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Coordenador da PJ diz que, noutra altura, já houve "homicídios deste género, mas não com tanta frequência como agora"

Getty Images/iStockphoto

Coordenador da PJ diz que, noutra altura, já houve "homicídios deste género, mas não com tanta frequência como agora"

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A pandemia não trouxe só mais crimes de sangue. Também ficaram mais violentos /premium

Homicídios e tentativas subiram 30%. Especialistas dizem que a pandemia não justifica o instinto criminal, mas acreditam que possa ter trazido maior "crueldade": "Tem havido situações muito mórbidas".

A lista começa a contar-se em março e foi crescendo a um ritmo maior que o do ano passado, mas os especialistas olham mais para os contornos de cada homicídio do que para o número. O que percebem é que são cada vez mais violentos e mais cruéis. E se é verdade que essa tendência vem já dos últimos anos, alguns admitem que possa ter-se agravado ainda mais durante a pandemia.

No dia 12, três inspetores do SEF terão agredido um cidadão ucraniano até à morte, no aeroporto de Lisboa. Na semana seguinte, duas jovens de 19 e 23 anos terão sequestrado e torturado, na sua própria casa, um amigo que se encontrava em teletrabalho. O corpo terá sido desmembrado depois, já na casa das agressoras, antes de ser abandonado em vários locais no Algarve. E também entre 20 e 25 de março, em Oeiras, um homem de 28 anos terá sido esfaqueado por outros quatro que o acusavam de ter roubado uma laranja.

Já em abril, sobrinho e tio envolveram-se numa discussão — estariam ambos alcoolizados. De nacionalidade romena, o jovem de 22 anos teria chegado a Portugal recentemente e, escreve o CM, mudou-se para a casa do tio que terá acabado por matar nessa noite. E a 13 de abril, em Oeiras, um homem de 40 anos pediu a um amigo que, a troco de dinheiro, o ajudasse a matar a própria mãe. O objetivo? Ficar com a sua herança, para sustentar o vício da droga e do jogo.

No mês seguinte, um crime que chocou o país: uma menina de nove anos terá sido morta pelo pai, em co-autoria com a madrasta, num contexto de agressões que os próprios admitiram e que terão provocado a sua morte. O corpo de Valentina foi deixado num eucaliptal, na zona de Peniche. Semanas depois, a 22 de maio, um jovem de 25 anos matou e escondeu o corpo da uma colega de curso, de 23 anos. O rapaz disse à polícia que tinha deixado o cadáver junto ao rio Tejo, onde acabou por ser encontrado.

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Valentina tinha apenas nove anos. Foi dada como desaparecida pelo próprio pai e alegado autor da sua morte

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A lista de homicídios ocorridos nos meses de confinamento é garantidamente maior. Só em março e abril, a Polícia Judiciária (PJ) registou 71 homicídios consumados e na forma tentada — quando, nos mesmos meses do ano passado, o valor situava-se nos 53. Há, por isso, um aumento de mais de 30%. O número será certamente maior quando se juntarem a ele os homicídios de maio, que ainda estão a ser contabilizados. No entanto, só pelos comunicados emitidos pela PJ, é possível detetar pelos menos mais de uma dezena de homicídios consumados e na forma tentada, só nesse mês.

É um aumento claro para alguém que, como o coordenador da PJ Pedro Maia, trabalha na secção de homicídios há quase duas décadas. “Neste período, houve um ligeiro aumento de ocorrências, não só de homicídios, mas de ofensas à integridade física grave. Tem havido situações muito mórbidas. Noutras alturas houve homicídios deste género, mas não com tanta frequência como agora”, admite em conversa com o Observador, explicando que é algo, aliás, que tem vindo a notar nos “últimos anos”: “Tem havido um crescendo deste tipo de crimes, cada vez com maior desapego pelas relações que existem entre os homicidas e as vítimas”. Os homicídios têm sido mais “brutais”, mais “disruptivos” e com “contornos quase bizarros” que “vão para além do habitual”, descreve outra fonte policial ao Observador.

"Neste período, houve um ligeiro aumento de ocorrências, não só de homicídios, mas de ofensas à integridade física grave. Tem havido situações muito mórbidas"
Pedro Maia, coordenador da PJ na secção de homicídios

Não querendo estabelecer uma relação entre este aumento e a pandemia, Pedro Maia admite que “pode ser resultante de um certo exacerbar dos confrontos entre as pessoas”.  A população está confinada em casa com a família, de uma forma como nunca esteve, muitos perderam os empregos e todos têm receio de não voltar a ter a vida de que todos gostavam. Daí que o confinamento possa ter tornado as pessoas mais desesperadas e a ter comportamentos que, se calhar, num contexto de normalidade não teriam. “Agora, é muito mais fácil criar objetos aversivos de estimação e criar raivazinhas”, explica o especialista em psicologia forense, Carlos Poiares.

A haver essa relação entre a pandemia e o aumento dos homicídios, não será novidade. Aconteceu em Brumadinho, no Brasil, em janeiro de 2019. Na sequência do rompimento da barragem que matou quase 300 pessoas, foi registado um “conjunto de homicídios, que não tiveram nada a ver com o desastre, mas que tiveram a ver com o caos que se instalou”, explica ao Observador fonte policial, acrescentando: “[O rompimento da barragem] gerou um conjunto de alguma criminalidade lateral por causa do sentimento generalizado de desespero e de perda”. Pessoas que perderam tudo — a casa, a mulher, os filhos — sentiram que já não tinham nada a perder.

