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A guerra colombiana é uma eterna dor de crescimento e nunca a tínhamos visto assim /premium

“Monos”, estreado nas plataformas digitais, é um filme sobre conflitos e sobre a adolescência num país que teima em outra contra si próprio. Entrevistámos o realizador, Alejandro Landes.

A afirmação pode soar a exagero, dê-lhe um pouco de atenção: “Monos” é um grande filme de guerra, um dos melhores dos últimos anos. A longa-metragem de Alejandro Landes segue um grupo de guerrilha composto por adolescentes num cenário sem nome ou tempo, com um inimigo desconhecido e sem uma causa concreta. No jogo do bom/mau, o espectador não sabe que lado está a ver. Ao longo do filme a questão surge na cabeça do espectador: isso importa?

Talvez não importe no contexto da guerra atual. É sobre isso que Alejandro Landes quer falar, inspirado pelo Guerra Civil do seu país – a Colômbia – e com uma vontade tremenda de mudar a consciência do espectador em relação aos filmes de guerra: precisam-se de filmes que falem sobre o presente, o que se passa, com uma linguagem contemporânea. “Monos” é um filme de guerra mas também é um filme sobre o “coming of age”. Os adolescentes conhecem o seu lugar enquanto soldados e é nessa função que vão conhecendo o seu corpo e a verter as suas mentalidades.

“Monos” era para ter sido estreado nas salas de cinema mas dada a situação atual foi diretamente para a plataforma de streaming Film In e para os videoclubes da Meo, NOS, Nowo e Vodafone. Faz parte de um plano da Bold, a distribuidora, em fazer chegar os seus filmes aos espectadores durante o período de isolamento. Nas próximas semanas serão estreados “Salve Satanás?”, de Penny Lane, “Rainha de Copas”, de May el-Toukhy, “100% Camurça”, de Quentin Dupieux”, “Liberdade”, de Kirill Mikhanovsky, e “Ema”, de Pablo Larraín.

Ao telefone com Alejandro Landes, as suas ambições para “Monos” ficam mais claras, bem como as suas referências. Cinema, fotografia e literatura influenciaram o realizador colombiano para criar uma visão fresca sobre a forma como a guerra é representada no cinema.

[o trailer de “Monos”:]

“Monos” desenvolve-se num cenário incomum, sem grandes referências espaciais e temporais, e com personagens atípicas. Fala do “coming of age” de maneira rara. O que o levou a criar uma obra com estas características?
A adolescência é um momento muito contraditório nas nossas vidas. Queremos pertencer a algo, mas queremos estar sozinhos. Criar uma individualidade, mas também pertencer a um grupo. O corpo está a mudar consistente e isso fez-me pensar no momento que a Colômbia estava a passar. A minha geração não teve uma oportunidade para a paz e nunca vi um filme que abordasse as razões humanas por detrás do conflito, são sempre históricas ou políticas. Senti que havia algo ali. Senti que este processo de paz iria chegar, senti isso enquanto estava a escrever “Monos”. Achei importante fazer uma alegoria sobre a Colômbia, que é um país que viveu em guerra durante tanto tempo. Mas não queria que fosse algo sobre a guerra na Colômbia, mas o que essa guerra pode dizer sobre nós, enquanto espécie, num mundo. A ideia surgiu de um sítio muito específico, mas muitas vezes quando vamos ao coração daquilo que é específico, percebemos algo que não é só local, mas que quebra fronteiras.

A violência tem um papel ativo. É difícil encontrar alguma esperança. Interessou-lhe mostrar a violência?
Não, não. Penso que há esperança em reconhecer que não é preto ou branco. Não há uma concepção binária em “Monos”, não há paraíso ou inferno, não há rapaz ou rapariga, não há passado ou futuro, não há direita nem esquerda. É a rejeição de todas as noções binárias. Há momentos em que conectamos com a adolescência e há um desejo, por vezes, de divertimento, amor, toque… há algo lá que pode criar uma ligação. Mas acho que há muita esperança nas questões que “Monos” levanta. Não procura piedade na piedade, mas sim em decisões. Por exemplo, a de Rambo em decidir abandonar o grupo, é uma decisão de esperança. Mesmo que depois fique nas mãos de outro grupo e tenha de participar noutras decisões. Penso que ver o filme apenas como pura violência, ou pura miséria, não é correto. Para mim, “Monos” tenta explorar os tons de cinzento, num mundo em que toda a gente quer que as coisas seja pretas ou brancas.

