A definição da palavra “voluntário”? José, Tobias e Laurinda

10 Outubro 2016283

José distribui comida há 30 anos, Tobias ensina a miúdos desfavorecidos que o râguebi é para todos e Laurinda ajuda crianças com cancro a esquecerem a doença. A Bolsa de Voluntariado faz hoje 10 anos.

Todas as quintas-feiras e domingos, José Soares, serralheiro industrial reformado de 70 anos, salta do banco da frente de uma carrinha para distribuir comida com a mesma “carolice” que tinha há 30 anos, quando começou nisto. Também Dean Tobias Tirei, estudante de 20 anos, reserva três fins de tarde todas as semanas para ensinar aos miúdos da Galiza, no Estoril, que o râguebi não é violência, mas antes “responsabilidade”. E às terças-feiras, depois das 17h30, Laurinda Abelho pode ser vista deitada no chão a montar um puzzle, a brincar às bonecas ou a pontapear uma bola de futebol com crianças que sofrem de cancro.

José, Tobias e Laurinda fazem-no de forma sistemática e dedicada, garantindo que tudo nas suas vidas está alinhado para que aqueles dias estejam reservados. E fazem-no de graça. Que é como quem diz, são todos voluntários — uma palavra que o dicionário que temos aqui mais à mão (Dicionário da Língua Portuguesa, ed. Editorial Notícias, 1997) não serve, nem chega, para definir o estas três pessoas fazem todas as semanas:

Voluntário,
Adj. Que procede espontâneamente [sic]; condicionado à vontade; que deriva da vontade própria; em que não há coacção; espontâneo.
S. m. Soldado que se alista no exército, sem ser obrigado; estudante admitido a frequentar uma escola em condições diferentes das dos alunos ordinários”

Não é bem isto de que falamos aqui. E esta segunda-feira, que a Bolsa de Voluntariado faz dez anos de existência, contando com mais de 35.800 voluntários e 1.886 organizações filiadas, convém explicá-lo melhor. Mais vale, pois, dar a palavra a quem sabe o que está em causa.

“É preciso uma carolice que eu nem lhe conto”

José Soares é voluntário na Casa Mãe Maria de Nazaré, situada no bairro lisboeta da Ajuda, a partir de onde prepara centenas de refeições que mais tarde vai distribuir. Não é um trabalho solitário — antes pelo contrário, há vários elementos que se dividem em diferentes equipas. José está cá para coordenar tudo e todos.

A semana começa com um email à segunda-feira, onde tenta saber quem e quando está disponível para ajudar naquela semana. Além de darem o seu tempo, muitos dos voluntários também trazem alimentos — a acrescentar a isso, também pagam quotas que mantêm a Casa Mãe Maria de Nazaré à tona e as suas atividades a funcionar. Ao email, respondem os que podem com aquilo que têm. Mais à frente na semana, depois de José já ter garantido alimentos através do Banco Alimentar, da ReFood e de outros parceiros, os voluntários juntam-se à quinta-feira e ao domingo. Às quintas, distribuem alimentos frescos (legumes e frutas, sobretudo) à porta da associação aos vários habitantes daquele bairro que por ali aparecem. Ao domingo, distribuem-se um pouco por toda a cidade para ajudar outros.

José Soares, 70 anos, coordena a distribuição de comida da Casa Mãe Maria de Nazaré (Crédito: Luís Santos Ribeiro)

“É muito difícil, isto. É preciso uma carolice que eu nem lhe conto”, garante José, um homem bonacheirão, de óculos e com um sotaque do Porto ténue mas inconfundível. “Há certos momentos em que deixo a minha vida para trás porque assumi este compromisso. Tenho de estar cá sempre. Por isso, giro a minha vida consoante a nossa casa”, explica. Por “a nossa casa”, entenda-se a Casa Mãe Maria de Nazaré, que atualmente distribui cerca de 200 aos domingos — o pico foi há “três ou quatro anos”, garante José, quando o número subiu aos 500.

