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"Tal como o miúdo novo na escola, estava ciente de que os outros me avaliavam e achei que um pouco de humildade de novato poderia ter bastante influência a angariar apoio para as medidas económicas que iria propor", escreve Barack Obama

Official White House Photo by Pete Souza

"Tal como o miúdo novo na escola, estava ciente de que os outros me avaliavam e achei que um pouco de humildade de novato poderia ter bastante influência a angariar apoio para as medidas económicas que iria propor", escreve Barack Obama

Official White House Photo by Pete Souza

A "analítica" Merkel e a "retórica empolada" de Sarkozy: quando Obama conheceu os líderes europeus /premium

No dia em que é publicado "Uma Terra Prometida", o primeiro volume das memórias políticas do antigo Presidente dos Estados Unidos da América, o Observador revela um excerto do livro.

É um dos livros mais esperados do ano, cujo lançamento conseguiu adiar por dois dias o anúncio do vencedor do Booker Prize. O primeiro volume das memórias políticas de Barack Obama é publicado esta terça-feira, dia 17, simultaneamente em 25 idiomas em todo o mundo. Em Portugal, a edição é da Objetiva, com o título “Uma Terra Prometida” (“Promised Land” no original).

Quando anunciou a publicação do livro, em setembro, Barack Obama, que foi Presidente dos EUA entre 2009 e 2017, escreveu no Twitter: “É uma sensação muito especial ter terminado um livro e estou orgulhoso dele”. Acrescentou que tentou oferecer “um relato honesto” da sua presidência e uma reflexão sobre “como diluir divisões e fazer a democracia funcionar para todos”.

“Uma Terra Prometida” tem 850 páginas, um primeiro volume de memórias políticas que vai da formação política de Obama até às primeiras decisões do mandato que conquistou, pela primeira vez, a 4 de novembro de 2008. Este é o terceiro livro de Barack Obama, que escreveu “Dreams From my Father” e “The Audacity of Hope”.

O Observador publica um excerto do livro, parte de um capítulo em que Obama revela detalhes da sua primeira participação numa reunião do G20 e as suas impressões sobre alguns dos mais importantes líderes políticos europeus.

"Uma Terra Prometida", de Barack Obama (Objectiva) é lançado esta terça-feira, 17 de novembro

Parece existir um procedimento-padrão em todas as cimeiras internacionais. Um a um, os líderes chegam nas suas limusinas à entrada de um grande centro de convenções e depois passam defronte de uma falange de fotógrafos — um pouco à semelhança do tapete vermelho de Hollywood, mas sem os vestidos elegantes e as pessoas bonitas. Um delegado de protocolo recebe-os à porta e condu-los até um vestíbulo, onde o anfitrião os aguarda: um sorriso e um aperto de mão, conversa de circunstância sussurrada. Depois, ala para o salão dos líderes, para mais apertos de mão e conversa de circunstância, até que todos os presidentes, primeiros-ministros, chanceleres e reis abalam para uma sala de reuniões de dimensões impressionantes, com uma gigantesca mesa circular.

No nosso lugar, encontramos uma pequena placa com o nosso nome, a bandeira do nosso país, um microfone com instruções de utilização, um bloco de notas alusivo ao evento e uma caneta de qualidade variada, um auscultador para a tradução simultânea, um copo e garrafas de água ou sumo e, quiçá, uma salva com aperitivos ou uma taça com rebuçados de mentol. A nossa delegação senta-se atrás de nós para tirar apontamentos e transmitir longas mensagens. O anfitrião dá início aos trabalhos, faz a exposição de abertura, e depois, durante o seguinte dia e meio — com pausas agendadas para reuniões bilaterais com outros líderes, uma “fotografia de família” (todos os líderes alinhados e com sorrisos pouco à vontade, a fazer lembrar as fotografias da terceira classe), e tempo suficiente no final de tarde para regressarmos à nossa suíte e mudarmos de roupa antes do jantar e, por vezes, uma sessão nocturna, onde ficamos sentados, a tentar combater os efeitos da diferença horária e a dar o nosso melhor para parecermos interessados, enquanto todos os presentes, incluindo nós mesmos, se revezam a ler observações, redigidas com cuidado, anódinas e invariavelmente muito mais demoradas do que o tempo que nos é reservado, sobre o tópico que esteja na agenda.

