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Que frases não faziam sentido no início da década e agora todos dizemos

Que frases não faziam sentido no início da década e agora todos dizemos

27 razões para não nos esquecermos desta década /premium

Que frases não faziam sentido no início da década e agora todos dizemos? Onde estava Marcelo em 2010? Como caíram os Donos Disto Tudo? O que vimos, ouvimos e lemos? Está tudo aqui.

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No início da década onde estava…

… Marcelo Rebelo de Sousa? O professor que chegou a Presidente

O início da década foi de mudanças para Marcelo Rebelo de Sousa: no mesmo ano (2010) saiu da RTP, onde tinha o programa “As escolhas de Marcelo”, e regressou à TVI. Podia ter sido um ano decisivo para Marcelo: se Cavaco não se recandidatasse, seria a oportunidade do professor avançar para Belém. Caso contrário, tinha de esperar mais cinco anos. Foi o que aconteceu e — detalhe irónico — acabou por ser ele próprio a dar a notícia da recandidatura de Cavaco. Durante esses cinco anos, Marcelo afirmou-se cada vez mais como uma figura da televisão. Domingo, já se sabia, era dia de comentário de Marcelo. Dia de os políticos ficarem com as orelhas a arder. Todos lhe antecipavam que seria candidato às Presidenciais em 2016. Foi o que acabou por acontecer e foi eleito Presidente, num mandato em que se transformou no mais mediático dos Presidentes, mesmo sem ter Twitter nem Facebook.

… António Costa? De número dois do PS a número um do país

No início da década, António Costa estava a entrar para o seu segundo mandato na câmara de Lisboa (o primeiro foi de apenas dois anos). Apesar de ter maioria absoluta, o então presidente da maior autarquia do país tentou consensos alargados com outras forças no município. O agora primeiro-ministro começava então a consolidar a carreira de autarca, sem nunca deixar de ser visto como o simbólico número dois do PS. Foi sempre uma das figuras do partido, mas não avançou no pós-Sócrates. António José Seguro ganhou a Assis e Costa esperou até 2014 para desafiar e tomar o lugar de Seguro. Ficou em segundo nas eleições em 2015, mas conseguiu uma maioria parlamentar que lhe viabilizasse o governo — e nasceu a Geringonça. Conseguiu governar quatro anos e ganhou as legislativas sem maioria. Entra nos anos 20 como primeiro-ministro, algo que já lhe antecipavam no início da década. A profecia, tal como no caso de Marcelo, cumpriu-se.

… Rui Rio? Do apoio a Aguiar-Branco a líder da oposição

Rui Rio entrou na década na fase inicial do seu último mandato à frente da câmara do Porto. Embora já entrasse nas cogitações para a liderança do PSD, optou por terminar o mandato de autarca. Nesse ano, apoiou José Pedro Aguiar-Branco nas diretas do PSD, pois acreditava ser o melhor primeiro-ministro. Já então Rio dizia que a sua prioridade não era o partido: “O PSD é instrumental para resolver os problemas do país”. Deixou de ser autarca em 2013 e fez uma travessia no deserto no privado (na consultora Boyden). A meio ainda chegou a ponderar fazer um desvio para Belém, mas o avanço de Marcelo levou-o a mudar de ideias. Só entraria em cena no final de 2017, quando Passos saiu. Em janeiro de 2018 foi a votos. Ganhou o partido (contra Santana), mas perdeu as europeias e as legislativas. Conseguiu, apesar disso, entrar nos anos 20 do século XXI como líder do PSD.

… Ferro Rodrigues? Da OCDE, em Paris, a segunda figura da Nação

O agora presidente do Parlamento estava em 2010 ainda no longo exílio da política partidária como representante de Portugal junto da OCDE. Era um cargo que ocupava desde 2005, um ano depois de se ter demitido de líder do PS após a vitória nas Europeias e em rutura com o Presidente Jorge Sampaio. O ‘exílio parisiense’ acabou em 2011, quando foi eleito deputado. Esteve na oposição ao Governo de Passos e acabou por passar a líder parlamentar quando Costa venceu as primárias no PS. A geringonça, no final de 2015, deu-lhe a oportunidade de ser segunda figura do Estado: foi eleito presidente da Assembleia da República com os votos da maioria de esquerda. Agora, no virar da década, foi reeleito para o cargo. Com mais votos do que em 2015.

… João Cotrim de Figueiredo? Quase mais público que privado e, por fim, deputado

No início da década, o agora deputado único da Iniciativa Liberal estava no lado preferido dos liberais: o privado. Entre 2010 e 2011 passou pela Privado Holding (detentora do banco BPP) e também integrou a direção-geral da TVI. Mas Cotrim Figueiredo também andou na esfera pública: entre 2013 e 2016, foi presidente do Turismo de Portugal (nomeado por Passos, manteve-se com Costa). Tem no currículo o facto de ter feito parte da equipa de negociadores que trouxe a Web Summit para Portugal, em 2015. Vira a década como o primeiro deputado de um partido liberal (a IL) a ser eleito para o Parlamento Português.

… Joacine Katar Moreira? De jovem investigadora a deputada

Joacine Katar Moreira estava, no início da década, a terminar o mestrado no ISCTE em Estudos do Desenvolvimento, Diversidades Locais, Desafios Mundiais. Nos anos seguintes, doutorou-se também no ISCTE, onde se tornou investigadora do Centro de Estudos Internacionais. Nesses anos destacou-se como ativista pelos direitos das minorias. No último ano, foi escolhida como candidata por Lisboa nas primárias no Livre e chegou a deputada.

… André Ventura? De bolseiro a deputado-comentador

No início do século André Ventura era militante do PSD e bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, quando estava a fazer o doutoramento, que terminou em 2013. Anos antes tinha concluído a licenciatura com 19 valores. Na segunda metade do século envolveu-se mais na política e no futebol. Chegou a dizer que seria candidato do PSD a Sintra, mas acabou por correr por Loures em 2017, numa campanha polémica pelas críticas à comunidade cigana. Foi eleito vereador e começou a ganhar espaço como comentador (criminal e desportivo) na CMTV. À boleia da polémica com os ciganos (foi acusado de ser racista) e por ser comentador-adepto do Benfica na televisão, tornou-se uma figura mediática. Utilizou o palco público (em particular da CMTV) a seu favor e foi eleito deputado à Assembleia da República a fechar a década.

A Geringonça entrou no dicionário

“Selfie”, “fake news”, “trollar”, “tweetar”, “meme”. Não há década que não dê em fartura de novas expressões e esta não foi diferente. Mas nem todas têm a honra de entrar para o dicionário da língua portuguesa ou, no caso daquela a que queremos chegar, acrescentar ao seu significado. Apareceu quando a década ia a meio, pela voz de Paulo Portas, aplicada à solução política inédita a que a esquerda dava corpo no Parlamento, com António Costa a chefiá-la.

