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A União Europeia tem deste este dia 31 uma bandeira a menos

Anadolu Agency via Getty Images

A União Europeia tem deste este dia 31 uma bandeira a menos

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A Grã-Bretanha e a construção da União Europeia na hora da despedida /premium

Este dia 1 é definitivamente um marco histórico na antiquíssima relação da Inglaterra com o resto da Europa. Guia para a nova etapa que só se explica percebendo o passado. Ensaio de Bruno Cardoso Reis

O dia 1 de Fevereiro de 2020 será um marco histórico. Será o início de uma nova etapa na sempre complicada, intensa e antiquíssima relação entre a Inglaterra, o território central da Grã-Bretanha, e o resto da Europa.

Este será um episódio especialmente paradoxal. Por um lado, marca o triunfo dos defensores do Brexit, pois é o fim do princípio do processo de saída da Grã-Bretanha da União Europeia, como resultado do resultado referendo de 23 de Junho de 2016. Por outro lado, na prática das relações tão intensas entre a Grã-Bretanha e a União Europeia, desde logo ao nível económico, quase nada mudará durante este período de transição, o qual se prolongará até ao final do presente ano de 2020, com possibilidade de extensão posterior – embora essa hipótese tenha sido afastada pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, como parte da sua postura negocial face à União Europeia.

O regime futuro das relações entre a Grã-Bretanha e a União Europeia, nas suas múltiplas dimensões, será determinado por negociações difíceis que apenas agora se iniciam. Enquanto durar este período de transição, a Grã-Bretanha continuará a ter de cumprir todas as regras e tratados da União Europeia, continuará a ter acesso ao mercado europeu. A mudança fundamental é que a Grã-Bretanha não terá qualquer voz na tomada de decisões nas instituições europeias. Não haverá ministros britânicos no Conselho onde estão representados os governos. Não haverá parlamentares britânicos no Parlamento Europeu. Não haverá juízes britânicos no Tribunal Europeu. E não foi nomeado um comissário britânico para a Comissão Europeia empossada no final do ano de 2019.

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O regime futuro das relações entre a Grã-Bretanha e a União Europeia, nas suas múltiplas dimensões, será determinado por negociações difíceis que apenas agora se iniciam. Enquanto durar este período de transição, a Grã-Bretanha continuará a ter de cumprir todas as regras e tratados da União Europeia, continuará a ter acesso ao mercado europeu. A mudança fundamental é que a Grã-Bretanha não terá qualquer voz na tomada de decisões nas instituições europeias.

Apesar de todos estes paradoxos e ambiguidades, uma coisa é clara: legalmente a Grã-Bretanha deixou agora, a 1 de Fevereiro de 2020, de ser membro da União Europeia, a que aderiu após um processo também ele longo e difícil, em 1 de Janeiro de 1973. A Grã-Bretanha liderou a primeira vaga de alargamento das instituições europeias, que têm vindo a ocupar um lugar cada vez mais importante na política do Continente desde o final da Segunda Guerra Mundial. E a Grã-Bretanha é hoje o único Estado-membro da União Europeia que alguma vez optou por abandonar o barco. E, por isso, as perguntas são muitas — com destaque para duas. Que balanço se pode fazer destas décadas de uma presença britânica tão conflituosa quanto marcante no seio das instituições europeias? Quais serão as implicações desta decisão para o futuro da União Europeia e Portugal? Antes de procurar responder a estas questões é indispensável olhar, ainda que de forma necessariamente muito breve e esquemática, para a longa e complexa história das relações entre as ilhas britânicas e o resto da Europa. Esse será o melhor guia para explicar o que se passou e, também, o que provavelmente se passará no futuro próximo.

A Grã-Bretanha nunca foi uma ilha

Começar por saber onde estamos, pela geografia, costuma ser a abordagem mais adequada para uma análise da situação em que nos encontramos. Não ignoro, ninguém ignora, que a Grã-Bretanha é, em termos de geografia física, uma ilha. Esta grande ilha britânica, situada junto à costa ocidental do continente europeu, em face da França e dos Países Baixos, é ocupada pelas nações históricas de Gales, da Escócia, e da Inglaterra, com que é frequentemente confundida. Por via do Ato da União, estas nações estão unidas, desde 1707, por via de um Parlamento, em Westminster, e de um soberano, formando um Reino Unido. A ilha da Irlanda, mais a oeste, tem tido com este conjunto uma relação intensa, mas também frequentemente conflituoso, como vimos novamente no caso do Brexit, fez formalmente parte do Reino Unido entre 1801 e 1922, e a sua região norte ainda hoje o faz.

