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A capa, contra-capa e badana do livro são exíguos para permitir reproduzir os encómios que a mais respeitável imprensa cultural anglo-saxónica dispensou a Memórias de um Escravo, numa apoteose que contrasta com a indiferença suscitada nos meios de língua francesa, espanhola, italiana ou alemã, onde o livro nem sequer foi traduzido. Numa coisa Laila Lalami, escritora marroquina radicada em Los Angeles, acertou em cheio: a matéria-prima do seu romance tem tudo para ser cativante, uma vez que assenta nas extraordinárias aventuras da Expedição Narváez.

A Expedição Narváez: crónica de um fracasso anunciado

A Expedição Narváez começou com a licença concedida, por Carlos V, a 25 de Dezembro de 1526, ao nobre espanhol Pánfilo de Narváez para arregimentar soldados e colonos e explorar e estabelecer colónias no que os espanhóis então designavam por Florida e que abrangia toda a costa norte e nordeste do Golfo do México, correspondendo não só ao moderno estado da Florida, como à Louisiana e ao Texas.

Não se sabe que fios terá Narváez movido para que lhe fosse concedido domínio sobre tão vasto território: por um lado tinha considerável experiência do Novo Mundo, mas, por outro, o seu curriculum raramente tinha revelado capacidade de liderança e ponderação. A principal missão que lhe fora confiada redundara em rotundo fiasco: em 1520, o governador de Cuba enviara-o ao México com o fito de deter Hernán Cortés, que decidira conquistar território por conta própria, desobedecendo às ordens do governador. Apesar de as suas tropas superarem as de Cortés numa razão de 3:1, Narváez foi derrotado. Não só perdeu a batalha como um olho (há quem diga que em resultado de uma cutilada do próprio Cortés), os seus homens, que se juntaram a Cortés, aliciados pelas promessas de ouro, e a liberdade, já que Cortés o encarcerou durante dois anos em Veracruz.

Seja como for, munido da licença emitida por Carlos V, conseguiu seduzir investidores a financiar a sua expedição, prometendo-lhes riquezas comparáveis às que o seu rival Cortés pilhara ao Império Azteca. A frota de cinco navios e 600 homens zarpou de Sanlúcar de Barrameda a 17 de Junho de 1527 e, depois de fazer escala nas Canárias, em Santo Domingo (Hispaniola) e Santiago e Cienfuegos (Cuba), tocou terra no que é hoje a Tampa Bay, na Florida, a 12 de Abril de 1528.

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Reconstituição, por Dean Quigley, do desembarque de Narváez no que é hoje Tampa Bay

Os problemas de Pánfilo de Narváez começaram antes de chegar à Florida, com a deserção de mais de uma centena de homens em Santo Domingo, em parte devido às notícias do fiasco das expedições à Florida capitaneadas por Ponce de León (1521) e de Lucas Vázquez de Ayllón (1526). A isto somou-se a perda de dois navios pequenos, 60 homens e parte considerável dos cavalos, devido a um furacão que assolou Cuba. Por outro lado, Narváez contratara como piloto Diego Miruelo, que se gabava de conhecer bem as costas do Golfo, mas que fez encalhar a frota mal zarpou de Cienfuegos e voltaria a dar provas de escassa competência na costa da Florida.

As decisões pouco sensatas de Narváez, o desconhecimento da região e a ganância, fundada na crença, completamente infundada, da existência de cidades índias transbordantes de riquezas no que é hoje o Sudeste dos EUA, levaram a que a expedição se cindisse, com um grupo de 300 cavaleiros e soldados a marchar por terra para norte, em direcção a um mítico reino de Apalachee, enquanto 100 homens seguiam com os navios ao longo da costa, na mesma direcção. Estava previsto que voltassem a encontrar-se, mas nunca mais voltariam a estabelecer contacto e, após esperarem em vão pela coluna que marchara por terra, os navios acabaram por regressar a Cuba.