Há uma “geringonça” a.C. e outra d.C. Antes de Costa (a.C.) era uma “coisa ou construção improvisada com pouca solidez” ou um “aparelho ou mecanismo de construção complexa”. Depois de Costa (d.C.) passou a ser uma “solução governativa que resulta de um ou mais acordos parlamentares entre dois ou mais partidos políticos e que pode não fazer parte o partido mais votado nas eleições”. O dicionário Priberam da língua portuguesa fez esta mesma atualização na definição daquela que foi a palavra do ano em 2016, depois de a solução política negociada pelo socialista António Costa ter circulado com mais ou menos tropeções durante um ano inteiro.

Dicionário Priberam da língua portuguesa

Eis, então, um novo termo do vocabulário político, que nasceu com sentido pejorativo, mas que os socialistas acabaram por assumir sem complexos — só quando a engenhoca de Costa revelou alguma estabilidade. Quando atirou a palavra no Parlamento, Paulo Portas (na altura líder do CDS) falava de um “primeiro-ministro ilegítimo” e da “tamanha irresponsabilidade” do que Costa estava a fazer. Chamava ao PS “pirómanos do regime” e concluía: “Não é bem um Governo, é uma geringonça, não é uma coligação, não é um acordo (…) tal a dificuldade em conciliar o inconciliável”. Em abril, poucos meses depois deste debate do Programa do Governo socialista que a direita contestava, já Costa respondia às críticas que vinham desse lado: “Sim, sim, é geringonça, mas funciona”. Geringonça para lá, geringonça para cá e o termo colou e foi além fronteiras, com Espanha a tentar reproduzir o formato sem sucesso. Em Portugal, rompeu com mais de 40 anos de comunistas e socialistas de costas voltadas no poder central. Mas não resistiu às legislativas deste ano.

O adeus de dois pais da democracia

Freitas do Amaral e Mário Soares

Um fundou o Partido Socialista, o outro fundou o CDS — e são as duas grandes perdas desta década na política nacional. Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral foram adversários políticos, com especial intensidade no início de 1986, numas eleições Presidenciais memoráveis que dividiram o país de tal forma que foi preciso uma segunda volta para sair um vencedor. Freitas acabou por seguir a sua vida sobretudo na academia e também ocupou o cargo de presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas (1995). Em 2005 integrou um Governo socialista, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Acabaram mais próximos do que começaram, embora a luta de ambos tivesse andado sempre cosida com as mesmas linhas, as da democracia. Soares morreu a 7 de janeiro de 2017 e Freitas a 3 de outubro de 2019.

As histórias da campanha mais marcante de Freitas do Amaral

As canções que todos ouvimos, ano a ano

Em 2010, a mais popular das plataformas de streaming de música, o Spotify, ainda não estava a funcionar a nível global. Mas podemos sempre contar com os números do YouTube para saber qual o vídeo musical mais visto em cada um dos últimos dez anos em todo o mundo. E uma curiosidade extra que não é de ignorar, bem pelo contrário: apesar de só ter aparecido em 2017, “Despacito”, de Luis Fonsi, foi a canção que mais vezes passou pelo YouTube em toda a década, com mais de 6,5 mil milhões de plays.

2010: “Baby”, de Justin Bieber (ft. Ludacris)

2011: “On the Floor”, de Jennifer Lopez (ft. Pitbull)

2012: “Gangnam Style”, de Psy

2013: “Gentleman M/V”, de Psy

2014: “Dark Horse”, de Katy Perry (ft. Juicy J.)

2015: “See You Again”, de Wiz Khalifa (ft. Charlie Puth)

2016: “Work from Home”, de Fifth Harmony (ft. Ty Dollar Sign)

2017: “Despacito”, de Luis Fonsi (ft. Daddy Yankee)

2018: “Te Boté (Remix)”, de Nio García, Casper e Darell Mágico (ft. Nicky Jam, Bad Bunny e Ozuna)

2019: “Snow”, de Daddy Yankee & Snow

Os filmes que nos marcaram (e levaram o Óscar)

Os critérios poderiam ser vários. Escolhemos os vencedores do Óscar de Melhor Filme em cada um dos últimos dez anos, um misto de popularidade com reconhecimento crítico, que junta drama, acção, musical e longas metragens difíceis de definir, como é o caso de “Birdman”. Ao mesmo tempo, é o retrato de uma Hollywood em mudança, com cada vez mais concorrência, vinda da produção de outros países, de indústrias independentes e das plataformas de streaming, com a Netflix na liderança.

2019: “Green Book”, de Peter Farrelly

2018: “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro

2017: “Moonlight”, de Barry Jenkins

2016: “O caso Spotlight”, de Tom McCarthy

2015: “Birdman”, de Alejandro González Iñarritu

2014: “12 Anos Escravo”, de Steve McQueen

2013: “Argo”, de Ben Affleck

2012: “O Artista”, de Michel Hazanavicius

2011: “O Discurso do Rei”, de Tom Hooper

2010: “Estado de Guerra (The Hurt Locker)”, de Kathryn Bigelow

Os escritores (e o músico) que ganharam o Nobel da Literatura

A década começou com um reconhecimento esperado e quase unânime, mas foi a partir de de 2016 que uma das instituições mais credíveis e menos contestadas do mundo cultural começou a atravessar uma tempestade difícil de contornar. Com escolhas que geraram muitas críticas mas também com escândalos que ameaçaram (e mudaram) a estrutura da Academia Nobel e que suspenderam anúncios de premiados. A recuperação ainda está para acontecer.

