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A República Esperantista da Ilha das Rosas tinha 400 metros quadrados de área e chegou a emitir três séries filatélicas, hoje raridades

A República Esperantista da Ilha das Rosas tinha 400 metros quadrados de área e chegou a emitir três séries filatélicas, hoje raridades

A verdadeira história da Ilha das Rosas, a micronação no meio do Adriático que atormentou Itália (e deu um filme) /premium

Em 1968, um italiano construiu uma plataforma de aço e cimento em alto mar e declarou-a um estado independente. Há um novo filme na Netflix que conta a história, mas a realidade supera a ficção.

Com um total de 400 metros quadrados de área, na República Esperantista da Ilha das Rosas podia não haver espaço para muito, mas havia noção das prioridades. Primeiro, construir um bar. Segundo, abrir um posto de correios. Terceiro, não houve tempo, mas seria um banco, para cunhar uma moeda própria equiparada à lira italiana, o mills (“moinho”).

A Ilha das Rosas chegou mesmo a emitir três séries filatélicas, hoje raridades. E se os primeiros selos, com uma plataforma elevada no Adriático, serão os mais conhecidos, os últimos são os mais premonitórios. Sobre um fundo em tons de azul, uma explosão aparatosa assinala o fim da micronação que durante meses atormentou o governo italiano, apenas para revelar, numa leitura mais atenta, uma pequena vingança em latim: “Hostium rabies diruit opus non ideam”, “A raiva dos inimigos destrói a obra não a ideia.”

Passados 51 anos, tanto da explosão como da provocação filatélica, acaba de se estrear na Netflix “A incrível história de Giorgio Rosa”. A fita realizada por Sydney Sibilia e protagonizada por Elio Germano inspira-se na história inverosímil-porém-verídica do engenheiro italiano que na década de 1960 construiu uma ilha de aço e cimento ao largo de Rimini e resolveu proclamá-la um estado independente. Romanceia datas e relacionamentos (até aqui nada de novo), contudo (e aqui é que se torna difícil de acreditar) deixa de fora muitos dos pormenores mais extraordinários desta aventura visionária.

[o trailer de “A Incrível História de Giorgio Rosa”:]

Se há ideia repetida ao longo do filme é que Giorgio Rosa, que morreu em 2017, com 92 anos, era um génio. E Giorgio Rosa era, de facto, um génio. Nascido em Bolonha, licenciou-se em engenharia em 1950 e poucos depois tinha o seu próprio gabinete de engenharia, dava aulas num instituto técnico, era consultor do tribunal e ainda arranjava tempo para os seus projetos. Como a ideia de construir uma ilha artificial, que começou a acarinhar em 1958 e o ocuparia nos dez anos seguintes. O seu sonho era criar uma atracção turística que aproveitasse o sucesso da Riviera Adriática, destino favorito de gente famosa e de muito dinheiro.

“O meu pai era um engenheiro, e em Itália seria suficiente descrevê-lo assim para entender o tipo de pessoa que era”, contou o filho, Lorenzo Rosa, à BBC. “Ele era uma pessoa muito precisa, muito orientada para o pormenor, e muito organizada. Um engenheiro de uma forma quase alemã. Com a exceção desta veia de loucura que o fez querer construir uma plataforma para si mesmo, e depois torná-la um estado fora de águas territoriais, o que fez dele uma espécie de rei dos anarquistas.”

Mas adiantamo-nos. Voltando atrás, Rosa começa por consultar professores da Universidade de Bolonha, onde estudara. Depois, avança com as suas próprias investigações. Logo a partir de 1960, passa a inspecionar em segredo as águas junto a Rimini, a hora e meia de carro de Bolonha. Desloca-se numa pequena embarcação em que incorporou um motor de um Fiat 500. Em Dezembro desse ano casará com a mulher que no filme tenta conquistar, mas que na vida real será sua cúmplice desde o início do projeto e até ao final da vida, Gabriela Chierici (interpretada pela mesma Matilda de Angelis de “The Undoing”). E em 1961 envolve na aventura o dono de um estaleiro de Rimini, Rinaldini, com quem passa a usar uma embarcação mais segura, “Luciano” (seguir-se-á ainda “Bruno I”, entre outros).

