Dark Mode 78,2 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

i

Getty Images

Getty Images

A Covid-19 deu a Maduro a Venezuela com que sempre sonhou — mas a que vem aí pode ser um pesadelo /premium

Maduro usa o vírus para ganhar força e "disciplinar a sociedade". A tentativa de golpe de 3 de maio é mais uma desculpa para fazê-lo — apesar de a crise de saúde colocar o país à beira do precipício.

No final do já longínquo mês de fevereiro, Nicolás Maduro anunciava a criação de uma comissão presidencial para enfrentar a Covid-19. Naquele anúncio, falou do novo coronavírus como uma arma de “guerra biológica” desenhada para atingir a China e que, pelo caminho, poderia também atingir a Venezuela. E, de certa forma, o ditador venezuelano incorporou no seu discurso a admissão da possibilidade de uma catástrofe sanitária — e sublinhou que nem seria a primeira deste tipo.

Dizendo que a “a Humanidade viveu séculos com pestes”, apontou a “invasão imperialista de Europa” como a maior delas.

“Doenças venéreas, o sarampo e todas as doenças que os avós dos nossos avós, Guaicaipuro, Terepaima, Chacao, Caricuao, Naiguatá [caciques indígenas] viram como doenças, chegaram e mataram milhões, e passámos dos 100 milhões de indígenas que éramos para três milhões em 100 anos”, disse Nicolás Maduro.

E assinalou que, desta vez, podia ser semelhante. “Agora, estamos perante o coronavírus”, disse. “Sem dúvida, uma ameaça.”

Em fevereiro, Nicolás Maduro disse que o coronavírus era "sem dúvida uma ameaça". Agora, o seu regime reclama uma resposta de sucesso — ideia que tenta sustentar com número duvidosos e inquinados

Getty Images

Estas palavras de Nicolás Maduro são de 27 de fevereiro, altura em que não havia um único caso de Covid-19 confirmado oficialmente na Venezuela. Os dois primeiros casos seriam registados apenas a 13 de março (data em que foi decretado o estado de emergência e começou o confinamento obrigatório a nível nacional) e a primeira morte no dia 26 do mesmo mês. Porém, ao contrário do que seria de esperar para um país com uma conhecida crise à qual o setor da saúde não escapa, os números oficiais na Venezuela não demonstram uma curva exponencial de casos ou mortes por Covid-19.

A 7 de maio, os números oficiais da Venezuela davam conta de apenas 10 mortos por aquela doença — sendo que a última a ser registada foi a 22 de abril. Quanto a casos, as autoridades venezuelanas contavam apenas com 381.

"Para o regime, tudo é um êxito e qualquer falha é sempre culpa de quem vem de fora. Dá-se um tom propagandístico a tudo esta crise da Covid-19, que ficou transformado numa telenovela por capítulos."
José Félix Oletta, ex-ministro da Saúde da Venezuela

“A Venezuela tem hoje a menor taxa de falecidos por milhão de habitantes no nosso continente e a menor taxa de casos confirmados por Covid-19 por milhão de habitantes”, gabava-se, na televisão, a vice-Presidente do Governo da Venezuela, Delcy Rodríguez.

Este é o relato do regime de Nicolás Maduro. No entanto, por trás dele, há uma realidade muito mais complexa — e que não deixa antever dias nada fáceis para o povo venezuelano —, mas que, paradoxalmente, pode reforçar em muito a ditadura chavista.

“Para o regime tudo é um êxito e qualquer falha é sempre culpa de fora”

É um número impressionante e que o regime de Nicolás Maduro tem atualizado com orgulho: a 7 de maio, já tinham sido realizados 490.851 testes à Covid-19 em todo o país. Este dado coloca a Venezuela não só no topo do continente sul-americano como até põe este país à frente de muitos outros, entre eles a Coreia do Sul — um caso que tem sido especificamente destacado por ter controlado o surto através de uma enorme capacidade para testar.

Estes números, porém, escondem uma máxima dos tempos de Covid-19: à semelhança das máscaras, também os testes não nascem todos iguais. E, na Venezuela, a grande maioria dos testes que estão a ser usados são os piores que há no mercado e cujo uso a Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselha em praticamente toda a linha. Nos relatórios que o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA, na sigla inglesa) tem vindo a elaborar na Venezuela desde o início da pandemia, ficou demonstrado consistentemente que ali os testes rápidos são a regra e que os testes PCR, mais adequados e fiáveis, são a exceção.

