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Polícia, bombeiros, cantoneiros, produtores, técnicos de som, luz, vídeo e fogo-de-artifício integram os bastidores da noite de ano novo no Porto

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Polícia, bombeiros, cantoneiros, produtores, técnicos de som, luz, vídeo e fogo-de-artifício integram os bastidores da noite de ano novo no Porto

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

A emoção do pirotécnico, o turbante suspeito e a lancheira perdida. Os bastidores da passagem de ano no Porto /premium

Da segurança ao socorro, da limpeza ao fogo de artifício, os bastidores da passagem de ano no Porto tiveram pirotécnicos emocionados, polícias que se estrearam e alguns excessos.

Artur Rosinhas chega ao epicentro da festa nos Aliados às 4h e cumprimenta os colegas com um “bom dia” sorridente. “Passei a meia noite em casa com a família e agora que todos vão dormir venho trabalhar”, conta ao Observador. Há mais de dez anos que recolhe o lixo que resta da festa de ano novo na cidade. Equipado a rigor, o cantoneiro sobe para uma varredora mecânica, liga o rádio e prepara-se para começar a sua missão: deixar a Avenida dos Aliados num brinco.

A varredora anda devagar, as escovas giram a alta velocidade, Artur espreita pelos quatro espelhos retrovisores, deita um olho à câmara que capta a parte traseira e dá indicações aos dois elementos que rodeiam a máquina. Na mão, trazem um tubo que sopra o lixo do passeio para a rua, graças a uma espécie de mochila com uma ventoinha barulhenta. “Com o lixo na rua, esta máquina aspira tudo, mas mesmo tudo”, garante o trabalhador, que em noites como esta já aspirou roupa, joias e até dinheiro. “Uma vez tive que tirar um rapaz do meio da rua para não lhe passar em cima, também já tive a máquina entupida, fui obrigado a parar para resolver o problema”, recorda.

Garrafas de espumantes, copos de plástico, confetti coloridos e até serpentinas de carnaval são alguns dos objetos mais comuns que preenchem os paralelos do salão de festas da cidade. Eis que, pela janela da varredora, chega pela mão de um colega uma lancheira térmica vermelha, com copos e bebidas deixadas no meio do passeio. “Deixam tudo em todo o lado e depois andam à procura”, queixa-se Artur enquanto aponta para alguém que vomita na paragem do autocarro.

Artur já esteve do lado de fora a soprar o lixo, conduz agora uma varredora mecânica e já dá formação aos elementos mais novos

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Há seis varredoras como esta a circular, dois lava ruas, três carrinhas para recolher vidro e resíduos e 45 cantoneiros em ação. O lixo aspirado é depois descarregado em caixas e parte dele vai para reciclar na Lipor. “Houve passagens de ano em que recolhemos 26 toneladas de resíduos”, refere Manuel Pinheiro, coordenador desta ação, pronto para trabalhar pelo menos até à hora do almoço do primeiro dia do ano.

Nove horas antes da limpeza começar, no Centro de Gestão Integrada (CGI), estavam a chegar do jantar alguns dos 20 profissionais que se preparam para trabalhar naquela que é “a noite mais exigente do ano”. Aqui estão reunidos representes das principais entidades operacionais do município. Polícia municipal, divisão de trânsito da PSP, mobilidade, bombeiros sapadores do Porto, Proteção Civil e Porto Ambiente funcionam 24 horas, numa sala que em 2020 será maior. Há catering, beliches e balneários para quem trabalha em noites desta dimensão, onde pelas mais de 130 câmaras é possível captar o que acontece nas ruas e no trânsito da cidade, e através de mais de uma dezena de telefones chegam todo o tipo de ocorrências.

20 pessoas e mais de 130 câmaras fazem do Centro de Gestão Integrada a espinha dorsal deste tipo de eventos

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Da zona VIP com aquecimento ao relógio no palco

No backstage posicionado por detrás do palco a sinalética é clara e só permite a entrada a artistas e convidados, num espaço com capacidade para 100 pessoas que integra também a zona VIP. “Há dois anos havia um autocarro com dois andares estacionado em frente ao palco e era lá a zona VIP, mas o presidente da Câmara achou que estava muito alto e longe das pessoas e decidiu acabar com isso”, conta ao Observador Jorge Rodrigues, da Ágora, empresa municipal de cultura e deporto.