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Amostra do tipo de terreno que a coluna de Narváez teve de transpor na marcha através da Florida

As doenças, as privações, os jacarés, as serpentes venenosas, as escaramuças com as tribos índias e os obstáculos naturais – rios e pântanos – foram desgastando a coluna de Narváez, sem que encontrassem nada que se parecesse com as prometidas riquezas. Em Agosto de 1528, tendo chegado ao que é hoje Apalachee Bay, onde a península da Florida entronca no continente americano, e não havendo sinais dos navios da expedição, Narváez decidiu construir jangadas e navegar até ao porto de Pánuco, no México.

Na sua completa desorientação, os exploradores julgavam que Pánuco se situava a 30 milhas para oeste – na verdade estava no outro lado do Golfo do México, a mais de 1000 milhas para sudoeste.

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Rota da Expedição Narváez e do grupo de Cabeza de Vaca

Viram-se forçados a fundir armaduras e capacetes para poder forjar ferramentas e pregos necessários à construção das jangadas e a matar os cavalos, que não teriam lugar a bordo. Os 242 sobreviventes fizeram-se ao mar sem ter entre eles alguém com experiência de navegação (os marinheiros tinham ficado com a frota) e foram sendo empurrados pelos ventos para Oeste, passando pelo delta do Mississipi. Em poucos dias, as privações e a exposição aos elementos dizimaram a expedição e Narváez, em vez de tentar congregar os esforços dos sobreviventes, acabou por prescindir de liderar, dizendo que “agora, cada um deve tentar salvar a sua vida” – não foi capaz de salvar a sua, pois nunca mais foi visto e Hugh Thomas, em The Golden Age: The Spanish Empire of Charles V (2010, Penguin), conclui que “foi um fim trágico para um aventureiro decidido cujas ambições eram desmedidas mas cujas capacidades eram limitadas”.

80 náufragos foram atirados à praia de uma ilha-barreira (provavelmente na região do que é hoje a ilha de Galveston, no Texas) e destes apenas 15 sobreviveram ao Inverno.

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Ilha de Galveston, Texas: a paisagem será idílica para um turista moderno, mas a ilha foi um inferno para os náufrago do século XVI

Doentes, enfraquecidos e sem armas nem ferramentas, foram acolhidos pelos índios Karankawa, que os forçaram a desempenhar tarefas humildes em troca de alguma (pouca) comida e abrigo sumário – não por mesquinhez dos índios, mas porque também estes viviam em condições de penúria.

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Duna costeira na actual Ilha de Galveston, Texas

Uma epidemia, que afectou exploradores e índios, iria causar ainda mais vítimas, de forma que de toda a expedição só restaram quatro homens. Um deles foi Álvar Núñez Cabeza de Vaca, tesoureiro da expedição (e encarregado de zelar por que 5% das riquezas obtidas pela expedição revertessem para a Coroa), que viveu alguns meses crendo-se o único sobrevivente, até encontrar um trio que fora acolhido por outra tribo, formado por Alonso del Castillo Maldonado, Andrés Dorantes de Carranza e Estebanico, o escravo mouro deste último.

A vida, quer na ilha (que os espanhóis baptizaram de Malhado, “mau fado”, “desgraça”), quer no continente, para onde os índios migravam regularmente, era duríssima. A alimentação na ilha resumia-se a ostras, peixe e tubérculos de juncos (conhecidos hoje como “batatas do pântano”), podendo enriquecer-se, no continente, com pequenos mamíferos e veados. As tribos da região desconheciam a agricultura e apenas possuíam ferramentas e armas rudimentares em osso, madeira e pedra.

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Reconstituição do modo de vida quotidiano dos índios Karankawa

O relato do tesoureiro

O grupo de quatro exploradores acabaria por escapar à semi-escravidão em que viviam e foi deslocando-se para Oeste, pelos territórios hoje correspondentes ao Texas e ao México e as suas condições de vida tornaram-se menos penosas quando granjearam a fama de curandeiros entre as tribos índias. Estas acolhiam-nos com festas e presentes e encarregavam-se de os guiar até à tribo seguinte, pois a sua fama precedia-os e as tribos em redor solicitavam a intervenção dos seus poderes mágicos.