Esta é a lista dos vencedores em cada um dos últimos dez anos e uma sugestão de leitura, se só puder ler uma das obras de cada um dos autores:

2010: Mario Vargas Llosa (Peru/Espanha), “Conversa n’A Catedral” (D. Quixote)

Vargas Losa

2011: Tomas Transtromer (Suécia), “50 poemas” (Relógio d’Água)

Tomas Transtromer

2012: Mo Yan (China), “Peito Grande, Ancas Largas” (Ulisseia)

Mo Yan

2013: Alice Munro (Canadá), “Fugas” (Relógio d’Água)

Alice Munro

2014: Patrick Modiano (França), “Na Rua das Lojas Escuras” (Relógio d’Água)

Patrick Modiano

2015: Svetlana Alexievich (Bielorússia), “Vozes de Chernobyl” (Elsinore)

Svetlana Alexievich

2016: Bob Dylan (EUA), “Canções” (Relógio d’Água)

Bob Dylan

2017: Kazuo Ishiguro (Japão), “Nunca me Deixes” (Gradiva)

Kazuo Ishiguro

2018: Olga Tokarczuk (Polónia), “Viagens” (Cavalo de Ferro)

Olga Tokarczuk

2019: Peter Handke (Áustria), “A Angústia do Guarda-redes Antes do Penalty” (Relógio d’Água)

Peter Handke

Guerra dos Tronos, a série que matou mais gente (entre outros recordes)

A série mais vista de sempre. A série mais pirateada de sempre. A mais cara, mais ambiciosa e mais discutida. Estreou-se em 2011, partindo dos livros de George R.R. Martin, para depois motivar uma continuação escrita de propósito para a televisão. Uma produção que acompanhou toda a década, sucesso global que deu à HBO o prestígio e a popularidade que lhe faltavam. Cumpriu máximos e recordes absolutos, não só nas audiências, mas também no número de vítimas registadas no enredo, feito de guerras, famílias, conquistas, derrotas, sexo, intrigas e muito sangue.

Esta é uma seleção curta das mortes mais marcantes das oito temporadas. A lista completa seria demasiado extensa: Ramsay Bolton, Joffrey Baratheon, Walder Frey, The Mountain, Ser Meryn Trant, Alliser Thorne, Craster, Kraznys mo Nakloz, Smalljon Umber, Myranda, Janos Slynt, The Waif, Khal Moro, Pyat Pree, Karl Tanner, Razdal mo Eraz, Belicho Paenymion, Euron Greyjoy, Viserys Targaryen, Locke, The Night King, Polliver, Rast, Randyll Tarly, Nymeria Sand, Obara Sand, Qyburn, Xaro Xhoan Daxos, Harry Strickland, Balon, Greyjoy, Olly, Doreah, Mirri Maz Duur, Lancel Lannister, Grand Maester Pycelle, Shae, Roose Bolton, Lysa Arryn, Hoster Tully, Rickard Karstark, The High Sparrow, Benjen, Stark, Will, Beric Dondarrion, Trystane Martell, Hizdahr zo Loraq, Areo Hotah, Three-Eyed Raven, Littlefinger, Selyse Baratheon, Mance Rayder, Ellaria Sand, Dickon, Tarly, Melisandre, Doran Martell, Jon Arryn, Qhorin Halfhand, Irri, Stannis Baratheon, Mycah, Leaf, Matthos Seawoth, Kevan Lannister, Mace Tyrell, Osha, Viserion, Tyene, Sand, Myrcella Baratheon, Septa Mordane, Lady Crane, Jory Cassel, Cersei Lannister, Grenn, Pyp, Brother Ray, Rhaegal, Edd, Jon Snow, Thoros of Myr, Talisa Stark, Khal Drogo, Tywin Lannister, Renly Baratheon, Yoren, Daenerys Targaryen, Loras Tyrell, Jojen Reed, Theon Greyjoy, Rodrik Cassel, Ros, Wun Weg Wun Dar Wun, Walda Bolton, Brynden Tully, Robert Baratheon, Maester Aemon, Karsi, Syrio Forel, Lord Varys, Jorah Mormont, Olenna Tyrell, Ser Barristan Selmy, Jeor Mormont, Jaime Lannister, Tommen Baratheon, Lyanna Mormont, Sandor Clegane, Margaery Tyrell, Ygritte, Rickon Stark, Maester Luwin, Missandei, Oberyn Martell, Robb Stark, Eddard “Ned” Stark, Catelyn Stark, Hodor, Shireen Baratheon.

As frases que não faziam sentido no início da década e que agora todos dizemos — porque a tecnologia mudou

“Vou apanhar um Uber”

Em 2010, a Uber dava as primeiras voltas nas ruas de São Francisco, nos EUA, mas nada fazia prever que 10 anos depois seria o fenómeno que é hoje. A mobilidade nos grandes centros urbanos foi mudando ao longo dos anos, sempre de braço dado com as polémicas em torno da legislação e as greves dos taxistas. E, em 2014, a Uber aproveitou o buraco legal perfeito para começar a operar em Lisboa. Seguiram-se mais empresas do género — a Cabify, Bolt ou Kapten — e hoje não faltam opções para pegar no telemóvel e, em dois toques, chamar um motorista “nas proximidades” que o leve do sítio A para o sítio B — sem precisar de pegar na carteira. Quatro anos depois (e após um veto de Marcelo Rebelo de Sousa), o Parlamento aprovava a lei dos TVDE (transporte de passageiros em veículo descaracterizado) e estas aplicações entravam oficialmente para as contas da mobilidade urbana.

Há dez anos, não havia carro nenhum à nossa espera no ecrã do smartphone. Hoje, não faltam opções — e, além dos carros, também há trotinetes e bicicletas elétricas. A Uber fecha a década a operar nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, na região do Algarve, Braga, Guimarães, Coimbra, Aveiro e ilha da Madeira. Em Portugal, foram feitos mais de 2,5 milhões de downloads da aplicação.

“Já estás a ver a última série da Netflix?” 

Se lhe dissermos que a Netflix existe há mais de 20 anos, provavelmente, não acredita. Mas foi em 1997 que Reed Hastings teve a ideia que faz com que hoje veja vídeos em streaming quando, como e onde quiser. O negócio começou por ser um serviço de aluguer de DVD por correio, mas a génese já lá estava: o objetivo era o de dar maior liberdade e flexibilidade ao utilizador — as pessoas podiam devolver os DVD por correio sem precisarem de se deslocar às lojas. Mas foi só em 2008 que Reed Hastings se aventurou no serviço de streaming que viria a mudar (e muito) a forma como consumimos filmes, séries e outros vídeos.

Por cá, a nossa vida só começaria a mudar a meio da década, em 2015, mas, hoje, já é quase impensável seguir a temporada de uma série pela televisão tradicional, esperando por um episódio todas as semanas. Cinco anos depois da estreia da Netflix em Portugal, também não faltam opções de escolha em matéria de streaming — não existe apenas o serviço fundado por Hastings. A Amazon Prime chegou a Portugal em dezembro de 2016, a HBO em fevereiro de 2019 e a Apple TV+ em novembro de 2019. E não fazia sentido dizer nada disto há dez anos.

[veja o trailer de uma das mais recentes produções da Netflix: o filme “O irlandês”, o novo filme de Martin Scorsese]

“Recebeste o push do Observador?” 

