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A primeira semana de campanha do CDS teve (um bocadinho de) Europa. Agora, é só atacar o Governo /premium

Uma semana de estrada e muitas críticas ao mau aproveitamento do dinheiro de Bruxelas (Europa, check). CDS quer os votos todos da direita e Cristas mantém-se por perto para chutar para as legislativas

Uma campanha em duas frentes. Numa altura em que as caravanas entram no sprint final porque falta apenas uma semana para as eleições europeias, a caravana centrista mantém bem presente a ideia de que o relógio com a contagem decrescente para as legislativas também não pára de rodar. Assunção Cristas esteve presente em praticamente todos os dias da primeira semana de campanha (só faltou no arranque, segunda-feira, e este sábado, dia a meio gás por causa do Benfica) e isso não é por acaso. É com a presença da líder que o CDS melhor consegue chamar à atenção para o voto no partido — independentemente de que eleições estejamos a falar.

Foi no mercado de Olhão que Cristas começou a assumir a viva voz uma ideia que depois foi repetindo: “Se a Europa for demasiado longe e o Parlamento Europeu demasiado grande, então que votem pelas razões nacionais”. Este domingo, no Marco de Canaveses e em Aveiro, viria a concretizar ainda melhor a ideia. Foi aí que pediu um “fortíssimo cartão vermelho” ao Governo de António Costa, justificando que foi o próprio Costa que desde o primeiro dia fez destas eleições europeias uma primeira volta das legislativas. Que assim seja: se Costa pede uma moção de confiança, o CDS vai passar o resto dos dias que faltam até às eleições a pedir uma moção de censura.

Os argumentos são os do costume: carga fiscal máxima, investimento mínimo, serviços públicos degradados e fundos comunitários desaproveitados. Ah, e Sócrates (este argumento fica para Nuno Melo): cinco membros da lista do PS às europeias são ex-governantes de Sócrates. E falar da bancarrota de José Sócrates “não é falar de passado”, é falar de “presente” e é “penoso”, como disse a páginas tantas o candidato.

A ideia era tratar um tema por dia. E, genericamente, foi assim mesmo. Sem se distrair ou dispersar em ataques paralelos às restantes candidaturas, o CDS começou a falar do interior esquecido, da falta de acessibilidades, passou demoradamente pelo tema das falhas do Estado no caso dos incêndios, focando-se sobretudo na reconstrução das casas que foi prometida e não foi cumprida, e terminou a falar de agricultura e de políticas sociais para a família. Em comum a todos os temas: os fundos comunitários, que podiam ser melhor aproveitados pelo Governo, mas que o Governo desperdiça.

Houve, contudo, um tema que surgiu à margem do plano e que acabou por dominar a semana: o caso “Berardo”. Nuno Melo foi particularmente aguçado no ataque à “delinquência bancária” e até incorreu em algumas imprecisões (ou fake news, que tanto abomina). Primeiro, disse no calor da noite que o bloquista Francisco Louçã tinha ido para consultor do Banco de Portugal (correto) e para a administração da Caixa Geral de Depósitos (mentira). Depois, disse que o decreto-lei que criava a fundação através da qual Joe Berardo tinha contraído um empréstimo de 350 milhões de euros com a Caixa tinha sido assinado em 2006 por, entre outros, António Costa enquanto ministro da Administração Interna. Incorreto. Na verdade, Costa assinou o decreto-lei que cria a fundação Coleção Berardo, para a exibição das obras no Museu Berardo no CCB, mas não foi essa fundação que contraiu os empréstimos ao banco público, mas sim a fundação José Berardo. Uma “confusão” que Melo desfez, insistindo ainda assim no tom das críticas.

Alto. Considerando que uma campanha para eleições europeias envolve menos gente e, logo, menos imagens de “enchentes” na televisão, o CDS tem cumprido os mínimos exigidos. Arrisca tudo nos mercados, mesmo correndo o risco de ouvir comentários desagradáveis (como aconteceu no Algarve, quando um senhor acusou o CDS de ser um partido fascista), e este domingo até ensaiou uma arruada bastante composta em Aveiro (terra fértil para centristas). Não se pode dizer, por isso, que Nuno Melo esteja a jogar à defesa. Talvez a médio avançado.

Em sete dias de estrada, o CDS tem apostado sobretudo na mensagem política. Uma mensagem simples mas eficaz: é preciso votar nas europeias, caso contrário os extremismos que pulsam pela Europa vão dominar; é preciso votar em partidos democráticos e tolerantes, e, em Portugal, apesar de não haver extrema-direita há extrema-esquerda (o PCP e o BE); por isso é preciso que o CDS fique à frente daqueles dois partidos “que apoiam ditaduras” (o CDS é da direita moderada, dizem) . Com isto Nuno Melo assume, talvez de forma mais clara do que alguma vez Cristas assumiu, sem complexos e sem medos, que o CDS é um partido de direita e reivindica todo esse espaço político para si. Esta foi a grande mensagem da primeira semana de campanha: a partir daqui a mensagem já vai ser outra (virar o tabuleiro para as legislativas e pedir o chumbo ao governo de Costa).

