7 dias e 7 noites de “uma cabidela”. Como os motoristas se manifestaram em Matosinhos /premium

20 Agosto 2019

Em Leça da Palmeira não foi acionada a requisição civil, não houve visitas de políticos nem por lá passou Pardal Henriques. Mas houve bifanas, tendas para dormir e ameaças de "uma cabidela".

O cheiro a mar é típico de Leça da Palmeira. Afinal, aquela freguesia de Matosinhos vive paredes meias com o oceano. Mas na rua Dom Marcos da Cruz, o cheiro do peixe na lota mistura-se com o da gasolina. É uma rua estreita, de largura fina demais para dois camiões cisterna se acomodarem lado a lado. O espaço que tem de comprimento, numa das faces, está quase todo dedicado à refinaria de Matosinhos, uma das duas únicas do país.

Descampado e com poucas casas à volta, é ali que dezenas de motoristas trazem diariamente – e logo pela madrugada – camiões cisterna para carregar com todos os tipos de combustível que habitualmente vemos nas gasolineiras. Os trabalhos começam cedo. Muitas vezes, logo à meia noite há fila na estrada estreita. E ela repete-se às três, às quatro, às cinco da manhã. Eles trabalham enquanto nós dormimos. É sempre assim; a menos que decidam fazer greve.

À meia-noite do primeiro dia de greve, a cancela abriu rotineiramente mas não havia camiões para entrar. Durante toda a semana de paralisação o cenário manteve-se: alguns (não muitos) motoristas de matérias perigosas concentravam-se do lado de lá da entrada, separados da estrada por uma cerca de ferro com fitas brancas da PSP. Dois metros separavam a cerca de um passeio que dava para um jardim. Manuel Mendes foi quem, mesmo antes da meia noite, armou a tenda.

O sentido é literal. O representante sindical do norte quis com o gesto dizer que não ia arredar pé; e dar o exemplo. Lá dormiu quatro das sete noites. A quem lá se deitasse num cochilo pedia, a brincar, “um euro por hora”.

Muitas vezes Manuel foi a voz dos colegas. Não sabe já fazer as contas ao número de vezes que entrou em direto para a rádio e para a televisão. Andava com um colete refletor cor-de-laranja, com “coordenador” escrito nas costas, de um lado para o outro, atarefadamente a falar com este e com aquele. Às vezes, convocava reunião: “Agora não posso, menina. Preciso de falar com os outros e não quero que você oiça”. Era quando os grevistas do norte recebiam informações e ordens de Aveiras.

Depois de concluir a tropa, Manuel foi construtor civil em Paris. Quando decidiu voltar, pelas filhas e pelo país, entrou logo na Transportes Nogueira. Passou 27 dos 56 anos de vida a conduzir camiões cisterna. Em frente à entrada da refinaria Petrogal de Leça da Palmeira, é perentório: se cumprir apenas as oito horas de trabalho, “não perco dinheiro. Só ganho dinheiro, tempo e saúde”.

Uma das maiores reivindicações dos motoristas era a anulação da cláusula 61, implementada em setembro do ano passado com o novo contrato coletivo de trabalho. Esta cláusula engloba o pagamento de duas horas a mais de trabalho, o que, no caso de Manuel, se reflete em 343 euros a mais por mês. A remuneração difere da que era feita anteriormente, paga à hora extra e sem limite de horas. Esta cláusula veio confundir as contas, mas para Manuel “embora eles digam que vem cobrir trabalho extraordinário, isso é falso”.

As empresas elaboraram propositadamente esse contrato com a ANTRAM para fugir ao fisco e para enganar os motoristas. Estão-se a servir desse complemento para pagar trabalho extraordinário. A cláusula 61 é um suplemento ao trabalho de oito horas. Não cobre horas extraordinárias.
Manuel Mendes, coordenador sindical

Manuel garante ao Observador que, se trabalhar oito horas, recebe o mesmo do que se trabalhar quinze horas. E é demasiado habitual para estes motoristas superar as oito horas diárias. Por norma, não menos de doze são passadas de botas de biqueira de aço, óculos e luvas de proteção, peças essenciais do EPI – equipamento de proteção e segurança. Por isso Manuel reitera: “Os motoristas que nós temos não chegam para fazer o serviço, se cumprirem apenas as oito horas”.