Em termos de geografia física não há, portanto, dúvidas de que a Grã-Bretanha é uma ilha, conformando-se perfeitamente à definição habitual de um pedaço de terra rodeado por mar por todos os lados. Porém, em termos de geografia política, ou seja, da geopolítica, a Grã-Bretanha nunca foi nem pôde ser uma ilha isolada do resto do continente. Essa ideia de um isolamento supostamente esplêndido teve, é certo, sempre alguma popularidade nalguns meios políticos britânicos mais nacionalistas. A ideia de uma ilha fortaleza presta-se a propaganda fácil, dá bons slogans. Porém, raramente foi seriamente tentado, e sobretudo, nunca com sucesso por um período longo. Ou seja, a Grã-Bretanha nunca teve o luxo de poder isolar-se do que se passa no resto do continente europeu: os seus interesses vitais em termos económicos ou de segurança estão demasiado ligados ao resto da Europa, sobretudo à Europa atlântica, à Europa ocidental. Aliás, há que reconhecer que a maioria, se não todos os defensores do Brexit, rapidamente se aperceberam dessa realidade, e insistem que se a Grã-Bretanha irá sair da União Europeia, não sairá, contudo, da Europa. O grande problema está em diferenciar uma coisa da outra, dada a centralidade crescente da UE na vida europeia.

A Grã-Bretanha também ajudou a construir coligações e instituições e política europeias. Mas é verdade que os britânicos resistiram sempre a cedências de soberania a órgãos supranacionais e procuraram construir de coligações de Estados dentro da UE para bloquear políticas vistas como “federalistas.

A Grã-Bretanha é uma ilha, mas uma ilha profundamente europeia, que tem muito pouco de insular. De facto, muito se tem dito sobre a excecional insularidade britânica como um fator no Brexit. Muito se tem escrito e até cantado em língua inglesa sobre esta insularidade que ajudaria a explicar a reserva britânica em tornar-se um membro plenamente empenhado das instituições da União Europeia. E não há dúvida que essa insularidade surge tão intimamente associada à identidade britânica quanto a Coroa britânica na fórmula consagrada “these Sceptred Isles”. No entanto, as ilhas britânicas são mais um exemplo das muitas ilhas europeias, características de uma geografia europeia marcada pela fragmentação territorial em múltiplas penínsulas e ilhas, dividida por cadeias montanhosas, vastos rios e canais marítimos. Este facto ajuda a explicar que na história a geopolítica europeia mostre uma tendência tão forte para a fragmentação, com múltiplos Estados competindo entre si. Mas estas barreiras físicas nunca foram suficientes para impedir completamente relações intensas, mesmo que conflituosas, entre os diferentes Estados europeus. Mais, tendo em conta as dificuldades do transporte terrestre durante boa parte da história, o mar tanto unia como dividia, tanta dificultava grandes invasões, como facilitava relações comerciais fortes.

De resto, esta fragmentação geopolítica europeia é algo para que os britânicos contribuíram ativamente ao longo dos séculos. Efetivamente, os ingleses, os britânicos foram líderes e financiadores cruciais de coligações sucessivas de Estados europeus com o objetivo de evitar a afirmação de uma potência hegemónica no continente europeu, sobretudo na Europa Ocidental mais próxima das costas britânicas. Os exemplos mais recentes são bem conhecidos. Não faltam livros e filmes sobre o papel decisiva da Grã-Bretanha, heroicamente liderada por Sir Winston Churchill, na resistência à tentativa de Hitler, nas décadas de 1930 e 1940, de construir pela força uma Europa alemã e nazi. Muitos também conhecem, até pelo papel importante que Portugal desempenhou nesse conflito, a resistência britânica, liderada por William Pitt e Wellington, à tentativa, por Napoleão, de construir pela força uma Europa francesa no início do século XIX.

