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77 fake news sobre o Papa. "Querem que Francisco dê um passo em falso ao defender-se" /premium

Nello Scavo, autor de "Fake Pope", diz em entrevista que o Papa é atacado por motivos políticos, económicos e ideológicos e em todo o mundo. Desmontou 77 fake news sobre Francisco para o provar.

Jornalista de investigação, correspondente de guerra e repórter de justiça desde 2001 no jornal italiano Avvenire, Nello Scavo decidiu investigar o Papa Francisco poucos dias depois de o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio ter sido eleito, em março de 2013. Na altura, vários rumores (só mais tarde começaríamos a chamar-lhes fake news) associavam Bergoglio ao regime ditatorial argentino dos anos 70 e 80 — e Scavo, “chocado”, quis perceber a verdade.

Durante três meses, investigou estas informações e desse trabalho surgiu o livro A Lista de Bergoglio — Os que foram salvos por Francisco durante a ditadura (Paulinas, 2013). Afinal, o futuro Papa não havia colaborado com a Junta Militar, antes tinha trabalhado infiltrado para salvar vítimas do regime opressor. Foi a primeira fake news de que Francisco foi alvo, num processo que se repetiria vezes sem conta.

Seis anos depois da primeira investigação, Nello Scavo foi mais longe e publicou um novo livro, a meias com Roberto Beretta. Fake Pope — As falsas notícias acerca do papa Francisco (Paulinas, 2019), que é apresentado pelo jornalista italiano este domingo na Feira do Livro de Lisboa, reúne 77 notícias falsas publicadas ao longo do pontificado de Francisco e os resultados da investigação que as desmontam — umas vezes de forma evidente, outras de forma mais complexa.

Nello Scavo é jornalista e o autor do livro “Fake Pope — as falsas notícias acerca do papa Francisco”

Em entrevista ao Observador em Lisboa, dias antes da apresentação do livro, Nello Scavo fala sobre o fenómeno das fake news na Igreja Católica, sobre o que torna o Papa Francisco um alvo preferido de difamação, sobre os principais autores das mentiras e sobre a relação dos pontificados com os ataques de informação. O jornalista fala ainda sobre as fontes que consultou para este livro — lembrando como os serviços secretos britânicos recebem todos os dias a homilia matinal do Papa — e sobre a forma como a Igreja se está a adaptar à era digital.

O Papa Francisco tem sido frequente alvo de 'fake news'

Getty Images

Em 2013, pouco depois da eleição de Bergoglio, foi à Argentina para investigar rumores sobre ele. O que é que sabia sobre o Papa Francisco além desses rumores?
Quando ele foi eleito, não fiquei contente, porque havia rumores, tinha fontes na Argentina e na América do Sul que me diziam que ele era um conservador, uma expressão do longo braço do Vaticano na América do Sul… Que era um Papa que não conseguiria mudar nada na Igreja. Por isso, pensava que aquele não era o homem que iria conseguir mudar a Igreja. O que eu pensava, e que ainda penso hoje, é que precisávamos de um homem que conseguisse mudar a Igreja — e se a Igreja mudasse, também o mundo mudaria.

Quais eram as fontes desses rumores?
Alguns padres na Argentina e em Itália, alguns políticos da América do Sul, alguns amigos envolvidos no ativismo de extrema-esquerda… No dia depois da eleição, um jornalista na Argentina escreveu sobre a ligação entre o padre Bergoglio e a Junta Militar [órgão que comandou a ditadura militar argentina entre 1976 e 1983]. Fiquei chocado com isto e comecei a pesquisar todos os documentos à disposição na Internet. Numa noite após a primeira pesquisa, disse para mim mesmo que havia algumas suspeitas, mas não havia provas. Foi este motivo que me levou a investigar.

O que fazia na altura?
Escrevia para o meu jornal atual, o Avvenire, que é um jornal católico, mas generalista, e que é o quarto jornal mais vendido em Itália. Naquela altura, escrevia sobre a máfia, a crise dos refugiados, o terrorismo e a guerra, e era repórter de justiça. Por isso, penso que, de uma forma diferente dos vaticanistas [correspondentes em permanência no Vaticano], tinha os instrumentos para entender os documentos e para fazer perguntas às testemunhas. Após três meses de investigação, escrevi o primeiro artigo sobre o Papa Francisco e a Junta Militar.