"Com estes testes rápidos, é normal que o número de casos diminua, mas na verdade muitos deles podem não passar de falsos negativos. Trata-se de um erro conceptual, mas ainda assim o governo segue em frente e utiliza estes testes rápidos como se fosse um êxito."
José Félix Oletta, ex-ministro da Saúde da Venezuela

No seu relatório mais recente, que foi divulgado a 4 de maio e analisou números de 19 de abril, a UNOCHA detalhava que entre os 336.169 testes anunciados à altura, 330.200 eram rápidos e só 5.969 eram PCR.

“Com estes testes rápidos, é normal que o número de casos diminua, mas, na verdade, muitos deles podem não passar de falsos negativos”, aponta, numa entrevista por telefone ao Observador, o ex-ministro da Saúde da Venezuela, José Félix Oletta. “Trata-se de um erro conceptual, mas, ainda assim, o governo segue em frente e utiliza estes testes rápidos como se fosse um êxito.”

Não é só nos testes que os números variam consoante quem os dá. O mesmo se passa no número de camas hospitalares das Unidades de Cuidados Intensivos (UCI).

De acordo com o que garantia o regime a 23 de março, estas chegavam às 1.213. Só que, quando toca a uma doença respiratória, de pouco servirá essa cama sem um ventilador — e, quanto a isso, o regime de Nicolás Maduro não forneceu dados. Mas, um mês antes, numa reunião interna do Ministério da Saúde, um powerpoint ali utilizado, e a que o Observador teve acesso, constava que nos 45 hospitais destinados a fazer frente à pandemia havia apenas 206 camas de UCI, entre as quais apenas 102 tinham ventiladores.

O regime de Nicolás Maduro garantiu em março que tinha 1.213 camas de Unidades de Cuidados Intensivos para fazer frente à pandemia. No entanto, numa apresentação interna do Ministério da Saúde a que o Observador teve acesso, o próprio governo admitia ter só 206 camas, das quais apenas 102 têm ventilador.

Há quem avance números ainda mais pessimistas. Num áudio de WhatsApp que teve origem em funcionários da Escola de Medicina da Universidade dos Andes, em Mérida, ouvia-se que havia apenas 84 camas disponíveis. A 15 de março, a jornalista Ibéyise Pacheco deu conta de uma reunião entre o ministro da Saúde, Carlos Alvarado, com a Associação Venezuelana de Clínicas Privadas, que terá dito ao ministro que pelas suas contas havia apenas 73 camas entre públicos e privados. E o presidente da Federação Médica Venezuelana, Douglas León Natera, denunciou que, além da falta de camas e respiradores, há hospitais onde já nem há água corrente ou sabão.

Para comparação, nos números anunciados pelo regime de Nicolás Maduro, entre as 1.213 camas de UCI no país 190 seriam do setor privado.

O regime de Nicolás Maduro não assume estes números e mantém a sua narrativa de sucesso. Delcy Rodríguez já veio dizer que a “a Venezuela tem a curva de contágios achatada”. A comunicação em torno da pandemia naquele país está totalmente nas mãos do Palácio de Miraflores, a presidência, e da equipa em torno dele. Os briefings diários têm estado a cargo de Nicolás Maduro, de Delcy Rodríguez ou do irmão desta, o ex-vice Presidente e atual ministro da Informação, Jorge Rodríguez. Em contraste com o que é regra em vários países, o ministro da Saúde ou outras autoridades técnicas não comparecem naqueles momentos.

“Não há qualquer intervenção técnica e qualificada de quem tem de fazê-lo, que é o ministro”, atira José Félix Oletta. “Para o regime, tudo é um êxito e qualquer falha é sempre culpa de quem vem de fora. Dá-se um tom propagandístico a tudo nesta crise da Covid-19, que ficou transformada numa telenovela por capítulos.”

Além de ajuda da ONU e de algumas das suas agências, a Venezuela também recebeu material diretamente enviado pela China. No entanto, este está muito longe de chegar para suprir as necessidades do país

Eva Marie Uzcategui/Getty Images

Porém, apesar da narrativa de sucesso, o episódio desta telenovela em que é decretado o desconfinamento não parece estar no horizonte das autoridades venezuelanas — ou, pelo menos, é isso que sugerem alguns sinais de nervosismo que o regime tem exibido.