Estávamos ainda no primeiro dia de greve e, com o incumprimento dos serviços mínimos a sul e no centro, ativou-se a requisição civil. A greve foi mais esvaziada ainda. No norte, os ânimos iniciais esbateram-se e ficou notória a falta de esperança nutrida pelo plano B.

Da “bomba-relógio” da caldeirada, à preparação de uma cabidela

Um camião cisterna pode pesar quarenta toneladas. Dessas, cerca de 34 são de combustível. Luís Cunha fala-nos com o telefone em alta voz enquanto leva carga a São João da Madeira, a terra do ministro Pedro Nuno Santos. Atrás da cabine, o camião tem seis tanques, com tamanhos e capacidades diferentes para cargas diferentes. A gasolina 98 não é igual à 95 e o gasóleo aditivado não é igual ao simples.

“E entre gasolinas 95 de várias gasolineiras, por exemplo, é verdade que há diferenças?”, ouve-se um jornalista a perguntar. “Não. Os preços só dependem da marca e dos aditivos que eles lhes põem”, responde um motorista, com a naturalidade de quem sabe a matéria de trás para a frente.

Os que não fazem greve vão passando para dentro da refinaria e recebendo assobios. Os que cumprem serviços mínimos fazem o mesmo percurso mas são vangloriados com palmas. Um deles é Vergílio Oliveira. De sorriso direito e branco, típico de anúncio a uma qualquer pasta de dentes, pára o camião em frente aos grevistas e iça uma folha A4 que diz, em letras garrafais Time New Roman: “Estou em greve e sou obrigado a trabalhar”, seguido de um emoji a chorar.

Natural de Barcelos, também Luís passou os últimos sete dias e sete noites na estrada que só conhece para trabalhar (e não para dormir). As horas em que esteve ausente foram aquelas em que cumpriu serviços mínimos. Em 34 anos, há 11 que passa a vida a conduzir. Primeiro agarrou-se às “cargas gerais”, depois foi levá-las além fronteiras – “Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Holanda, Polónia, Itália…” – e há seis anos e meio que se meteu nas matérias perigosas porque consegue “dormir praticamente todos os dias em casa”.

“No início, quando entrei, achava muita picuinhice toda a segurança que nós tínhamos, mas hoje em dia valorizo”. Diz que “sempre foi fascinado pela profissão” e por isso, com 22 anos, decidiu tirar a carta. Também ele, de colete verde fluorescente, se prontifica a falar quando Manuel está atarefado.

“Uma das grandes dificuldades deste trabalho é que, quando se vai descarregar, tem de se estar com 50 olhos a olhar para a descarga. Pode-se misturar combustível”. É a famosa caldeirada.

Isso acontece mais do que as pessoas prevêem. Um colega meu aqui há uns tempos fez uma mistura e avariaram 28 carros. Só ao serviço da Galp, no ano passado houve 58 caldeiradas. Dá quase uma por semana.
Luís Cunha, motorista de matérias perigosas

Não é fácil para quem esbarra com um mundo profissional tão distante dos holofotes perceber certas questões picuinhas de uma classe; assim como não é fácil explicá-las para quem não está acostumado a mediatismos. A trocar os v’s pelos b’s, o “mestre” de Guimarães, Manuel Mendes, não se intimidou nas tentativas. E ao terceiro dia de greve, não era de caldeiradas que se falava.

Quando parecia que os militares estavam, a sul, a fazer cumprir os serviços mínimos sem grande prejuízo de carregamentos, a norte as reuniões eram mais e com mais frequência. “Estamos a preparar uma cabidela”, disse apenas Manuel. E ao fechar da noite, o semblante era de novo altivo. Pairava no ar a sensação de que as cartas lançadas no dia seguinte iam fazer virar o jogo.

As febras no assador e as pombas da casa vermelha

A Dom Marcos da Cruz estava mais estreita ainda na manhã do quarto dia de paralisação (ou podemos dizer, na última manhã de esperança de uma greve já esvaziada). Mais de uma dezena de camiões pousava estacionada berma fora, do lado de quem vira à direita para entrar na refinaria. Luís tinha ido cumprir serviços mínimos, mas Manuel estava mais uma vez a comandar as tropas de uma madrugada em sobressalto.

A missão era deixar de cumprir serviços mínimos e, assim, obrigar a que a requisição civil fosse alargada ao norte. Mas se aquelas cinco dezenas de motoristas que por ali pairavam já estavam convencidas, faltava convencer os demais que atravessassem a rua para entrar na refinaria. De coletes fluorescentes, os homens perfilavam-se e combinavam, pela voz de comando de Manuel: “Se entrarem, vamos bater-lhes palmas. Nada de insultos”.