Baixo. Nuno Melo bem tenta responder às “bocas” de Costa, quando o atingem a si. Ainda este domingo, num almoço no Marco de Canaveses, lembrou que os socialistas tinham dito que quando Nuno Melo fala de agricultura e florestas só ouvem “blablabla”. Mas o problema é que raramente as bocas dos socialistas são para si. António Costa (ou Pedro Marques) e Paulo Rangel têm passado grande parte da campanha a picar-se entre eles, deixando o CDS de fora. É a piscina dos grandes, contra a piscina dos pequenos. Uma realidade que contrasta com a mensagem que Assunção Cristas quer passar de que o CDS, não sendo a “alternância”, é a “alternativa” ao governo das “esquerdas unidas”. Com as sondagens a darem 8% para o CDS, contra os 36% e 28% do PS e PSD, a verdade é que ainda tem de pedalar muito. Mas, em todo o caso, os olhos de Cristas já estão nas legislativas e aí é só ter o maior resultado possível (e depois contar com a ajuda do PSD).

A ideia da primeira semana de campanha era apresentar uma medida por dia sobre a Europa, ou, pelo menos, dar sempre um “cheirinho” de Europa em cada dia. Ao mesmo tempo, como foi repetido vezes sem conta pelo candidato e membros da comitiva, era também “fazer uma campanha positiva” e não se limitar a dizer mal por dizer. Quando se é oposição, contudo, essa ideia de “campanha positiva” tem fragilidades. Foi o que aconteceu, por exemplo, na quinta-feira: o plano do dia do CDS foi exatamente igual ao plano cumprido dois dias antes pela campanha do PS de Pedro Marques: uma visita à Embraer, em Évora, seguida de uma visita à Herdade do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, para falar de agricultura. Ora, se Pedro Marques fez aquelas duas visitas para mostrar bons exemplos na execução dos fundos comunitários (Pedro Marques garantiu até que foram “aprovados 1800 milhões de euros para projetos para as região de baixa densidade”), o CDS fez aquelas visitas para mostrar como é possível aproveitar os fundos da Europa e para alertar para o facto de o Governo não estar a aproveitá-los a 100%.

“A Europa está em toda a parte”. Foi mais ou menos assim que Nuno Melo tratou os temas europeus na primeira semana de campanha para as europeias. “A Europa também está aqui, nesta casa ardida que não foi reconstruída”, chegou a dizer em Monchique. A ideia era mesmo essa: passar a semana a alertar para aquilo que o Governo podia estar a aproveitar com o dinheiro de Bruxelas, mas que não aproveita — “deixa na gaveta de Mário Centeno”, como disse Assunção Cristas este domingo. Além de que, como diz o slogan do CDS para estas eleições, “a Europa é aqui”.

Outro dos slogan dos centristas, que se vê nos outdoors por esse país fora, é “aproveitar bem o dinheiro da Europa”. E foi isso que a campanha de Nuno Melo fez ao longo da semana — dizer que o Governo não está a aproveitar bem esse dinheiro para impulsionar o crescimento da economia, aproveitando todos os temas e todas as ocasiões para lançar os números da fraca execução do quadro comunitário.

“Para formação profissional já se desperdiçaram 2.500 milhões de euros; nos fundos para a agricultura, a execução está na casa dos 30% a nove meses de acabar o quadro de apoio; nos fundos para o mar é baixísissima a execução, não chega aso 20%. Já para não falar da ferrovia, onde temos um enorme padrão de desinvestimento”, disse Cristas este domingo.

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Não tem faltado “povo” na campanha. A primeira semana foi passada entre mercados, feiras, algumas empresas, e, no último dia da semana (este domingo) até houve rua — no verdadeiro sentido do termo, com uma pequena arruada na Póvoa de Varzim e uma já bem maior na baixa de Aveiro. Nuno Melo cumpre na tarefa dos beijinhos e abraços, mas não tem refletido o gene de Paulo Portas que sabia exatamente onde estavam as câmaras e que pino ou cambalhota devia dar para chamar a atenção. Na foto, um dos poucos momentos espontâneos da campanha: quando um grupo de idosos de um centro social e paroquial em São Domingos de Benfica chamou o candidato para dançar. Outro momento houve, este domingo, na Póvoa, em que um grupo de jovens que jogava futebol na praia convidou o candidato para uns remates. Problema: nessa altura não havia jornalistas à volta. No photo, didn’t happen.

Depois de um domingo passado entre a Póvoa de Varzim, Marco de Canaveses e Aveiro, terminando com dormida em Setúbal (onde amanhã começa o dia), a caravana do CDS fez hoje mais 494 quilómetros.

A estes juntam-se os 2197 já percorridos desde segunda-feira, o que dá um total acumulado de 2691 quilómetros já percorridos.

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