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A biografia política agora publicada está dividida em quatro partes, cobrindo os momentos fundamentais da vida política de Guterres

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A biografia política agora publicada está dividida em quatro partes, cobrindo os momentos fundamentais da vida política de Guterres

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A estratégia, os contactos e os adversários: nos bastidores da campanha de Guterres para as Nações Unidas /premium

"O Mundo Não Tem de Ser Assim" traça o percurso político do antigo primeiro-ministro português e atual secretário-geral das Nações Unidas. O Observador revela um excerto do livro.

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É a primeira biografia política de António Guterres, publicada em Portugal pela Casa das Letras, à venda a partir desta terça-feira, 4 de maio. “O Mundo Não Tem de Ser Assim” é baseado em mais de cem entrevistas a políticos, diplomatas mas também figuras do círculo próximo e privado do antigo primeiro-ministro português. O próprio Guterres foi um dos entrevistados e deu também acesso ao arquivo fotográfico pessoal aos autores, Pedro Latoeiro e Filipe Domingues.

O livro está dividido em quatro partes: o início da carreira política, os mandatos como primeiro-ministro, a missão à frente do Alto Comissariado para os Refugiados e a eleição para secretário-geral das Nações Unidas. É sobre esta última que o Observador publica um excerto, que revela detalhes sobre o início de uma campanha que haveria de culminar com a eleição de Guterres para o mais alto cargo da ONU, em 2016.

A capa de "O Mundo Não Tem de Ser Assim", de Pedro Latoeiro e Filipe Domingues (Casa das Letras)

“Passaram 18 anos.

Os cabelos tornaram-se grisalhos e as rugas foram-se multiplicando.

Alguns sobreviveram a doenças fatais, muitos viram nascer filhos e netos, quase todos abandonaram a política.

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Jorge Coelho. Guilherme d’Oliveira Martins. António Vitorino. São pouco mais de dez os amigos íntimos convocados pessoalmente para esta missa, onde se juntam católicos e ateus.

Passaram 18 anos desde que Zizas faleceu e António Guterres continua a evocar, sempre no final de janeiro, sempre na igreja onde casaram, a memória da mulher que faleceu quando ele ainda era primeiro-ministro. Anos houve em que o alto comissário para os Refugiados chegou a viajar de propósito para Lisboa, só durante dois dias, apenas o suficiente para participar na cerimónia dirigida pelo padre Vítor Melícias.

Esta vez, contudo, Guterres deixara de ter compromissos internacionais que o obrigassem a voar de imediato, ou para Genebra, ou para qualquer outro dos destinos habituais de um funcionário da ONU. Terminado formalmente o seu mandato no ACNUR, o antigo chefe do Governo voltara a ter tempo para projetos pessoais e até já aceitava convites para participar em conferências em Portugal.

Logo no início daquele ano de 2016, fora ele o principal convidado de um seminário público sobre a causa dos refugiados, a que assistiram centenas de diplomatas, académicos, ONG e jornalistas. Mas a sua principal intervenção nesse dia estava marcada para mais tarde.

O menu do jantar, servido no sumptuoso palácio onde funcionava o Ministério dos Negócios Estrangeiros, era composto por um frugal conjunto de sanduíches, colocadas à pressa, ao lado da mesa dos trabalhos. A época era de austeridade em Portugal e nem a dream team, convocada de urgência para este encontro secreto, merecia a mais pequena extravagância.

Longe dos holofotes e sob o manto discreto da noite, estava na hora de Guterres pôr em marcha o seu próximo plano.

«Eu tive a certeza que era aquilo, já desconfiava que ele ia ser candidato», reconhece o embaixador José de Freitas Ferraz. O antigo assessor diplomático de Guterres foi um dos poucos convidados para esta primeira reunião.

Na sala forrada a bege e azul, com uma comprida mesa de reuniões ao centro, encontravam-se ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros, dois anteriores ministros e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus, acompanhados de um conjunto cirúrgico de antigos embaixadores na ONU e diplomatas seniores da casa.

«O ministro fez uma intervenção rápida a anunciar que nós estávamos ali porque o Governo ia apoiar a candidatura do Engenheiro António Guterres a Secretário-Geral das Nações Unidas», esclarece Ferraz.

Além de todos os obstáculos previsíveis e imprevisíveis, para esta eleição específica erguiam-se duas monumentais barreiras à entrada: a comunidade internacional defendia quase unanimemente que devia ser uma mulher a ocupar o cargo; e, segundo a regra não escrita das Nações Unidas sobre rotatividade regional, esta seria a vez da Europa de Leste ter um – neste caso, uma – secretária-geral.

Seguiu-se uma ronda de comentários, onde cada um expôs as suas análises sobre as hipóteses de êxito da campanha, sobre os pontos-fortes do candidato, sobre os entraves que existiam à partida.

Além de todos os obstáculos previsíveis e imprevisíveis, para esta eleição específica erguiam-se duas monumentais barreiras à entrada: a comunidade internacional defendia quase unanimemente que devia ser uma mulher a ocupar o cargo; e, segundo a regra não escrita das Nações Unidas sobre rotatividade regional, esta seria a vez da Europa de Leste ter um – neste caso, uma – secretária-geral.