O Observador nasceu a 19 de maio de 2014, numa redação em pleno Bairro Alto e com uma equipa que não ultrapassava os 30 jornalistas. Fomos o primeiro jornal generalista a nascer 100% online, com a visão clara de renunciar ao papel como ferramenta noticiosa. A primeira versão da nossa app também ficou logo disponível e com ela chegaram as notificações (a que alguns chamam “alertas” e outros “pushs”), que hoje fazem parte do quotidiano de qualquer utilizador ávido de notícias. A forma como passámos a consumir informação nos telemóveis foi a grande catalisadora da mudança que ocorreu na indústria dos media e, hoje, é seguro afirmar que só não está informado quem não quiser. Basta instalar uma aplicação de notícias (como a do Observador), permitir que esta lhe envie notificações e sempre que acontecer algo que os editores dos meios de comunicação social considerem relevante, receberá um alerta no seu ecrã.

A revolução dos media pode não ter começado nesta década, mas foi nela que se consolidou: não foram só as notificações que nos entraram pelo ecrã dos leitores adentro, foram também as fake news e o perigos que elas representam. Em 2010, não existia o Observador. Mas, em 2020, existe o site do Observador, a app do Observador, as newsletters do Observador e a Rádio Observador.

“Vou pedir um Glovo ou um Uber Eats”

Não é de agora que temos preguiça para cozinhar ou que nos esquecemos de fazer, atempadamente, as compras de supermercado para os amigos que vão jantar lá casa. Mas, no início da década, só era possível resolver estes problemas de duas formas: encomendar uma pizza de uma qualquer cadeia de pizzas com entregas ao domicílio ou ir a um dos restaurantes com take-away, na vizinhança, buscar comida. Hoje, são já várias as cidades que permitem que esteja de pijama, no sofá, a pedir a refeição que quiser com amplitude de escolha. Com um ou dois toques numa aplicação como a Glovo ou a Uber Eats, tem à sua disposição uma parafernália de opções — do sushi à pizza, da gastronomia indiana à portuguesa. E não precisa de usar a carteira, o pagamento é feito através do cartão de crédito associado à conta.

A expressão “pedir um Glovo ou um Uber Eats” existe em Lisboa desde outubro e novembro de 2017. Na Glovo, além de pedir comida, consegue requisitar um estafeta para entregar coisas por si ou fazer outras compras de que precisa. Em dois anos, a Uber Eats chegou a 30 cidades portuguesas.

O Glovo existe em Lisboa desde 2017 e permite requisitar um estafeta para entregar comida ou outras compras ao domicílio

Corbis via Getty Images

“Podes filmar isto para pôr nas Stories do Instagram”

Nasceu em 2010, mas só alguns anos depois é que entrou em força nos smartphones dos portugueses, associado a expressões como “vou partilhar no Instagram” ou “já fizeste like na minha foto?”. Em abril de 2012, o Facebook comprou a rede social fundada por Kevin Systrom e Mike Krieger por mil milhões de dólares, ainda antes de a empresa liderada por Mark Zuckerberg ser cotada, e elevou a sua massificação. Já não bastava ter mudado, nesta década, a forma como os jovens se exprimiam nas redes sociais, em 2016, decidiu mudar tudo outra vez quando copiou ao rival Snapchat o conceito de stories: as imagens ou vídeos que se apagam em 24 horas (ao contrário das partilhas tradicionais)e que aparecem na parte de cima da app. Agora, o scroll não se faz só de cima para baixo, também se faz para o lado e as stories entraram de vez no vocabulário de qualquer millennial ou geração Z.

Em junho de 2018, o Instagram ultrapassou a fasquia de mil milhões utilizadores ativos mensais no mundo. Destes, cerca de 500 milhões utilizam as stories diariamente.

“Conhecemo-nos no Tinder”

Conhecer pessoas pela internet não é um fenómeno desta década, é coisa que arrebata corações desde há décadas anteriores, mas foi com o Tinder, a partir de 2012, que o fenómeno das dating apps entrou oficialmente para a contabilidade das relações. O swipe left (deslizar com o dedo para a esquerda para dizer que não temos interesse naquela pessoa) e o swipe right (deslizar com o dedo para a direita para dizer que temos interesse) ditaram o futuro de muitas relações modernas. Se na primeira opção eliminamos as hipóteses de contacto com a pessoa do lado de lá do ecrã, na segunda abrimos a possibilidade de receber a notificação “It’s a Match” e de conversar com o/a escolhido/a.

Agora, quando a pergunta é: “Onde é que se conheceram?”, a resposta pode perfeitamente ser: “No Tinder”. Em julho de 2016, só em Portugal eram feitos 2oo milhões de swipes (ato de deslizar o dedo para mostrar interesse no outro utilizador) por dia.

O Tinder é uma aplicação móvel que tem por objetivo fazer "match" entre os utilizadores, para que possam conversar e conhecer-se

NurPhoto via Getty Images

“Adicionas-me a esse grupo de WhatsApp?”

Encerramos a década saturados de todas as notificações que recebemos dos grupos de WhatsApp em que estamos, mas, há 10 anos, estávamos longe de imaginar que existiria um ícone verde no nosso ecrã, que seria a plataforma de comunicação que utilizaríamos para tudo: conversas de grupo, fazer telefonemas para qualquer país do mundo sem pagar mais por isso, fazer videochamadas ou enviar ficheiros de áudio como quem usa um velho walkie-talkie. Comprado pelo Facebook em 2014 por 19 mil milhões de dólares, as próximas novidades do WhatsApp podem incluir pagamentos com moedas digitais como a Libra — a criptomoeda que a rede social liderada por Mark Zuckerberg quer lançar juntamente com outras organizações. Hoje, é nos grupos de WhatsApp que se trabalha, que se organizam jantares, festas de aniversário ou se põe a conversa em dia. No mundo, existem mais de 1,5 mil milhões de utilizadores mensais ativos. Os telefonemas ficaram para a década passada ou, quiçá, para a anterior.

“Deixa-me só tirar uma selfie”

Foi um dos presentes escondidos dos iPhone e restantes smartphones. Foi em 2008, com o lançamento do primeiro iPhone, que o mercado dos telemóveis viria a mudar para aquilo que conhecemos hoje — e que já inclui modelos com ecrãs dobráveis que custam mais de 2.000 euros. No início, uma das grandes novidades dos novos telefones foi a qualidade das câmaras, que nos permitiam tirar fotografias a nós próprios com a câmara traseira ou frontal com um só toque no ecrã. As selfies renasciam assim para fazer desta década um espelho das nossas vidas, com mais ou menos filtros, e com uma montra privilegiada para exposição futura: as redes sociais. Apesar de o termo ser anterior a esta década, a verdade é que foi com as novas possibilidades que os smartphones trouxeram que o fenómeno se intensificou. E, em 2013, a palavra selfie foi eleita a palavra do ano para o Oxford English Dictionary. No ano seguinte, foi oficialmente incluída no jogo Scrabble.