Em 1964, os pilares tocam no fundo do mar, a cerca de 12 quilómetros de Rimini, 500 metros para além das águas territoriais italianas. Rosa prepara-se para criar uma zona fora da alçada do governo. Mas as condições meteorológicas parecem estar contra.

O processo é moroso. O entusiasmo do engenheiro oscila. Numa altura de otimismo descreve a sua visão como “uma ilha de flores no meio do mar”. Mas a burocracia exaspera-o. É um libertário, um individualista, um homem que desconfia dos políticos e detesta depender dos outros. Em declarações ao jornal italiano La Stampa, admitirá ter votado apenas duas vezes, uma nas autárquicas de Bolonha e outra para eleger Berlusconi, voto de que se arrependeria. E assim vai amadurecendo uma outra ideia igualmente revolucionária. Consulta peritos em direito internacional. Decide.

Rosa patenteará o “Sistema de Construção de ilhas em aço e betão armado para fins industriais e civis” e fundará a SPIC, a Sociedade Experimental para Injeções de Cimento. No papel, parece tudo simples. Para erguer a plataforma só precisa de nove pilares ocos que, graças a aberturas nas duas extremidades, vão mergulhar até 40 metros de profundidade, altura em que serão preenchidos com cimento.

Em 1964, os pilares tocam no fundo do mar, a cerca de 12 quilómetros de Rimini, 500 metros para além das águas territoriais italianas. Rosa prepara-se para criar uma zona fora da alçada do governo. Mas as condições meteorológicas parecem estar contra. No Inverno seguinte as obras ainda estão por concluir e uma tempestade derruba a estrutura. Para o engenheiro é apenas um “acidente de percurso”, como se ouve no documentário disponível no YouTube “Isola delle Rose”, em que parceiros desta aventura o descrevem como um homem totalmente dedicado, mas “sempre calmo”, para quem “tudo era fácil”.

No filme, assiste-se a uma festa permanente sob a orientação do relações públicas alemão Wolfgang Neumann. E Neumann realmente existiu, sobretudo para lidar com os turistas estrangeiros

A 21 de maio de 1966, Rosa, então com 41 anos, tornar-se-á a primeira pessoa a passar uma noite na ilha, entretanto rebatizada com o seu nome. Ainda nesse ano sai o primeiro artigo sobre o empreendimento na revista “Sorrisi e Canzoni”. A ilha abre ao público em Agosto de 1967, mas por enquanto é apenas mais um destino turístico. O grande escândalo ainda está para vir.

É tudo estudado ao pormenor. A língua, a bandeira, o hino, o governo. Um grande golpe publicitário a jogar com a ambiguidade do direito internacional. A 1 de Maio de 1968, enquanto o resto da Europa lida com outro tipo de revoluções, Giorgio Rosa declara a independência da República Esperantista da Ilha das Rosas. Nem sequer fala esperanto; é uma questão simbólica. Um grupo de esperantistas liderado por um frade franciscano de Rimini ajuda-o a traduzir a declaração e também a criar todas as designações oficiais. A bandeira é triangular e laranja com três rosas vermelhas ao centro. Já para hino escolhe a primeira parte do terceiro acto de “O holandês Voador” de Richard Wagner. Quanto ao governo, é formado por seis amigos e familiares. Engenheiros, advogados, uma professora de inglês, todos sob a orientação do presidente Rosa.

Durante semanas que se tornarão meses a ilha enche as páginas dos jornais. Estava nos planos fazer crescer a estrutura até aos cinco andares, incluindo um hotel. Talvez acrescentar outras plataformas. Fazer uma espécie de San Marino marinha. A liberdade traria riqueza, acreditava o engenheiro. Mas é com a notoriedade que começam não só os problemas, mas também as diferentes versões sobre o que realmente aconteceria na Ilha das Rosas.