Os olhos de Merkel eram grandes e azul-claros e podiam revelar frustração, divertimento ou mágoa. De contrário, a sua aparência fleumática reflectia uma sensibilidade analítica, prática e séria.

Mais tarde, depois de já ter participado em algumas cimeiras, viria a adoptar a táctica de sobrevivência dos participantes mais experientes, certificando-me de que levava sempre trabalhos para fazer ou alguma coisa para ler, ou então, sem dar nas vistas, chamando de parte alguns líderes para tratar de assuntos, enquanto os outros dominavam o microfone. Mas, nessa primeira cimeira do G20 em Londres, fiquei no meu lugar e ouvi com atenção todos os oradores. Tal como o miúdo novo na escola, estava ciente de que os outros me avaliavam e achei que um pouco de humildade de novato poderia ter bastante influência a angariar apoio para as medidas económicas que iria propor.

Foi útil o facto de já conhecer alguns dos líderes presentes, começando pelo anfitrião, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, que fora algumas semanas antes a Washington para se reunir comigo. Anterior ministro das Finanças no governo trabalhista de Tony Blair, Brown carecia dos luminosos dotes políticos do seu antecessor (parecia que todas as referências da imprensa a Brown incluíam a palavra “taciturno”) e tivera a infelicidade de chegar finalmente a primeiro-ministro quando a economia da Grã-Bretanha começara a colapsar e os eleitores estavam saturados da desgastante governação de uma década do Partido Trabalhista. Porém, era atencioso, responsável e compreendia as finanças globais. Apesar de o seu tempo no cargo vir a ser curto, tive a sorte de o ter como aliado durante esses primeiros meses de crise.

Barack Obama com o primeiro ministro russo, Vladimir Putin, Moscovo, julho de 2009; com o então vice-presidente Joe Biden, em julho de 2010 (fotos: Pete Souza/The White House)

Juntamente com Brown, os europeus mais importantes — não apenas na Cimeira de Londres, mas ao longo do meu primeiro mandato — eram a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy. A rivalidade entre os dois países mais poderosos do continente resultara numa guerra sangrenta intermitente de quase dois séculos. A sua reconciliação após a Segunda Guerra Mundial tornou-se a pedra basilar da União Europeia (UE) e de um período de paz e prosperidade sem precedentes. Por consequência, a capacidade da Europa de se mover como um bloco — e de servir de braço direito da América no palco mundial — dependia em grande medida da vontade de Merkel e Sarkozy de trabalharem juntos. Na maior parte do tempo, trabalharam, não obstante o facto de, em termos de temperamento, os dois líderes não poderem ser mais diferentes.

Merkel, filha de um pastor luterano, crescera na Alemanha de Leste comunista, sem dar nas vistas e fazendo um doutoramento em Química Quântica. Só depois de a Cortina de Ferro cair é que entrou para a política, subindo metodicamente na hierarquia do partido de direita União Democrata-Cristã com uma conjugação de competências organizacionais, perspicácia estratégica e paciência inquebrantável. Os olhos de Merkel eram grandes e azul-claros e podiam revelar frustração, divertimento ou mágoa. De contrário, a sua aparência fleumática reflectia uma sensibilidade analítica, prática e séria. Era do conhecimento geral que suspeitava de explosões emocionais e de retórica empolada e, mais tarde, a sua equipa confessaria que, no início, desconfiara de mim precisamente pelas minhas capacidades oratórias. Não fiquei ofendido, presumindo que, num líder germânico, a aversão a uma possível demagogia talvez fosse uma coisa saudável.

As conversas com Sarkozy eram, alternadamente, divertidas e exasperantes, as mãos sempre a mexer, o peito enfunado como um galo, o seu tradutor pessoal (ao contrário de Merkel, o seu inglês era insuficiente) sempre ao lado para espelhar freneticamente todos os seus gestos e entoações.

