João Ferreira tem a estratégia bem clara: é preciso mostrar a diferença entre uma eventual presidência sua e a de Marcelo. Para isso há dois caminhos, num deles as críticas constantes ao Presidente da República, no outro a Constituição da República Portuguesa quase sabida de cor. E na ponta da língua, a qualquer momento. Com uma campanha que já sofreu alterações em antecipação das medidas mais restritas que se preveem, já bem no final da noite chegava a informação que Marcelo Rebelo de Sousa está infetado. Alterações? Para já nenhuma, afinal só a agenda de terça-feira está fechada. Inclui uma ação de manhã em Lisboa, outra em Almada e a participação por videoconferência na reunião do Infarmed.

João Ferreira decidiu transformar o segundo dia de campanha eleitoral numa autêntica revisão de obras poéticas. Começou a manhã com Fernando Pessoa, visitou Maria Velho Costa e terminou em Manuel Gusmão mostrando que para todos os momentos há espaço para a poesia. Começou o dia “em casa”, no distrito de Setúbal para demonstrar a preocupação com o litoral alentejano e com a necessária “descentralização”. A máquina bem montada, de caras conhecidas, compôs o auditório António Chainho em Santiago do Cacém e deu espaço ao candidato para afirmar que “falta cumprir Portugal”.

Na iniciativa da tarde mais pistas sobre como está pensada a campanha de João Ferreira. Conta com a ajuda da máquina do PCP, que permite gerir o número de pessoas nas iniciativas, qual o objetivo e em que sentido serão as intervenções. Das pessoas que tomaram da palavra durante a sessão com os dirigentes sindicais, por exemplo, várias estiveram presentes no Congresso do PCP em novembro para intervir sobre os mesmos temas. O objetivo era explicar aos portugueses que o candidato não despertou agora para as questões laborais (e aproveitar criticas nesse sentido para colher louros).

João Ferreira aproveitou para responder aos críticos que dizem que o candidato repete a “cassete das leis laborais”. Para o comunista essa observação não é nada mais nada menos que “um elogio”. “É uma acusação que muito me orgulha, são medalhas que esta candidatura carrega“, disse claramente. Depois de colocar as medalhas ao peito foi hora de ouvir rasgados elogios de agentes do setor da cultura. Ouviu-se na Padaria do Povo, em Campo de Ourique, que João Ferreira “já deixou património político inquestionável” e muito se agradeceu pelo papel que o PCP tem tido na área da cultura.

Mas como nem tudo é fácil: no final da noite a notícia da infeção de Marcelo colocou em cima da mesa a hipótese da suspensão total das ações de campanha. Com “tranquilidade”, João Ferreira disse que ficará a aguardar indicações das autoridades de saúde antes de acrescentar alterações à já de si diferente caravana desta campanha.

Quem é quem sem grandes segredos

Todos conhecem o jogo do “Quem é quem”. Esta segunda-feira o esforço foi pouco mais além da máscara colocada na face já que todos eram conhecidos de Manuel Valente.  Membro do Comité Central do PCP, Manuel Valente teve na manhã desta segunda-feira a tarefa de coordenar os trabalhos na sessão de esclarecimento em Santiago do Cacém e não fez qualquer esforço para esconder o facto de que todos os presentes na sala faziam parte do partido. Quando chegou ao momento das questões Manuel Valente identificou um a um os membros da assembleia que pediram da palavra para questionar João Ferreira. Pelo meio ainda deixou escapar que “não falhou nenhum”, mesmo que “com a máscara seja mais difícil”. Também não seria tarefa difícil, entre rostos conhecidos do partido: José Caldeira intervém regularmente nas ações do PCP no Alentejo e Margarida Santos já foi candidata à Câmara Municipal de Santiago do Cacém, por exemplo.

Marcelo Rebelo de Sousa

Não que seja novidade, mas não pode haver nenhum português com dúvidas em relação ao que separa um eventual mandato de João Ferreira e os últimos cinco anos de Marcelo na Presidência. Para tal, João Ferreira aproveita todas as ações para elencar um rol de vetos ou promulgações de leis sem enviar para o Tribunal Constitucional e dizer claramente que tomaria a opção contrária à de Marcelo. Com as leis laborais à cabeça, as falhas no “cumprimento da Constituição” são várias e João Ferreira não fez gala de as apontar. “Se o juramento da Constituição tivesse sido levado a sério no passado a situação seria outra, para melhor. Tem de ser levado a sério, é por isso que aqui estamos nesta candidatura, para formular exercício alternativo dos poderes do Presidente da República que está verdadeiramente alinhado com o juramento que é feito. Disposição firme de a cumprir e a fazer cumprir, disso se distingue do atual Presidente da República”, clarificou João Ferreira.