Churchill teve um papel fundamental no fim da II Guerra Mundial

AFP/Getty Images

Aliás a Velha Aliança, recuando ao Tratado de Windsor de 1386, ou seja, o apoio inglês, depois britânico à independência de Portugal, foi também ele uma expressão desta ligação estreita dos britânicos ao resto da Europa. Claro que a aliança luso-britânica teve alguns altos e baixos, como seria inevitável ao longo de mais de seis séculos de existência. Mas foi sendo frequentemente renovada por causa de uma forte convergência de interesses ingleses e portugueses. Do lado de Londres correspondia a uma prioridade estratégica no sentido de promover Estados tampão na fachada atlântica da Europa para servirem de barreira face a grandes Estados continentais que pudessem ameaçar as costas britânicas. O Brexit parece aliás oferecer uma oportunidade, que seria importante aproveitar da melhor forma, para um reforço das relações bilaterais luso-britânicas.

Terá esta velha prioridade britânica de dividir para reinar na Europa alguma coisa que ver com a história do Reino Unido na União Europeia? Para recorrer à cultura popular, o famoso programa de comédia política Yes Minister defende que sim. É verdade que o programa é antigo, mas tornou-se um objeto de culto, e ainda hoje ajuda alguma coisa a perceber a tradição política britânica, sobre a qual mantém alguma influência. Num episódio dedicado à política europeia, Sir Humphrey, a encarnação do alto funcionário britânico, explica que a essência da política para a Europa da Grã-Bretanha sempre foi dividir para reinar. E adianta que a adesão britânica às Comunidades Europeias, a 1 de Janeiro de 1973, não foi uma conversão à utopia de “uma união cada vez maior” do preâmbulo do Tratado de Roma, que criou a CEE, em 1957. Foi, pelo contrário, uma forma de continuar a dividir para reinar, de continuar a evitar a ascensão de uma potência hegemónica na Europa, fosse ela a Rússia, a Alemanha, ou a França, agora a partir do interior da CEE. É uma caricatura, claro, uma vez que a Grã-Bretanha também ajudou a construir coligações e instituições e política europeias. Mas é verdade que os britânicos resistiram sempre a cedências de soberania a órgãos supranacionais e procuraram construir de coligações de Estados dentro da UE para bloquear políticas vistas como “federalistas”.

Londres nem joga nem deixa jogar na criação das instituições europeias?

A Segunda Guerra Mundial (1939-45) é um marco histórico fundamental na história europeia. Mas também é assim no processo de construção das instituições europeias que vieram a dar origem à União Europeia, com a forma distinta como a Grã-Bretanha encarou esse projeto e o seu papel nele. Quando, em 1945, se falou de um novo ano zero para a Europa, isso não era uma simples alegoria — era o resultado do fato de muitas das maiores cidades europeias, algumas entre as mais icónicas, estarem reduzidas a ruínas. Londres foi também muito afetada pelos bombardeamentos alemães, é certo, mas para a Grã-Bretanha a Segunda Guerra Mundial foi um grande momento heroico, um pico glorioso da história nacional e do nacionalismo britânico, que ousou resistir a Hitler e ao nazismo quando ninguém mais o fazia. Não é por acaso que há alguns anos atrás Sir Winston Churchill, o líder desse esforço de guerra, foi o votado o maior britânico da história. Não é por acaso que esse período é conhecido na Grã-Bretanha como a sua “finest hour”, o momento de glória por excelência da história britânica. Para grande parte dos países da Europa continental, pelo contrário, a Segunda Guerra Mundial foi uma experiência desastrosa, de crimes terríveis, um tempo de derrota e de ocupação, de colaboração com o nazismo, um trauma. A Segunda Guerra Mundial é vista como algo que é necessário evitar repetir a todo o custo em grande parte dos Estados europeus. E o nacionalismo foi visto por toda a Europa como o grande responsável pelo desastre. Não é assim no caso britânico. O nacionalismo britânico, as instituições nacionais britânicas são vistas como tendo triunfado contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial.

