Nenhum dos líderes dos cinco maiores bancos nacionais quer fazer o papel de Professor Zandinga. Numa conferência organizada pelo Jornal de Negócios, esta terça-feira, a imagem do auto-denominado “parapsicólogo” – que levou as “ciências ocultas” para o futebol português nos anos 80 e ficou famoso pelas suas previsões (quase sempre erradas) – foi recordada pelo presidente da comissão executiva do BPI, João Pedro Oliveira e Costa. Mas todos os banqueiros reconheceram que o destino das instituições que lideram depende da evolução da pandemia, embora tenha sido animador ver a economia a “arrebitar” em agosto, antes de Portugal e a Europa se verem novamente a braços com uma vaga de infeções. Esta “segunda vaga” aprofundou o estado de um “país em moratória”, como disse outros dos banqueiros, mas é errado falar em “bombas-relógio” na banca nacional – só se se falhar no apoio que deve, dizem os banqueiros, ser dado empresas e às pessoas.

Numa conferência para falar sobre a “banca do futuro”, falou-se quase exclusivamente do presente e, quando muito, de um futuro muito, muito próximo. Isto porque, como logo começou por dizer António Ramalho, presidente do Novo Banco, “somos um país em moratória, no sentido económico”. A expressão foi aproveitada por outros banqueiros para, discordando, veicular um maior otimismo, mas esta é uma questão que se afirma cada vez mais como um fator de risco para Portugal – porque se ao passo que noutros países as moratórias já estão a expirar ou já foram substituídas por outras medidas de incentivo à capitalização, em Portugal os últimos dados apontam ainda para pelo menos 22% dos créditos totais da banca em suspenso, o dobro (ou mais) do que a maioria dos outros países.

Pedro Castro e Almeida, presidente do Santander, apontou, mesmo, que é muito revelador da situação geral do país que as moratórias sejam (e continuarão a ser, como se perspetiva) uma ferramenta tão crucial para a gestão desta crise – muito mais do que as linhas de crédito garantidas pelo Estado, por exemplo, ou incentivos fiscais a que as empresas robusteçam os seus níveis de capital. No curto prazo, não é problemático, o problema é depois: “Se eu tivesse 80 anos, estaria tranquilo, mas se tivesse 30 estaria muito preocupado”, atirou o presidente do Santander em Portugal, salientado que haverá uma “tentação de empurrar os problemas com a barriga” nos próximos anos e evitar tomar medidas que estimulem a produtividade – porque o vírus acabará por ser controlado, mas é preciso “mudar o mindset” e pensar nas bases que são criadas para a retoma.

O que não é produtivo, neste momento, concordaram os banqueiros, é falar das moratórias como uma “bomba relógio” ou estar já a antecipar que o fim desse regime excecional – adiado para setembro de 2021 – poderá levar a mais ajudas públicas para os bancos. Isso mesmo foi admitido, ainda esta segunda-feira, pelo Conselho de Finanças Públicas (CFP), mas Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, considera que a questão não podia estar mais mal colocada: se assumirmos que o Estado terá de gastar para ajudar os bancos depois de o fim das moratórias ter empurrado um grande número de empresas para o precipício, então estamos a assumir que o Estado não fez o que devia ter feito para evitar que as empresas não se conseguissem salvar. Por outras palavras, “os bancos só têm um problema se houver uma derrocada no setor produtivo nacional”, asseverou Paulo Macedo.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.