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Casas Grandes (ou Paquimé), no estado de Chihuahua, México: Quando o grupo de Cabeza de Vaca passou por este povoado da cultura Mogollon, já estava abandonado há décadas

E assim atravessaram o México até à costa do Pacífico (mais precisamente, ao Golfo da Califórnia), o que não é, de todo, perceptível no livro de Lalami. Nas proximidades do Rio Petatlán (hoje Rio Sinaloa) e do que é hoje a cidade de Guasave, encontraram cavaleiros espanhóis que andavam a arrebanhar índios para os escravizar e que ficaram pasmados com a aparição daqueles quatro espectros semi-nus e de longas barbas. O quarteto de sobreviventes seguiu com os cavaleiros para sul, ao longo da costa, até Culiacán e, posteriormente, foram até Compostela, na Nova Galiza (hoje no estado de Nayarit). Foram recebidos por Antonio Mendoza, vice-rei da Nova Espanha, na Cidade do México, a 24 de Julho de 1536, mais de oito anos depois de terem desembarcado na Florida.

Álvar Núñez Cabeza de Vaca regressou a Espanha em 1537 e transpôs para o papel as memórias das “jornadas que fez pelas Índias”, com o intento de transmitir a Carlos V “o que vi e ouvi nos nove anos em que vagueei, perdido e miserável, por muitas terras remotas”. As memórias foram coligidas no volume La relación y comentarios del governador Álvar Núñez Cabeza de Vaca, publicado em Sevilha em 1542, numa edição infestada de erros, que o autor reveria para a reedição de 1555 e que mais tarde seria reeditado com o título de Naufragios.

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Página de rosto da edição de 1555 de La relación y comentarios del governador Álvar Núñez Cabeza de Vaca

Estebanico e as sete cidades de Cibola

Laila Lalami, nascida em 1968 em Rabat, Marrocos, e estabelecida nos EUA desde 1992, onde é professora de escrita criativa na Universidade da Califórnia em Riverside e colaboradora dos Los Angeles Times, The Washington Post, The Nation e The New York Times, entendeu que La relación y comentarios del governador Álvar Núñez Cabeza de Vaca oferecia uma perspectiva eurocêntrica e decidiu providenciar um relato alternativo da Expedição Narváez, confiando a narração de Memórias de um escravo (edição portuguesa do Clube do Autor, tradução de Paulo Rêgo) ao mais humilde dos sobreviventes: o escravo mouro Estebanico.

O que se sabe de concreto sobre Estebanico antes de se juntar à Expedição Narváez foi que foi vendido, em 1522, como escravo pelos portugueses na cidade marroquina de Azamor. O seu nome só volta a ser mencionado quando, após os oito anos de errância dos sobreviventes da Expedição Narváez, o seu amo, Andrés Dorantes, o “cedeu” ou vendeu a Antonio Mendoza, vice-rei da Nova Espanha, que o enviou numa expedição em busca das lendárias Sete Cidades de Cibola.

A lenda de sete cidades que teriam sido fundadas por sete bispos fugidos à invasão árabe da Península Ibérica datava da Idade Média e foi reavivada pela descoberta do Novo Mundo e pelas riquezas pilhadas por Cortés aos aztecas. Os quatro sobreviventes da Expedição Narváez deram novo alento à lenda com os seus relatos mirabolantes sobre cidades fabulosamente ricas situadas no deserto de Sonora, no que são hoje os estados do Arizona e Novo México.

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O deserto de Sonora, perto de Maricopa, Arizona, EUA

Em 1539, o vice-rei despachou o frade Marcos de Niza (natural de Nice) com Estebanico como guia e intérprete. Este seguiu à frente do frade e terá chegado a uma cidade dos índios zuni, Hawikuh (hoje no Novo México), onde terá sido morto.

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Aldeia zuni no Novo México, foto de 1879

Ao saber disto, o frade arrepiou caminho – mas regressaria um ano depois como guia de uma expedição comandada por Francisco Vázquez de Coronado, que, após deambulações pelo Sudoeste dos EUA se mostrou desiludido com as indicações veiculadas por Marcos de Niza, queixando-se de não ter encontrado “cidades tão belas como duas Sevilhas juntas, nem grandes catedrais com formosas cúpulas douradas e portas de turquesa; só umas casitas feitas de barro, habitadas por índios com cara de poucos amigos”.