E a que conclusões chegou?
Que ele tinha sido vítima de fake news há 40 anos. Porque trabalhou infiltrado e organizou uma rede ilegal para salvar muitas vidas durante a ditadura.

"Há 40 anos ele foi vítima de fake news, uma fake news que resistiu 40 anos"
Nello Scavo

Portanto, estava a proteger as vítimas e não a colaborar com o regime.
Sim, protegeu-as e ajudou-as a escapar. Algumas delas ainda vivem em Itália. Um em particular é jornalista, de um jornal de esquerda em Itália. É meu amigo, chama-se Alfredo Somoza, mas durante quarenta anos o Alfredo não disse uma palavra sobre a sua relação com Bergoglio. Foi muito estranho. Eu descobri a história do meu amigo de Itália em Buenos Aires. Dia a dia, testemunha a testemunha, sobrevivente a sobrevivente… Agora, tenho material para dez livros sobre o Papa Francisco e a Junta Militar. Mas não é esse o meu principal objetivo.

Foi aí que saiu o livro A Lista de Bergoglio — Os que foram salvos por Francisco durante a ditadura?
Sim. Esta é a edição internacional. Há um segundo volume publicado apenas em Itália, mas esta é a investigação original. O segundo livro sobre a lista de Bergoglio é sobre como foi a minha investigação, porque a minha editora em Itália disse-me que, para os leitores, seria interessante descobrir como é que o jornalista trabalhou durante a investigação. Neste livro estão os resultados da investigação e não como o jornalista trabalha para descobrir a verdade.

E este novo livro, Fake Pope, é de alguma forma uma continuação do seu trabalho?
Provavelmente sim e provavelmente não. Sim porque há 40 anos ele foi vítima de fake news, uma fake news que resistiu 40 anos. Quando ele foi eleito, foi acusado de ser parte da Junta Militar. Mas, ao mesmo tempo, é interessante investigar como o Papa Francisco se relaciona com as fake news. E eu penso que é sempre a mesma: ele não as ouve.

Incluiu neste livro mais de 70 histórias falsas sobre o Papa Francisco, mas acredito que, tendo em conta a enorme quantidade de informações falsas que circulam sobre ele, tenha feito escolhas e deixado várias de fora. Como é que fez este livro?
Muitas histórias chegaram-nos pelas redes sociais e nós investigámos a realidade. Por exemplo, uma fake news em que não estava interessado era esta fotografia:

A imagem à esquerda circulou nas redes sociais para associar o Papa Francisco ao Diabo. O frame do vídeo original, à direita, mostra que era montagem

É Photoshop. Não estava interessado porque, para mim, era evidente. Mas quando descobri que havia milhares de pessoas no mundo a partilhar esta fotografia como uma verdade, senti que esta era uma notícia para este livro e precisávamos de uma contra investigação para demonstrar a realidade. Neste caso, é muito fácil demonstrar a realidade. Noutros casos, precisámos de investigação jornalística normal. Por exemplo, sobre como é que determinados poderes financeiros conspiraram contra o Papa, tráfico humano, atores políticos…

Também sobre os abusos sexuais.
Sim, sim. Sobre os abusos sexuais, o Vaticano não foi sempre claro, em todas as condições e em todas as situações, e nós criticamos alguma ambiguidade. Mas, ao mesmo tempo, temos de descrever como é que este Papa melhorou a luta contra os abusos e contra a parte da hierarquia que protegeu os abusadores.

Mesmo tendo histórias relacionadas com assuntos muito diferentes, dos abusos sexuais aos escândalos financeiros, conseguiu encontrar uma fonte comum, principal, para as fake news sobre o Papa Francisco?
É muito difícil. Descobrimos que não há só uma quinta de fake news contra o Papa. Muitos grupos no mundo têm interesse em lutar contra Francisco, por motivos políticos, por motivos económicos…