Por isso, nessa mesma noite, o próprio Guterres calculou as suas hipóteses de vitória em 20%. Uma estimativa modesta, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português: «sabíamos que ele seria muito bem-recebido no interior da estrutura da ONU, porque o mandato dele como ACNUR tinha-lhe granjeado um grande prestígio, portanto não seria hostilizado pela máquina.» Augusto Santos Silva alega ainda que «ele tinha construído pontes com praticamente todos os países do mundo, numa posição em que tinha uma vantagem muito forte: como ACNUR, não podia fazer política em sentido estrito e, portanto, na prática, ele não tinha nenhum irritante com nenhuma das potências do Conselho de Segurança, nem com nenhum outro país».

Na mesma reunião, foram escolhidos os membros da task force de apoio à candidatura e concordou-se que reuniria semanalmente, todas as terças-feiras ao final da manhã. Sobre o momento para avançar oficialmente – de imediato, ou mais tarde, quando outros nomes já se tivessem apresentado – é que as opiniões se dividiram e, durante várias semanas, não seria possível chegar a qualquer consenso. Mas, pelo menos, estava desfeita a grande dúvida: o que pretendia Guterres depois de sair do ACNUR?

Assim, e apesar das muitas especulações que tinham entretido políticos, diplomatas e funcionários da própria ONU, os planos de Guterres tinham conseguido permanecer um segredo relativamente bem guardado. Mesmo no seu país, os poucos que já conheciam as suas verdadeiras intenções tinham sido escolhidos a dedo.

Com o aproximar do prazo-limite para a apresentação das candidaturas, Guterres tinha sido obrigado a levantar o véu sobre os seus planos. Uma vez que apenas os Estados podem propor candidatos a secretário-geral, era preciso vender o seu projeto ao primeiro-ministro e ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, fossem eles quem fossem – e de que partido fossem.

Ora, acontecia que no final de 2015, o seu Partido Socialista conseguira regressar ao poder em Lisboa, graças a uma jogada política tão surpreendente como inédita – e que o próprio Guterres rejeitara no seu tempo de chefe do Governo: forjando uma aliança com a extrema-esquerda.

António Guterres enquanto Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, com Angelina Jolie

AFP/Getty Images

Ocorria ainda que o homem por detrás deste acordo – e novo primeiro-ministro – tinha sido ministro da Justiça… de Guterres. Mais ainda, como chefe da diplomacia portuguesa encontrava-se agora outro veterano socialista, antigo ministro da Educação e da Cultura… também de Guterres.

Colocados providencialmente em lugares-chave no tabuleiro político do País, os dois governantes foram contactados, em ocasiões separadas, para jantar com o ainda alto comissário, em privado e com os telemóveis desligados. Nas longas conversas, confirmaram que lhe dariam o respaldo do Governo, não só no lançamento da candidatura, como em todo o processo.

A ratificação de António Costa e de Augusto Santos Silva foi, no entanto, o corolário de um longo caminho de reflexão e jogadas de bastidores. Um caminho que passou pela Malásia e pelo Vaticano. Por Adis Abeba e Paris. Por Genebra e, claro, por Nova Iorque.

Podemos jogar a isto

«Vou a Nova Iorque nos próximos dias. Gostava muito de falar consigo.»

Durante o curto telefonema, o embaixador de Portugal junto da ONU não precisou de perguntar a Guterres qual o assunto da conversa: «Eu não via nenhuma questão óbvia de refugiados que estivesse a ser discutida em Nova Iorque, nem nada de que ele pudesse precisar.» Por isso, Álvaro Mendonça e Moura concluiu que «só podia ser uma coisa e então eu disse-lhe: “venha jantar”».

Frente-a-frente com o diplomata, na residência oficial, Guterres abriu o jogo. Confirmou que tinha intenção de se candidatar a secretário-geral e pediu-lhe uma avaliação sobre as possibilidades de vitória. Durante três horas, dissecaram os nomes e os trunfos dos potenciais adversários.

Falaram de Irina Bokova – mulher e da Europa de Leste, a búlgara cumpria os dois critérios principais. Além disso, como diretora-geral da UNESCO, era reconhecida no sistema ONU e já tinha anunciado publicamente a sua candidatura.

Discutiram Kristalina Georgieva, outra búlgara, vice-presidente da Comissão Europeia, com quem Guterres até tinha colaborado no ACNUR. E que, ao contrário de Bokova, era da mesma cor política do governo da Bulgária.

Admitiram a possibilidade de Michelle Bachelet, outra mulher, ex-presidente do Chile, que acabaria por não se apresentar.

Analisaram Susana Malcorra, a poderosa chefe de gabinete de Ban Ki-moon, que estava prestes a tomar posse como ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina e representava uma região que só tinha tido um secretário-geral.