Este trauma da Segunda Guerra Mundial é fundamental para perceber a forma como as elites dirigentes europeias, no pós-Segunda Guerra Mundial, se empenham na construção de instituições supranacionais europeias. Estas elites europeias do segundo pós-guerra não temem apenas que uma Alemanha reconstruida seja novamente uma ameaça para a paz europeia. Elas temem igualmente uma nova ameaça agressiva da Rússia soviética, a outra grande vencedora da guerra, que através do comunismo poderia subverter as suas sociedades arruinadas pela guerra. Sobretudo, temem também o fantasma dum nacionalismo agressivo e violento no seio das suas próprias sociedades. A construção de instituições europeias aparece como um seguro contra todas estas ameaças, não só externas, mas também internas, como uma forma de promover maior prosperidade, maior interdependência económica, e de caminho tornar mais difícil um regresso do nacionalismo agressiva e uma nova guerra na Europa Ocidental. Contudo, como vimos não é assim no caso da Grã-Bretanha. Até hoje é um dado diferenciador da cultura política britânica no contexto europeu é que esta não vê razões para temer o nacionalismo ou patriotismo, para pôr em causa a legitimidade das suas instituições tradicionais.

A assinatura do Tratado de Roma em 1957

A Grã-Bretanha foi, em todo o caso, convidada por alguns dos Seis países fundadores – Alemanha Ocidental, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo e a França – a juntar-se a eles na génese do processo de construção das instituições europeia que vieram a dar origem às Comunidades Europeias e depois à União Europeia, no início da década de 1950. Os britânicos chegaram a enviar diplomatas às fases iniciais da negociação, mas rapidamente se distanciaram da iniciativa. Hoje em dia, isso é muitas vezes apontado como sinal de arrogância e cegueira. É possível que houvesse alguma cegueira e alguma arrogância da parte de algumas elites britânicas na forma como condenaram, logo à partida, o processo que veio culminar no sucesso histórico que foi a assinatura do Tratado de Roma, em 1957, e no início do funcionamento das Comunidades Europeias, em Janeiro de 1958. Porém, temos de nos recordar, para evitarmos anacronismos, que nenhuma iniciativa deste tipo alguma vez tinha existido na história da Europa. Pelo contrário o que era evidente na história europeia até essa época era a prevalência de Estados nacionais sempre muito ciosos da sua soberania. Seria preciso grande imaginação ou grande convicção para acreditar que esta iniciativa modesta não iria fracassar, como tantas outras iniciativas pan-europeias, até menos ambiciosas, tinham fracassado no passado. Este veio a revelar-se, em todo o caso, um erro de cálculo de Londres, pois em vez de influenciar a criação da CEE desde o início, estando por dentro, ficou de fora. E ficar de fora revelou-se cada vez mais custoso.

Uma adesão complicada e sem festejos

As Comunidades Europeias revelaram-se, efetivamente, um sucesso, sobretudo ao nível económico. E aqui, diga-se, os decisores britânicos não se mostraram complacentes ou arrogantes. Rapidamente se mostraram, pelo contrário, cada vez mais preocupados, com as implicações para os interesses dos exportadores e investidores britânicos do sucesso desta iniciativa de criar um Mercado Comum europeu, com a Grã-Bretanha de fora. Seria, como referiu o então primeiro-ministro britânico, Harold Macmillan, no poder entre 1957-63, uma espécie de Bloqueio Continental, tentado por Napoleão pela força, mas desta feita voluntário, o qual daria uma grande vantagem às empresas francesas, alemãs, italianas. O que fazer? Foram várias as tentativas de Macmillan e dos seus sucessores de encontrar uma resposta pragmática.

A preferência da Grã-Bretanha continuava a ser para uma estrutura puramente intergovernamental, sem órgãos supranacionais como o Tribunal Europeu, ou a Comissão Europeia, que seriam durante estas últimas décadas o alvo preferencial dos críticos britânicos da União Europeia. A primeira opção britânica foi, portanto, no sentido da criação de uma área de comércio livre, menos exigente em termos de instituições e normas comuns, para poder funcionar do que um mercado comum.

Assim, foi precisamente uma área de comércio livre com as Comunidades Europeias que a Grã-Bretanha propôs criar com o chamado “Plano G”. Diz bem da complexidade da tentativa de negociar um acordo comercial entre britânicos e europeus, mesmo nesta época, que tenham sido esgotadas as letras do alfabeto de A até F em planos sucessivos, até se chegar a esta proposta para a relação entre a Grã-Bretanha e os Seis membros fundadores das Comunidades Europeias.