Apesar de algumas flutuações, a procura é sempre muita. E não é preciso muito para que algumas pessoas da Ajuda apareçam à porta da Casa Mãe Maria de Nazaré. “É só telefonar a cinco ou seis pessoas e eles aparecem logo todos aí”, diz José, a rir-se.

Entre estas, está Rute Paulo, com 38 anos, desempregada há seis. Além do abono de família dos dois filhos e da ajuda que tem dos pais, a sua casa não tem mais nenhum rendimento, uma vez que também o marido está sem trabalho.

Atualmente, a Casa Mãe Maria de Nazaré serve cerca de 200 refeições por semana (Crédito: Luís Santos Ribeiro)

“A necessidade aconteceu depois do meu despedimento”, que há seis anos trabalhava na Fundação LIGA. Ao início, mesmo sabendo que precisava de ajuda, tinha vergonha de pedi-la. O sentimento era assim um pouco por todo o bairro, até que uma vizinha foi e levou as outras atrás até à porta da Casa Mãe Maria de Nazaré.

“Eu antes dava para o Banco Alimentar. Agora sou em quem pede ajuda”, resume. Mas não é por aqui que isto fica para Rute, que não está apenas a receber. “Sempre que me pedem, eu venho cá para ajudar a trabalhar, a lavar a loiça, a fazer o que for preciso”, garante. “É só chamar.”

Os rapazes do Fim do Mundo agora respondem com ensaios

Dean Tobias Tirei, mais conhecido só por Tobias, também sabe o que é isso de estar dos dois lados da equação do voluntariado. Em 2006, quando tinha 10 anos, foi um dos jogadores fundadores da Escolinha de Rugby da Galiza, um clube que está inserido no projeto mais amplo do ATL da Galiza, que trabalha sobretudo com crianças de meios desfavorecidos, muitas delas nascidas no antigo bairro de barracas do Fim do Mundo.

“Esta casa deu-me muitas coisas”, assume Tobias. “Recebi de graça tantas coisas desta gente que agora quero ajudar os outros da mesma forma como me ajudaram a mim.” Para o jovem nascido na Roménia, e que se mudou para Portugal com os pais quando tinha apenas cinco anos, trata-se de dar a conhecer aos miúdos da Galiza os “valores do râguebi” e “a importância da responsabilidade”.

“O râguebi é um desporto muito bom porque é violento, e pode servir como uma maneira de estes miúdos descarregarem as suas energias, mas ao mesmo tempo que isso é feito eles não se podem esquecer das regras do desporto”, explica, para depois sintetizar: “O râguebi é um desporto violento com muitas regras. As ruas são violentas, mas não têm regras”.

Antes de ser treinador na Escolinha de Rugby da Galiza, Tobias foi um dos jogadores fundadores do clube, aos 10 anos (Crédito: Luís Santos Ribeiro)

Quem achar que o râguebi é um desporto elitista, que se desengane. Pelo menos se vier até ao campo de treino da Escolinha de Rugby da Galiza. Basta olhar, por exemplo, para a equipa dos sub-14 para perceber que a maior parte dos jogadores são negros e muitos são ciganos. Naquele escalão, o único rapaz branco e loiro é filho de emigrantes romenos. É o irmão de Tobias.

Muitas vezes, esta multietnicidade choca quando os rapazes da Galiza vão a outros campos. Já era assim quando Tobias era jogador lá (atualmente, joga nos séniores do Belenenses) e continua a ser assim nos seus tempos de treinador. “Muitas vezes, quando as coisas ficam mais quentes, há quem comece a dizer ‘preto disto!’, ‘cigano daquilo!'”, conta. Nessas alturas, entram os treinadores e as suas ordens claras. “Não é para dar porrada, não é para responder aos insultos. Não é esta a cultura de râguebi que queremos. Querem responder, então respondam dentro do campo. Respondam com placagens duras, respondam com ensaios”, diz Tobias, parafraseando aquilo que os treinadores lhe diziam e aquilo que ele agora diz aos seus miúdos.