Passaram a pente-fino outros nomes com influência na casa, como o da neozelandesa Helen Clark, administradora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), ou do sérvio Vuk Jeremić, ex-presidente da Assembleia-Geral da ONU.

«Acabou por ser irónico, tudo aquilo para evitar que eu continuasse. Todos pensavam que eu queria continuar alto comissário para me candidatar. Hoje reconheço que, se eu tivesse continuado mais um ano como ACNUR, não poderia ter sido candidato, porque foi o ano do grande conflito com a Europa e não teria condições para ser eleito. Mas isso foi sorte.»

«Você tem os astros contra si, mas isto não é impossível. Você tem um largo prestígio internacional, aqui entre os embaixadores, portanto se quiser mesmo ir para a frente, temos de partir como um não-favorito. Mas podemos jogar a isto», concluiu Mendonça e Moura.

Só que o jogo já tinha começado e Guterres partia em desvantagem.

Do 38.º piso da sede das Nações Unidas, Susana Malcorra tinha uma janela para o mundo. Braço-direito do secretário-geral desde 2012, a argentina aproveitara os quatro anos anteriores para conquistar experiência e contactos, desenvolvendo um conhecimento profundo de como funcionava a máquina das Nações Unidas e, sobretudo, a relação com os membros permanentes do Conselho de Segurança. E da sua torre de controlo, tinha acesso a muita informação.

Sobre a candidatura de Guterres, a própria Malcorra alega que «eu soube muito antes do anúncio. Não me recordo do momento exato, mas penso que, desde o momento em que se estava a discutir a última renovação do mandato dele no ACNUR, eu já sabia que o António Guterres era candidato».

Na verdade, depois da extensão de seis meses, que compreendia o período de junho a dezembro de 2015, o Comité Executivo do ACNUR tinha decidido pedir, mais uma vez, que o alto comissário continuasse no cargo – só que desta vez seria por um ano inteiro, até ao final de 2016.

António Guterres garante que nunca desejou este segundo prolongamento: «houve realmente esse movimento dos embaixadores para eu ficar, mas eu confesso que não tinha interesse nenhum e até disse assim: “basta que haja um país, ou alguém em Nova Iorque, que ache que eu não deva ficar, para eu não aceitar de maneira nenhuma. Se toda a gente me vier dizer, sem nenhuma exceção, do secretário-geral até aí abaixo, que eu tenho de ficar mais um ano, posso considerar, mas não é o que eu quero”.»

Só que Guterres nem teve de considerar. A tal exceção, o tal alguém que achava que ele não devia ficar, surgiu do andar cimeiro das Nações Unidas: a extensão de mandato não foi autorizada, ordem expressa do gabinete de Ban Ki-moon.

Guterres e Ban-ki Moon, durante a passagem de testemunho no lugar de responsável máximo da ONU

EVAN SCHNEIDER/UN PHOTO/HANDOVER/EPA

«Eles interferiram na decisão e isso não caiu mesmo nada bem», acusa Athar Sultan-Khan. O antigo chefe de gabinete de Guterres defende mesmo que Nova Iorque não tinha qualquer legitimidade para bloquear a decisão: «o mandato do alto comissário tem independência total e absoluta. Ele não é um funcionário do secretário-geral, ele não é supervisionado pelo secretário-geral. Ele é eleito pela Assembleia-Geral, é a ela que reporta e é só isso. Portanto, o gabinete do secretário-geral não tem por que interferir.»

Álvaro Mendonça e Moura concorda que não foi uma decisão inocente, mas relativiza: «Eu estou convencido de que a Susana Malcorra não quis ver prolongado o mandato do António Guterres, achando que isso o poderia favorecer, e julgo que desempenhou um papel ainda como chefe de gabinete. É bonito? Não. Mas não atribuo uma gravidade extrema a isso.»

Certo é que este veto acabou por se revelar providencial. António Guterres revela que foi precisamente por estar livre das funções de alto comissário que pôde dedicar-se em pleno à campanha: «Acabou por ser irónico, tudo aquilo para evitar que eu continuasse. Todos pensavam que eu queria continuar alto comissário para me candidatar. Hoje reconheço que, se eu tivesse continuado mais um ano como ACNUR, não poderia ter sido candidato, porque foi o ano do grande conflito com a Europa e não teria condições para ser eleito. Mas isso foi sorte.»

De facto, em vários momentos Guterres sentiu que haveria realmente adversários interessados em barrar-lhe o caminho. O impedimento de ter uma nova extensão de mandato no ACNUR foi apenas mais uma peça.

Já antes do verão desse mesmo ano de 2015, o alto comissário tinha sido o escolhido para receber o prémio anual da Path to Peace Foundation, a mais importante organização de caridade, dedicada a apoiar o trabalho do Vaticano junto da ONU. Ora, para um potencial pré-candidato, o prestígio e a visibilidade de uma homenagem que já tinha sido atribuída a dois anteriores secretários-gerais, e que seria entregue pessoalmente pelo Papa Francisco, representava uma bênção celestial.

