Aguiar-Branco: “Se fosse ministro das Finanças gostaria que as SMS fossem públicas”

13 Abril 2017315

Em entrevista ao Observador, José Pedro Aguiar-Branco, presidente da nova comissão de inquérito à Caixa, admite que ver as comunicações entre Centeno e Domingues pode não ser inconstitucional.

José Pedro Aguiar-Branco chegou exatamente à hora marcada ao edifício do Observador no Bairro Alto. A pontualidade é uma das heranças que trouxe dos anos no Ministério da Defesa. Como presidente da segunda comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos — que vai apurar como foram as negociações entre Mário Centeno e o ex-presidente da CGD — diz que se estivesse no lugar do ministro das Finanças tinha todo o interesse em divulgar mensagens escritas trocadas com António Domingues. Deu a entender, citando Jorge Miranda, que são comunicações institucionais e não privadas.

O deputado social-democrata diz que “o desempenho deste Governo é meritório só na medida em que não estragou muito”, mas acusa António Costa de só pensar no soundbyte e classifica-o como um primeiro-ministro “em regime de substituição”. Em comparação com Passos, diz que Costa é “mais habilidoso”. A entrevista foi emitida em direto esta quinta-feira às 14h50 no site do Observador e no Facebook e alguns leitores participaram com perguntas.

“O pai da Constituição defendeu que era possível ver os SMS”

Disse que não queria que esta Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) à CGD se transformasse na “comissão dos SMS”. Mas ela não foi criada para ter acesso a estas comunicações e conhecer as condições colocadas por António Domingues a Mário Centeno?
Não fui eu que constitui a comissão. O que quis dizer foi que os SMS têm a ver com uma parte do objeto da CPI, que é mais lato. São parte importante da prova das condições em que ocorreu a contratação, mas não queria que se esgotasse aí. Há um todo mais importante. Na medida do possível, enquanto presidente da CPI, tentarei que não se fique só centrado nessa matéria.

É deputado, mas também jurista. Se vierem a ser pedidos os SMS, isso é constitucional?
Quando essa questão for colocada, é evidente que também terei uma palavra a dizer. Do ponto de vista jurídico essa matéria tem sido objeto de diversas interpretações.

Qual é sua?
Há quem entenda que sim, há quem entenda que não. Jorge Miranda, que é considerado o pai da Constituição, considera que, nas circunstâncias em que aconteceram as comunicações, é numa relação institucional e não privada. Como presidente da CPI, quero ter um direito de reserva para quando isso acontecer. Não quero agora dar a minha opinião.

"Jorge Miranda, que é considerado o pai da Constituição, considera que, nas circunstâncias em que aconteceu, que é numa relação institucional e não privada, isso pode acontecer. Como presidente da CPI, quero ter um direito de reserva para quando acontecer."

O novo Estatuto do Gestor Público foi feito à medida para a administração aceitar tomar posse. Fazer leis assim à medida é legítimo?
Compreendo que haja necessidade de colocar essas questões substantivas sobre matérias que estão a ocorrer nesta comissão. Mas, como presidente da CPI, tenho de ter uma lógica de equidistância, mesmo do ponto ponto de vista dos meus juízos de valor em relação às matérias em causa. Por isso, não gostaria, neste momento, de me estar a pronunciar sobre matérias de natureza substantiva.

Já muita gente viu os famosos SMS. O dr. Lobo Xavier já lhe os mostrou?
Já? Já mostrou?

Sim, até ao Presidente da República…
Já há gente que viu. Do ponto de vista da boa transparência e numa situação que tem a ver com o exercício de funções de natureza pública, a única coisa que posso dizer é que se fosse ministro das Finanças, eu próprio gostaria que essas comunicações fossem colocadas ao conhecimento público, porque daí resultaria tudo aquilo que era a demonstração da prova daquilo que eu digo. Portanto, se fosse ministro das Finanças colocaria isso em meu benefício, daquilo que quero que as pessoas pensem de mim. Neste caso concreto, até o ministro Mário Centeno deve ser o primeiro interessado em que não haja dúvidas numa matéria que é importante do ponto de vista da sua relação institucional.

"Se fosse ministro das Finanças, eu próprio gostaria que essas comunicações fossem colocadas ao conhecimento público, porque daí resultaria tudo aquilo que era a demonstração da prova daquilo que eu digo. Portanto, se fosse ministro das Finanças colocaria isso em meu benefício, daquilo que quero que as pessoas pensem de mim. Neste caso concreto, até o ministro Mário Centeno deve ser o primeiro interessado"

Mas já viu as SMS?
Não, não. Estava referir aquilo que se fosse o ministro gostaria que acontecesse.