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Rota da expedição de Coronado em busca das Sete Cidades de Cibola, 1540-42

As revelações da expedição de Coronado não foram, todavia, suficientes para extinguir as lendas sobre cidades a abarrotar de riquezas perdidas em confins remotos do Novo Mundo que circulavam insistentemente entre os conquistadores espanhóis, que continuaram a aventurar-se por desertos inóspitos e selvas densas em busca da miragem do ouro e das pedrarias à mão de semear.

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A expedição de Francisco Vázquez de Coronado ao Sudoeste dos EUA, por Frederic Remington, c.1890-1900

O relato do mouro

O romance Memórias de um Escravo tem um título português que não traduz literalmente o original inglês, que é The moor’s account, ou seja, O relato do mouro. Não é certo a que identidade étnica corresponderá a designação “mouro” que é usualmente colada a Estebanico: o relato de Cabeza de Vaca chama-lhe “negro árabe, natural de Azamor”, mas o “árabe” aqui significa provavelmente “de religião islâmica”. Uma vez que há indicações de que a sua pele seria acastanhada (o “negro”, também mencionado por outras fontes, não deverá ser interpretado literalmente), é provável que fosse não um árabe mas um berbere, cujo nome talvez fosse Mustafa (Estebanico é diminutivo de Esteban, nome com que foi baptizado em Espanha, após ter sido escravizado).

Laila Lalami inventa para Mustafa/Estebanico uma biografia pré-escravatura, que decorre na cidade de Azamor, e inventa-lhe também uma biografia posterior a 1539: a sua morte em Hawikuh às mãos dos Zunis teria sido simulada, fazendo parte de um estratagema para recuperar a liberdade. A ideia não é original, pois já fora sugerida em 2002 por Juan Francisco Maura, um estudioso da Expedição Narváez; por outro lado, Lalami não lhe dá continuidade, pois um ano depois, a cidade onde Mustafa/Estebanico teria encontrado refúgio e liberdade, foi conquistada por Coronado (há sempre a possibilidade de Lalami estar a guardar esses eventos para um 2.º volume da saga Estebanico).

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“Episódio da conquista da América”, quadro do holandês Jan Mostart (c. 1475-c.1553), possivelmente inspirado no ataque de Coronado ao povoado zuni de Hawikuh

Mas se é lícito que o romancista detenha a sua narrativa onde entende, mais inexplicável é que Lalami omita da narrativa tudo o que se passou na Expedição Narvaéz entre Sanlúcar de Barrameda e a chegada à Florida, embora cubra detalhadamente todos os outros momentos da vida de Mustafa/Estebanico. Mas esse acaba por ser um problema menor do romance, face ao amadorismo geral da prosa e da estruturação da narrativa.

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Azamor, a cidade de origem de Mustafa/Estebanico, segundo o Civitates orbis terrarum (1572) de Georg Braun & Frans Ogenberg

Uma voz que soa a falso

O livro começa por apresentar-se como “sendo o resultado do humilde labor de Mustafa ibn Muhammad ibn Abdussalam al-Zamori, sendo um relato verídico da sua vida e viagens, desde a cidade de Azamor até à Terra dos Índios”, cujo fito é “corrigir certos pormenores da história” relatada pelos seus companheiros castelhanos. É estratagema frequente apresentar-se um romance como sendo um diário ou um relato factual escrito por alguém que não o autor creditado na capa – nada a obstar, desde que o autor consiga sustentar essa impressão. Lalami só tenta criar a ilusão durante as primeiras duas páginas, redigidas em tom empolado e arcaizante, e depois assume o tom típico da ficção anglo-saxónica do século XXI dirigida ao grande público (tendo apenas o cuidado de semear algumas menções a “Alá o misericordioso”, para nos lembrar das origens de Mustafa/Estebanico).