A partir de Genebra, Guterres mandou Athar Sultan-Khan responder que estaria encantado em aceitar a distinção e, cumprindo o protocolo interno da ONU, pediu-lhe que escrevesse à chefe de gabinete do secretário-geral, para solicitar a autorização formal da casa. «Como acontece sempre, desde que não haja um conflito de interesses ou outro problema qualquer», explica Athar.

António Guterres estava a par, naturalmente, da norma que impede os altos funcionários das Nações Unidas de aceitar prémios, mas, habituado também ele a receber homenagens, conhecia igualmente a solução que todos utilizam – sim, podia aceitar, desde que fosse em nome da Organização e não a título pessoal: «Eu já tinha recebido várias distinções, sempre pedindo a autorização ao secretário-geral. E voltei a pedir, convencidíssimo de que era aceite. Era simpático, um prémio da paz, vindo da Santa Sé.»

Ou seja, a voz do secretário-geral, que Athar ouvia quando se sentava atrás de Guterres, não era, afinal, apenas fruto da sua imaginação. As opiniões favoráveis a uma candidatura do português começaram a multiplicar-se e, especialmente a partir de 2014, foram vários os Estados, bem como os grupos regionais, que manifestaram abertamente a disposição para apoiar o seu nome – quando, ou se, chegasse a hora.

E foi convencidíssimo que o alto comissário partiu de férias de verão para a Malásia, com a mulher e um casal amigo.

Só que quando regressou a Genebra e retomou o despacho dos assuntos pendentes com Athar, foi apanhado de surpresa:

«Como é que está a história da Santa Sé?»

«A Santa Sé? Já dissemos que não aceita.»

«Não aceito? Como não aceito?»

«É que o secretário-geral não autorizou.»

«Não autorizou? Mas isso é estranhíssimo…»

Para Carlos Lopes, que à data se mantinha como secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África, a resposta de Nova Iorque não constituiu qualquer surpresa: «Eu achei que ele não tinha hipóteses de ser eleito, por conhecimento interno da máquina, por saber como iria atuar para que a candidatura dele não fosse bem-sucedida.» Segundo o guineense, «os cordéis dentro do sistema estavam a mexer-se para impedir que ele pudesse avançar em determinados tipos de influência, ou pudesse ter acesso a determinadas informações. Houve tentativas para tentar retirar protagonismo a algumas das coisas que ele poderia fazer durante aquele período, justamente para impedir que ele ganhasse visibilidade. Nós previmos isso e foi exatamente o que aconteceu».

Guterres chegou a responder a Ban Ki-moon, por carta, para lhe expressar o desagrado pela decisão. Argumentou que tanto o secretário-geral, como ele próprio, já tinham recebido prémios semelhantes, até num passado recente, e que não via qualquer conflito que justificasse a negativa.

Guterres em Lisboa em 2020, na abertura da cerimónia da Capital Verde Europeia

NurPhoto via Getty Images

O episódio da Santa Sé surgiu depois da tomada de decisão final, mas acabou por funcionar como motivação adicional para Guterres avançar. Tanto que, logo em setembro, nas vésperas do último ExCom, o alto comissário decidiu abrir o jogo com o staff mais próximo. Foi durante um almoço, na sala privada do restaurante do ACNUR, com Athar Sultan-Khan e a troika, que reunia o vice alto comissário e os adjuntos.

«Ele quando regressou das férias contou-nos formalmente que tinha decidido candidatar-se», recorda Athar. «Depois, começou a contar individualmente a alguns dos embaixadores dos Estados-membros. Ele nunca fez qualquer anúncio público porque não queria parecer que já estava em campanha quando ainda estava em funções.»

«Era giro se fosses tu e eu ganhasse»

Thomas Stelzer acabava de assumir o cargo.

Recém-nomeado secretário-geral adjunto das Nações Unidas, o embaixador austríaco participava, pela primeira vez, num Chief Executive Board – a reunião bianual onde o secretário-geral da ONU senta os líderes das várias agências, para coordenar a ação política do sistema internacional.

Corria o longínquo ano de 2008 e, na mansão de Greentree, perto de Nova Iorque, encontravam-se todos os responsáveis máximos dos diferentes fundos, programas e agências que compõem o universo das Nações Unidas: da Organização Mundial de Saúde à UNICEF e do Banco Mundial ao FMI, passando, claro, pelo ACNUR.

«Éramos os dirigentes mais altos do sistema internacional, todos os 28 eram personagens bem interessantes, com contribuições muito sólidas», detalha Stelzer. «E a contribuição do António Guterres foi de um nível muito superior à de todos os outros. Para mim foi uma grande surpresa.»

Athar Sultan-Khan lembra que, pela altura do segundo mandato, o alto comissário tinha-se transformado no mais sénior destas reuniões e que, quando realizavam o Chief Executive Board, tornara-se recorrente Ban Ki-moon participar apenas no primeiro dia, pedindo a Guterres que presidisse ao resto dos trabalhos: «Ou seja, ele estava automaticamente a tornar-se um número 2, de facto, da ONU. Ele falava todas as línguas muito depressa, sem quaisquer notas escritas e todas essas coisas chamaram a atenção das pessoas.»