Eles ouvem. É o caso de Erasmo Vieira, rapaz de 12 anos que nasceu na Guiné e que veio para Portugal aos quatro meses. Joga râguebi na Galiza desde os três anos — é o mesmo que dizer que já o faz há três quartos da sua vida. Foi dos mega-bambis, sub-8, sub-10, sub-12 e agora é sub-14.

Erasmo é rápido. Tão rápido que a sua velocidade já se tornou numa lenda — ou pelo menos a suposta origem dessa velocidade. Uma vez, quando ainda estava na escola primária, Erasmo ficou sozinho em casa. Não estava habituado à solidão (além da mãe, tem outros seis irmãos) e assustou-se quando ouviu passos a partir da porta de casa. “Pensei logo que eram ladrões ou assim”, recorda. Assustado, Erasmo correu para longe da porta de casa, abriu a janela e saltou lá para fora. Era um terceiro andar, mas Erasmo ficou bem. E hoje, pelo menos para os seus colegas, a velocidade deste arrière está explicada nesta lenda fundadora. Erasmo discorda: “Eu sou rápido porque venho treinar”.

Erasmo tem 12 anos e joga na Escolinha de Rugby da Galiza desde os três (Crédito: Luís Santos Ribeiro)

Da sua carreira de nove anos a segurar aquela bola estranha, Erasmo destaca os jogos com os rapazes da equipa do colégio Saint Julian’s, em Carcavelos. “Porque vamos lá todos para jogar, ninguém anda a chamar nomes”, resume. “Quando chamam nomes, eu grito para dentro e continuo a jogar.”

Quando lhe perguntamos se sabe que o treinador dele é voluntário, Erasmo franze o sobrolho. Numa primeira fase, demonstra dúvidas com o termo. Depois, admite que não tinha essa ideia. “Não recebem dinheiro?”

Não. Mas recebem outras coisas em troca.

E foi precisamente isso que baralhou Laurinda Abelho nos primeiros tempos como voluntária na Casa Acreditar de Lisboa, onde vivem crianças oriundas de longe da capital (desde as ilhas até aos PALOP) que necessitam de tratamentos oncológicos e os seus pais. Há dois anos, quando começou a ir para esta casa uma vez por semana para brincar com as crianças e aconchegar alguns pais, estranhou qualquer coisa nela mesma.

“Eu estava ali para ajudar, não é? Estava ali para dar o meu tempo e o meu trabalho àquelas crianças. Era para ajudar os outros, não a mim própria. Mas depois, quando saía de lá, saía tão bem, mas tão bem comigo própria, tão feliz, que achava que estava a fazer alguma coisa de mal”, lembra a jurista, que trabalha para a Câmara Municipal de Lisboa. “Depois fui falar disto com uma psicóloga que trabalha lá e ela explicou-me que é mesmo assim. Era sinal de que tinha corrido tudo bem, que foi bom para as crianças e também para mim.”

“Às vezes ando para lá feita parva a imitar o Homem Aranha”

Laurinda começou a fazer voluntariado na Casa Acreditar depois de ter percebido que não tinha mais constrangimentos para poder dedicar o seu tempo a uma causa ou a alguém. “Já tinha a minha filha criada e fora de casa e depois nós temos sempre tempo, basta saber geri-lo”, explica.

Na altura de decidir quem ajudar, Laurinda lembrou-se dos tempos em que a filha, com 10 anos, passou duas temporadas internada no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, por dois problemas de saúde distintos e que não eram oncológicos. “Naquela altura, como mãe, senti que não havia muito apoio às crianças e aos pais”, recorda. Os dias e noites no hospital passavam devagar, com poucas distrações para além dos motivos que as levaram até ali. Chegaram a passar o Natal no hospital. Ao fim de uns dias, depois de uma melhoria, Laurinda conseguiu levar a filha para casa na passagem de ano — e levou consigo uma rapariga guineense, de 12 anos e sem família em Portugal, que estava na cama ao lado. “Foi aí que percebi que era preciso ajudar”, recorda.