Sarkozy, por seu turno, era só explosões emocionais e retórica empolada. Com as suas feições escuras, expressivas e vagamente mediterrânicas (era meio húngaro e um quarto judeu grego), parecia uma personagem saída de um quadro de Toulouse-Lautrec. Apesar de ser oriundo de uma família abastada, não tardara a admitir que as suas ambições eram estimuladas em parte por um sentimento de uma vida inteira a sentir-se forasteiro. Tal como Merkel, Sarkozy granjeara nome como líder do centro-direita, ganhando as presidenciais numa plataforma de economia laissez-faire, regulamentos laborais mais folgados, impostos mais baixos e um Estado-providência menos universal. Porém, ao contrário de Merkel, tinha um vasto leque de competências e interesses, sendo muitas vezes impelido pelas manchetes ou por oportunismo político.

Quando chegámos a Londres para a reunião do G20, ele já estava a denunciar energicamente os excessos do capitalismo global. O que faltava a Sarkozy em consistência ideológica, era compensado em arrojo, charme e energia frenética. De facto, as conversas com Sarkozy eram, alternadamente, divertidas e exasperantes, as mãos sempre a mexer, o peito enfunado como um galo, o seu tradutor pessoal (ao contrário de Merkel, o seu inglês era insuficiente) sempre ao lado para espelhar freneticamente todos os seus gestos e entoações, consoante a conversa passava da adulação para a jactância e para um discernimento genuíno, nunca se desviando muito do seu interesse original, vagamente dissimulado, que era estar no centro da acção e recolher os louros de tudo o que valesse a pena.

Obama com o cão Bo, nos corredores da Casa Branca, março de 2009; Nos treinos da equipa de baseball da filha Sasha, fevereiro de 2011 (fotos: Pete Souza/The White House)

Por muito que eu apreciasse o facto de Sarkozy se ter convertido à minha campanha desde cedo (apoiando-me publicamente numa efusiva conferência de imprensa, durante a minha visita pré eleitoral a Paris), não foi difícil perceber qual dos dois líderes europeus se revelaria o parceiro mais fiável. Porém, acabei por encarar Merkel e Sarkozy como úteis complementos: Sarkozy respeitador da prudência inata de Merkel, mas instigando-a muitas vezes a agir, e Merkel disposta a ignorar as idiossincrasias de Sarkozy, mas hábil e refrear as suas propostas mais impulsivas. Também reforçaram os respectivos instintos pró-América — instintos esses que, em 2009, nem sempre eram do agrado do seu eleitorado.

Nada disto queria dizer que eles e os outros europeus eram fáceis de convencer. Protegendo os interesses dos seus países, Merkel e Sarkozy defenderam de forma acérrima a declaração contra o proteccionismo que estávamos a propor em Londres — a economia da Alemanha dependia largamente das exportações — e reconheceram a utilidade de um fundo de emergência internacional. Porém, tal como Geithner previra, nenhum manifestou qualquer entusiasmo pelo estímulo fiscal: Merkel tinha preocupações com o défice orçamental; Sarkozy preferia uma tributação universal sobre as transacções da Bolsa de Valores e queria combater os paraísos fiscais. Eu e Geithner precisámos de quase toda a cimeira para os convencer a juntarem-se a nós na promoção de medidas mais imediatas de combate à crise, solicitando a todos os elementos do G20 a implementação de políticas que aumentassem a procura agregada. Disseram-me que o fariam apenas se eu conseguisse convencer os outros líderes do G20 — em especial um grupo de países influentes não ocidentais que ficariam conhecidos colectivamente por BRICS — a deixar de bloquear propostas que eram importantes para eles.

Estamos a falar de grandes e orgulhosas nações. [...] Estavam irritadas com o papel desmesurado do Ocidente na gestão da economia global. E, com a crise que se vivia, espreitaram a oportunidade de começar a mudar o rumo das coisas.

Em termos económicos, os cinco países que formavam os BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — tinham pouco em comum e apenas mais tarde formalizariam o grupo (a África do Sul seria a última a aderir, em 2010). Mas, já no encontro do G20 em Londres, o espírito impulsionador por detrás da associação foi inequívoco. Estamos a falar de grandes e orgulhosas nações que, de uma maneira ou de outra, haviam emergido de períodos de inacção. Já não queriam continuar a ser relegadas para as margens da história ou ver o seu estatuto reduzido ao de potências regionais. Estavam irritadas com o papel desmesurado do Ocidente na gestão da economia global. E, com a crise que se vivia, espreitaram a oportunidade de começar a mudar o rumo das coisas.

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