Este “Plano G” consistia na proposta britânica de uma zona de comércio livre que seria não apenas entre as Comunidades Europeias e a Grã-Bretanha, mas sim da CEE com todo o conjunto do Commonwealth. Do ponto de vista de Londres, este era um plano brilhante. Por um lado, desobrigava a Grã-Bretanha de escolher entre a Europa e o antigo Império, preservando o seu comércio e investimento crescentes na Europa Ocidental. Por outro lado, evitava colocar em causa os seus mercados tradicionais além-mar. A Grã-Bretanha esperava lucrar muito com esta posição de pivot. Mas, precisamente por isso, a proposta foi rejeitada pelos parceiros europeus — no que pode ser visto como exemplo precoce do falhanço de uma tentativa britânica de ficar com o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

Este “Plano G” consistia na proposta britânica de uma zona de comércio livre que seria não apenas entre as Comunidades Europeias e a Grã-Bretanha, mas sim da CEE com todo o conjunto do Commonwealth. Do ponto de vista de Londres, este era um plano brilhante. Por um lado, desobrigava a Grã-Bretanha de escolher entre a Europa e o antigo Império, preservando o seu comércio e investimento crescentes na Europa Ocidental. Por outro lado, evitava colocar em causa os seus mercados tradicionais além-mar.

A segunda opção foi novamente uma área de comércio livre, mas desta feita europeia. No início da década de 1960, ainda ficavam muitos países da Europa Ocidental fora da CEE, entre eles Portugal. Londres promoveu entre eles a criação, no início de 1960, da chamada EFTA – European Free Trade Area, i.e. a Zona Europeia de Comércio Livre. A EFTA agrupava Sete Estados periféricos europeus, a maioria na fachada atlântica da Europa, e aliados britânicos tradicionais, desde a Noruega até Portugal, passando pela Suíça, também eles resistentes a transferir soberania para uma organização supranacional.

No entanto, e apesar deste esforço, cedo ficou claro para os decisores britânicos que, apesar de todas as reservas políticas face à CEE, se impunha uma rápida e radical reavaliação do seu impacto económico. A EFTA avançou, mas não compensou a maior dificuldade britânica em continuar a competir nos enormes mercados alemão, francês italiano. O Commonwealth revelou-se uma desilusão ainda maior do ponto de vista dos objetivos britânicos. As antigas colónias britânicas revelaram-se bem menos disponíveis a cooperar na sua ação externa com Londres do que o Canadá, a Austrália, ou a Nova Zelândia, velhos domínios governados por descendentes de colonos britânicos. Muitas destas ex-colónias britânicas na Ásia ou em África adotaram políticas económicas nacionalistas, anticapitalistas, alinharam com o bloco soviético ou adotaram uma postura neutral no quadro da Guerra Fria global, mostrando-se muito críticas face ao governo de Londres. Em suma, cedo ficou claro que o Commonwealth não podia competir com a CEE como parceiro diplomático ou como mercado para as exportações e investimentos britânicos.

Uma capa histórica do The Guardian, que diz tudo: "Estamos dentro, mas sem deitar foguetes"

A conclusão lógica, portanto, por razões essencialmente económicas, foi ensaiar um primeiro pedido britânico de adesão às Comunidades Europeias. E isso foi feito pelo governo de Londres, logo em 1961. Porém, este pedido de adesão, tal como um segundo, em 1967, foram vetados pelo Presidente francês, Charles de Gaulle, desconfiado do real grau de compromisso britânico com a Europa continental, e determinado a consolidar uma hegemonia francesa nas novas instituições europeias. As reservas francesas ao alargamento das instituições europeias são, portanto, antigas. Só com a saída de cena deste carismático presidente francês, em 1969, houve condições para a negociação da adesão da Grã-Bretanha (e da Dinamarca) à CEE, concluída com sucesso em 1973, naquela que foi a primeira de sucessivas vagas de alargamentos. Mas, como anunciou então o The Guardian, num título de primeira página que ficou para história: “We are in, but without the fireworks”, que o mesmo é dizer: aderimos, mas sem festas. A adesão britânica sempre foi essencialmente por razões práticas, económicas. O compromisso britânico com as novas instituições europeias sempre foi muito menos forte do que da parte da maioria dos restantes Estados europeus, onde muitos tendem a vê-las como um complemento ou mesmo um corretivo essencial às suas instituições nacionais.

Que falta faz à UE uma potência liberal, atlantista e militarmente forte?