Também por motivos ideológicos?
Também por motivos ideológicos, sim. Por exemplo, foi interessante para mim descobrir que, nos Estados Unidos, há um think-thank chamado Heartland Institute, cuja missão é investigar e estudar questões de ecologia e ambiente. Alguns estudos deste grupo diziam que o Papa Francisco vai no caminho errado no que diz respeito às alterações climáticas. Quando investiguei sobre este grupo, descobrimos que o Heartland Institute era apoiado em 1 ou 2 milhões de dólares pelo American Enterprise Institute. O AEI é um think-thank do capitalismo e, nessa altura, o presidente era o Dick Cheney e a diretora era a Lynne Cheney, mulher do Dick Cheney, que era a CEO de várias indústrias de armas importantes a nível mundial. Por isso, a pergunta é: como é que o American Enterprise Institute financia com milhares de dólares uma investigação contra o Papa Francisco? Ao mesmo tempo, há outros grupos, apoiados pelo Tea Party, pela extrema-direita. Conhece o papel de Steve Bannon hoje. Recentemente, descobrimos — não está neste livro, porque descobrimos isto na semana passada, em Itália — que o think-thank de Steve Bannon e do cardeal [Raymond] Burke em Itália apresentaram à banca italiana garantias de bancos de Gibraltar para obter linhas de crédito em Itália. Descobrimos que o presidente do banco de Gibraltar disse que estes documentos de Steve Bannon são todos fraudulentos. É um fraude. E este think-thank trabalha contra o Papa Francisco. Isto mostra que há grupos diferentes com o mesmo alvo.

Também de grupos católicos tradicionalistas, encontrou provas sobre estes grupos?
Sim, o cardeal Burke é uma prova disso, mas não apenas o cardeal Burke. Por exemplo, quando o Papa fala da família… O Papa Francisco é muito conservador relativamente aos valores, mas ao mesmo tempo pede tolerância à Igreja. Quando um bispo encontra uma família em dificuldades, temos de ir perguntar aos Evangelhos e não apenas às regras. E, por este motivo, na semana passada, o Papa Francisco perguntou aos bispos italianos porque é a reforma do tribunal eclesiástico da família parou há quatro anos. Isto mostra que, às vezes, a mensagem do Papa Francisco pode perder-se dentro da própria Igreja.

"Mas foi muito interessante descobrir, por um agente do MI6, que todas as manhãs o diretor do serviço secreto pede à delegação em Itália que envie para Londres o que o Papa Francisco disse na missa da manhã, na capela de Santa Marta"
Nello Scavo

Que outras fontes consultou?
Jornalistas, por exemplo, mas também membros do MI6, em Londres. O mesmo em Itália e também documentos da CIA. Mas foi muito interessante descobrir, por um agente do MI6, que todas as manhãs o diretor do serviço secreto pede à delegação em Itália que envie para Londres o que o Papa Francisco disse na missa da manhã, na capela de Santa Marta. Provavelmente, vários observatórios no mundo, serviços secretos, o Departamento de Estado nos EUA, entendem que a mensagem do Papa Francisco não é apenas uma mensagem espiritual para a Igreja.

É uma mensagem política.
Sim.

E falou com um agente do MI6?
Sim, em Londres.

Parece-lhe que qualquer Papa que reinasse durante este período seria alvo de fake news ou é o Papa Francisco que é mais apetecível para atrair notícias falsas contra ele?
Penso que o Papa Francisco não é o alvo principal da quinta das fake news. Mas vive na era das redes sociais. Por exemplo, quando o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II foi muito criticado por isto. Mas, naquela altura, só havia os jornais, a televisão e a rádio.

Se houvesse Facebook nos anos 60…
Provavelmente, João XXIII, na era do Facebook, seria mais atacado do que Francisco. Porque o Concílio foi uma oportunidade para a revolução dentro da Igreja. Francisco é um grande reformador, mas numa revolução lenta. Ele pede uma mudança de mentalidades. Não pede apenas uma mudança na estrutura. Se ele quisesse mudar a hierarquia da Igreja, era fácil. Ele é o chefe, tem poder absoluto e pode mudar a Igreja num dia. Mas isso não é a mudança real, porque precisamos de uma mudança de mentalidades. Por isso, o Papa pode errar às vezes, mas apenas para encontrar o melhor caminho para a sua mensagem.

De acordo com alguns grupos mais tradicionalistas, ele tem estado em erro várias vezes… Qual é que é o principal objetivo das fake news contra o Papa Francisco? Ou qual é o principal objetivo das próprias fake news?
Penso que o principal objetivo não é destruir a pessoa de Bergoglio, mas destruir a mensagem. Se bem se lembra, uma das principais fake news sobre o Papa Francisco foi a de que ele tinha um cancro cerebral. Quando um jornal italiano publicou esta notícia, foi óbvio para toda a gente que era totalmente falso. A história e as provas era muito frágeis.