Enquanto via “Monos”, nunca vi os adolescentes enquanto pessoas, mas enquanto funções. Eu sei que os mostra a ter relações, mas isso faz parte de serem soldados. Mencionou que não há binários, que não há rapazes ou raparigas. Em alguns momentos tive dificuldade em distinguir o género das personagens, mesmo quando já as conhecia bem. Foi algo intencional, essa confusão?
Foi menos um esforço para criar confusão e, sim parte, do processo de casting, porque quando estávamos a olhar para mais de oitocentos miúdos, jovens de toda a Colômbia, ao olhar para as gravações, comecei a ficar cego em relação a essas coisas. Por vezes, ficava a achar que um rapaz era uma rapariga ou uma rapariga um rapaz, depois quando via a pessoa à minha frente, apercebia-me que estava errado. Queremos sempre saber quem são as pessoas. Por exemplo, quando preenchem formulários: qual é o teu trabalho, de onde vens, és rapaz ou rapariga? E percebo o desejo de termos em mãos esses factos concretos, mas muitas vezes não se vê o que está para lá disso. Não foi um desejo estilístico de criar confusão, mas queria colocar o espectador numa posição em que vê além do preconceito. O que o filme mostra é uma guerra que não explica o que é ganhar, ninguém percebe de que lado está. É uma luta pela esquerda ou pela direita? E a proposta é retiraressa informação, que normalmente está em qualquer filme de guerra, para se relacionar exclusivamente com a história humana. Não só os adolescentes, mas também a doutora.

"Continuamos a olhar para a guerra de uma forma muito romântica, em que é claro quem é o mau, o bom, a razão por que estão a lutar. Mas na guerra atual, não existe uma frente de guerra. Acontece tudo mais atrás, as alianças estão constantemente a mudar e os jovens que vão para a guerra, que pensam que sabem pelo que estão a lutar, chegam e ficam sem qualquer ideia."

Que é uma personagem que mostra uma transformação mais visível, adulta.
Há pouco falávamos de violência. Penso que a violência é muitas vezes usada como um espectáculo quando não existem mais vertentes a serem exploradas. No caso da doutora, ela começa como uma vítima clássica de um filme de rapto, mas a dado momento isso muda e a vítima torna-se agressor. Quando se vê o efeito da violência, não só na vítima, mas também no agressor, torna-se muito mais interessante. Vemos muito filmes em que o agressor só faz isso e nem sequer soluça nesse ato. Aqui não. Vemos o peso da violência.

O Alejandro força uma perspectiva no espectador. Também é interessante a ausência de referências a espaço e tempo.
E eu percebo como isso perturba o espectador. O mesmo acontece com o ponto de vista. Tinha a ideia de “Monos” ter um ponto de vista muito vasto. De certa forma, evolui, move-se, sem haver um herói clássico. Não há um tempo exato ou local, e isso é perturbador. Porque são elementos que normalmente nos dão certezas. Entramos numa situação em que as expectativas são muito altas, mas não temos os factos a que habitualmente nos agarramos.

Foi complicado criar um cenário sem essas referências? Como não há bom nem mau, é complicado perceber contra o que é que eles estão a lutar.
Foi difícil porque o filme segue esta ideia: por vezes é muito real, mas por vezes é fantasia. E essa linha invisível cria alguma instabilidade. Construímos assim porque as ideias nascem de coisas reais, como os grupos rebeldes colombianos, movimentos rastafari dos 1960s, olhámos para a Síria, Afeganistão, olhámos para o exército russo quando invadiu a Crimeia sem uma bandeira. Olhámos para todos os tipos de guerra não-convencional, como lhe chamam atualmente. Acho muito relevante filmar a guerra assim, porque continuamos a olhar para a guerra de uma forma muito romântica, inspirada nas Guerras Mundiais. Nessas guerras é claro quem é o mau, o bom, a razão por que estão a lutar. E as linhas da batalha estão desenhadas na areia. Mas na guerra atual, não existe uma frente de guerra. Acontece tudo mais atrás, as alianças estão constantemente a mudar e os jovens que vão para a guerra, que pensam que sabem pelo que estão a lutar, chegam e ficam sem qualquer ideia. Não é claro. Porque a ideologia não é clara e as alianças estão sempre a mudar. Por isso, penso que é mais relevante falar sobre guerra com a perspectiva de “Monos” do que algo como “1917”, porque esse tipo de guerra já não existe: é uma ideia romântica de guerra e continuamos a voltar isso, e adoramos esses filmes, porque ordenaram-nos o mund. E compreendo isso, queremos ordem no mundo. Mas penso que isso não é excitante. Por isso é que um filme como “Monos” fala mais para um miúdo de 18 anos do Kentucky, que acaba de chegar do nada ao Afeganistão, que pensa que vai lutar por uma causa, que pensa que o seu amigo é um tipo e o inimigo é outro e tudo isso muda num espaço de poucos meses.