Este ano, a área privilegiada destinada a convidados especiais tem direito a um bar, plantas, sofás brancos, um painel com adereços para fotografias e ecrãs com o que se passa no palco, em tempo real. Apesar de não ter vista direta para o palco nem para o fogo, é provavelmente o único sítio no recinto onde é possível tirar o casaco, pois os aquecedores distribuídos no local permitem fintar os gélidos quatro graus que se fazem sentir.

Numa outra zona, estão os camarins dos artistas. Esta noite sobem ao palco os portuenses Tiago Nacarato e Miguel Araújo, cujo catering é organizado pelas próprias equipas. “Não há exigências de artistas, é logo a primeira condição que damos quando os convidamos”, garante Tiago Andrade, da equipa de produção, acrescentando que esta é uma área que desperta alguma curiosidade e é apetecida por muitos. Prova disso são os roubos verificados em anos anteriores. “Já levaram cinzeiros, copos e até máquinas de café.”

Atrás do palco estão os camarins e uma zona VIP. Literalmente debaixo da estrutura encontra-se a régie de vídeo

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Tiago está nas traseiras do palco da passagem de ano no Porto há quatro anos e nunca mais se esquece do momento em que, em 2017, recebeu um aviso do CGI: tinha desaparecido uma criança de nove anos com um casaco vermelho. “Pedimos à artista, naquele ano era a Áurea, para informar em palco o seu desaparecimento. Felizmente a criança regressou uns 30 minutos depois”, recorda.

O palco tem 15 metros de largura, começou a ser montado a 17 de dezembro e, apesar de a estrutura ser igual, há que mudar cenários, instrumentos musicais e material técnico em tempo recorde. “Passar de uma orquestra para uma mesa de djs nem sempre é fácil. São sempre necessárias readaptações e alguns ajustes.”

Composta por 40 trabalhadores, a equipa de produção só terá descanso a 3 de janeiro, mas à meia-noite há sempre um brinde rápido nos bastidores. “Os que não puderem brindam depois, mas nunca antes.” Quem costuma brindar antes, durante o jantar, é Álvaro Nicolau e a sua equipa. Ao todo são oito os homens responsáveis pelo que aparece nos quatro ecrãs gigantes distribuídos pela Avenida dos Aliados.

É através desta mesa que Luís Nogueira controla todo o som que sai do palco, esta noite ocupado pelos concertos de Tiago Nacarato e Miguel Araújo

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Há cinco câmaras e uma grua lá fora e a régie está literalmente debaixo do palco. “Estamos numa espécie de catacumba”, brinca Álvaro, que já está nestas andanças há três anos. O “rés-do-chão do palco” tem cabos de várias as cores, ferros, panos pretos e uma carrinha com a mala aberta que serve de escritório para a edição das imagens captadas pelas várias objetivas. Álvaro e companhia chegaram aos Aliados às 10h30 e só tencionam abandonar o local depois das 4h, altura em que a dupla de djs sai de cena.

Antes disso, Paulo Cóvoas é posto à prova. O responsável pelas luzes comanda o vídeo mapping que antecede o fogo de artifício, conseguido através de dois projetores XXL picados diretamente para o edifício da câmara municipal. “Fizemos a experiência do vídeo g na inauguração das luzes de Natal e correu tão bem que decidimos repetir agora”, explica ao Observador.

Do palco, vê-se um relógio pousado no chão e já algumas fãs de Miguel Araújo com um cartaz que o comprova, exatamente cinco horas antes do primeiro acorde da sua guitarra. Luís Nogueira está a uns metros dali, mais concretamente na régie responsável pelo som e pela iluminação. É ele quem coordena as operações de 14 trabalhadores e garante que a antecedência é tudo neste tipo de eventos. Das colunas aos microfones, passando pelos focos de luz, tudo é monitorizado nesta tenda aberta. “A pior coisa que pode acontecer é o microfone do artista falhar, o feedback já ninguém se importa, mas os ensaios durante a tarde correram bem, vai tudo correr bem”, atira confiante.

A emoção de um pirotécnico e a primeira vez de um polícia

Junto à árvore de Natal está a régie do fogo-de-artifício. Uma mesa, duas malas cheias de botões e antenas, um computador, um candeeiro pequeno, uma garrafa de água, um telemóvel e auscultadores. É neste cenário que se movimenta visivelmente nervoso Fernando Macedo, com um colete laranja vestido, que o identifica como “proprietário pirotécnico”. “Falamos no fim, pode ser? Agora estou muito ocupado”, diz prontamente ao Observador quando passavam poucos minutos das 23h.