A Samsung lançou o seu smartphone dobrável em Novembro de 2019. Custa mais de 2 mil euros e não faltam ecrãs para as selfies

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Vou ficar num Airbnb em Paris”

Foi uma mudança que não podíamos prever antes de 2010. Na última década, a gestão das viagens passou a inclui o termo Airbnb nas conversas — “Ficamos num hotel ou num Airbnb?”; “Já reservaste o Airbnb?” “Viste qual era o melhor Arbnb perto do centro?” — e a vida diária dos grandes centros urbanos também — “Vou ter de mudar de casa, porque o meu senhorio quer pôr esta no Airbnb”; “Os meus vizinhos têm o apartamento do lado no Airbnb”; “Vou pôr o quarto no fim de semana para alugar no Airbnb”. A ideia de criar um negócio dedicado ao aluguer de curta duração nasceu em 2008, mas só nos últimos anos se viria a consolidar fortemente a nível global. Portugal não foi exceção. Só em Lisboa, existem mais de 31 mil propriedades para lugar na plataforma e no Porto existem mais de 13 mil, segundo os dados avançados no livro “A Airbnb em Portugal”, coordenado pelo presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos, José Alberto Rio Fernandes, pelos geógrafos Pedro Chamusca e Thiago Mendes e pelo economista Luís Carvalho.

“Paga-me por MbWay”

As dívidas não voltarão a ser as mesmas. Perdemos a conta aos amigos que não chegaram a pagar aquele presente que comprámos a contar com eles, o bilhete para o concerto X ou os copos daquela noite em que ficaram sem dinheiro. Mas desde que a SIBS disponibilizou o MbWay que tudo isto deixou de ser desculpa para não pagar contas. A expressão “paga-me por MbWay” foi das que entrou mais depressa para o vocabulário de fim de década e só há uma coisa que está a travá-la: as comissões que os bancos estão a impôr às transferências que se fazem através de uma app simples e intuitiva. Basta ligar o cartão multibanco a uma conta de MbWay e passa a ser possível fazer transferências interbancárias usando apenas o número de telemóvel. A evolução dos smartphones e da internet proporcionaram uma revolução digital sem igual e não há serviço ou produto que não esteja disponível 24 horas por dia na nossa mão. Pagar sem carteira é o nova forma de consumir com que entramos na próxima década. Qualquer dia, mal usamos dinheiro.

Com o MBWay fazem-se transferências a partir de um número de telemóvel. Para pagamentos, também é possível usar a app

Sean Gallup/Getty Images

As 25 imagens do mundo da moda (sim, falamos das Kardashian também)

Foram dez anos fervilhantes na moda, o que só dificulta a tarefa de resumi-los num número finito de imagens. Das mais irreparáveis perdas aos visuais que marcaram as passadeiras vermelhas, passando pelos mais súbitos fenómenos de estilo e pelas tendências e peças que, inesperadamente, fizeram suspirar uma geração, fazemos o balanço em 25 imagens. Foi a década em que esgotámos expressões como “sportswear” e “oversized” e em que os sinais de retoma económica, ainda que frágeis, foram devidamente celebrados na passerelle. Por outro lado, esta também se abriu às mais diversas causas — feminismo, animais, sustentabilidade e direitos LGBTI. Perdemos Alexander McQueen, Sonia Rykiel, Hubert de Givenchy e, mais recentemente, Karl Lagerfeld. O mundo sentiu o efeito Meghan Markle e dividiu atenções entre o vestido de carne de Lady Gaga e o naked dress de Rihanna. Bem vistas as coisas, se for para eleger um sobrenome não há grande margem para dúvidas — com o final de 2019, despedimo-nos da década Kardashian.

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Na família real britânica, casamentos e escândalos (claro)

Foi uma década agitada, com casamentos cheios de pompa e nascimentos que trouxeram à família real britânica uma nova geração, incluindo os príncipes George e Archie. Uma década de “mudanças sísmicas” e de “altos e baixos” que, a julgar pelos últimos meses, pode não deixar muitas saudades. O escândalo protagonizado pelo príncipe André está longe do fim, ele que é acusado de abusar sexualmente de Virginia Guiffre, uma das alegadas vítimas do milionário Jeffrey Epstein. À dolorosa entrevista de André à BBC, onde apresentou um álibi muito questionável, seguiu-se o abandono das funções públicas para bem da reputação da família real britânica. Mas a década que passou, na qual assistimos aos casamentos dos príncipes William e Harry, é também a década de Meghan Markle, a ex-atriz norte-americana e divorciada que em 2011 fazia parte do elenco da série “Suits” e que, quase a chegar a 2020, acumula os títulos de duquesa de Sussex, mulher do filho mais novo de Diana, a princesa do povo, e mãe do pequeno Archie. A família real britânica pode muito bem ser uma instituição que por cá anda há centenas de anos, mas restam poucas dúvidas de que a década que agora termina trouxe profundas transformações à “Firma”.

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  • A década aos olhos das outras famílias reais: 

A década que agora termina também foi de mudanças e polémicas para as restantes famílias reais. Em 2014, Espanha acolheu um novo rei quando Felipe VI ascendeu ao trono, ele que está casado com a ex-jornalista Leticia Ortiz desde 2004. O pai de duas meninas, Leonor e Sofia, completou 50 anos de vida em janeiro de 2018. Desde que é rei assistiu a várias polémicas: desde as intrigas familiares, protagonizadas sobretudo pelo rei emérito, Juan Carlos, e pela relação tumultuosa da mãe Sofia com a mulher Leticia, aos escândalos de grandes proporções. É exemplo disso o caso Nóos, processo que abalou a Casa Real espanhola e culminou com a condenação, em fevereiro de 2017, do marido da infanta Cristina. Iñaki Urdangarin, o cunhado do rei, foi condenado a uma pena de prisão de seis anos e três meses — o caso arrancou em 2006, mas só em 2011 começou a ser investigado pelas autoridades. Iñaki vai poder passar este Natal com a família.

Em novembro de 2019, Grace Kelly faria 90 anos. Uma data que não passou despercebida à Casa Grimaldi, que partilhou fotografias inéditas da princesa na companhia dos três filhos, incluindo Alberto II. Apesar deste ser o príncipe soberano do principado do Mónaco desde 2005, foi apenas em 2011 que casou com Charlene Wittstock, ex-nadadora olímpica e professora oriunda da África do Sul. Os dois são pais de Gabriela e Jaime, ambos nascidos a 10 de dezembro de 2014. O final da década ficou marcado pelo casamento de Carlota Casiraghi, neta de Grace Kelly, com o realizador de cinema Dimitri Rassam.