De mão estendida, a Venezuela recebeu em abril 90 toneladas de material para lidar com a pandemia (da ONU, OMS, Unicef e da Organização Panamericana da Saúde), além de 101 toneladas da China. Estes carregamentos chegaram depois de, em março, o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter rejeitado um pedido de Nicolás Maduro no valor de 5 mil milhões de dólares para fazer frente à pandemia.

Perante a falta de meios médicos para fazer frente à Covid-19, Nicolás Maduro publicou no Twitter uma receita de um remédio caseiro (que misturava mel, pimenta negra, limão, gengibre e duas ervas) para, supostamente, prevenir a Covid-19. Maduro partilhou aquela informação dizendo que esta informação lhe fora enviada por Sirio Quintero — um homem que diz ser médico, apesar de não ter quaisquer estudos em medicina, e que espalha teorias da conspiração anti-vacinas. O próprio Twitter apagou aquela receita, por veicular informação comprovadamente falsa.

Tudo isto surge numa altura em que a Venezuela regista um dos níveis mais baixos de produção petrolífera de sempre (tanto nos números oficialmente divulgados como naqueles que foram reportados internamente), consequência direta do rol de sanções ao crude venezuelano e da dificuldade de aquela indústria, que gera cerca 99% do PIB venezuelano. Em consequência, a Venezuela chegou à situação paradoxal em que, apesar de ter as maiores reservas comprovadas de crude do mundo, praticamente não há gasolina à venda. Como consequência, a já de si fraca produção agrícola da Venezuela não está a ter o devido escoamento — com as colheitas a aprodecerem por não haver como levá-las até às cidades.

Antes da crise da Covid-19, já falta água e gasolina na Venezuela. "A crise sanitária tapa a crise de combustível, que por sua vez limita a crise da sociedade", diz um ex-ministro

Jonathan Lanza/NurPhoto via Getty Images

A falta de combustível acabou por ser um fator de sorte no meio da desgraça, já que levou a uma diminuição do movimento das pessoas dentro do país, limitando possíveis contágios. Também nessa categoria, o isolamento internacional da Venezuela também ajudou — estima-se que fossem menos de dez as companhias que voavam para aquele país antes da pandemia. Os voos internacionais estão neste momento suspensos e, portanto, não se prevê que essa seja uma forma de contágio. No entanto, o regresso esperado de mais de 45 mil venezuelanos que voltam por terra da Colômbia pode trazer novos problemas — não só anulando o efeito do fecho do tráfego aéreo como arrasando-o por completo.

Em suma, são vários os elementos que sugerem que a situação não está controlada. “Se estivesse, este seria o momento de flexibilizar o confinamento”, comenta José Félix Oletta. “A crise sanitária tapa a crise de combustível, que por sua vez limita a crise da sociedade, que não pode sair de casa para protestar. Mas isto tem um benefício que é apenas transitório, porque uma sociedade não pode estar perpetuamente fechada em casa. O governo está a ganhar tempo.”

Porém, ao ganhar tempo, a aposta não parece ser no setor da saúde.

Uma oportunidade de ouro para Maduro ter a Venezuela dos seus sonhos

Darvinson Rojas fez uma simples conta de somar.

Naquele dia, 20 de março, o governo de Nicolás Maduro dava conta de 42 casos. Além desta contagem, mais à frente no dia, foram confirmados entre autarcas e governadores (tanto oficialistas como da oposição) outros cinco contágios. Desta forma, após fazer a conta que havia a fazer, o jornalista escreveu no Twitter que havia à altura “47 casos confirmados pelas autoridades na Venezuela”. Além destes, mencionava ainda três que tinham sido identificados por jornalistas.

Quase de forma instantânea, aquela diferença de cinco casos foi quanto bastou para que o jornalista recebesse comentários de apoiantes do regime a criticá-lo. “Os jornalistas são médicos!”, escreveu uma pessoa, com ironia. No mesmo tom, outro utilizador do Twitter lançou-lhe: “Tu és da OMS?”. “Os jornalistas já não são donos da verdade, agora são donos do processo de confirmação de Covid-19”, atirou outra pessoa. Darvinson Rojas não fez caso, conta ao Observador por telefone. “Na Venezuela, os jornalistas já estão habituados a serem atacados de várias formas”, disse.