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Azamor e o rio Morbeia (Oum Re-Rbia), frequentemente citado no relato da juventude de Mustafa/Estebanico

Mustafa/Estebanico provém de uma família modesta, recebeu apenas instrução elementar, foi aluno de medíocre aproveitamento, nunca exerceu mister ligado a livros ou alguma forma de erudição enquanto foi livre e depois de escravizado foi incumbido das mais humildes tarefas domésticas e afastado de qualquer contacto com a escrita e a cultura e não foi certamente nos oito anos de errância pelo Novo Mundo, em condições de extrema penúria e entre povos sem escrita, que terá desenvolvido a prosa tagarela e desenvolta que o seu (suposto) relato evidencia. Lalami parece não estar consciente de que, no século XVI, uma pessoa com os antecedentes de Mustafa/Estebanico teria dificuldade em escrever uma frase com uma dúzia de palavras. Menos ainda seria capaz de criar uma estrutura cronológica não-linear, em que os capítulos que narram as peripécias da expedição Narváez alternam com capítulos dedicados à rememoração da vida de Mustafa/Estebanico em Azamor e, depois de escravizado, em Sevilha. Para completar o quadro de incongruência e inépcia, o recurso à alternância de capítulos em tempos diferentes não desempenha qualquer papel na economia narrativa; é apenas um artifício arbitrário de Lalami para introduzir alguma variedade e é empregue com tal desleixo, que a meio do livro a história em flashback se esgota, e daí em diante o relato passa a ser apenas o da expedição.

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Sevilha no século XVI, por Alonso Sánchez Coello (c. 1532-1588)

Um produto saído de uma linha montagem

Não só o narrador em momento algum consegue assumir a voz de um escravo berbere do século XVI, como a personagem de Estebanico nunca ganha espessura suficiente para que o seu destino possa cativar o leitor. O afastamento é reforçado por uma prosa sem nada de distintivo e pelo recurso aos clichés do moderno romance industrial. Eis uma breve relação de lugares-comuns, inépcias e tolices:

● Em espanhol no original: os diálogos entre espanhóis estão polvilhados de palavras em espanhol: señor, hermano, capitán, compadre, amigo, damas y caballeros, buenos días, bienvenidos!, gracias a Dios!, por Dios!, increíble!, míralos!, ándate!. Que língua falarão os espanhóis quando não falam em itálico?

● Os gestos que acompanham a fala: como é usual no romance industrial anglo-saxónico, os monólogos e diálogos são acompanhados pela descrição dos gestos das personagens, apesar de estes serem irrelevantes para a narrativa ou para a definição das personagens e apenas sirvam para conferir uma aura falsamente natural a uma prosa confrangedoramente postiça. Assim, enquanto tagarelam, Narváez enverga “um gibão negro, cujas mangas ia de tempo a tempos puxando e alisando”, o vigário-geral “retirou uma noz da tigela que havia no centro da mesa e utilizou o cabo da sua faca para lhe quebrar a casca” e são muitos os que interrompem o discurso para beber de um cantil ou de um copo.

O estratagema tem máxima expressão na personagem Castillo, cuja fala é pautada por um gesto recorrente: “percorreu os seus cabelos castanhos com as pontas dos dedos – um tique nervoso”, “percorreu os cabelos com os dedos”, “percorreu os cabelos castanhos com as pontas dos dedos”.

● Ementas detalhadas: Não é plausível que, numa memória escrita anos depois, alguém seja capaz de enumerar o que se comeu numa refeição que não esteve associada a um evento marcante. Todavia, Estebanico lá vai pontuando o seu relato com listas com “peixe grelhado, arroz, carne de porco curada e fruta, tanto fresca como seca”. Há que encher a barriga das personagens e, sobretudo, as páginas do romance, mesmo que à custa de inanidades.

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Floris van Dyck, 1622

● Incongruências narrativas: O médico que tratou o pai de Mustafa/Estebanico de uma espadeirada infligida por um soldado português “envergava vestes de uma costumeira cor negra e possuía uma barba comprida, toda branca à excepção de alguns tufos de pelos escuros”. Atendendo a que o médico sairá de cena seis linhas abaixo e nunca mais regressará, que relevância tem esta informação? E como pôde o narrador obtê-la se tinha, à data, apenas umas horas de vida?