Rosa sempre desmentiu tudo. Queria apenas criar um Estado imune à burocracia e à política. Uma utopia libertária. Tudo o que houve na ilha foram grandes comezainas, afirmava. Tanto ele como os sócios eram profissionais de sucesso com meios para financiar a aventura.

No filme, assiste-se a uma festa permanente sob a orientação do relações públicas alemão Wolfgang Neumann. E Neumann realmente existiu, sobretudo para lidar com os turistas estrangeiros, que representavam cerca de metade dos veraneantes da zona, numa altura de libertação sexual e de costumes. Mas também aparece o jogo ilegal, promovido pelo amigo Orlandini (nome atribuído a Rinaldini). Os boatos da altura iam mais longe. Alertavam não só para a criação de um casino ilegal, mas também para interferência do leste Europeu, da União Soviética à Albânia de Hoxha, e para a criação de uma rádio. De onde teriam vindo os 100 milhões de liras (cerca de 500 mil euros, hoje) investidos na obra?

Rosa sempre desmentiu tudo. Queria apenas criar um Estado imune à burocracia e à política. Uma utopia libertária. Tudo o que houve na ilha foram grandes comezainas, afirmava. Tanto ele como os sócios eram profissionais de sucesso com meios para financiar a aventura. Quanto à “antena” da rádio, fazia parte da máquina usada para perfurar o fundo do oceano e recolher água doce, outra das suas inovações. O mais provável é que nunca se saiba quais eram as suas verdadeiras intenções. Talvez nem o próprio soubesse.

A 25 de junho, a República da Ilha das Rosas é invadida por militares. Dez embarcações atracam na estrutura, prendem o guarda e impõem um bloqueio naval. Segue-se uma batalha jurídica de meses. Rosa escreve ao Presidente Saragat mas não obtém resposta. Recorre a advogados. Decorrem inquéritos parlamentares. Fala-se em vender a ilha à Ordem de Malta. Até que em meados de fevereiro de 1969, alegando o perigo que representa a instabilidade da estrutura, as autoridades decidem rebentar com ela. Colocam 75 quilos de explosivos em cada poste. Nada. Passam para os 120 quilos por poste. Também não é suficiente. E só depois de uma violenta tempestade é que na noite de 26 de fevereiro a Ilha das Rosas vai finalmente ao fundo.

Queria apenas criar um Estado imune à burocracia e à política. Uma utopia libertária. Tudo o que houve na ilha foram grandes comezainas, afirmava

Até ao final da vida, o tema assombrará o engenheiro. Era como se tivesse perdido um filho. Em conversa com o autor do livro sobre micronações L’Atlante Delle Micronazioni Graziano Graziani, num tom descrito como áspero, dispararia em todas as direções: contra a “paramaçonaria”, os “conventículos políticos” e a “seita católica”. Reconhecer-se-ia “ingénuo”. “A minha memória mais triste”, recordaria o filho, Lorenzo Rosa, “é de quando ele recebeu a carta do governo italiano a dizer-lhe para pagar o dinheiro gasto na demolição da ilha, que na altura foram 11 milhões de liras.”

Rosa nunca viu a sua república reconhecida e os especialistas também não lhe dão razão. A lei, entretanto, seria alterada – ou clarificada, consoante as interpretações. Reconhecem, contudo, nomeadamente no livro de Graziani, que a reação do Governo foi exagerada. Também o timing causa estranheza. Fazer da demolição uma prioridade num momento de transição governamental. Recorde-se que Giovanni Leone tomou posse como primeiro-ministro a 25 de Junho de 1968, dia exato da invasão da ilha. Ao La Stampa, e em mais uma teoria conspirativa, Rosa avançaria que lhe tinham dito que a ordem tinha partido de Washington, com receio de que a ilha se tornasse uma pequena Cuba no Adriático. Graziani acrescenta que no lugar onde durante 55 dias existiu a auto-proclamada República Esperantista da Ilha das Rosas se erguem hoje duas plataformas da petrolífera italiana AGIP.

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