"Disseram-me que tinham de entrar na minha casa porque alguém do nosso bairro sabia que na nossa casa havia alguém com coronavírus, ou que tinha estado em contacto com um contagiado."
Darvinson Rojas, jornalista

Porém, dois dias depois, a campainha de casa tocou. E, quando abriu a porta, deu de caras com quatro funcionários das temidas Forças de Ações Especiais (FAES), a tropa de elite do regime de Nicolás Maduro. Armados e com a cara tapada, exigiram que os deixasse entrar na casa onde vive com os pais.

“Disseram-me que tinham de entrar na minha casa porque alguém do nosso bairro sabia que na nossa casa havia alguém com coronavírus, ou que tinha estado em contacto com um contagiado”, conta o jornalista. Darvinson Rojas sabia bem que não era por isso que ali estavam — e percebeu rapidamente que aquela visita inesperada dos homens da FAES se devia ao seu trabalho como jornalista.

Por isso, enquanto os pais tentavam impedir a polícia de entrar em casa, pegou no telemóvel e denunciou a situação no Twitter. Ali, às 19h32 de Caracas, escreveu: “As FAES acabam de chegar à minha casa, pedem que colaboremos para os acompanharmos até à esquadra, porque receberam uma chamada anónima a dizer que há um caso de Covid-19. Se não obedecermos, terão de nos deter”.

A família não se entregou — e Darvinson Rojas continuou a denunciar a situação no Twitter. Às 20h55, colocou uma fotografia com dois agentes visíveis.

Pouco depois de ter colocado a fotografia, conta, a pressão dos agentes disparou. Darvinson Rojas só teve tempo de escrever, às 21h04, o seu último tweet da noite: “FUNCIONÁRIOS DAS FAES QUEREM DETER-ME”.

E assim foi. Com o jornalista algemado e manietado, as FAES entraram em casa da sua família e pegaram em todos os equipamentos eletrónicos que viram. Pegaram em dois computadores, dois telemóveis e um tablet — e levaram-nos juntamente com Rojas, uma cena a que os seus vizinhos assistiram, atirando um coro de gritos contra aquela tropa de elite.

Darvinson Rojas ficou detido durante 12 dias numa sala da esquadra da FAES em Caricuao, uma freguesia de Caracas. No final, foi levado a um juiz de instrução, que decretou a acusação por dois crimes: instigação ao ódio e instigação pública. Tudo porque fez contas e, no final delas, contou mais uma mão cheia de casos do que o regime.

O jornalista não é caso único. De acordo com a ONG Foro Penal, entre a centena de detenções que aquele grupo registou serem por “razões políticas”, dez estão diretamente relacionadas com a pandemia. “Neste grupo, há um senhor de 70 anos que trabalha no setor da saúde, que está em prisão domiciliária; um bioanalista que se referiu a um caso através do WhatsApp, que também está em prisão domiciliária. Além disso, há um enfermeiro detido por ter feito um vídeo em que denunciava as condições do hospital”, disse à AFP Alfredo Romero, diretor daquela ONG.

Num artigo de opinião publicado no El País, o opositor Leopoldo López, refugiado na Embaixada de Espanha em Caracas desde que fracassou a tentativa de golpe militar em que esteve envolvido a 30 de abril de 2019, escreveu: “A narcoditadura converteu o coronavírus no seu escudo humano, numa ferramenta e numa desculpa para prolongar a usurpação, aumentando o controlo social e a repressão”.

A ONG Provea, de defesa dos Direitos Humanos, tem recebido várias denúncias, chegadas de todo o país, de militares e também de grupos de civis armados que atuam ao lado do regime (conhecidos como colectivos) que humilham e até agridem cidadãos que são vistos a quebrar as ordens de confinamento ou que são apanhados sem máscara, de uso obrigatório.

"Este era o sonho de Nicolás Maduro. É uma oportunidade para disciplinar a sociedade venezuelana, conseguir a inação completa e o silêncio absoluto das forças sociais e políticas que interpelam o governo e, com isto tudo, instaurar uma nova normalidade."
Rafael Uzcátegui, diretor-geral da ONG Provea

Num desses vídeos, vê-se como cerca de 30 pessoas são obrigadas a fazer agachamentos ao ritmo de uma frase ditada por um polícia: “Não devo sair por causa do coronavírus, porque me vai matar”.