O realizador Alejandro Landes

Eles também não parecem saber contra quem ou o quê estão a lutar. Queria essa confusão nas suas personagens?
Os historiadores, os políticos, que estão à distância, podem ter o luxo de saber a verdade. Mas atualmente, quando os pés estão no campo de batalha, é muito mais complexo, ao vivo é tudo muito diferente. Não é um ambiente cheio de acção, há muito tempo sem nada para fazer. E, muitas vezes, o maior inimigo do soldado é ele próprio. “Monos” não cria um antagonista porque o antagonista está no espelho. Muita gente disse-me que eu não poderia fazer um filme de guerra sem explicar as razões estruturais da guerra. Muitas vezes criamos essas razões porque isso nos faz sentir melhor em relação ao conflito, ao invés de olharmos para nós, enquanto espécie, e dizer: a guerra faz parte de nós, está sempre presente. E é melhor encará-la de frente, do que paralelizar para uma discussão mais académica ou estruturada. Senão, mais vale continuar a fazer filmes da Segunda Guerra Mundial, onde os regimes fascistas lutam contra as sociedades democratas, com a bandeira norte-americana contra a suástica. Não acho que isso fale do mundo atual. Nem do tipo de conflito atual.

O tema da guerra já o interessava antes de “Monos”?
Venho de um país que esteve 60 anos em guerra civil. Além da cocaína, isso é o que muita gente sabe da Colômbia. Foi algo que vivi e vi. A minha família é de Medellín, muitos deles tiveram de abandonar a Colômbia por causa da Guerra Civil. Sentia-me à-vontade para falar disso, uma realidade que o meu país viveu, que eu vivi com alguma proximidade: alguns membros da minha família chegaram a ser raptados. A minha família, como muitas outras, sentiram os efeitos desta guerra. Mas queria dizer algo não só sobre a Colômbia, mas também sobre o mundo e sobre nós, enquanto espécie. Ao pensar em algo que afetou a minha família, quis ligar isso ao mundo. Atualmente, não existem conflitos locais. Digo isto porque algumas pessoas dizem que há uma cena que é uma referência ao “Apocalipse Now”. E eu nem sequer estava a pensar nisso. Então, porque é que as pessoas pensaram nisso? Depois percebi, as guerrilhas vietnamitas, que se saíram tão bem, eles foram contratados mais tarde pelos rebeldes colombianos para virem para cá como consultores e ensiná-los como lutar na selva. Ou seja, tinha essas ideias de guerra em mim, muito antes de existir o Google para poder procurar por elas. O mensageiro, que é um guerrilha verdadeiro, foi um estudante de guerra. Ele disse-me que estes tipos de guerrilha não-convencionais andam sempre a trocar ideias entre eles. A guerra é algo que quebra fronteiras.

"Os filmes de guerra habituais são feitos pelos poderes imperialistas, pelos Estados Unidos ou a União Soviética, França ou Inglaterra. Este é um filme colombiano, que nasceu do conflito na Colômbia, que está a dizer algo maior."