O leitor Luís Cadete manda-nos uma pergunta: se considera que o Governo está fazer um assalto ao contribuinte? Presumo que ao nível da CGD…
Ao nível da CGD não me posso pronunciar, mas se extrair essa situação do ponto de vista da comissão de inquérito e se me colocar a pergunta do ponto de vista de agente político, se acho que este Governo tem feito sobrecarga fiscal e penalizado fiscalmente o contribuinte? Isso digo que sim. Ainda hoje li que para a semana voltam a subir os combustíveis. Embora tenha havido um agravamento da carga fiscal de forma diferente, a verdade é que representa um agravamento em relação ao passado.

O objetivo do PSD ao constituir esta comissão não foi fragilizar o ministro?
O objetivo não é fragilizar. Face ao que for a verdade, pode resultar a fragilização ou não do ministro. Ou seja, se a situação for verdadeira, de que não disse a verdade ou que mentiu ao Parlamento, é evidente que isso o fragiliza. Se da CPI resultar exatamente o contrário, até o fortalece. Portanto, o objetivo de quem requer a comissão é no sentido do apuramento da verdade. Aliás é essa uma missão nobre das comissões de inquérito, por isso é que até têm poderes de natureza de autoridade judicial. À semelhança do que acontece na justiça em geral devemos caminhar mais sempre para ter a verdade material das coisas em cima da mesa e menos as questões de natureza formal, que impedem que se apure a verdade e que depois acabam por existir os juízos de suspeição que fragilizam todos. Esta CPI deve apurar no rigor máximo aquilo que se passou e daí, no final, resultará a fragilização ou até o reforço do ministro.

E se fizer cair o ministro? É bom para o país?
É bom para o país que haja no exercício dos cargos públicos quem diga a verdade e quem não minta no Parlamento. Isso é importante para a credibilização do exercício da atividade política e ainda mais de quem está tão exposto e tem a responsabilidade da gestão da coisa pública, como os ministros. Quando fui ministro da Defesa também fui sujeito a uma comissão de inquérito, sobre os Estaleiros de Viana, e facultei tudo aquilo que havia do ministério: emails, cartas e ofícios. Tudo o que alguma vez se tivesse passado sobre os estaleiros enviei para a comissão de inquérito, que realmente concluiu que não havia situação de nenhuma anormalidade.

"Quando fui ministro da Defesa também fui sujeito a uma comissão de inquérito, sobre os estaleiros de Viana, e facultei tudo aquilo que havia do ministério: emails, cartas e ofícios. "

Politicamente, como interpreta a frase do ministro Centeno quando assume que houve um “erro de perceção mútua” entre ele e Domingues?
Na frase em si e no que isso significa em relação à verdade dos factos, não faço avaliação. O que sei é que quanto menos direta e transparente for uma comunicação, menos confiança existirá entre eleitos e eleitores. Portanto, acho que a comunicação deve ser clara, transparente, facilmente compreendida, porque isso é que valorizará a lógica da confiança entre um cidadão e o seu representante.

José Pedro Aguiar-Branco, deputado do PSD, diz que em termos de défice o Governo “não estragou muito”

“Governo faz do spin mediático e do soundbyte a razão da sua existência”

O ministro Centeno fez uma conferência de imprensa sobre o assunto, depois de ter sido recebido pelo Presidente, que à noite faz um comunicado a segurar o ministro por uma questão de estrito interesse nacional. Como interpreta isto politicamente?
Não quero fazer observações sobre a leitura do Presidente da República. Este Governo é um Governo que faz do spin mediático e do soundbyte a razão da sua existência.

Isso é muito comum aos vários governos.
Há uns que vão mais longe nisso. Aliás, a historia até se esta a repetir em relação ao Governo de José Sócrates, onde a lógica e a capacidade de criar factos mediáticos para desviar atenções de situações concretas era reconhecido como de excelência.

Mas na conferência de imprensa de Centeno não correu muito bem o spining.
Uma vezes corre melhor, noutras pior. Entre aquilo que é a realidade e aquilo que é a lógica da ilusão comunicacional, este Governo tem feito disso uma prática corrente. Aliás, veja-se ainda quando havia estas questões de estar no centro do vulcão as questões da CGD e do ministro Centeno, apareceu aí uma informação associada às transferências para offshores e agora desapareceu da agenda política. Tanto apareceu assim [estalou os dedos] como, hoje, passado este tempo, nem BE, nem PCP, nem nenhuns analistas e comentadores, estão sequer preocupados por saber afinal o que aconteceu. Porque efetivamente não tinha acontecido nada além da publicação ou não de estatísticas. A questão do Eurogrupo agora também é colocada em momento de tensão em relação ao ministro Centeno.