Ou seja, a voz do secretário-geral, que Athar ouvia quando se sentava atrás de Guterres, não era, afinal, apenas fruto da sua imaginação. As opiniões favoráveis a uma candidatura do português começaram a multiplicar-se e, especialmente a partir de 2014, foram vários os Estados, bem como os grupos regionais, que manifestaram abertamente a disposição para apoiar o seu nome – quando, ou se, chegasse a hora.

Em Genebra, o primeiro bloco de países que se expressou consensualmente neste sentido foi o da Liga Árabe. Durante um almoço na residência do embaixador do Iémen, onde Guterres era o convidado de honra, os diplomatas fizeram questão de lhe afirmar, sem rodeios, o quão satisfeitos ficariam se um dia ele se tornasse secretário-geral.

Os primeiros incentivos chegaram, portanto, não da Europa, onde deixara a sua marca como chefe de Governo, não de África, onde mantinha excelentes vínculos desde os tempos da Internacional Socialista, mas dos grandes atores muçulmanos, com quem só começara a relacionar-se nos tempos do ACNUR.

«A Liga Árabe tem, normalmente, um assento no Conselho de Segurança», contextualiza Nasser Judeh. O então ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia revela que «nós estivemos lá em 2014-2015 e depois foi a vez do Egito, na altura da candidatura do António. Ele reuniu com todos os países da Liga Árabe e, no final, teve o nosso apoio».

Pouco tempo depois, foi a Organização para a Cooperação Islâmica – que reúne Estados de todo o mundo, independentemente da região geográfica ou etnia – a veicular abertamente o seu apoio. Só aqui já se encontravam quase 60 países.

«Várias vezes no tempo do ACNUR, sobretudo mais para o final, vários embaixadores e várias pessoas me diziam: “você tem de concorrer à ONU”, mas eu não ligava muito», reconhece Guterres.

Os primeiros incentivos chegaram, portanto, não da Europa, onde deixara a sua marca como chefe de Governo, não de África, onde mantinha excelentes vínculos desde os tempos da Internacional Socialista, mas dos grandes atores muçulmanos, com quem só começara a relacionar-se nos tempos do ACNUR.

No entanto, para ganhar esta corrida, era preciso muito mais do que manifestações informais de apoio. Apesar de o novo processo de eleição prometer mais abertura, transparência e participação, tanto da Assembleia-Geral da ONU como da própria sociedade civil, as ações de Guterres nunca perderam de vista que a prioridade era convencer cada um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.

Desde a primeira edição que Guterres era presença assídua na Clinton Global Initiative – uma conferência anual organizada pela Fundação do antigo presidente norte-americano, onde se reuniam líderes de todo o mundo. Fora no âmbito destas reuniões que se haviam anunciado programas do ACNUR, campanhas de angariação de fundos ou parcerias com multi- nacionais, como a Microsoft ou a PriceWaterhouseCoopers.

E foi no encontro de setembro de 2015 que Hillary Clinton, já como candidata à Casa Branca, confidenciou a Guterres as suas expectativas face à rara coincidência de datas das eleições: do secretário-geral da ONU e do presidente dos Estados Unidos, ambas previstas para o final do ano seguinte.

António Guterres, o diplomata: antes da ONU, com Bill Clinton, Kofi Annan e Nelson Mandela (imagens incluídas no livro "O Mundo Não tem de Ser Assim")

Durante um dos almoços da Initiative, Hillary Clinton sentou o português ao seu lado, perguntando-lhe se se candidataria a secretário-geral. «Eu disse apenas “não sei, nada disso está decidido” e ela respondeu “era giro se fosses tu e eu ganhasse”. Foi uma conversa deste género», recorda Guterres.

No entanto, não lhe foi feita qualquer promessa e o próprio António Guterres considera que ter recebido um apoio explícito de Hillary Clinton podia até ter sido contraprodutivo: «Não era ela Presidente, era o Obama. E não era ela quem tinha que dar o apoio dos EUA, ela aí não tinha influência. Quem interessava para isto eram a Samantha Power ou a Susan Rice» – a conselheira de Segurança Nacional de Barack Obama e a representante permanente dos EUA junto da ONU, respetivamente.

Descendente de irlandeses e vencedora de um Pulitzer, Power recorda que, no final de 2015, Guterres procurou-a para saber como viam os Estados Unidos a sua candidatura: «A primeira vez que ele veio ter comigo, e me disse que ia candidatar-se, disse-me qualquer coisa como “olha, eu quero- -te dizer que vou ser candidato mas preciso saber se os Estados Unidos se opõem. Se isso acontecer não me apresento, não estou para me humilhar”.»

E a verdade é que a maior potência militar, nuclear e económica do mundo não teve Guterres como primeira escolha. O país que mais cedo assumiu que era o português o seu candidato, e que mais emprestaria os seus bons ofícios para o eleger, encontrava-se do outro lado do Atlântico, na sua Europa.