"Provavelmente, João XXIII, na era do Facebook, seria mais atacado do que Francisco. Porque o Concílio foi uma oportunidade para a revolução dentro da Igreja. Francisco é um grande reformador, mas numa revolução lenta. Ele pede uma mudança de mentalidades. Não pede apenas uma mudança na estrutura"
Nello Scavo

Foi publicado por um jornal sério?
Sim, um jornal nacional em Itália. Dizia que o Papa Francisco tinha um cancro cerebral, que um helicóptero com especialistas médicos tinha chegado ao Vaticano, e tinha detalhes sobre o helicóptero, de onde tinha partido, quando tinha chegado ao Vaticano… Mas quando perguntámos às autoridades italianas pelo voo, descobrimos que nenhum helicóptero tinha chegado ao Vaticano naqueles dias — e aquele helicóptero em particular, naquele dia em específico, estava noutro lugar de Itália. Alguns dias depois, este jornal admitiu o erro. Mas, se pesquisar no Google “Papa Francisco cancro cerebral”, é preciso ler pessoas que dizem “então, mas esta reforma é feita por um Papa com um cancro cerebral?”. A fake news não é propriamente o cancro, como se fosse um cancro no estômago ou outro cancro, mas é o facto de ser no cérebro. Penso que foi uma forma de colocar pressão no Papa Francisco. Mas penso que ele não ouve estas coisas.

Ele ultrapassa sempre as fake news, as críticas, consegue sempre continuar o caminho sem lhes dar atenção?
Penso que a melhor resposta é sair dali e não ouvir. Porque eles querem que o Papa Francisco dê um passo em falso ao defender-se das fake news. Mas não há uma palavra sobre isto por parte do Papa.

Por exemplo, como olhou para a forma como o Papa reagiu à carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, quando no avião disse aos jornalistas para lerem a carta e tirarem as suas próprias conclusões? É representativa da forma como o Papa Francisco lida com todo o tipo de informações confusas sobre ele?
Penso que, neste caso, Francisco pediu aos jornalistas que fossem verdadeiros jornalistas. No avião não havia apenas jornalistas do Vaticano, mas também jornalistas de todo o mundo. A CNN, o Washington Post, o The New York Times… Todos os jornalistas podem investigar sobre isto. Agora, depois da investigação, sabemos que o monsenhor Viganò teve outros problemas além disto. Problemas judiciais em Itália com a herança da família dele, a carta foi escrita com a ajuda de alguns jornalistas ligados a grupos de extrema-direita, muito conservadores… É muito estranho.

E acabou por se concluir que algumas coisas da carta não eram verdade. Classificaria a carta como uma fake news?
Uma fake news muito refinada. Uma das coisas deste livro é que há fake news que são claramente notícias falsas, mas há muitas fake news que são uma mistura entre o verdadeiro e o falso. Quando não entendemos onde está a fronteira entre a verdade e a mentira, pode ser tudo falso e pode ser tudo verdadeiro. Ao mesmo tempo, no caso da carta de Viganò, havia alguma verdade, alguns factos, mas com consequências falsas. É difícil para os fiéis e para os leitores em todo o mundo perceberem onde está a verdade e a mentira.

Porque tudo, no geral, faz sentido?
Sim. E ao mesmo tempo o principal objetivo desta fake news era colocar o Papa sob pressão e obter uma resposta da parte dele. Se o Papa Francisco respondesse a todas as fake news, iria legitimar o autor das mentiras.

Isso é uma questão muito interessante, porque é difícil imaginar uma pessoa com maior capacidade de ter uma voz forte em todo o mundo. O Papa tem acesso ao microfone que quiser e pode responder ao que quiser. Mas nunca responde. Porque é que isto acontece?
Eu sou um jornalista e, para um jornalista, em primeiro lugar, é importante descobrir a verdade. Precisamos de um grande nível de transparência para entender a realidade. Mas, no caso da Igreja, é diferente. O Papa Francisco não é o chefe de uma organização, mas o chefe de uma uma Igreja Católica fundada por Jesus Cristo. É difícil para um jornalista aceitar isto. Para mim, a única regra é que, se alguém é acusado de roubar, se defenda. Que mostre as provas de que é inocente. Mas quando Cristo esteve cara a cara com Pilatos, a resposta foi como a resposta do Papa Francisco hoje perante as fake news. “Tu é que o dizes.” É muito difícil para nós aceitar isto. E, pessoalmente, este livro não é a forma de mostrar aos jornalistas que temos de aceitar esta mentalidade da Igreja. Não. Porque nós temos a oportunidade de investigar. Às vezes é difícil, mas temos a oportunidade de investigar. Mas se esperarmos que o Papa Francisco se apresente como um herói moderno, isso é impossível. Por isso é que temos esta capa. Isto é um mural de um artista em Roma que representa o Papa Francisco como um herói moderno.