Deixe-me voltar atrás: com esta posição, o Presidente fragilizou o ministro?
Só posso acompanhá-lo na descrição dos factos: alguém disse que mostrou os SMS ao Presidente da República, ele terá visto os SMS e tomou uma decisão na base daquilo que era o equilíbrio dos valores que estavam em causa no seu juízo de análise. Portanto, se essa situação conduz ou não a uma fragilização, creio que o Presidente não pautou o seu comentário no sentido de fragilizar ou não, mas em função dos factos de que lhe foram dados a conhecer e daquilo que foi o juízo de valor que ele fez sobre a situação.

Se a maioria de esquerda lhe criar dificuldades na comissão de inquérito, como aconteceu na anterior, demite-se como fez José Matos Correia? Qual é o seu limite?
Não antecipo situações de crise. Não tenho que antecipar situações que espero que não aconteçam. E que farei tudo para que não aconteçam.

Mas tem algum limite? Se a situação for parecida com a de Matos Correia, o que é que faz?
Não sei exatamente o que aconteceu. Mas farei tudo para que não existam situações em que tenha a necessidade de tomar essa atitude. É preciso prestigiar e reforçar a dignidade das comissões de inquérito. Elas têm tido um papel muito importante nos anos mais recentes em matérias tão importantes como o BPN, como o BES, mesmo no caso dos estaleiros de Viana do Castelo

Precisamente. Temos aqui vários leitores a perguntar pelos estaleiros de Viana, sugerindo que foi um processo desastroso…
É o próprio Governo que faz a demonstração do contrário. O primeiro-ministro e a ministra do Mar visitaram os estaleiros e disseram que estavam a contribuir para a recuperação e a construção naval em Portugal; a própria West Sea [subconcessionária dos estaleiros] anunciou que estão 600 trabalhadores nos estaleiros; A Douro Azul tem quatro novos navios a serem construídos nos estaleiros navais; a Marinha portuguesa tem dois navios-patrulha oceânicos prestes a reforçar a frota marítima; e o volume de negócios público da recuperação e construção naval de Viana aumentou exponencialmente. Se isto é desastroso? Bem, julgo que é uma crítica de quem não conhece a realidade.

“Não sei quem é o candidato do PS no Porto. Sabe quem é?”

O PSD candidata-se para perder no Porto e em Lisboa? Esta foi a melhor estratégia?
É extraordinário haver sempre um nível de pressão para se saber o que o PSD faz ou não nas autárquicas, que candidatos escolhe ou não, se vai a tempo ou não. No Porto, por exemplo, a candidatura do PSD foi apresentada no tempo previsto. Já o PS, por exemplo, não tem um candidato próprio, o que é uma situação bem mais confrangedora. Quando um partido como o PS é incapaz de apresentar um candidato próprio no Porto e tem críticas internas, parece que só a candidatura do PSD é que motiva dessa polémica.

PERGUNTAS RÁPIDAS PARA RESPOSTAS RAPIDÍSSIMAS

Qual foi o último Ferrari que comprou?
O último de Sebastian Vettel. Escala 1:43, da Minichamps, uma marca de miniaturas.

Nunca teve um Ferrari verdadeiro?
Não, nem nunca conduzi um. Faz parte daqueles desejos…

Qual é o seu carro mais vistoso?
Um BMW, capotável e descapotável.

Ainda é “de bem” ser da Foz e do Boavista?
Sempre fui adepto do Porto e do Boavista. O facto de ser da Foz, olhe, é uma fatalidade.

Mas agora é mais do Porto do que do Boavista?
São emoções diferentes. Nasci e cresci junto do Estádio do Bessa, ainda campo pelado. Cresci com jogadores do Boavista como ídolos. Há aquela proximidade de equipa mais de bairro. É uma afetividade diferente, daquela que é em relação ao FC Porto.

Qual dos Ruis foi melhor presidente, Rio ou Moreira?
Sou muito amigo de Rui Moreira, desde os tempos do liceu. Mas têm características muito diferentes. Rui Rio tem uma grande competência para reequilibrar as contas. Rui Moreira tem uma boa capacidade comunicacional e de projetar a cidade.