Que papel desempenhou a Grã-Bretanha nestas mais de quatro décadas em que esteve dentro da CEE/UE? Identifico três eixos principais da ação britânica no seio das instituições europeias: abertura e integração de mercados numa linha de liberalismo económico, atlantismo e defesa do alargamento — evidentemente todos eles alinhados com o que governo da Grã-Bretanha considerava interesses vitais nacionais.

Primeiro, a Grã-Bretanha foi uma potência liberalizadora em termos da política comercial europeia. A ideia de comércio livre e de abertura de mercados foi, como vimos, a principal preocupação do governo de Londres ao pretender a adesão. Dentro da CEE/UE, esta tendência continuou, desde logo na defesa de tratados de comércio livre com outras regiões do mundo. Convém ainda lembrar que Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979-1990, muitas vezes caricaturada, quer por defensores, quer opositores do Brexit, como tendo sido totalmente hostil à CEE é um bom exemplo disso. Na verdade, Thatcher deixou claro que não imaginava a Grã-Bretanha fora da CEE, e deu um apoio decisivo à construção do Mercado Único através do Ato Único, acordado em 1986, que resultou num nível de integração, de abertura económica muito superior à do Mercado Comum, com a eliminação de todo o tipo de barreiras não alfandegárias no seio da Europa e a consagração da livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Claro que a ninguém escapará a ironia de que muitos, na Grã-Bretanha, logo depois se mostraram muito críticos de vários desses aspetos. É possível que a saída da Grã-Bretanha leve ao triunfo na UE de uma postura menos liberal, menos focada na concorrência livre, menos empenhada em novos tratados de comércio livro, e mais apostados em defender campeões nacionais, uma tese popular em França e na Alemanha.

Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979-1990

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Em segundo lugar, em termos da sua postura estratégica, a Grã-Bretanha afirmou-se na UE como uma importante potência militar atlantista, com meios e vontade de estar presente militarmente a nível global. Porém, até em nome desse atlantismo, os decisores britânicos mostraram-se sempre muito renitentes em usar os seus importantes meios militares no quadro europeu – como se pode ver pela presença limitada de tropas britânicas em missões da UE – ou em deixar que as instituições da defesa europeia se desenvolvessem plenamente. Este é talvez o ponto em que o impacto da saída britânica é menos claro. A saída desta importante potência militar euro-atlântica, o sexto Estado do Mundo em termos de nível de despesa militar em 2019 (e a concluir dois porta-aviões), enfraquece os meios militares ao dispor da União Europeia. Nenhum outro Estado europeu, com exceção da França, tem capacidades militares semelhantes. Por outro lado, o fim do veto britânico já permitiu importantes avanços na Defesa Europeia. E não é impossível que a saída da Grã-Bretanha permita aos decisores britânicos colaborarem mais em missões militares da UE, assim como a nível bilateral com vários Estados europeus com interesses convergentes. Porquê? Porque já não terão de temer o preço político de acusações na imprensa tabloide britânica, de que a Royal Navy ou os gloriosos regimentos britânicos estariam em risco de ser substituídos por umas Forças Armadas europeias.

É provável, porém, que a saída desta importante potência atlântica signifique que o eixo geoestratégico da UE se desloque mais para Leste, e as suas prioridades se tornem mais continentais. Isso não será inevitável, mas exigirá que países como Portugal (e outras potências da fachada atlântica europeia que permanecem na UE) assumam de forma eficaz a defesa ativa da importância das prioridades marítimas e atlânticas na ação externa da UE.

É provável, porém, que a saída desta importante potência atlântica signifique que o eixo geoestratégico da UE se desloque mais para Leste, e as suas prioridades se tornem mais continentais. Isso não será inevitável, mas exigirá que países como Portugal (e outras potências da fachada atlântica europeia que permanecem na UE) assumam de forma eficaz a defesa ativa da importância das prioridades marítimas e atlânticas na ação externa da UE.

