar em rodas:  em 2014, Mariya Yaremchuk interpretou “Tick – Tock” com um estranho companheiro de palco: um bailarino e corria numa roda gigante em tudo semelhante às das gaiolas dos hamsters. A Ucrânia ficou em sexto lugar na final.

Estónia de cebolada

2008

Em 2008, mais um país tenta a abordagem de levar uma banda de comediantes ao festival. O resultado descreve-se em poucas palavras: miúdas em biquíni, bandeiras e imagens de alimentos como fatias de bolo ou cebolas. A Estónia e “Kreisiraadio” dos Leto Svet foi para casa na semifinal com apenas oito pontos.

Israel esforça-se pouco ou nada

2000

Se este ano Israel é a grande favorita, o mesmo não se pode dizer na Eurovisão de 2000. A canção “Ping Pong”, dos Sameyakh, ficou em 22º lugar, com uns meros sete pontos. Não se percebendo bem se esta escolha foi no gozo ou mesmo por se achar uma aposta musicalmente interessante, o resultado final faz os Santa Maria soarem a Bach.

A indústria polaca de lacticínios

2014

Danças ousadas não eram uma novidade na Eurovisão em 2014. Mas mesmo assim Donatan & Cleo  da Polónia conseguiram marcar a diferença durante a actuação de “My Słowianie”: moças roliças e languidas batiam manteiga em palco. É mais badalhoco do que parece assim só por escrito, vá.  A manteiguinha rendeu 62 pontos e um 14º lugar.

O fashion statement da Moldávia

2011

“So Lucky”, assim se chama o tema que a Moldávia levou ao festival em 2011. Mas sortudos somos nós, por podermos ver os Zdob si Zdub com tão sugestivos chapéus. O look “gnomo em ácidos” garantiu 97 pontos e um 12º lugar.

Os astronautas rappers de Montenegro

2013

Não há mesmo mais nada a acrescentar. “Who See” é um rap. Os Igranka foram vestidos de astronautas. Montenegro ficou-se pela semifinal.

Avozinhas russas fazem a festa

2012

Já falamos sobre o facto de que não levar jovens frescos ao festival dá por vezes resultados desapontantes. Mas não foi isso que aconteceu em 2012, com o gang de avozinhas Buranovskiye Babushki e o seu “Party For Everybody”. Se desafinaram um pouco? Talvez, mas ficaram em segundo lugar porque, convenhamos, são umas fofas que nos lembram as nossas próprias avós e as suas sopas de pão e café com leite.

O desafinanço espanhol

2017

Mas se queremos falar de desafinanço, temos de falar do espanhol Manel Navarro na Eurovisão do ano passado. “Do It For Your Lover” já não era a canção mais inspirada, mas o prego final do ex-concorrente de talent shows foi tão épico que deu origem a memes bem divertidos. Acabou em último.

O drag futurista da Ucrânia

2007

O ucraniano Verka Serduchka faz já parte do imaginário e da iconografia da Eurovisão. Isto apesar da sua fritaria de 2007, “Dancing Lasha Tumbai”, ter ficado apenas em segundo lugar. A figura drag causou controvérsia na Ucrânia, onde foi considerado “grotesco” por alguns conversadores. Activista político e actor, entrou em filmes como “Spy”, com Melissa McCarthy.

Lisboa recebe a cantora que Kiev não quis

2018

2018 marca um regresso ao festival que não é bem um regresso. Em 2017, a russa  Julia Samoylova foi impedida de participar no certame, que se realizava em Kiev, por em 2015 ter feito a sua tour passar pela Crimeia. Para quem se questiona se a política fica de fora da festa europeia da Eurovisão tem aqui uma resposta. Agora que a Eurovisão ocorre em Portugal, Julia vem representar o seu país. A cantora tem desde criança atrofia muscular espinhal e desloca-se numa cadeira de rodas.

Conchita Wurst deixa os conservadores à beira de um ataque de nervos

2014

Uma das figuras mais populares das últimas décadas de Eurovisão, Conchita Wurst e o seu hino pela aceitação e autodeterminação, “Rise Like a Phoenix”, fizeram história em 2014. E, como todas as boas histórias, fizeram polémica. A “mulher de barba”, como muitos a apelidaram, é até hoje um ícone da comunidade LGBT e um foco de ódio visceral dos mais conservadores. As maiores críticas à sua vitória na Eurovisão vieram de políticos russos. O ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, por exemplo, disse: “não há limite para a nossa indignação. É o fim da Europa. (…) Há 50 anos o exército soviético ocupou a Áustria. Cometemos um erro em tê-los libertado. Devíamos ter ficado”.

Os piratas da Letónia

2008

A saga de filmes “Piratas das Caraíbas” ainda estava muito na moda – algo evidenciado, por exemplo, sempre que chegava a altura de escolher máscaras para o Carnaval. Talvez isso explique esta opção da Letónia. “Pirates Of The Sea” ficou em 12º lugar.