A capa de “Fake Pope”, de Nello Scavo e Roberto Beretta, retrata Francisco como um “herói moderno”

Além da forma como a Igreja se relaciona com as fake news, também temos de olhar para o próprio fenómeno das fake news. Nós começámos a criar estas ferramentas que permitem a rápida divulgação de informação a nível mundial, como as redes sociais, há uns 15 anos. Não devíamos ter previsto que algum dia iam ser usadas como arma de disseminação de mentiras?
Algumas fake news neste livro chegaram pela Internet, e algumas investigações sobre as fake news neste livro foram feitas pela Internet. É o mesmo instrumento, mas temos de entender e lembrar, por exemplo, o caso da Cambridge Analytica. As fake news são uma forma moderna de fazer guerra sem armas de guerra convencionais. São uma forma moderna de capturar e de manter o poder. E são uma forma moderna de matar pessoas. De matar pessoas sem um revólver.

E não devíamos ter previsto isto? Quando em 2003, 2004, começou a aparecer o Facebook, depois o Twitter, a disseminação das mentiras a nível mundial não era propriamente uma das nossas prioridades. Será que não fomos cautelosos?
O caso da Cambridge Analytica é fundamental para entender isso. Se através dos cookies sabem que o Nello Scavo se interessa pelos migrantes, na minha timeline aparecem todos os dias notícias sobre migrantes, e o meu nível de interesse pelo assunto aumenta. Isto é manipulação. Na altura, isto foi subestimado, especialmente na Igreja. A hierarquia pensou que os instrumentos mediáticos tradicionais eram os únicos e os melhores para dialogar com as pessoas, com os leitores. Ao mesmo tempo, consideraram que as pessoas tinham a capacidade de entender e separar a verdade e a mentira, o certo e o errado. Mas as fake news são uma oportunidade para a Igreja, porque há 30 ou 40 anos a Igreja era um motor para o pensamento crítico. Mas, hoje, sobretudo nos últimos dez, vinte anos, às vezes ouço bispos a responder às minhas questões complexas com expressões como “isto é o Evangelho, isto são as regras, não há complexidade”. A cada dias, as pessoas perdem a capacidade de ver, de escutar e de entender. O Papa Francisco fala todos os dias sobre o discernimento, e isto é um objetivo fundamental. Ele quer que as pessoas tenham a oportunidade de perceber o que está certo e o que está errado. Como os pais e as crianças. O primeiro passo é mostrar o que é perigoso e o que não é perigoso. Dentro da Igreja, às vezes, sobretudo na velha Europa, perdemos esta capacidade de falar, de dialogar e de expressar o desacordo.

Mas pergunto-me: temos redes sociais há 15 anos, mas as fake news são um fenómeno relativamente recente, dos últimos três, quatro anos. Já tínhamos as ferramentas, mas alguma coisa mudou, talvez na forma como grupos organizados em todo o mundo olham para estas ferramentas e passaram a ver armas. O que é mudou?
Em primeiro lugar, precisamos de uma alfabetização na utilização da Internet e das redes sociais. Temos mais ferramentas, mas mais analfabetos funcionais. Por exemplo, em Itália esse é um dos grandes problemas. Há mais pessoas que têm a capacidade de ler, mas não de entender. Penso que a Igreja pode melhorar o seu papel neste âmbito. As fake news são uma arma não convencional para expandir o poder. Durante as últimas eleições europeias, alguns candidatos em Itália gastaram 100 mil euros por semana só em redes sociais. É estranho que as pessoas não entendam. Durante muitos anos, nós, os jornalistas, achámos que éramos o filtro, o intermediário, o negociador entre a realidade e os leitores. Quando chegou a Internet, este papel mudou. Nós, os jornalistas, especialmente os da imprensa escrita, pensamos que temos a autoridade e as pessoas nos olham como um oráculo para entender a realidade. Mas, hoje, isto mudou definitivamente. Ao mesmo tempo, penso que as pessoas precisam de jornalistas — da imprensa, do online, da televisão — que tenham a capacidade para colocar em relação factos diferentes. Por exemplo, este livro tem diferentes fake news. Percebemos que há uma relação entre fake news. O papel dos jornalistas é observar, descobrir, entender as relações. Porque é que a guerra na Líbia é relevante para a crise dos migrantes na Alemanha? Porque é que o tráfico humano na Turquia é importante para os refugiados em França? Precisamos de jornalistas que tenham a capacidade de ver a questão global e de mostrar ao leitor que a crise na Tunísia, no Mali ou na Nigéria é fundamental para Lisboa. Porque se eu subestimar a forma como o desenvolvimento africano vai acontecer, este problema vira-se contra nós dentro de cinco anos. Isto aconteceu, por exemplo, com a crise na Líbia, e hoje os políticos recusam aceitar que a crise na Líbia é o principal motivo para a crise dos refugiados na Europa.