O tempo ia passando e Fernando ficava cada vez mais inquieto. Nem o cheiro forte que misturava pipocas, castanhas assadas, farturas, cachorros e algodão doce o desconcentrava. Tocava no telemóvel para ver as horas, mastigava uma pastilha elástica energicamente e ignorava a família que estava ali perto, mas eis que chega o momento mais esperado da noite. Milhares de telemóveis surgem no ar, as luzes da árvore de Natal apagam-se e Fernando coloca os auscultadores nos ouvidos, pressiona o botão vermelho que diz “fire” e o espetáculo pirotécnico começa. Durante 16 minutos, o tempo do fogo, o responsável não tira os olhos do céu. Nos últimos disparos, o sorriso surge no rosto e as lágrimas também. É aí que segura o seu telemóvel para registar o efeito cascata no cimo do edifício da Câmara municipal, uma das novidades deste ano.

Fernando Macedo foi provavelmente o homem com a maior responsabilidade a noite: o lançamento do fogo-de-artifício

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Gritos e aplausos fazem-se ouvir após o último rasgo de cor no céu, num total de 18.965 disparos pirotécnicos. Fernando tira os auscultadores dos ouvidos e abraça emocionado os dois elementos de segurança, o representante da Câmara Municipal, que, a seu lado, cronometrou ao segundo o tempo do fogo, e, finalmente, a família. “Já podemos falar”, diz ao Observador ainda com os olhos aguados. Não é a primeira vez que Fernando Macedo comanda um espetáculo pirotécnico. A empresa homónima que representa, localizada em Felgueiras, foi criada pelo avô em 1934 e é responsável por fogos-de-artifício um pouco por todo o país, da Madeira ao Algarve, mas também além-fronteiras. “Fizemos da Expo’98 ao Euro 2004. Somos quatro irmãos sócios, é uma herança que se aprende a gostar.”

A passagem de ano no Porto acontece num dos locais que Fernando mais gosta, “pelo edificado e pelo ambiente”, no entanto, o nervosismo é o mesmo em qualquer evento. “Temo essencialmente pela segurança das pessoas. No S. João, é mais fácil, porque o fogo é lançado no rio e não há tantas pessoas próximas.”

No terreno, tem 180 homens a trabalhar, mas tudo começou há três meses. “Do design à produção, é tudo feito por nós”, sublinha, acrescentando que 16 minutos de fogo “é exagerado para uma passagem de ano”. Cerca de três mil tubos com explosivos foram distribuídos pelo terraço superior do edifício da Câmara durante dois dias e, à meia-noite em ponto, estavam quatro homens no local.

A conversa é várias vezes interrompida pelas respostas rápidas a perguntas técnicas. “Verifiquem o perímetro de segurança e retirem os artefactos pirotécnicos”, “Avisem a polícia que não encontraram nada”, “Isso é lixo, é da responsabilidade da câmara”. Foram algumas frases pronunciadas nos primeiros minutos do ano.

O fogo-de-artifício durou 16 minutos, representou um investimento de cerca de 25 mil euros por parte do município, e foi antecedido por um espetáculo de vídeo mappinng

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Fernando Macedo não é novato no ofício e recorda-se de que até já dormiu dentro do edifício da Câmara Municipal do Porto, só para garantir que tudo corresse bem. “Na passagem de ano de 1999 para 2000, o fogo-de-artifício não aconteceu por um erro da empresa responsável. Ora, na altura, o presidente Nuno Cardoso contratou-me e replicou a festa de passagem de ano no Dia dos Reis. A pressão era tanta que passei a noite lá dentro. Tinha medo que boicotassem o espetáculo.

Para que a arte de Fernando corra de feição, há um perímetro de segurança a preparar 45 minutos antes e essa a missão de Rogério Silva, subcomissário da PSP. É a primeira vez que trabalha nesta noite no Porto e está responsável, entre outras coisas, por manter a ordem pública durante a festa. Quando afastou as pessoas da zona do fogo, por questões de segurança, viu gente a perder a paciência e a insultá-lo, nada a que já não esteja habituado, mas também houve quem se sentisse mal no meio da multidão e tivesse de ser retirada das grades de segurança.

Até às 2h, tinham sido registadas três ocorrências, a maioria foram distúrbios provados pelo excesso de álcool. “Numa situação de agressão ou de injúria, que são considerados crimes, geralmente identificamos as pessoas. Caso as testemunhemos, podemos detê-las em flagrante delito”, explica Rogério Silva.

