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A Cimeira do Clima arrancou esta segunda-feira em Madrid e dura até 13 de dezembro

China Photos/Getty Images

A Cimeira do Clima arrancou esta segunda-feira em Madrid e dura até 13 de dezembro

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Acordo de Paris à espreita e um falhanço coletivo. Pode uma cimeira evitar a "catástrofe climática"? /premium

A COP25 já começou e a ONU quer resultados. O cenário é o pior: países não cumpriram promessas e agora, mesmo que o façam, a temperatura irá aumentar garantidamente. A solução? Medidas radicais.

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Greta Thunberg está quase a entrar em solo português, depois de uma viagem de veleiro que começou a 13 de novembro, dos Estados Unidos para a Europa. A jovem ativista sueca irá atracar esta terça-feira, na Doca de Santo Amaro, em Lisboa, onde dará uma conferência de imprensa — já que não terá tempo para ir ao parlamento. Depois, segue de comboio para Madrid, mesmo a tempo da Cimeira sobre as Alterações Climáticas (COP25), que arranca esta segunda-feira em Madrid e prolonga-se até 13 de dezembro. Não é coincidência. Na verdade, Greta Thunberg já vem até com algum atraso.

Desde logo porque o plano inicial era viajar por terra até ao Chile, onde a COP25 estava inicialmente agendada. Mas a crise política e os conflitos que eclodiram neste país sul-americano levaram ao cancelamento da cimeira e a que Greta Thunberg, que já tinha feito metade da viagem, tivesse de mudar de direção e atravessar o Atlântico de veleiro. Depois, o atraso acabou por acontecer por isso mesmo: o veleiro.

É que a mudança de morada da COP25 foi anunciada há cerca de um mês — com antecedência suficiente para que a jovem ativista pudesse remarcar, por exemplo, uma viagem de avião —, mas Greta Thunberg recusa fazê-lo por causa das emissões de gases com efeito de estufa que os voos implicam. A opção foi o veleiro de Riley Whitelum e Elayna Carausu, um casal australiano que vive a viajar.

Em setembro, Greta Thunberg viajou do Reino Unido para Nova Iorque no veleiro ecológico de Pierre Casiraghi, para participar na Cimeira do Clima de Nova Iorque (JOHANNES EISELE/AFP via Getty Images)

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Apesar do atraso, a ativista sueca conseguirá chegar a tempo da COP25 — e com um saldo de emissões de carbono menos negativo do que o dos países que nela vão participar. É o tema central de uma Cimeira do Clima. No próximo ano, os países signatários do Acordo de Paris devem fazer um balanço: conseguiram eles diminuir, como prometeram, as emissões de carbono? Um relatório da ONU, cujos dados serão analisados na COP25, já veio responder a essa pergunta: o cenário, nessa matéria, é mais grave do que nunca e, mesmo que todos os países cumpram todos os compromissos que assumiram, a temperatura do planeta vai aumentar 3,2 graus. A solução? Mais medidas, mais radicais e já.

Tique, taque, tique, taque. Acordo de Paris foi há quatro anos e está na hora do balanço

Sob o olhar atento dos jovens que têm estado na origem de manifestações contra a crise climática em todo o mundo, representantes de 195 países juntam-se para traçar novas estratégias na luta contra o aquecimento global. Além de Greta Thunberg, também o secretário-geral da ONU, António Guterres, e o primeiro-ministro português, António Costa, marcam presença nesta Cimeira do Clima, que acontece anualmente e que, este ano, chega à 25ª edição.

É também a edição que acontece cerca de um mês antes de um prazo crucial para os países que assinaram o Acordo de Paris, há quatro anos: é em 2020 que as nações signatárias devem atualizar, pela primeira vez, as suas estratégias para diminuir as emissões de carbono, apresentando medidas concretas e delinear planos a longo prazo, estabelecendo novas metas.

É em 2020 que as nações signatárias devem atualizar, pela primeira vez, as suas estratégias para diminuir as emissões de carbono, apresentando medidas concretas.

O próximo ano será o mais importante, desde 2015, ao nível dos esforços climáticos. No fundo, os países devem mostrar que estão empenhados em cumprir as promessas que fizeram ao assinar o Acordo de Paris. Daí que, durante as próximas duas semanas, esse documento, assinado por quase 200 países — entre eles os EUA e a China, principais emissores de Co2, e pela União Europeia —, tenha um papel central na COP25.

