Uma conversa descontraída, onde a cafeína não entrou, para aquecer motores no regresso à estrada. Depois de ter cancelado as iniciativas de campanha na terça-feira, João Ferreira esteve na manhã desta quarta-feira dedicado a colher apoios à sua candidatura e atento a escutar os micro, pequenos e médios empresários durante a tarde. Na quinta-feira o dia será passado no Minho, a muitos quilómetros de distância. Não era novidade que Isabel Moreira já tinha decidido votar em João Ferreira, mas não será de somenos notar que o candidato às presidenciais fez questão de inserir no programa da campanha um encontro com a socialista (que até tinha recados para deixar a Ana Gomes).

Na primeira iniciativa do dia João Ferreira foi ouvir de Isabel Moreira alguns elogios, garantias de que havia mais socialistas inclinados em votar no candidato apoiado pelo PCP e detalhar alguns pormenores da campanha eleitoral e do trabalho que tem desenvolvido na estrada. O tempo de pré-campanha foi aproveitado ao máximo por João Ferreira, consciente que as novas regras imporão constrangimentos maiores ao nível da mobilização de pessoas e de ajuntamentos, por exemplo. Recorde-se que no primeiro dia de campanha, cumprindo todas as normas em vigor, João Ferreira conseguiu juntar milhares de pessoas no Coliseu do Porto, algo que o próprio já admitiu que “não deverá repetir-se” novamente na campanha eleitoral. Mais tarde, na sessão online, haveria de deixar no ar que o modelo era para repetir nos próximos dias.

Isabel Moreira foi à Praça das Flores dizer a João Ferreira que é “o candidato que respeita a Constituição e é contra os populismos”. Uma declaração que além de elogiar o comunista é uma crítica aos candidatos que vêm sendo associados ao discurso populista. De André Ventura, o candidato do Chega, à visão populista do discurso de Ana Gomes na área da justiça. “Acho que o João Ferreira tem uma adesão corretíssima aos poderes atribuídos pela Constituição ao Presidente da República, não inventando poderes como outros candidatos e não aderindo a uma visão populista da Justiça, como vejo noutros candidatos e candidatas”, haveria de acrescentar depois Isabel Moreira.

As duas ações durante a manhã foram fáceis: colher apoios, agradecer e dar mostras que está verdadeiramente empenhado em “cumprir a Constituição”. Se tem feito bandeira de “congregar votos na sua candidatura”, nomeadamente na esquerda, hoje foi dia de o mostrar e Isabel Moreira serviu como símbolo. Depois um encontro simbólico com a mandatária nacional da candidatura e ex-deputada d’Os Verdes Heloísa Apolónia.

O plano era dar um passeio na cidade, para alertar para a necessidade de substituir os transportes mais poluentes por meios de transporte suaves, mas — e sem surpresas — acabou por ser cancelado o plano. As bicicletas lá estavam, alinhadas, mas paradas. Heloísa Apolónia citou o apoio de “285 ecologistas” e reconheceu o trabalho “político desenvolvido na área ambiental”, que vai além “da formação académica de base” e que, notou, tem contribuído para que “inúmeras pessoas da área do ambiente e ecologia se juntem à candidatura de João Ferreira”.

Com a mochila carregada de apoios, seguiu para a sede da candidatura para uma sessão online com micro, pequenos e médio empresários. Um dos temas de que tem frequentemente falado e onde tem falhas a apontar a Marcelo Rebelo de Sousa. Ouviu um dos participantes dizer que Portugal tem “um Presidente que manipula o Governo” e que se deixa manipular pelo Governo e manteve a expressão impávida atrás do ecrã. Luís Rebelo, empresário da restauração foi um dos mais críticos da tarde e disse que “não se pode dissociar a responsabilidade de um de outro, são os dois órgãos de soberania responsáveis”.

Com a promessa de novas sessões online que, segundo o candidato, são exemplo de que a “candidatura não faz daqueles a quem se dirige meros espetadores” (dando-lhes a palavra e colocando-os no centro das ações), João Ferreira não deu por terminada a sessão sem dizer que “”não se esquece” que Marcelo colocou obstáculos à renovação dos apoios para os micro, pequenos e médio empresários, numa referência a um dos vetos do Presidente da República que João Ferreira já citou várias vezes para marcar a diferença para Marcelo.

Afinal não são dois cafés para a esplanada

Pouco passava das 11 horas quando, bem perto da Assembleia da República João Ferreira se sentou à mesa com Isabel Moreira. Os cafés pouco tardaram a chegar, mas acabaram frios, por beber, em cima da mesa da esplanada. João Ferreira não gosta de café, Isabel Moreira já tinha tomado a dose matinal de cafeína, antes de sair de casa. Pode ter acontecido que quem pediu os cafés não conheça os hábitos matinas de Isabel Moreira, mas não pareceu grande segredo que João Ferreira não bebe café. Sem problemas, foi só substituir por duas garrafas de água. Pobres cafés desperdiçados em cima da mesa…

Marcelo e… Mais Marcelo (com cheirinho de Ana Gomes e André Ventura por interposta pessoa)

Três ações, dois momentos não desperdiçados para traçar as diferenças em relação a Marcelo Rebelo de Sousa. Na primeira ação não se ouviu qualquer referência a Marcelo Rebelo de Sousa, mas Isabel Moreira falou em “combater populismos” e em “candidatos com visões populistas da justiça”. João Ferreira não se manifestou é certo, também não precisava, o trabalho difícil estava feito e continua a preferir “afirmar a candidatura pela positiva”.

Na segunda ação, com ecologistas, lembrou o artigo 66.º da Constituição da República Portuguesa dedicado ao ambiente e qualidade de vida e, mais genericamente, lá disse que “um Presidente da República não pode estar à margem das preocupações [com o ambiente e a qualidade de vida] quando jura defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição”.

As críticas mais fortes haviam de ficar guardadas para a sessão online, não só proferidas pelos empresários que nela tiveram voz, mas também por João Ferreira que fez questão de dizer que “não esquece” os obstáculos que Marcelo colocou à renovação dos apoios para os empresários.