O facto de ser permitido vidro no recinto dificulta o trabalho da polícia. “O vidro é um problema, ainda há pouco tempo houve um desacato ali na rua Ramalho Ortigão com um homem a agredir outro com uma garrafa”, conta, acrescentando que só sai do local quando o público for para casa. “Se as pessoas saírem daqui ao meio-dia, nós ficamos aqui até ao meio-dia.”

Polícia municipal e PSP tomaram conta das ruas, fecharam o trânsito pelas 21h e só o reabriram quando a brigada de limpeza terminou o serviço

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Antes de tomarem as posições na Baixa, as equipas recebem um briefing na sede da PSP pelas 20h30, onde é explicada a a ação, transmitida uma boa dose de motivação e é pedida compreensão e tolerância. No entanto, o subcomissário garante que a ação da polícia é, no essencial, igual ao que acontece noutros cenários, como um jogo de futebol, e tudo depende das provocações e dos desacatos que surgirem. “Se nos atirarem garrafas, vamos ter de colocar caneleiras e escudos de proteção, por exemplo”, explica ao mesmo tempo que cumprimenta colegas fardados ou perfeitos desconhecidos, já alcoolizados, que fazem questão de acenar sempre a um polícia.

A conversa é interrompida por vários avisos transmitidos pelo intercomunicador. “Há petardos a serem lançados por elementos dos Super Dragões” ou “houve um furto realizado por um homem com um turbante cor de laranja” são alguns exemplos que deixam alerta a sua equipa de patrulha. “A partir de agora, se passar um homem com um turbante laranja podemos interpelá-lo.”

Álcool, drogas e ocorrências

Depois da meia-noite, as ocorrências surgem com mais força, quem o diz é o comandante Carlos Marques do Batalhão de Sapadores Bombeiros. Hoje, não está fardado, mas não lhe faltam quilómetros percorridos nos pés. Com Luís Moutinho, diretor do departamento municipal de Proteção Civil, percorre durante toda a noite os três palcos da cidade – Aliados, Poveiros e Cordoaria – para verificar o socorro prestado nas ocorrências e auxiliar as comunicações. “A maioria são intoxicações”, revela ao Observador.

Miguel Araújo cantava “Anda Comigo Ver os Aviões” e, à porta de um restaurante na rua do Almada, está uma jovem inconsciente no chão. Os bombeiros prestam socorro no local, mas não é suficiente. Uma ambulância do INEM chega e a jovem é transportada para o Hospital de Santo António. “Deem-lhe sumo de laranja”, “Não, ela que tome um banho e beba um café forte” são alguns conselhos dados por quem passa e assiste ao aparato.

Uns metros mais abaixo, na mesma rua, outra situação idêntica. Desta vez os bombeiros transportam o jovem para a ambulância da Cruz Vermelha. “O Santo António já está lotado, temos de ir para o Hospital de S. João”, informam o comandante.

Registaram-se 78 ocorrências, mais quatro do que no ano passado. Dessas, 33 foram evacuações para hospital, sendo as vítimas de oito nacionalidades

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

À 1h30 estavam registadas 20 ocorrências pela equipa de socorro. “Costumamos estar no terreno até às 5h, mas como a maioria dos incidentes acontecem de madrugada, este ano vamos estender o nosso serviço até às 6h”, explica Carlos Marques. Esta é a quinta passagem de ano em que trabalha no Porto e afirma que as ocorrências têm vindo a diminuir. A maioria é provocada por excessos de álcool ou drogas.

Os bombeiros têm 40 elementos no local, seis ambulâncias, uma viatura onde podem descansar ou comer e um carro especial destinado a incêndios. “Quase todos os anos acontece um pequeno incêndio urbano, seja na Câmara Municipal, provocado pelo fogo-de-artifício, ou noutra zona motivado por petardos. É algo simples, que resolvemos facilmente com um extintor.”

Este carro próprio para combater incêndios, adaptado às ruas estreitas do centro histórico da cidade, é uma aquisição recente do batalhão. Foi comprado no final de 2017, fabricado na Suíça à medida das necessidades dos operacionais e é o primeiro do género em Portugal. “Tem uma cabine dupla em que permite viajarem cinco elementos. Além disso, se as ruas forem mesmo muito estreitas, os bombeiros podem sair pela parte superior do carro.” Foi entre os “aviões” de Miguel Araújo, os excessos de álcool e as emoções de quem coordena o fogo-de-artifício que se fez a festa da passagem para 2020, no Porto.

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