Mas que acordo é este? Surgiu em dezembro de 2015, na Cimeira do Clima que, nesse ano, aconteceu em Paris, a cidade francesa que lhe deu nome. Ao assiná-lo, os países não só reconheciam “que as alterações climáticas representam uma ameaça urgente e potencialmente irreversível para as sociedades e para o planeta”, como se comprometiam a limitar o aumento da temperatura média global abaixo dos 2ºC, em relação aos níveis da época pré-industrial.

Neste sentido, parece também que nada foi por acaso. É que a COP25 acontece sensivelmente um mês depois de o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, ter anunciado que os EUA acabavam de iniciar formalmente o processo de saída do Acordo de Paris — uma das promessas feitas por Donald Trump durante a campanha presidencial de 2016. Para o presidente norte-americano, o acordo assinado pelo seu antecessor, Barack Obama, podia ter impactos negativos na economia do país.

O Acordo de Paris foi assinado na Cimeira do Clima de 2015, na capital francesa (Arnaud BOUISSOU/COP21/Anadolu Agency/Getty Images)

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Com a saída daquele que é um dos principais países emissores de gases com efeito de estufa, as consequências serão quase certas, tendo em conta que, sem os EUA a cumprirem metas, o aumento das emissões deste tipo de gases é muito provável. Ainda assim, o país de Donald Trump estará representado na COP25: governantes e autoridades estaduais, membros do Congresso e outros setores da sociedade irão reunir-se com representantes de outros países, na esperança de mostrar que uma parte da nação ainda está empenhada em reduzir as emissões de carbono.

Pouco se fez e agora as metas têm de ser cinco vezes mais ambiciosas. Ou preparem-se para a “catástrofe climática”

As pressões chegam de todo o lado — e as manifestações de jovens por todo o mundo são apenas uma parte delas. É que, na semana passada, um relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, cujos dados serão analisados na COP25, levantou o véu àquilo que está para vir nas próximas duas semanas: que os países pouco ou nada fizeram e, quatro anos depois, parece cada vez mais difícil alcançar as metas do Acordo de Paris.

Mesmo que todos os países cumpram todos os compromissos que assumiram naquele acordo, é inevitável: a temperatura do planeta vai aumentar 3,2 graus. É a grande conclusão do relatório que, partindo desta premissa, alerta para a necessidade de que as medidas a serem tomadas sejam cinco vezes mais ambiciosas do que as atuais. De forma mais concreta: as emissões de carbono devem ser reduzidas 7,6% por cada ano, entre 2020 e 2030, para se evitar a “catástrofe climática”.

De forma mais concreta: as emissões de carbono devem ser reduzidas 7,6% por cada ano, entre 2020 e 2030, para se evitar a "catástrofe climática".

O relatório revela que, na última década, ao contrário do que seria expectável, as emissões de carbono e outros gases com efeito de estufa aumentaram 1,5% a cada ano. Em 2018, atingiu-se um valor recorde histórico de 55,3 giga toneladas: mais de 13 giga toneladas foram emitidas pela China — que não está, para já, obrigada à redução das emissões de carbono em termos absolutos, por ser um país em desenvolvimento — e, em segundo lugar, ficaram os EUA, do qual provêm mais de seis giga toneladas. Se os números continuarem a seguir esta tendência, a temperatura pode subir 1,5ºC até 2030 e 3,2ºC até ao final do século.

A ONU refere que “não existem sinais” de redução das emissões de carbono para que uma diminuição da emissão dos mesmos seja possível nos próximos anos — nos valores que eram expectáveis. “Coletivamente, os países falharam em parar o aumento das emissões de gases com efeito de estufa, o que significa que agora são necessários cortes mais profundos e mais rápidos”, lê-se no relatório.

Trump sai, Austrália segue o exemplo e o Fundo Verde do Clima com défice. A luta climática custa dinheiro

Outra das conclusões do relatório foi que os países mais ricos foram os que mais falharam em diminuir as emissões de gases com efeito de estufa: 15 dos 20 países mais ricos do mundo não têm sequer um plano delineado para reduzir as emissões. Em contrapartida, foram também estes países que prometeram doar 100 mil milhões de dólares (90,23 mil milhões de euros) por ano, até 2020, para o Fundo Verde do Clima — um fundo internacional destinado a ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentar as alterações climáticas.