Noutras partes do mundo é de notar o inesperado casamento do rei da Tailândia com a sua ex-guarda-costas em maio de 2019: a três dias da coroação, o rei tailandês casou com a vice-chefe da sua segurança pessoal. A atual rainha foi em tempos comissária de bordo. Este foi o quarto casamento do rei Maha Vajiralongkorn. No Japão, a princesa Ayako casou com Kei Moriya em outubro de 2018, tornando-se, assim, na última mulher a abandonar a Família Real Imperial. Em maio de 2019 Naruhito, de 59 anos, ascendeu ao trono numa cerimónia de apenas cinco minutos.

Dois vídeos para chamarmos a troika

Sócrates anuncia acordo com a troika…

Portugal entrou no radar dos investidores ainda em 2010, depois de ter sido identificado um grave problema com as contas gregas. Até março de 2011, os juros da dívida no mercado secundário dispararam e Portugal, como outros países do Sul da Europa, pagava valores exorbitantes para financiar a dívida.

Quatro semanas antes do pedido de resgate, José Sócrates viu chumbado no Parlamento o PEC IV — que trazia mais austeridade negociada com Bruxelas. Foi a gota de água. A partir daí, as agências rating continuaram a descer a nota de Portugal, colocando-o na categoria de lixo, e os custos de financiamento da dívida dispararam ainda mais, tornando insustentável a situação financeira do país.

Perante a resistência de José Sócrates, que queria evitar a todo o custo o pedido de assistência financeira, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos — que discordava do primeiro-ministro —, deu uma entrevista em que reconheceu que era inevitável. Nesse mesmo dia, 6 de abril de 2011, José Sócrates comunicava finalmente a decisão de recorrer a um resgate da Comissão Europeia, do FMI e do BCE. A rroika entrava em Portugal.

… mas, minutos antes, ainda decidia para que câmara falar.

Às 20h00 em ponto, José Sócrates entra na sala onde fará uma importante comunicação ao país. De gravata, mas sem casaco. Vai começar, pensou a TVI: “Vamos em direto para São Bento, vai falar o primeiro-ministro José Sócrates”.

E o primeiro-ministro começou: “Ó Luís, vê lá na… se… como é que fico a olhar para os… Assim fica melhor ou fica melhor assim?”. Era apenas um teste, apanhado sem querer em direto. José Sócrates sentiu a necessidade de verificar as condições de som e de iluminação, com a ajuda do assessor Luís Bernardo. Mais de meia hora depois, aí sim, seria feito o anúncio do resgate.

O preço das casas a subir. E subir. E subir

O carro mais vendido no início da década? O Renault Mégane

Ao contrário do que é habitual desde 2013, em que é o pequeno e barato Renault Clio o modelo mais procurado pelos condutores portugueses, em 2010 era outro Renault, no caso o Mégane, que conquistava a preferência dos consumidores. O princípio da década foi mesmo um dos poucos períodos em que o líder do mercado nacional foi um modelo do segmento C, ou seja, um automóvel maior, mais habitável e mais caro do que os representantes do segmento B, que agora lideram as vendas.

Lançado em 1996, o Megane (nas suas várias versões) foi o carro mais vendido em Portugal nos anos de 2007, 2009, 2010, 2011 e 2012. Até hoje já se venderam 175 mil.

Outra curiosidade desta incursão pelo baú da história tem a ver com a motorização preferida dos portugueses em 2010, com a versão mais procurada do Mégane a recorrer a um motor turbodiesel, mais precisamente o 1.5 dCi. Este estava longe de ser o mais acessível da gama, posição que tradicionalmente pertencia aos motores a gasolina, também eles mais em conta, apesar dos consumos mais elevados.

2010 foi o último ano “em grande”, antes da crise que viria a afectar o sector automóvel. Nesse ano, comercializaram-se 269 mil veículos, valor que cairia 30% em 2011 e mais 40,9% em 2012, tendo vindo a recuperar desde então. Curiosamente, ao que tudo indica, venderam-se tantos veículos novos em 2010 como os que se vão transaccionar em 2019. É notável que há uma década o Mégane tenha liderado com 14.434 unidades, não se esperando que o Clio, que vai ser o modelo mais vendido este ano, ultrapasse em muito as 11.000 unidades. Um reflexo da crescente concorrência dos pequenos SUV.

Mais duas frases que não faziam sentido no início da década e que agora dizemos

“Vou pôr a minha casa no Alojamento Local”

A figura do “alojamento local” até nasceu em 2008, mas só em 2014 surgiu a legislação que veio regular a prestação de serviços de alojamento temporário em estabelecimentos que não são, exatamente, hotéis ou pensões. Foi uma lei feita para “enquadrar uma série de realidades que ofereciam serviços de alojamento a turistas sem qualquer formalismo e à margem da lei”.

À boleia do “boom” turístico e da crescente notoriedade turística das cidades portuguesas, sobretudo Lisboa e Porto, o alojamento local teve um crescimento exponencial nos anos seguintes. Em 2014 foram registados cerca de 4 mil negócios, em 2015 mais de 9 mil, em 2016 mais de 10 mil, em 2017 quase 18 mil e em 2018 quase 25 mil. Estes são números brutos, que não contam com as desistências que já houve entretanto mas, mesmo assim, só neste ano de 2019 se começou a ver um abrandamento do ritmo de novos registos.

Uma associação do setor — a ALEP — reconhece que se antecipam “grandes mudanças” no alojamento local, admitindo “potenciais barreiras que possam vir a ser criadas”. Algumas delas podem estar na proposta de Orçamento do Estado para 2020 — está em cima da mesa agravar a tributação dos rendimentos nas chamadas “zonas de contenção” (os centros históricos com maior procura). O Governo vai lançar, também, incentivos a retirar casas do alojamento local e levá-las para o arrendamento tradicional.

“Vou apanhar o metro para o aeroporto”

Durante anos, os poderes públicos deixaram de lado a expansão do metro até à Portela porque o aeroporto ia mudar de sítio. Mas em 2003, com o Governo de Durão Barroso, o ministro das Obras Públicas Valente de Oliveira decidiu avançar na lógica de que, mesmo sem aeroporto, o local seria sempre um pólo de atração de passageiros.

A opção de percurso não foi a mais evidente, em vez de se esticar a linha verde, fez-se a expansão da linha vermelha a partir da Gare do Oriente, com o argumento de que assim seria possível levantar fundos europeus para financiar o investimento. As obras demoraram seis anos e custaram mais de 200 milhões de euros. O metro para o aeroporto foi inaugurado em julho de 2012. Dois anos mais tarde, sai uma auditoria do Tribunal de Contas a denunciar derrapagens financeiras e temporais na execução da obra. Em sete anos foram transportados quase 30 milhões de pessoas.