Noutro caso, recolhido no estado de Lara, cerca de dez pessoas foram obrigadas a caminhar de cócoras e a dizer em coro: “Não devo sair de casa”.

Ao Observador, o diretor da ONG Provea, Rafael Uzcátegui, diz que Nicolás Maduro está a saber aproveitar a pandemia a seu favor, utilizando-a para reforçar o seu regime. “Este era o sonho de Nicolás Maduro”, diz ao telefone. “É uma oportunidade para disciplinar a sociedade venezuelana, conseguir a inação completa e o silêncio absoluto das forças sociais e políticas que interpelam o governo e, com isto tudo, instaurar uma nova normalidade.”

"Por esta altura não sei se haverá eleições, porque temos esta prioridade [o combate à pandemia] e seria uma irresponsabilidade da minha parte dizer que deve haver eleições".
Nicolás Maduro, a 22 de abril

A esta “nova normalidade” que refere Rafael Uzcátegui junta-se a possibilidade de as eleições legislativas previstas para o final deste ano já não virem a ser realizadas. Embora estivessem semi-agendadas, pouco se esperava que delas se fizesse uma ida às urnas verdadeiramente democrática. Porém, fruto de negociações entre o regime e o governo autoproclamado de Juan Guaidó, cujo diálogo foi mediado pela Noruega, a possibilidade de umas eleições legislativas (e não presidenciais) concertada entre ambos os lados nunca chegou a ser totalmente afastada.

Agora, parece já não passar de uma miragem. Quem o assumiu foi o próprio Nicolás Maduro, numa entrevista a 22 de abril. Dizendo que em último caso a decisão depende do Tribunal Supremo de Justiça e da Assembleia Nacional Constituinte (ambos órgãos onde tem total controlo), Nicolás Maduro disse ainda assim: “Por esta altura não sei se haverá eleições, porque temos esta prioridade [o combate à pandemia] e seria uma irresponsabilidade da minha parte dizer que deve haver eleições”.

Isto era o que Nicolás Maduro dizia a 22 de abril. Porém, a 3 de maio, arranjou a desculpa perfeita para não mudar mesmo de ideias.

Depois da “Bay of Pigs”, a “Bay of Kids” que põe a oposição “numa fase diferente”

Na manhã de 3 de maio, um domingo, um grupo de cerca de 14 homens armados chegou a bordo de uma lancha à costa venezuelana, mais propriamente à baía de Macuto, a pouco mais de 30 quilómetros de Caracas, com um objetivo: libertar a Venezuela. Muito longe disso, foram antes derrotados num ápice: seis foram mortos a tiro pelas FAES e outros oito foram detidos.

No dia seguinte, 4 de maio, oito homens, igualmente armados, foram intercetados e detidos ao desembarcarem em Chuao, uma aldeia piscatória do estado de Aragua — tão piscatória que foram capturados num esforço conjunto entre a marinha e pescadores. Sorte semelhante tiveram outros dois homens, aparentemente do mesmo grupo, apanhados em Puerto Cruz no mesmo dia.

Só na terça-feira, 5 de maio, é que estas detenções viriam a ser anunciadas, com o regime venezuelano que aqueles homens se preparavam para fazer um golpe de Estado e que, entre eles, havia não só soldados norte-americanos como desertores do exército venezuelano. Este elemento levou a que muitos, inclusive o próprio Nicolás Maduro, classificassem aquele momento como “a Baía dos Porcos da Venezuela”, remetendo para a tentativa gorada invasão de Cuba levada a cabo por exilados com o apoio dos EUA em 1961.

"Se quisesse entrar na na Venezuela, não faria disso um segredo. E não o faria com um grupo pequeno, seria um exército."
Donald Trump, Presidente dos EUA

Porém, perante o aparente amadorismo daquela operação, muitos não tardaram a dizer que não era uma Bay of Pigs (“Baía dos Porcos” em inglês) mas antes uma Bay of Kids (“Baía dos Miúdos”). Nicolás Maduro também oscilou entre o tom dramático (falou num “grupo de terroristas pronto a semear a violência na Venezuela”) e o zombeteiro. “Estavam armados em Rambo, estavam armados em heróis”, disse, em tom de gozo. Mas foi mais a sério que disse aquilo onde queria chegar: que aquela tinha sido uma ação orquestrada entre os EUA de Donald Trump e a oposição de Juan Guaidó.