François Hollande, então presidente da República Francesa, conhecia António Guterres desde os anos 90. Aliados ideológicos, partilhando agendas partidárias, tinham chegado a ser, ao mesmo tempo, primeiro secretário do Partido Socialista francês e primeiro-ministro de Portugal. Hollande reconhece que «a ideia de um socialista, um antigo presidente da Internacional Socialista, poder tornar-se secretário-geral da ONU… que bela ambição!».

No entanto, o antigo chefe de Estado de França garante que o alinhamento no pensamento político nem foi o principal motivo que o levou a apoiar Guterres: «A grande capacidade de análise, o facto de falar várias línguas, de ter tido uma experiência governamental, de vir da Europa do Sul, uma região reconhecida pela sua presença na América Latina e em África… era uma boa candidatura. Foram vários elementos que nos levaram a apoiar, mas também a encorajar outros países a fazê-lo.»

François Hollande acrescenta ainda que «havia, além disso, um sentimento de que cada vez mais países queriam uma ONU fraca, com um secretário-geral fraco, para conseguirem levar a cabo os seus interesses».

Respostas oficiais, artigos na imprensa, réplicas subliminares a quaisquer golpes que fossem lançados a Guterres – tudo estava proibido. A campanha para secretário-geral deveria assentar na promoção do seu próprio caminho, como político e como humanitário, sem ataques, polémicas ou antagonismos. A única coisa que importava era retratar Guterres como o homem capaz de prevenir conflitos e evitar hostilidades.

Guterres confirma que «quem mais insistiu comigo foram, de facto, o Hollande e o ministro dos Negócios Estrangeiros, o Laurent Fabius. Isso foi já em 2015».

Na verdade, este apoio de Paris, mais do que de qualquer outra capital, viria a ser determinante em toda a campanha, só que não podia ser demasiado evidente: nenhum candidato podia correr o risco de aparecer colado a um dos P5, para não ser percecionado como o representante dos interesses de um Estado em particular, ficando condenado, quase automaticamente, à rejeição pelos outros.

Portanto, toda a articulação de contactos, operações e jogadas com os franceses seria de uma constante discrição: das cirúrgicas movimentações do embaixador em Nova Iorque até aos esforços – diretos e pessoais – do mais alto representante do Estado.

Low-cost e low-profile

«A primeira instrução que ele nos deu foi fazer uma campanha pela positiva e não dizer mal de ninguém: “nós temos de afirmar a nossa candidatura por nós, não em função dos outros”.»

Antigo jornalista, David Damião desempenhava as funções de assessor de imprensa de um primeiro-ministro pela terceira vez. Guterres convidara-o para a sua equipa governativa no longínquo ano de 1995 e, passadas duas décadas, estava de novo ao serviço do chefe de Governo de Portugal. Foi ele o escolhido para ser o responsável da task force pelos contactos com os media.

A regra «Candidatura pela Positiva», apontada por Damião, significava precisamente que em nenhuma comunicação pública iriam referir-se aos outros candidatos.

Aliás, não só não iriam criticar diretamente nenhum adversário, como não estavam autorizadas conspirações nos bastidores para denegrir a imagem de ninguém.

Respostas oficiais, artigos na imprensa, réplicas subliminares a quaisquer golpes que fossem lançados a Guterres – tudo estava proibido. A campanha para secretário-geral deveria assentar na promoção do seu próprio caminho, como político e como humanitário, sem ataques, polémicas ou antagonismos. A única coisa que importava era retratar Guterres como o homem capaz de prevenir conflitos e evitar hostilidades.

A regra número dois – «Candidatura Low Cost» – era fruto tanto da visão do candidato como das circunstâncias, já que o país que iria pagar-lhe a campanha continuava na ressaca do resgate financeiro do FMI e das instituições europeias.

«Comparar o custo da candidatura do António Guterres com o que outros gastaram é uma coisa inacreditável», argumenta o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

Guterres viajaria maioritariamente sozinho, sempre que possível em classe económica, e, de preferência, ficaria a dormir nas residências dos embaixadores de Portugal, nos vários países que visitasse. A campanha seria ainda realizada exclusivamente com a prata da casa, sendo custeada na íntegra pelo orçamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, num esforço total que não chegaria a ultrapassar os 200 mil euros.

Durante as sessões informais com os candidatos a secretário-geral das Nações Unidas

AFP via Getty Images

Mesmo que ao longo de toda a campanha Guterres tenha contado com apoios pontuais e com operações discretas de amigos, a estratégia e o conteúdo resultaram apenas das contribuições do próprio e da task force – constituída exclusivamente pela meia dúzia de diplomatas nomeados para o efeito e sendo acompanhada por assessores do primeiro-ministro e do presidente da República.

Para mais, era do conhecimento público que António Guterres defendia – e, tanto quanto lhe era possível, vinha aplicando – uma reforma interna das Nações Unidas, argumentando que era necessário tornar a Organização mais orientada para resultados, gerir de maneira mais eficiente os seus recursos e adaptá-la a uma nova estrutura de custos. No fundo, aplicar a toda a casa uma receita idêntica à que dizia ter imposto no ACNUR, com apostas como a de Budapeste.