Na pg. 167, o narrador descreve como se fosse testemunha presencial todos os detalhes (irrelevantes) de uma cena passada na ala feminina dos banhos públicos de Azamor, a que, obviamente não poderia ter acesso.

Ao ver as pirâmides de Tenochtitlán, Mustafa/Estebanico “[pensa] nos egípcios, nos sumérios, nos babilónios”, um pensamento flagrantemente deslocado num humilde e inculto escravo mouro do século XVI – seriam precisos alguns séculos para que a história da Suméria fosse desenterrada e se difundisse entre as massas.

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Reconstituição de Tenochtitlán, a capital azteca, segundo mural no Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México

Na pg. 247, Mustafa/Estebanico descreve o seu encontro fortuito com um índio que lava peles num rio e logo trata de o descrever como “um homem que se vestia como mulher, desempenhava as tarefas de uma mulher e levava um homem para a sua cama, mas que, sob todos os outros restantes aspectos, era um membro normal da tribo”. Mustafa/Estebanico acaba de cruzar-se com um homem sobre o qual nada sabia – de onde lhe veio a informação sobre as suas práticas sexuais e o seu estatuto na tribo?

Lalami parece entender o narrador como um mero canal de transmissão da informação que lhe dá jeito para manter o romance em andamento – a necessidade de a voz narrativa ser congruente no tom e no ponto de vista é algo que escapa à autora.

● Imagens pseudo-poéticas: “O céu apresentava-se na sua vastidão azul-turquesa, apenas interrompida pelos mastros negros e as velas brancas dos navios ao nosso redor”; “Estávamos sentados sob um dossel de estrelas, tão brilhantes e tão próximas que quase tínhamos a sensação de poder estender o braço e tocar-lhes”.

● Quebras de registo: Na pg. 165 do relato, o narrador derruba, inopinadamente, a “quarta parede” para se dirigir ao leitor: “Caro leitor, se chamo a atenção para estes pormenores…” Ocorre novamente na pg. 244, e, ainda por cima, para meter, a martelo, um episódio que vem mesmo a propósito para justificar a atitude de uma personagem: “Já vos falei dela? Era um dos passageiros do Gracia de Dios…”. Não, não tinha falado e o truque é sumamente desonesto.

● Conjunções adversativas ao desbarato: Lalami parece não saber em que situações utilizar “mas”, “no entanto”, “apesar de”. Exemplo: “a água fluía rapidamente, mas era turva”.

● Frases tontas: A história de Mustafa/Estebanico “teve início, como milhares de outras histórias, em Fez” – o mesmo poderia dizer-se de qualquer outro sítio povoado do planeta.

“Vivendo tão longe da costa, os [índios] Arbadaos nem sequer pescavam” – se os Arbadaos viviam no meio do deserto do Texas, para quê mencionar que não pescavam? Será pertinente observar que “os egípcios, vivendo tão longe da neve, nem sequer praticavam ski”?

“Apesar das sandálias que trazia calçadas, era capaz de sentir o calor que se desprendia do chão”; “sob as sandálias que envolviam os meus pés, era capaz de sentir os movimentos dos animais”. Porquê especificar que a personagem usa as sandálias nos pés? Sem essa informação, poderia o leitor presumir que as usava nas orelhas?

● Lapsos: Esquecida de que amputara um braço pelo ombro ao pai de Mustafa/Estebanito, uns 25 anos antes, a autora atribui-lhe uma doença que faz “os músculos dos seus braços e das pernas sofrerem espasmos incontroláveis”. Lalami nem sequer conhece a principal personagem do livro, uma vez que na pg. 269, faz Mustafa/Estebanico escrever “vi nela alguém que, tal como eu, se opunha às regras que lhe eram impostas”, quando até aí a personagem se revelou a mais inerme, submissa e cobarde das criaturas e se sujeitou sem protestar a tudo o que lhe foi imposto.