Um terceiro elemento fundamental foi o apoio consistente da Grã-Bretanha ao alargamento do número de Estados membros da União Europeia, nomeadamente no enorme alargamento da UE a Leste, em 2004. Este passo é hoje muito criticado, inclusive na Grã-Bretanha. É visto por alguns como uma forma cínica da Grã-Bretanha promover divisões no seio da Europa. Mas foi fundamental para consolidar e pacificar as transições democráticas no antigo bloco soviético. E que da parte da Grã-Bretanha não correspondeu a um mero cálculo frio no sentido de dividir para reinar, fica evidente no facto de ter sido, de forma imprudente, praticamente o único Estado-membro a optar por abrir logo as suas fronteiras aos novos cidadãos da UE. Sabemos hoje que centenas de milhares de emigrantes, nomeadamente polacos, aproveitaram essa medida para vir trabalhar para a Grã-Bretanha, e vieram a ser um dos catalisadores do Brexit. Mas ninguém pode negar que esse foi um contributo marcante da Grã-Bretanha para a UE tal como ela existe hoje.

Conclusão: um longo adeus?

Foi, portanto, a Grã-Bretanha uma força de bloqueio ou um contribuinte importante na CEE/UE? Há quem argumente que até porque a Grã-Bretanha nunca aderiu plenamente à UE, como ficaria evidente pelos vários opt-outs, o seu papel foi essencialmente negativo, e agora tudo será fácil e possível para a UE. Há, pelo contrário, quem defenda que a Grã-Bretanha teve um papel crucial de fiel da balança, desempenhando no seio da CEE/UE a mesma função vital que vinha desempenhando há séculos na gestão do frágil equilíbrio de poder europeu e que, portanto, a sua saída será um desastre.

Quanto ao passado desta relação entre a Grã-Bretanha e a UE, como espero ter deixado claro, situo-me algures no meio destas tendências, uma radicalmente crítica, outra muito elogiosa. A Grã-Bretanha bloqueou algumas iniciativas válidas, por razões de pura política interna, por exemplo no campo da defesa europeia. Foi um importante contribuinte líquido para o orçamento europeu, mas impôs um desconto na sua contribuição em 1984. Deu o impulso a iniciativas importantes, como o alargamento a Leste ou a construção do Mercado Único, mas bloqueou outras.

O adeus à União Europeia deu-se às 23 horas deste 31 de Janeiro

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É natural, porém, que, sobretudo hoje, o que interesse aos leitores seja saber o que se seguirá.  Quanto ao futuro da relação entre a Grã-Bretanha e a UE, a única resposta honesta é que não podemos saber com segurança, hoje, o real impacto de uma saída em termos ainda em grande parte por definir e que serão negociados ao longo deste ano de 2020 e para além dele.

Porém, há três coisas que podemos prever com confiança. A primeira é que nem tudo será possível na UE agora que a Grã-Bretanha saiu. Creio que cedo ficará claro que não era raro outros países europeus se colarem ou esconderem atrás das posições britânicas, usando o facto de os decisores britânicos terem tido até alguns incentivos políticos para aparecer publicamente a fazer face a pressões de outros parceiros europeus ou da Comissão Europeia. Aqueles que não descobriram já, cedo irão descobrir que a Grã-Bretanha estava longe de ser o único obstáculo a mais avanços federalizadores na União Europeia.

Segundo, o Brexit terá um impacto tanto maior quanto mais radical forem os termos da partida efetiva, daqui a um ano ou mais tarde, nomeadamente em termos do comércio, de turismo, de migrações que ligam a Grã-Bretanha ao resto da Europa, inclusive, naturalmente, a Portugal.

O Brexit terá um impacto tanto maior quanto mais radical forem os termos da partida efetiva, daqui a um ano ou mais tarde, nomeadamente em termos do comércio, de turismo, de migrações que ligam a Grã-Bretanha ao resto da Europa, inclusive, naturalmente, a Portugal.

Terceiro, mesmo os defensores do Brexit deixam claro, como vimos, que a Grã-Bretanha pode deixar a UE, mas não pode deixar de ser um país europeu. Os britânicos optaram legitimamente por abandonar uma instituição central na vida política europeia, deixar o maior mercado único do mundo, mas não podem deixar de ser um país europeu, profundamente ligado pela sua história, pela sua cultura, pela sua religião, pela sua economia, pela sua segurança ao resto do continente europeu.

Bruno Cardoso Reis é historiador e especialista em segurança e estratégia. É comentador regular de política europeia no Café Europa da Rádio Observador e de política global no twitter, em @bcreis37. Viveu alguns anos na Grã-Bretanha onde fez o seu mestrado na Universidade Cambridge e o doutoramento no King’s College de Londres.

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