E assim, não foi lançado nenhum concurso para adjudicar a campanha a grandes empresas internacionais, nem se digladiam quaisquer agências de relações públicas em torno de um avultado caderno de encargos. Não foi contratado um único consultor de comunicação, estratega político ou marketeer.

Desta forma surgia a regra número três, seguramente a que mais custou a David Damião – «Candidatura Low-Profile».

Guterres evitaria declarações públicas desnecessárias, todas as entrevistas teriam de ser escolhidas cautelosamente e artigos de opinião, posts ou vídeos nas redes sociais seriam algo para ir avaliando ao longo do caminho.

Apesar de esta ser a primeira eleição de um secretário-geral em que os candidatos poderiam fazer campanha, Guterres sabia que quem tinha de conquistar eram os líderes dos Estados e não as opiniões públicas, pelo que apostaria apenas em exposições mediáticas cirúrgicas.

Guterres tinha de aparecer como um agente mobilizador e hábil, capaz de juntar forças políticas de sentido contrário. Projetava-se, desta forma, a imagem de que conseguiria encontrar entendimentos e reunir, em torno de causas comuns, atores que habitualmente se encaram como adversários.

Segundo Melissa Flemming, a porta-voz de Guterres no ACNUR, «ele queria aparecer nos media, mas tinha de ser estrategicamente, sempre com um perfil extremamente discreto. Ele considerou que ter muita atenção mediática numa coisa deste género podia sair-lhe pela culatra e preferiu trabalhar nos bastidores. Afinal, a escolha era dos Estados. A maior parte dos encontros que teve com os media foi off the record, como uma reunião que teve com o conselho editorial no New York Times. Ele não queria aparecer demasiado para não parecer desesperado por atenção».

Ou seja, Guterres defendia que não lhe adiantaria de nada, talvez até fosse desaconselhado, ocupar demasiado espaço noticioso, tão cobiçado pelos presidentes e ministros, de cujo voto iria precisar.

O que se pretendia ainda com esta abordagem era mostrar Guterres como alguém que prefere trabalhar diretamente com os stakeholders, nos bastidores, e que não iria estar numa competição permanente com os chefes de Estado por uma cada vez mais dispersa atenção dos jornalistas.

Finalmente, regra número quatro – «Candidatura Nacional».

Guterres tinha de aparecer como um agente mobilizador e hábil, capaz de juntar forças políticas de sentido contrário. Projetava-se, desta forma, a imagem de que conseguiria encontrar entendimentos e reunir, em torno de causas comuns, atores que habitualmente se encaram como adversários.

Os gestos para o demonstrar começaram logo no início de 2016, quando o presidente de Portugal era, nem mais nem menos, um dos seus mais antigos rivais políticos: Cavaco Silva, o antigo primeiro-ministro a quem Guterres sucedera em 1995 e contra quem tantas batalhas travara. Ora, o então chefe de Estado, que estava a poucos dias de abandonar o cargo, revelou-se de tal forma solícito a apoiar a candidatura do socialista que, a 27 de janeiro, condecorou publicamente António Guterres com uma das mais altas ordem honoríficas que o protocolo nacional permitia.

De uma forma geral, todos os partidos e forças políticas do país foram expeditos a unir-se em torno de Guterres, independentemente de diferenças ideológicas do passado ou de taticismos circunstanciais do presente. O movimento de coesão que resultou deste entendimento viria a tornar-se especialmente relevante, sobretudo por se encontrar nos antípodas do que se passava com um dos principais adversários da candidatura portuguesa.

Com efeito, no outro extremo da Europa, lá bem no Leste, a Bulgária vivia dias estranhos: a candidata oficial, socialista, não recolhia a simpatia do Governo, conservador, que assumira o poder já depois de ela se encontrar nomeada.

Em junho de 2014, quando Irina Bokova se lançou publicamente na corrida, o país era governado por uma minoria de esquerda – que viria a cair logo no mês seguinte – e o partido de direita que venceu as eleições subsequentes, também sem maioria, ficara igualmente refém de uma coligação frágil. Sob a ameaça de os socialistas fazerem cair o seu Executivo, o novo primeiro-ministro, Boyko Borisov, foi aceitando manter Bokova como candidata.

António Guterres em dezembro de 2020

FILIP SINGER/EPA

E, no entanto, mesmo com todas estas circunstâncias a jogarem contra as suas aspirações, quem nunca deixou de dar conta do interesse em suceder a Ban Ki-moon foi Kristalina Georgieva.

Afinal, esta conversadora pertencia ao mesmo partido do Governo e, por ocupar o poderoso cargo de vice-presidente da Comissão Europeia, onde era a responsável por todo o orçamento comunitário, tinha acesso direto a dois membros permanentes do Conselho de Segurança: Reino Unido e França. Mas mais ainda, Georgieva reunia todas as condições para contar com o apoio também da Rússia. Afinal, tinha representado o Banco Mundial em Moscovo, falava fluentemente russo e, claro, pertencia ao mesmo grupo regional.