A ideia de que alguém com domínio tão periclitante da narrativa, tão manifesta falta de rigor e prosa tão desenxabida possa ser professora de escrita criativa numa universidade prestigiada é, no mínimo, preocupante.

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Detalhe do fresco “A glória de Espanha com os seus estados e províncias”, de Giovanni Battista Tiepolo, no Palácio Real de Madrid (1762-66), representando o carregamento de um navio espanhol com as riquezas do Novo Mundo

O que traz de novo a ficção de Laila Lalami?

La relación y comentarios del governador Álvar Núñez Cabeza de Vaca teve poucos leitores no seu tempo, mas foi redescoberto no século XX. Tem sido louvado por ser, para os padrões da época e para a atitude arrogante e dogmática dos conquistadores espanhóis perante os povos do Novo Mundo, invulgarmente atento e rigoroso na descrição dos costumes, características e crenças das diferentes tribos, quase podendo falar-se de uma perspectiva proto-antropológica. Ao partilhar as dificuldades quotidianas e a pobreza extrema dos índios com quem viveu, Cabeza de Vaca parece ter alijado parte da mentalidade eurocêntrica que moldava a visão dos restantes europeus – chega a escrever, referindo-se aos índios Karankawa da Ilha de Galveston, que “de todos os povos da Terra, nenhum ama mais os seus filhos nem lhes dispensa melhor tratamento; e quando acontece perderem uma criança, os pais, os familiares e toda a tribo choram por ele e as lamentações duram todo um ano”.

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Reconstituição do modo de vida quotidiano dos índios Karankawa

Em Conquistadors: The Spanish explorers and the discovery of the New World (2000), Michael Wood, que, de automóvel, a cavalo e a pé, refez parte do percurso de Cabeza de Vaca e dos seus companheiros, vê em La relación “a primeira grande obra literária sobre a América e o primeiro texto histórico sobre os povos do sul dos EUA e do norte do México. É uma história com o poder de um mito – A tempestade e o Rei Lear num só volume –, uma história de redenção em que um conquistador se torna num ‘homem nu e inadaptado’ e descobre algo sobre si mesmo e sobre o Outro”.

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Índios reduzidos à escravatura por espanhóis, gravura de Theodor de Bry (1528-98)

É muito discutido o que terá Cabeza de Vaca omitido de um relato que tinha por destinatários os seus compatriotas, crentes fervorosos nos preceitos do catolicismo, na superioridade dos brancos e no seu direito a subjugar e escravizar todos os outros povos – é possível que tenha silenciado as relações sexuais que terá mantido com índias, lacuna que Lalami trata de preencher, ainda que de forma convencional e pudica.

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“Alegoria da América”: gravura de Galle a partir de Jan van der Straet, também conhecido como Johanne Stradanus (1523-1605), representando o explorador Amerigo Vespucci a despertar a América do seu sono; note-se, ao fundo, o animado barbecue canibal

Apesar da auto-censura que Cabeza de Vaca provavelmente se terá imposto, La relación pouco tem a ver em espírito com os relatos épicos de explorações surgidos no século XVI. Não é uma compilação de feitos heróicos de um punhado de europeus indómitos contra turbas de selvagens, mas uma “jornada interior”, “uma história de crescimento e desenvolvimento espiritual” e de descoberta do Outro, não como uma criatura alienígena e ameaçadora, mas “como um reflexo de si mesmo” (Wood). É muito significativo que Cabeza de Vaca sublinhe no seu relato que, na sua odisseia pela América, em contacto com povos muito diversos, “em lado algum nos deparámos com sacrifícios e idolatria”. Michael Wood escreve, em Conquistadors, que esta “é uma das mais surpreendentes declarações feitas por um europeu durante a Era das Descobertas”.

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O imperador azteca Moctezuma encontra Hernán Cortés – é este último, e não Cabeza de Vaca, que está mais próximo de representar o típico explorador espanhol do Novo Mundo

O fascínio exercido pelo relato de Cabeza de Vaca desencadeou, ao longo do século XX, um impressionante caudal de romances, biografias ficcionadas, ensaios, artigos científicos e até uma longa-metragem, o “Cabeza de Vaca” (1991) do realizador mexicano Nicolás Echevarria.