Os camiões passavam, davam meia volta e voltavam atrás. Muitos faziam-no depois de serem obrigados a parar na estrada e a ouvir os colegas. “Esta é uma luta de todos. Não entres”. Alguns arrancavam firmemente rumo à desobediência. “Se o barco for ao fundo, vamos todos. E eu não sei nadar”, ouve-se gritar. E enquanto isso, as brasas começavam a fazer soltar o cheiro a carne assada. Foi logo às oito da manhã que as febras em pão de bico saíam do jardim para as mãos de quem as quisesse provar. E ao longo de todo o dia, foi também essa a ementa que acompanhou o desânimo nos olhos dos motoristas.

O plano falhou. A meio da manhã começaram a entrar camiões escoltados pela polícia para fazer cumprir os serviços mínimos. E no seguimento do dia, quando Manuel, de olhos lacrimejantes, já nem queria falar, houve um olhar de tristeza que saltou à vista. “É frustrante”, acaba a dizer Rodrigo, nome fictício. Com 30 anos, representa uma minoria de motoristas mais novos ali a manifestar-se. Está a contrato apenas há meio ano e por isso tem medo de represálias, mas confessa: “Acaba por ser frustrante porque acompanho estes homens e vejo que são explorados. Não quero para mim o que estes homens sofreram”.

Depois de ter trabalhado na rede de transportes expressos, em que “uma pessoa pode entrar às seis da manhã e ter 70 ou 80 encomendas para entregar até ao meio dia”, fartou-se e decidiu tentar as matérias perigosas. Afinal, é algo de que sempre gostou. Mas agora apercebeu-se de que “o desgaste não é tão físico, mas é um desgaste psicológico muito grande”. “Eu limito-me a fazer férias e a tapar buracos”. Para além disso, troca todos os dias de camião. “Como costumo dizer, tenho de andar sempre com a mobília trás de mim”. Fica a mobília, muda a casa. “É isto a minha vida”. Mas gosta do que faz? “Gosto”.

Também Rodrigo na primeira noite foi de direta cumprir serviços mínimos, à espera que se fizesse a cabidela. Agora o olhar é cabisbaixo e a fala arrastada. “Se eu chegar ao pé do meu chefe, disser que já cumpri as oito horas de serviço e estiver longe de casa, o que ele me diz é: “E o camião não tem gasóleo para vires para cima?”. Apesar de receber 1.200 euros por mês, acredita que o valor não cobre a responsabilidade que traz às costas: quarenta toneladas de uma “bomba-atómica”.

Nos restantes dias de greve, o responsável pelos assados no grelhador ia rodando e o tempo arrastando. Estava instalado o piquenique: sol, jardim e música de fundo. O que não houve foi cabidela.

A paralisação não tinha afetado assim tanto o país como se havia andado a apregoar. A cláusula 61 não foi nem vai ser retirada e agora resta acordar meia dúzia de alíneas. Foi uma greve infrutífera em relação ao esperado. Mas Manuel, aliviado por ter acabado, diz: “Não conseguimos o que queríamos, mas temos na mesma uma grande vitória. Por exemplo, já temos a classificação de motoristas [de matérias perigosas], a questão do subsídio [de 125 euros] que a ANTRAM está disposta a pagar também era coisa que não recebíamos, o subsídio de risco era pago ao dia e passou a ser mensal. Muitas destas coisas são vitórias”.

Uma semana passou e, à noite, continuava o frio típico de uma terra à beira mar. Presa às grades que desde o início da noite de domingo separaram o passeio – que se fez zona de protestos – da estrada por onde passam os camiões cisterna, está a folha A4 escrita a Times New Roman de Vergílio; e o emoji a chorar.

Ninguém reparou, mas durante os sete dias estiveram também presos alguns pombos numa varanda de uma casa vermelha torta, que se evidenciava sem querer perto do grelhador. Viram os coletes refletores dos motoristas, sentiram o cheiro a carne assada, a gasolina e continuaram ali.

A Dom Marcos da Cruz é paralela à linha do mar. Há menos de dois quilómetros a separar o asfalto daquela estrada da areia da praia – ou, se quisermos, cerca de cinco minutos a bordo de um camião cisterna. Mas os camionistas que ali passaram a última semana não quiseram ir ver o mar.

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