Mencionou “Apocalipse Now”. Quando o filme passa para a selva, lembrei-me de Werner Herzog, pela forma como filma a selva. Foi uma referência ou é só uma coincidência?
Gosto muito do Werner Herzog. Não estava a pensar no seu trabalho quando estava a trabalhar em “Monos”. Há uma grande diferença, as minhas personagens “não se estão a dirigir para sul”. Não estão a ir para uma terra que não lhes pertence, as minhas personagens são desta terra. Eles não estão a admirar a paisagem, como no “Aguirre”, não são um homem europeu numa terra estranha. Não são… o Kurtz no Congo. Não são o Martin Sheen… uma grande diferença aqui é que as referências que mencionei são de pessoas do Primeiro Mundo a explorarem o “sul”. O meu ponto de vista é originalmente do “sul”. Os filmes de guerra habituais são feitos pelos poderes imperialistas, pelos Estados Unidos ou a União Soviética, França ou Inglaterra. Este é um filme colombiano, que nasceu do conflito na Colômbia, que está a dizer algo maior. Penso que o ponto de vista é totalmente diferente. Cresci a ver filmes do Werner Herzog. Mas para ser mais específico, um filme que me influenciou foi o “Vem e Vê”. Também vi o “Beau Travail”, da Claire Denis, o “Gummo”, do Harmony Korine, os trabalhos iniciais da Nan Goldin e do Bill Henson. Ou livros como o “O Coração das Trevas”, do Joseph Conrad, que li quando tinha 13, 14 anos. O filme tem um flirt com esses géneros e com esses cânones na sociedade. Aliás, a imagem da cabeça de porco num pau é tanto uma homenagem ao “O Deus das Moscas” como uma apropriação de uma imagem que hoje se tornou totalmente banal, porque está na capa de um livro que milhões de miúdos no mundo leem quando têm 12 ou 13 anos. É quase como uma imagem pop, como a lata de sopa da Campbell do Andy Warhol. Está em todo o lado. O filme dialoga com todas essas coisas.

Quando pensei no Herzog, pensei na forma como filma a selva enquanto personagem. Torna-se muito presente.
A paisagem deve ser sempre uma manifestação exterior do que vai no interior das personagens. Na montanha, o grupo tem uma ideia clara sobre quem são e onde estão no universo. Parecem pequenos, porque sabem onde estão. Quando vão para a selva, a perspetiva e a noção da escala começa a ficar perdida, o grupo começa a fragmentar-se e a tua noção do universo perde-se, assim que o Big Foot assume o poder e cria uma nova organização. Há algo de escala, perspetiva e dimensão. É mais fácil sabermos quem somos à frente da imensidão do universo, quando estamos no topo da montanha, do que quando estamos perdido na selva e perdemos perspetiva.

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Já conhecia o trabalho da Mica Levi, autora da banda sonora?
Já conhecia mas não a conhecia. Ela viu uma versão inacabada do filme e no dia seguinte disse que sim, que queria fazer a banda-sonora. Ficou convencida com o espírito do filme, as cores, a história. Foi uma colaboração rápida, disse-lhe que queria algo minimal, mas ao mesmo tempo monumental. Não faria sentido ter 8 pessoas no meio do nada e ter o som de uma orquestra. Acordámos que nenhum som precisaria mais do que 6 pessoas para o fazer. Além disso, a justaposição entre coisas do presente e do passado, por exemplo, sons digitais de um sintetizador com sons elementares, como o de soprar para uma garrafa. Há notas musicais para certas personagens. Há muitos protagonistas, então queres dar-lhes carne e osso, por isso algumas personagens têm sons. Mas o que é interessante é que o filme só tem 22 minutos de música, é um filme com muito pouca música, mas a música cria algo com muita força. Por isso é que o som tem algo de simples e monumental. Vai com o espírito do filme.

Vê a situação na Colômbia a mudar?
Sim. Sinto que há uma nova geração, há um desejo de perdoar. Não esquecer, mas perdoar. No fim do filme, quando o Rambo está no helicóptero, há uma questão que é lançada. E penso que essa questão ainda está para ser respondida. Mas há uma nova geração, a minha geração, que quer responder a essa questão e assumir a responsabilidade. O filme para mim não é o denunciar algo, mas gerar uma questão que não nos podemos dar ao luxo de esquecer. Se esquecermos ou não respondermos à questão: o que é que vamos fazer com Rambo e o que Rambo vai fazer connosco? Se nos esquecermos de responder, as coisas podem correr mal, outra vez, muito rapidamente.

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