"As fake news são uma forma moderna de fazer guerra sem armas de guerra convencionais. São uma forma moderna de capturar e de manter o poder. E são uma forma moderna de matar pessoas. De matar pessoas sem um revólver."
Nello Scavo

Parece-lhe então que as fake news também são um resultado da menorização do papel dos jornalistas? Penso, por exemplo, em Donald Trump, que em vez de dar entrevistas aos meios de comunicação social prefere usar o Twitter e falar diretamente com as pessoas, contornando os jornalistas…
Às vezes, sim. Porque há a oportunidade de dizer “esta é a história publicada pelo Nello Scavo, e isto é a realidade”. Então, se isto é a realidade, então a opinião pública vai pensar que o Nello Scavo não é um bom jornalista, porque a realidade é diferente. As fake news destroem o jornalismo e a relação dos leitores com os jornalistas. Mas penso que no próximo ano poderá haver um boomerang para a quinta das fake news. Porque penso que as pessoas não são todas estúpidas.

O que quer dizer em concreto com esse boomerang?
Por exemplo, quando em Itália o senhor Salvini diz que o problema não é a crise económica, mas que a origem da crise económica é a crise dos migrantes, e que quando for para o Governo vai resolver a crise dos migrantes e a crise económica, nos próximos dois anos, se a Itália descobrir que continua sem ter dinheiro e que a crise dos migrantes não era a principal razão da crise económica, as pessoas vão perguntar qual é a verdade.

E aí vão precisar dos jornalistas?
Sim. Por exemplo, as minhas histórias, ou as histórias dos meus colegas em Itália, ou dos meus colegas do The Guardian, sobre os migrantes, têm agora muito mais leitores do que no passado. A cada dia, as pessoas descobrem novas formas de perceber a realidade. E o papel dos jornalistas será diferente.

Vou terminar novamente com duas questões sobre a Igreja Católica. O Papa Bento XVI também reinou numa época de grande digitalização, sobretudo nos anos finais, até 2013. Também foi afetado pelas fake news?
A um nível diferente. Bento XVI era um intelectual. E havia uma categoria de jornalistas, sobretudo entre os vaticanistas, que tinham o papel de explicar de forma resumida e com palavras simples o que o Papa dizia. O Papa Francisco é diferente. Fala diferente, de forma franca, e não precisa de intérprete. Em segundo lugar, o Papa Bento XVI estava comprometido em realizar um debate dentro da Igreja, mas não fora da Igreja. Chegou depois de João Paulo II, e provavelmente sentiu que a Igreja precisava de uma reforma interna. O Papa Francisco assume-se, a ele e à Igreja, como um ator importante no mundo. Quando ele fala sobre [a Igreja enquanto] hospital de campanha, é uma dimensão específica do papel da Igreja no mundo.

Isto pode querer dizer que havia menos interesse em criar fake news contra o Papa Bento XVI porque os grupos por trás das fake news são mais próximos de Bento XVI do que de Francisco?
Sim, o principal grupo, mais próximo do capitalismo, sente o Papa Francisco como um inimigo porque ele pode comprometer o poder deles. Mas não sentiam Bento XVI como um inimigo.

Qual foi a maior mentira alguma vez dita sobre o Papa Francisco?
Penso que maior foi, provavelmente, a de que Francisco não é um homem do Evangelho. Porque se dissermos que o Evangelho tem uma mensagem e o Papa Francisco tem outra, então estamos a dizer que Francisco é um papa falso.

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