Ou seja, apesar de ninguém saber exatamente como, nem quando, admitia-se a possibilidade inaudita de a Bulgária vir a lançar não uma, mas duas candidatas.

No quartel-general de Guterres, estas peripécias eram acompanhadas com todo o detalhe e, no preciso dia em que o Governo búlgaro enviou os papéis com a candidatura de Bokova para Nova Iorque, a responsável no Executivo por- tuguês pelos Assuntos Europeus, que era a principal coordenadora da task force, encontrou-se em Bruxelas com a vice-presidente da Comissão – Georgieva.

Margarida Marques tinha lido na imprensa dessa manhã que, uma vez formalizado o nome de Bokova, Georgieva abdicara de ser candidata. Mas sabia que a história não podia corresponder bem à verdade. «Eu vou lá falar com ela, por uma razão completamente diferente, e digo-lhe antes de nos despedirmos: “então, já vi que disseste que não estás interessada em ser secretária-geral das Nações Unidas” – isto porque o Guterres me tinha pedido para atirar o barro à parede. E ela responde-me: “Não fui eu que disse. Ninguém me ouviu dizer isso. Ouviste o Governo do meu país, em meu nome. E isso foi muito feio”.»

Ao mesmo tempo, a realização de eleições presidenciais em Portugal agravaria o contraste com a Bulgária, trazendo mais boas notícias para a «Candidatura Nacional» idealizada. O futuro chefe de Estado seria mais um velho conhecido de Guterres. Dos tempos da política. Dos tempos de adolescência. Dos tempos do Grupo da Luz. Marcelo Rebelo de Sousa – o amigo que se tornara adversário, o rival que tinha permitido a sobrevivência do seu primeiro Governo, era ele o eleito como presidente da República.

No centro da task force, José de Freitas Ferraz explica que a própria tomada de posse do novo presidente foi aproveitada como um ato de campanha: «Foi aí que o engenheiro Guterres teve os primeiros contactos com participantes na cerimónia. Reuniu-se com o rei de Espanha e com o presidente de Moçambique, por exemplo.»

No entanto, nem o facto de a candidatura reunir apoios de todos os quadrantes domésticos possibilitou maior alocação de recursos. Guterres ainda chegou a ter uma sala para trabalhar, no palácio da Secretaria de Estado dos Assuntos Euro- peus, mas, quando estava em Lisboa, passava a maior parte do tempo no gabinete que lhe estava atribuído, desde 2013, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde era administrador não-executivo – e onde o aguardavam como futuro presidente, caso o plano Nações Unidas fracassasse.

Guterres teria de visitar individualmente cada um deles, os cinco com poder de veto e os 10 não permanentes, para tomar nota das suas respetivas prioridades estratégicas e apresentar a sua visão de como a ONU podia trabalhar melhor com os seus governos. Este esforço era particularmente importante para os países com alinhamentos diplomáticos contrários à sua candidatura.

Era lá que recebia convidados, que tinha reuniões, que preparava as suas viagens e que coordenava a elaboração dos dossiers, seguindo um método idêntico ao que utilizava antes dos tours pela Europa, quando ainda era primeiro-ministro: chamar os especialistas e avaliar o que pode fazer pelos vários stakeholders, sem prejuízo do que quer para si. Neste caso, já não seriam 15 membros da União Europeia, mas sim os 15 países do Conselho de Segurança.

Guterres teria de visitar individualmente cada um deles, os cinco com poder de veto e os 10 não permanentes, para tomar nota das suas respetivas prioridades estratégicas e apresentar a sua visão de como a ONU podia trabalhar melhor com os seus governos. Este esforço era particularmente importante para os países com alinhamentos diplomáticos contrários à sua candidatura.

Guterres sabia, por exemplo, que para o Uruguai e para Espanha seria muito difícil não apoiar Susana Malcorra, da Argentina. Sabia que o voto da Nova Zelândia iria obrigatoriamente para a sua anterior primeira-ministra, Helen Clark – tal como iriam os do Reino Unido, parceiro na Commonwealth, e da Malásia, vizinha na Ásia-Pacífico. Sabia que a Rússia e a Ucrânia prefeririam sempre alguém do Leste da Europa e sabia que os Estados Unidos advogavam fortemente por uma mulher no cargo. Para todos eles, precisava de apresentar argumentos.

Ao mesmo tempo, a marcação das audiências bilaterais, nomeadamente com os P5, exigia um planeamento realista das visitas e o fator tempo estava obrigatoriamente no centro das discussões. Não só pela antecedência com que as reuniões tinham de ser pedidas, como sobretudo pelos avanços táticos do candidato – nomeadamente, o timing do seu próprio anúncio: deveria Guterres avançar antes dos outros ou esperar que mais nomes, eventualmente os mais perigosos, dessem o passo em frente?

É que a carta da ONU, onde a presidente do Conselho de Segurança e o presidente da Assembleia-Geral convidavam os Estados-membros a apresentar nomes, tinha sido enviada a 17 de dezembro. E a corrida já estava mais do que lançada.”

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