Os EUA recusam a acusação — e devolvem-na em tom de ameaça. À Fox News, Donald Trump disse: “Se quisesse entrar na na Venezuela, não faria disso um segredo. E não o faria com um grupo pequeno, seria um exército”. Na mesma linha, o Conselho de Segurança Nacional dos EUA, órgão que faz parte da Casa Branca, disse que se alguma vez houvesse uma invasão na Venezuela orquestrada pelos norte-americanos que esta seria “evidente, direta e eficaz”.

Como seria de esperar, também Juan Guaidó nega qualquer tipo de envolvimento. Porém, a informação reunida pelo Washington Post demonstra que o líder da oposição na Venezuela  e alguns membros da sua equipa estiveram envolvidos no planeamento de uma invasão — e que, antes de ela ter sido posta em prática, desistiram.

Juan Guaidó nega qualquer envolvimento com a operação de Jordan Goudreau, mas este diz que o venezuelano participou em reuniões e deu luz verde para um golpe militar a troco de 213 milhões de dólares

Leonardo Fernandez Viloria/Getty Images

Esta história começa com um nome: Jordan Goudreau, ex-militar das Forças Especiais do exército dos EUA e diretor-executivo da empresa de segurança Silvercorp USA, descrito por um antigo sócio como tendo “a cabeça fora do mundo real”. E ganha forma com outro: Juan José Rendón, estratega político escolhido em agosto de 2019 por Juan Guaidó para liderar um “Comité Estratégico” dedicado a pensar maneiras para derrubar Nicolás Maduro pela força.

Se a formação daquele comité era informação que poucos detinham, o mesmo já não se pode dizer sobre a intenção de Juan Guaidó de apoiar um golpe militar contra o regime. “Os nossos aliados deixaram-nos muito claro que todas as cartas estão em cima da mesa”, disse Juan Guaidó em fevereiro, depois de se encontrar cm Donald Trump na Casa Branca.

Jordan Goudreau sentou-se com Juan José Rendón no apartamento deste último em Miami, a 7 de setembro. Sabendo o venezuelano estava a liderar o Comité Estratégico de Juan Guaidó, o norte-americano fez-lhe uma proposta: derrubar o regime de Nicolás Maduro através de uma ação militar levada a cabo por 800 homens que já se encontrariam na Colômbia, à espera de ordens. Em troca, pedia 212,9 milhões de dólares (194 milhões de euros) e 14% dos fundos recuperados de armazéns onde, segundo informações recolhidas pela oposição, algumas das pessoas mais próximas de Nicolás Maduro terão guardados vários fardos de notas de dólar.

A proposta foi aceite — e, a 16 de outubro, assinada. Ao Washington Post, Jordan Goudreau mostrou um vídeo, que gravou às escondidas, em que através de uma videoconferência Juan Guaidó era ouvido a dizer nesse momento “estou prestes a assinar”. “Estamos a fazer a coisa certa pelo nosso país”, disse também Juan Guaidó. No final de contas, quem assinou o contrato, a que o Washington Post teve acesso, foi Juan José Rendón. Ali, o “Prestador de Serviço” comprometia-se a “capturar/deter/afastar Nicolás Maduro”. Esse seria o “principal objetivo” da “Operação Projeto de Resolução”.

Jordan Goudreau, ex-militar dos EUA que serviu no Iraque e Afeganistão, fundou a Silvercorp USA. Descrito como alguém com "a cabeça fora do mundo real", assinou um contrato com a equipa de Juan Guaidó

Jeff Gritchen/Digital First Media/Orange County Register via Getty Images

Porém, pouco depois de aquele contrato ter sido assinado, a relação entre as duas partes começou a azedar. A meio do processo, e contra aquilo que foi inicialmente estipulado, Goudreau pediu que fossem adiantados 1,45 milhões de dólares. Juan José Rendón rejeitou, mas, ainda assim, transferiu 50 mil dólares ao norte-americano do seu bolso para dar seguimento ao projeto. No entanto, no início de novembro de 2019, os dois homens juntaram-se no mesmo apartamento de Miami e, depois daquilo que Juan José Rendón descreveu como uma discussão explosiva, cortaram laços.