A queda dos três Donos Disto Tudo

Não é exagerado dizer que Ricardo Salgado, José Sócrates e Zeinal Bava eram os portugueses mais influentes e poderosos em 2010. Agora, os três esperam por decisões da Justiça que os podem condenar a penas de prisão.

Ricardo Salgado

Ricardo Salgado

Em 2010. A pesar de o comandante António Ricciardi ser o presidente do secretíssimo Conselho Superior do Grupo Espírito Santo (GES), era Ricardo  Salgado o líder de facto da família. Não era por acaso, aliás, que era apelidado de Dono Disto Tudo. Salgado era o presidente executivo do Banco Espírito Santo (BES) e comandava operacionalmente a complexa estrutura do Grupo Espírito Santo presente nos principais setores da economia nacional, mas também na Suíça, Luxemburgo, Brasil, Angola, Estados Unidos, Venezuela ou Dubai.

Em 2019. Dez anos depois, as principais holdings do GES faliram, a família Espírito Santo perdeu o controlo do BES e Ricardo Salgado foi constituído arguido por crimes graves como corrupção ativa, fraude fiscal e branqueamento na Operação Marquês e no caso EDP, além de lhe ser imputada a responsabilidade pela derrocada do GES no caso do Universo Espírito Santo. O poder de Salgado desvaneceu-se.

José Sócrates

José Sócrates

Em 2010. Quase se pode dizer o mesmo de José Sócrates que de Ricardo Salgado. É verdade que o auge do seu poder como primeiro-ministro foi atingido durante o seu primeiro mandato. Em 2010 já tinha perdido a maioria absoluta e, contrariando as promessas de mundos e fundos feitas durante as legislativas de 2009, já tinha inaugurado o período de austeridade com os famosos PEC – Programa de Estabilidade e Crescimento. Apesar de o Lehman Brothers ter falido em 2008 e de a crise do subprime ter começado a contaminar a Zona Euro ainda em 2009, Sócrates só descobriu que o mundo mudou em março de 2010, quando apresentou o PEC I na Assembleia da República.

Em 2019. Mais do que um mundo novo, Sócrates vive hoje num universo completamente diferente. Foi preso durante 10 meses e acusado de se ter deixado corromper desde o primeiro dia em que entrou em São Bento, entregou o cartão de militante do PS, confessou publicamente que sempre viveu à custa da mãe e dos supostos empréstimos do seu amigo e alegado testa-de-ferro Carlos Santos Silva e vive na Ericeira numa casa emprestada pelo seu primo José Paulo Pinto de Sousa — o segundo dos seus alegados testas-de-ferro.

Zeinal Bava

Zeinal Bava

Em 2010. Também passou do céu ao inferno. No início da década, liderava a maior empresa portuguesa (a Portugal Telecom), recebia prémios do melhor chief executive officer de telecomunicações da Europa e era unanimemente reconhecido como um génio da ciência empresarial. O caso TVI (em que a PT aparecia como ponta-de-lança do Governo de Sócrates para controlar a estação televisiva que mais escrutinava o primeiro-ministro) foi o primeiro sinal. Mas o negócio da venda da moderna Vivo e a compra da falida e ultrapassada Oi em 2010, sob os auspícios da dupla Sócrates/Salgado, acabou mesmo por o derrubar.

Em 2019. Hoje vive um exílio dourado em Londres, onde trabalha como consultor, mas foi acusado em Portugal dos crimes de corrupção passiva, fraude fiscal e branqueamento de capitais por ter recebido cerca de 18,5 milhões de euros entre janeiro e setembro de 2011 como alegada contrapartida pelos investimentos da PT em títulos de dívida do GES — que vieram a estar na origem numa perda de cerca de 900 milhões de euros por parte da PT e uma revisão profunda do acordo de fusão com a Oi. Além do Ministério Público, Bava tem ainda problemas com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e o seu antigo patrão (a Pharol, antiga PT, SGPS) colocou-lhe uma ação cível onde lhe pede e a outros ex-gestores da PT uma indemnização superior a mil milhões de euros.

“É feriado hoje car****!”, gritou Éder ao microfone

Portugal conseguiu a primeira grande vitória internacional de seniores após vencer a França na final do Europeu de 2016 com um golo do improvável Éder no prolongamento

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A polémica chegada do VAR

Golo? Calma aí, deixa lá ver o que diz o VAR antes de estares a mandar foguetes!

Primeira estranhou-se, depois entranhou-se mas ainda há vozes que consideram ser a morte do desporto através da tecnologia. O sistema de VAR (Video Assistant Referee ou Árbitro Assistente de Vídeo) foi daquelas evoluções que todos pensavam estar restritas a modalidades como o ténis – e o Olho de Falcão – mas que, após experiências noutras ligas e torneios, acabou por tornar-se uma ferramenta transversal às principais competições europeias e mundiais de clubes e seleções. Ainda assim, convém sempre recordar que não anula por completo o erro humano, até por poder apenas atuar em quatro situações específicas: golo ou não golo; penálti ou não penálti; identificação errado de jogador admoestado; e lances que configurem gravidade para haver cartão vermelho direto.

Um clube em crise: o ataque a Alcochete e a queda de Bruno de Carvalho

A 15 de maio de 2018, no seguimento de uma derrota na Madeira frente ao Marítimo que custou o segundo lugar e consequente apuramento para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, um grupo de 43 homens de cara tapada invadiu a Academia do Sporting, em Alcochete, e espalhou o terror no balneário da equipa entre agressões e ameaças a jogadores, técnicos e restante staff. No mês seguinte, Bruno de Carvalho foi destituído da presidência do clube pelos sócios (sendo posteriormente suspenso e expulso de sócio). Em novembro desse ano, 44 pessoas, incluindo o ex-líder verde e branco, foram acusadas de vários crimes.