Nos últimos meses, vários jovens têm-se manifestado por todo o mundo contras as alterações climáticas. Portugal não foi exceção (FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Aqui, também a saída dos EUA do Acordo de Paris teve efeitos, escreve o POLITICO: a decisão de Donald Trump de deixar de contribuir, seguida da mesma decisão por parte da Austrália, originou um défice no Fundo Verde do Clima. Isto e o facto de os sete mil milhões de dólares (6,32 mil milhões de euros) recebidos até agora, nos últimos anos, terem já sido gastos a ajudar os países não desenvolvidos a combater o seu impacto ambiental.

Foi exatamente para encontrar novas soluções de refinanciamento do fundo que serviu uma reunião de dois dias, entre os países desenvolvidos que assinaram o Acordo de Paris, que decorreu nessa cidade, no final de outubro. E será, certamente, um dos temas da COP25. É que, mesmo depois de França, Reino Unido, Alemanha e outros países europeus terem anunciado a sua intenção de duplicar as suas contribuições para o Fundo Verde do Clima, a falta de dinheiro continua a ser um problema.

O combate às alterações climáticas custa dinheiro. Mais: com o agravamento destas alterações climáticas, os custos económicos para as travar também se agravam. Até porque os efeitos do aquecimento global já se começaram a sentir e são cada vez mais os pedidos de financiamento de países para responder aos danos, destruição e perdas causados pelo seu impacto. Já não se trata apenas de ser preciso dinheiro para prevenir os efeitos das alterações: começa a ser preciso para colmatar os custos dos seus efeitos.

Os efeitos do aquecimento global já se começaram a sentir e são cada vez mais os pedidos de financiamento de países para responder aos danos, destruição e perdas causados pelo seu impacto.

É por isso que, na COP25, os países em desenvolvimento irão certamente pressionar os países mais ricos para aumentarem o apoio financeiro. Até porque as negociações para um novo e mais alto valor de financiamento para o Fundo Verde do Clima devem começar no próximo ano, na sequência do Acordo de Paris.

Créditos de emissões. Ou como fugir a medidas para travar as alterações climáticas, financiando projetos sustentáveis

De todo o Acordo de Paris, há um ponto que será o foco especial da COP25, de acordo com a revista New Scientist: o ponto seis, que permite a utilização de um mercado internacional de carbono entre países, pelo qual países desenvolvidos ou entidades privadas podem ganhar créditos de emissões ao financiar projetos sustentáveis nos países em desenvolvimento. Ou seja, em vez de tomarem medidas para efetivamente diminuirem emissões de carbono, os países financiam outros países que o façam, ganhando créditos.

Um dos grandes objetivos da COP25 será garantir que as regras deste mercado internacional de carbono evitem contagens duplas: ou seja, evitar que os países compradores e vendedores registem os mesmos créditos. Note-se que um crédito corresponde à possibilidade de emitir uma tonelada de dióxido de carbono.

Outro objetivo, de acordo com o POLITICO, deverá ser garantir mais transparência na contabilização dos créditos de carbono usados pelas companhias aéreas. Em 2016, a Organização da Aviação Civil Internacional definiu uma estratégia para se regulamentarem as emissões do setor da aviação internacional, fora do Espaço Económico Europeu, através de um sistema de compensação: o regime CORSIA (Regime de Compensação e Redução das Emissões de Carbono para a Aviação Internacional), através do qual os operadores de aeronave são obrigados a compensar o aumento das suas emissões.

A Cimeira do Clima de Madrid arrancou esta segunda-feira e prolonga-se até 13 de dezembro (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

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O tema dos créditos de emissões deverá ser um dos mais polémicos na COP25. Isto porque a União Europeia e os seus aliados querem impedir que este sistema permita que os países usem créditos de emissão anteriores ao Protocolo de Quioto, assinado em 1997. Mas países como o Brasil, que detêm grandes quantidades de créditos, não vão ceder tão facilmente.

Apesar de Greta Thunberg não ter ainda pisado solo europeu, a Cimeira do Clima já arrancou. O que vai sair de Madrid? Só daqui a duas semanas se saberá. Sejam quais forem as decisões, Inger Anderson, diretora do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, pede rapidez. Num comunicado emitido aquando da publicação do relatório da ONU, alertou para a necessidade de “acelerar para compensar” os anos em que o tema foi deixado para mais tarde”, porque “os países simplesmente não podem esperar”.

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