Foi o fim da Operação Projeto de Resolução — mas o início da Operação Gideon. Isto porque, depois de lhe ter sido fechada a porta do lado de Juan Guaidó, Jordan Goudreau entrou em contacto com Clíver Alcalá, um antigo major-general venezuelano que era próximo de Hugo Chávez mas que caiu em desfavor com Nicolás Maduro. Clíver Alcalá terá aceitado pagar 1,5 milhões para que Jordan Goudreau levasse a cabo o mesmo projeto.

Estranhamente, mas condizendo com a imagem pública do ex-aliado de Hugo Chávez, Clíver Alcalá assumiu a 26 de março que levava a cabo uma operação para derrubar Nicolás Maduro. Essa informação foi vista à altura como uma manobra de desespero, já que as autoridades colombianas o procuravam após pedido dos EUA. Um dia mais tarde, a 27 de março, Clíver Alcalá já estava detido nos EUA e acusado de ligações ao narcotráfico.

E, no dia seguinte, a 28 de março sem aparente ligação àqueles desenvolvimentos, dá-se um outro interessante: no seu programa de televisão semanal, Diosdado Cabello, que é na prática o número dois do regime chavista e o homem-forte dos serviços de informação do país, demonstrou estar a par da Operação Gideon (que não chegou a nomear) e para esse efeito mostrou uma imagem de Jordan Goudreau no seu telemóvel. A ideia que Diosdado Cabello quis passar era clara: o regime tem olhos em tudo e sabia o que estava a ser preparado. “Os patriotas cooperantes são os maiores”, disse, supostamente dos informadores de dispunha dentro daquele grupo.

A 1 de maio, a Associated Press publicava um artigo onde expunha vários detalhes da preparação do golpe preparado entre Clíver Alcalá e Jordan Goudreau. O título era bastante premonitório: “Ex-boina verde liderou tentativa falhada para derrubar Maduro”.

Nada disto, porém, impediu Jordan Goudreau de dar ordem aos seus homens para avançarem. No mesmo dia, divulgou um vídeo onde dizia que tinha sido lançada uma operação “em direção ao coração de Caracas”. “Os nossos homens continuam a lutar neste preciso momento. as nossas unidades foram atividades no Sul, no Oeste e no Este da Venezuela”, disse. Quando este vídeo vou espalhado pela Internet, já a operação tinha fracassado em toda a linha.

Esta sexta-feira, 8 de maio, as autoridades venezuelanas continuaram a dar notícia de mais mercenários capturados — desta vez, dois que foram encontrados em Guaira, perto da zona de um dos desembarques. “Estamos à vossa procura e VOCÊS NÃO SE VÃO CONSEGUIR ESCONDER!”, escreveu o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, no Twitter. Enquanto isso, no município de Tovar, também na zona do desembarque, foi imposto o estado de exceção, sob o qual as autoridades podem entrar dentro de qualquer casa sem mandado judicial.

Ao Observador, Rafael Uzcátegui, da ONG Provea, diz que o alegado envolvimento da equipa de Juan Guaidó, e o conhecimento que este terá tido dos planos até pelo menos novembro, coloca o autoproclamado Presidente interino “numa encruzilhada”.

"Tem de abandonar esta frase de que todas as cartas estão em cima da mesa. Como estadista que ele pretende ser, defina um caminho sem qualquer tipo de hesitação onde há uma rota democrática e constitucional para sair disto."
Rafael Uzcátegui, diretor-geral da ONG Provea

“Juan Guaidó tem uma crise de representatividade e de confiança, e o seu entorno cometeu um erro gravíssimo. Ele tem de reconhecer isto abertamente. Se continuar a negar esses primeiros contactos, creio que a crise de confiança vai permanecer. Tem de abandonar esta frase de que todas as cartas estão em cima da mesa. Como estadista que ele pretende ser, defina um caminho sem qualquer tipo de hesitação onde há uma rota democrática e constitucional para sair disto”, diz.

Rafael Uzcátegui classifica toda esta história como “novelesca” e ao mesmo tempo “verdadeira”. E é precisamente a conjugação desses dois fatores que o preocupa. Porque ao juntar o improvável à realidade pode de ser, também aqui Nicolás Maduro poderá encontrar uma oportunidade para se reforçar ainda mais.

“Isto vai servir para criminalizar o resto das lideranças sociais e políticas na Venezuela e para aumentar o controlo da população”, diz. “Isto coloca-nos numa fase diferente.”

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.