[Trailer de Cabeza de Vaca (1991), de Nicolás Echevarria]

Coexistem no mercado várias edições anotadas e comentadas de La relación/Naufragios, a odisseia dos quatro exploradores foi recontada em muitas dezenas de livros de divulgação histórica, alguns deles destinados a público juvenil, e o trajecto da odisseia foi alvo de diversas propostas de reconstituição, fundamentadas em informação documental, arqueológica, topográfica, geológica, botânica e antropológica.

Lalami não tem sequer o mérito de ter sido a primeira a tomar o ponto de vista de Mustafa/Estebanico: antes houve Estevanico the Black (1968) de John Upton Terrell, Estebanico (1974) de Helen Rand Parish, Estevanico: Black explorer in Spanish Texas (1986), de Carolyn Arrington, e Les incroyables péripéties d’Estebanico el Mauro (1993), de Eddy Devolder com ilustrações do magistral Alberto Breccia.

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Capa de Les incroyables péripéties d’Estebanico el Mauro

Este último livro tem a particularidade de, na I parte, contar a história do ponto de vista de Estebanico, que rejeita a mundividência dos brancos, obcecados em “superarem-se a si mesmos e ir mais além, em vez de escutarem o palpitar da terra sob os seus pés”, e de, na II parte, dar a palavra ao seu amo, Andrés Dorantes, que complementa a história do seu escravo e contraria a gloriosa história oficial da conquista das Américas.

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Ilustração de Alberto Breccia para “Les incroyables péripéties d’Estebanico el Mauro”

A consagração unânime da mediocridade

O que há de cativante em Memórias de um Escravo é o que já estava em La relación de Cabeza de Vaca. Lalami limitou-se a verter esta odisseia numa prosa padronizada e adaptada ao palato do moderno consumidor de romances de aerogare, a adicionar excipiente e filosofia barata e a gerir inabilmente a tensão dramática.

O facto de o livro de Lalami revisitar caminhos muito trilhados sem trazer novos pontos de vista e de ser inepto do ponto de vista literário, não o impediu de ser vencedor do American Book Award, do Arab American Book Award, do Hurston-Wright Legacy Award, nem de ser finalista do Pulitzer Prize, nomeado para o Booker Prize e eleito Notable Book pelo The New York Times; nem de integrar as listas de livros do ano de The Washington Post, do Financial Times e da Kirkus e dos Great Reads of 2014 da NPR (National Public Radio dos EUA), nem de receber elogios de Salman Rushdie, The New Yorker, Los Angeles Times e Huffington Post. E é este vasto coro de aprovação das altas instâncias culturais anglo-saxónicas que justifica que, acima, se tenha julgado necessário detalhado as numerosas debilidades de que enferma o romance.

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Ilustração de Alberto Breccia para “Les incroyables péripéties d’Estebanico el Mauro”

Será absurdo atribuir esta recepção entusiástica a uma operação de aliciamento de júris, escritores e críticos promovida, à escala planetária, pelo mega-grupo livreiro Penguin Random House. É mais simples vê-la inserida no espírito de um tempo em que a crítica literária mainstream está completamente domesticada e aclama como obras-primas todos os produtos da indústria livreira anglo-saxónica que venham rodeados de algum hype. E Memórias de um Escravo tem vários factores, todos extra-literários, a jogar em seu favor: é escrito por uma mulher vinda de um universo – o árabe – onde as mulheres não costumam ter voz e relata episódios reveladores da crueldade, estupidez e cobiça dos imperialistas europeus a partir do ponto de vista de alguém – um escravo – que também não costuma ter voz. Porém, o que se ouve em Memórias de um Escravo não é a voz dos oprimidos, mas os rangidos, a chiadeira e o resfolegar de uma desconjuntada geringonça ficcional.

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Ilustração de Alberto Breccia para “Les incroyables péripéties d’Estebanico el Mauro”