Ajudar é simples: “Só temos de fazer o que os miúdos nos pedem”. Fazer puzzles, desenhar com eles, brincar às bonecas ou simplesmente dar-lhes atenção. Até aqui, tudo fácil. “O mais difícil é quando eles nos pedem coisas mais difíceis, sobretudo os rapazes. Por exemplo pedem-nos para jogar à bola. Eu vou lá e dou um chuto e eles dizem ‘Eeeh, tu não sabes jogar à bola!’. Eles são muito exigentes!”, diz, a rir. “Às vezes ando para lá feita parva a imitar o Homem Aranha, a mandar teias de um lado para o outro.”

Ao lado, estão os pais das crianças — na maior parte das vezes, apenas as mães. “A nossa maior preocupação são as crianças, mas muitas vezes, quando vemos os pais um bocado mais em baixo, vamos ter com eles”, conta Laurinda. “Basta pôr-lhes a mão sobre os ombros para eles saírem de um momento menos bom.”

Sílvia Silva vive na Casa Acreditar de Lisboa há um ano, com o filho de nove anos, doente com leucemia (Foto: Hugo Amaral / Observador)

Sílvia Silva, 41 anos e mãe de um filho com nove anos com leucemia, já está na Casa Acreditar há um ano. Por não haver tratamentos para leucemia em Cabo Verde, onde nasceu, veio para Portugal. Foi nessa altura que lhe foram abertas as portas da Casa Acreditar. Passado um ano, tem esta certeza: “Sem os voluntários, isto aqui ia ser muito difícil”. Além da ajuda que dão com os filhos, ajudando-os a espairecer, alguns tornam-se essenciais a estes pais porque, um dia, também eles já tiveram um filho com cancro. “Ouvir as histórias de superação deles é muito importante para nós”, reconhece Sílvia.

Chorar acontece, mas só no carro

Laurinda ajuda no que pode, sempre com um sorriso nos lábios. Mas nem sempre é fácil. Ver crianças a desaparecer é algo duro e uma coisa à qual Laurinda ainda não se habituou. Nessas alturas, também quando vê que uma criança está a piorar ou que outra, que já tinha tido alta, retorna à Casa Acreditar porque o cancro voltou, faz-se de forte. Não é por ela, mas pelos miúdos e pelos pais que por lá continuam. “Não posso mostrar fraqueza ao pé deles, isso é das coisas mais importantes”, garante. Mesmo quando do outro lado apenas vem desalento.

Uma das ocasiões que mais a marcaram aconteceu num 6 de janeiro, Dia de Reis. “Estávamos a fazer coroas, a dizer que eram para as nossas princesas e para os nossos príncipes”, recorda. Pelo meio uma rapariga de seis anos disse: “No ano que passou já morreram três meninos e se calhar nós vamos ser os próximos”. A sala gelou durante alguns momentos, até que Laurinda interveio: “Não se pode pensar assim, então?! Isto não acontece a todos!”. A menina acabou por lhe dar razão. Laurinda segurou-se. Mas depois, quando chegou ao carro, desfez-se em lágrimas. Já o fez por mais vezes.

Ao fim de dois anos a fazer voluntariado na Casa Acreditar, ganhou algumas certezas. A primeira é a de que “chorar lava a alma”. A segunda é a de que “o mais importante na nossa vida é a saúde”. A terceira é a de que “qualquer um pode ajudar, basta ser ele próprio”.

No final da entrevista, pedimos a Laurinda para fotografá-la. Simpaticamente, respondeu que não, que não gostava de ser fotografada. É pena: se tivesse dito que sim, fazíamos uma montagem com a sua cara ao lado da de Tobias e de José. Depois, podia ir para um dicionário ilustrado, mesmo ao lado da palavra “voluntário”.

Texto de João de Almeida Dias, fotografia de Hugo Amaral.
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Voluntariado

Hoje é dia de falar de voluntariado /premium

Laurinda Alves
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Importa perceber que o voluntariado é e será sempre uma demanda individual, uma busca pessoal e um verbo, digamos assim, que tem necessariamente que ser conjugado na primeira pessoa do singular. 

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