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“Agora, é muito mais fácil criar objetos aversivos de estimação e criar raivazinhas”

É um facto: “Estamos todos desconfortáveis, estamos chateados, estamos preocupados, estamos assustados”, diz ao Observador Carlos Poiares. E é por isso que o especialista em psicologia forense defende que o confinamento e o stress causado pela pandemia estão “subjacentes”, não propriamente a um aumento da criminalidade violenta, mas “a um requinte e a uma crueldade que pode aparecer mais agora“. Isto porque, diz, as pessoas passam “a agir mais impulsivamente sem medir as consequências do seus atos”. “Agora, é muito mais fácil criar objetos aversivos de estimação e criar raivazinhas”, aponta.

A Polícia Judiciária registou no mês de março e abril 71 homicídios consumados e na forma tentada

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É como se a pandemia tivesse tirado o travão da auto-censura. Vítor Silva, presidente da Associação Portuguesa de Criminologia, dá um exemplo: “Se passamos na rua e vemos um Ferrari com a chave na ignição, sabemos que não podemos dar uma volta com ele e, se calhar, até avisamos o dono que se esqueceu da chave”. Mas, por vezes, “os instintos que nascem connosco acabam muitas vezes por ter mais força do que a nossa identidade e por se sobreporem um bocadinho a toda a aprendizagem”, explica ao Observador. Esta “alteração radical” faz com que haja uma “perda de valores e um retrocesso naquilo que conseguimos assimilar durante toda a nossa vida”, acrescenta. Na mesma linha, Carlos Poiares defende que, em situações de catástrofe, “há tendências para poder perder a censura” e para “a população perder as referências e os valores simbólicos”.

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De repente, por causa da pandemia, “somos obrigados a estar fechados num espaço com uma convivialidade forçada”, começa por explicar o especialista em psicologia forense Carlos Poiares. “Todos perdemos o hábito de estar o dia inteiro com a mulher, marido, filhos. Agora, as nossas rotinas mudaram e a embirração com os presentes aumenta. A conflitualidade reforça-se pela proximidade“, diz, dando um exemplo: “Se eu não estiver com o meu vizinho que odeio, nunca o vejo porque volto à tarde, ele volta a noite, enfim… Agora, se passo a vida a tropeçar nele, às tantas aquilo pode gerar conflito”. Mas alerta: “Esse conflito já lá estava. Estava era em estado latente”.

"Todos perdemos o hábito de estar o dia inteiro com a mulher, marido, filhos. Agora, as nossas rotinas mudaram e a embirração com os presentes aumenta. A conflitualidade reforça-se pela proximidade"
Carlos Poiares, especialista em psicologia forense

Carlos Poiares vê no caso da Valentina um “padrão que já encontrámos várias vezes nas últimas décadas”, dando o exemplo do caso que ficou conhecido como o homicídio do Seixal, quando um homem matou a sogra e a filha e depois se suicidou a seguir. “É um padrão recorrente de homicídios que aparecem no campo da disputa pelas responsabilidades parentais e são consequência de situações de rutura de conjugalidade que não ficam bem feitas”. Ainda assim, o homicídio da menina de nove anos ocorreu no contexto diferente: a menina tinha ido para casa do pai e da madrasta passar este período de pandemia uma vez que a mãe teria de continuar a trabalhar e não tinha onde deixar a filha.

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“O instinto criminal não aparece só porque houve uma pandemia, poderá é ser reforçado”

Tal como o caso de Valentina, Carlos Poiares também defende o mesmo em relação a um homicídio que aconteceu no dia 13 de abril, em Oeiras: “Não digo que não acontecesse se não houvesse pandemia. O instinto criminal não aparece só porque houve uma pandemia, poderá é ser reforçado”. Um homem de 40 anos pediu ajuda a um amigo, a troco de dinheiro, para matar a mãe de 64. A dupla terá atraído a vítima para uma casa que habitava ocasionalmente — estava agora a viver com o seu namorado — e cometido o crime de seguida com uma arma branca. O filho terá depois simulado um assalto e ligado para as autoridades a pedir ajuda, disse ao Observador fonte da PJ. Mas acabaria por ser detido — ele e o alegado coautor do crime — poucos dias depois.

Segundo o que a PJ revelou, o homem tinha problemas de jogo e droga e, de acordo com a investigação, o seu objetivo era matar a mãe para ficar com a herança. Para Vítor Silva, “o confinamento pode ter agravado a situação” dos vícios, que estão na origem destes crimes. “Temos de perceber os comportamentos que o agressor tinha anteriormente [à pandemia]”, diz. Carlos Poiares alerta ainda para outra situação: o aumento do consumo de álcool durante a pandemia pode fazer com que as situações mais facilmente se descontrolem.

Para o presidente da Associação Portuguesa de Criminalidade, "o confinamento pode ter agravado a situação" dos vícios

Getty Images/iStockphoto

Já o caso do Cacém, em que uma discussão por causa de uma laranja acabou com um homicídio, também pode traduzir os efeitos da pandemia. “As pessoas começam a ficar impacientes, estão muito tempo isoladas e depois saem para contextos com outras pessoas e tornam-se mais conflituosas“, diz ao Observador Pedro Maia. “Se tivermos um animal fechado e abrimos a porta, o cão pode estar extremamente ensinado, mas a primeira reação que tem é correr sem fim — depois de descansar, até volta para trás e volta para o dono. O ser humano também é um animal: tem um instinto. Com essas alterações, o nosso comportamento sofreu alterações radicais”, explica Vítor Silva, presidente da Associação Portuguesa de Criminologia.

Carlos Poiares remata com uma conclusão: “Este confinamento e o medo são suscetíveis de abalar a saúde mental dos portugueses”. E espera que “da mesma maneira que os meios para responder à pandemia do ponto vista de saúde física surgiram” apareçam “meios de resposta à saúde mental”.

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