Os recordes de Ronaldo (que ainda estão a contar…)

  • Jogador com mais golos marcados em jogos do Mundial de Clubes (sete)
  • Único jogador que ganhou Campeonato, Taça, Supertaça, Liga dos Campeões, Mundial de Clubes, Bota de Ouro e Bola de Ouro no mesmo ano por dois clubes diferentes (Manchester United e Real Madrid)
  • Único jogador a marcar um total de mais de 50 golos em sete anos civis
  • Jogador com mais golos numa só edição da Liga dos Campeões (17)
  • Melhor marcador de sempre de uma seleção europeia (99)
  • Jogador com mais golos marcados em competições da UEFA (169)
  • Jogador mais velho de sempre a marcar um hat-trick na Liga dos Campeões (34 anos e 35 dias)
  • Melhor marcador da história do Real Madrid (450 golos)
  • Jogador com mais internacionalizações (164), golos (99) e hat-tricks (nove) pela Seleção Nacional
  • Jogador mais velho de sempre a marcar um hat-trick na fase final de um Mundial (33 anos e 130 dias)

O homem já corre a maratona em menos de duas horas

Ao contrário do que se antevia, Usain Bolt não conseguiu baixar o recorde mundial dos 100 metros dos 9,58, o que provou que aquela noite de 16 de agosto de 2009 em Berlim funcionou como uma espécie de conjugação cósmica para o jamaicano desafiar a lei da probabilidade e estabelecer uma marca que apenas poderá ser ultrapassada em pormenores como a saída ou os últimos 10/20 metros – sendo que antes é necessário que apareça alguém com a sua morfologia que permita fazer a distância em 41 passos e não 43/44 como os demais concorrentes. O homem não conseguiu ser rápido, o homem tornou-se mais resistente: em termos oficiais, Eliud Kipchoge conseguiu baixar 2.20 minutos a marca que existia no início da década com o etíope Haile Gebrselassie; em termos oficiosos, o queniano tornou-se o primeiro a fazer a maratona em menos de duas horas (1.59.40) numa corrida feita em Viena com inúmeras lebres e um carro corta-vento, entre outros pormenores preparados para fazer história.

Ditadores, revoluções, conflitos e terrorismo

Do início da Primavera Árabe em 2010, à viragem política na América Latina no final da década, em 10 anos, assistimos à queda de ditadores — e ao nascimento de outros —, ficámos a saber de grandes segredos pela voz de whistleblowers, vimos morrer milhares de pessoas por causa da crise dos refugiados, enquanto crescia o euroceticismo na Europa e se afirmavam potências como a China.

Viaje pelo mapa para recordar alguns dos acontecimentos da década pelo mundo.

Os privados chegam à exploração espacial

Os Estados Unidos esfriaram o monopólio do espaço e passaram a dividir atenções, não com outros agências governamentais, mas sobretudo com empresas privadas. Houve quem temesse uma Guerra Fria 2.0, mas as parcerias entre a NASA, a Roscosmos e a SpaceX, detida por Elon Musk, mostrou-se mais proveitosa do que intimidante para os avanços científicos e tecnológicos. Com os conhecimentos das agências governamentais e a capacidade de investimento do mercado privado, ir ao espaço ficou mais barato. Na era pré-SpaceX, um lugar no foguetão russo Soyuz chegou a custar 82 milhões de dólares. Elon Musk promete baixar esse preço em 24 milhões de dólares. Só falta colocar o Crew Dragon no ar.

Quem é o rei da exploração espacial? “Ou a NASA investe ou a China vai passá-la à frente”

Pelo infinito e mais além…

Depois de Barack Obama ter anunciado, em fevereiro de 2010, que tinha cancelado os planos da NASA para regressar à Lua, quem diria que no fim da década se estaria a pensar nela como mera estação de serviço para seguir até Marte. O caminho é longo, mas há uma promessa pelo caminho: alunar uma vez mais em 2024 com o programa Artemis da NASA — ou talvez antes, se a teimosia de Elon Musk se mantiver. Mas com um novo país na corrida: a China, que do sossego dos laboratórios já chegou ao lado oculto da Lua.

Porque é que todos querem ir a Marte? A história e os detalhes da nova corrida espacial

… Não, muito mais além

Após a longa viagem até às profundezas do Sistema Solar, duas sondas espaciais humanas saíram pela primeira vez da zona de influência gravítica da nossa estrela e estão oficialmente em espaço interestelar. A Voyager 1 fê-lo em 2012, levando a bordo um disco dourado com mensagens encriptadas da civilização humana, para o caso de alguma forma de vida inteligente se cruzar com ele. A Voyager 2 também saiu do Sistema Solar este ano, depois de ter enviado para a Terra os dados e fotografias mais precisos de sempre dos quatro planetas gigantes gasosos da nossa vizinhança — Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno.

Carolyn Porco: “Toda a experiência Voyager definiu o que fiz para o resto da minha vida”

Há vida noutros planetas? Talvez

Os anos 10 mudaram também aquilo que sabemos sobre os mundos que nos rodeiam. Descobriu-se água em Marte, um planeta mais complexo do que se julgava em Plutão e,  nos asteroides, pistas para as respostas mais ansiadas da humanidade: de onde viemos? Apesar das maravilhas que nos rodeiam, mais do que nunca percebemos quão comum pode ser um planeta como a Terra: os desenvolvimentos científicos permitiram descobrir milhares de planetas fora do Sistema Solar, 17 dos quais estão em órbitas ideais em redor das suas estrelas para poderem albergar vida. Mais: pela primeira vez desde que há registos, observámos dois corpos celestes interestelares — um em 2017 e outro ainda este ano.

Oumuamua: um ‘charuto’ interespacial, uma nave extraterrestre ou um negócio milionário? Perguntámos aos astrónomos

Cem anos depois, o regresso do avô Einstein

Foi preciso esperar um século, mas só ao longo desta década voltamos a ter duas novas provas, uma delas tão rebuscada quanto revolucionária, de que Albert Einstein, nesta mesma década do século XX, estava cheio de razão. A década que agora termina ficou marcada pela deteção de ondas gravitacionais — perturbações no espaço e no tempo que a colisão entre dois colossos espaciais, como dois buracos negros ou estrelas de neutrões, provocam. Já no último ano da década, obteve-se também a primeira fotografia de um buraco negro em ação. Vimos o invisível. E o que muitos julgavam impossível.

A imagem mostra a luz a ser consumida por um buraco negro.

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Oiça: som de buracos negros a colidirem prova Teoria da Relatividade Geral

O mundo microscópico

A edição genética chegou a um nível de sofisticação capaz de curar doenças genéticas incapacitantes com um mero par de tesouras microscópicas. Esse é o lado bom do CRISPR-Cas9, mas o lado negro — que levou um cientista chinês a criar mutações em duas crianças para as tornar imunes ao vírus da sida, mas que lhes pode ter provocado problemas cerebrais — levou a comunidade científica a sublinhar a importância de um debate ético sobre o tema. A possibilidade de bebés-proveta é mais real do que nunca. Além disso, na busca pela cura de doenças até agora irreparáveis, os cientistas aprenderam a usar células estaminais para desenvolver órgãos e embriões artificiais em laboratório.

De fazer bebés à medida a outras polémicas da edição genética (mas também coisas boas)

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