Qual é a melhor história que tem de Rui Moreira no liceu?
Estivemos ambos juntos na constituição, em 1974, no liceu Garcia de Orta, da União dos Estudantes Democratas Independentes (UEDI) e vencemos as eleições para a associação de estudantes. Ele era o independente e eu iria para a JSD.

Quantos são à mesa lá em casa quando se junta a família toda?
São cinco filhos, um genro, eu e a minha mulher. É esta a normalidade. Oito pessoas.

O PSD seria mais social-democrata com a sua proposta de programa?
O que fizemos na altura foi muito aproveitado [pelo programa de Passos Coelho]. Gostaria que se tivesse transportado para o programa oficial mais coisas que estavam na minha proposta de programa.

O que é que aprendeu com a tropa?
Grande capacidade de organização e planeamento e sentido de pontualidade exemplar. Valores muito importantes mesmo para a vida civil.

Um livro que aconselhe?
Estou a ler as Memórias, de Jean Monet. Num momento em que se discute tanto o projeto da União Europeia, faz toda o sentido ler aquilo a que conduziu à formação da UE.

Na intervenção que fez no congresso do PSD, desafiou os notáveis a concorrerem e até disse: “Pedro, se tiveres estes candidatos terás bons candidatos”. Pedro Passos Coelho não seguiu essa estratégia…
Não tenho cargos dirigentes no PSD. Mas tanto quanto sei, José Eduardo Martins é candidato à Assembleia Municipal de Lisboa, Maria Luís Albuquerque é candidata à Assembleia de Almada, eu sou candidato à Assembleia Municipal de Guimarães… O que vejo é um partido empenhado, que discute livremente, sem opacidade naquilo que são as suas divergências e convergências. Na hora para escolher e lutar solidariamente pela vitória estaremos todos unidos.

Então em nome dessa liberdade de expressão, voltava à pergunta inicial: a estratégia foi bem conduzida quando há dois candidatos que ninguém acha que vai ganhar nas duas principais cidades?
Vou-lhe dar um exemplo. Quando Rui Rio foi candidato contra Fernando Gomes, todas as sondagens davam 20 pontos de distância. Fernando Gomes era um dinossauro autárquico do PS.

Sim, mas não se estava a recandidatar a um segundo mandato, o PS não estava no poder na câmara, não tinha apoio de dois partidos como tem Rui Moreira, as circunstâncias eram diferentes…
Desculpe, mas estou a ser objetivo. E não me estou a focar só no Porto. A seis meses das eleições, é arriscado estarmos a fazer antecipadamente um vaticínio de que o PSD não vai ganhar eleições.

Independente desse vaticínio, o processo foi ou não bem conduzido?
Não sou da direção do partido, nem da comissão autárquica, para saber em concreto se houve desvios sobre a forma de operacionalizar a estratégia. O que sei é que o PSD é o partido que já apresentou mais candidaturas no país. O PS não. Não sei quem é o candidato do PS no Porto. Sabe quem é? Até o próprio Rui Moreira não anunciou a sua candidatura. Aliás, a fazer fé no que vem nos jornais, parece que há discussões preocupantes em relação ao preenchimento de listas, se são jobs do PS ou se são jobs de supostos independentes que afinal não o são. Em Lisboa, Fernando Medina já anunciou a sua candidatura?

Deu três exemplos para Assembleias Municipais, que são notáveis do partido, mas não é exatamente a mesma coisa que descreveu no congresso como ter José Luís Arnaut em Mértola ou Santana Lopes na Figueira da Foz. O seu apelo não foi ouvido, nem essa a estratégia seguida pelo líder do partido…
Se formos ao congresso, quem estava no âmbito da comunicação social e na berra como sendo oposição a Pedro Passos coelho era José Eduardo Martins e Pedro Duarte. A minha observação na altura foi desafiá-los para participarem no combate autárquico. José Eduardo Martins disse sim, e Pedro Duarte esteve no Porto presente na apresentação da candidatura de Álvaro Almeida no passado sábado. Deu a cara… Porque não fazem a observação positiva do facto de Rui Rio, na boca da imprensa um putativo candidato alternativo a Passos Coelho, estar ao lado do líder? Paulo Rangel esteve lá. Luís Montenegro também. Porque não se vê isso como uma situação verdadeira, objetiva de unidade? Se estivessem divergentes quanto à linha estratégica não compareciam. A crónica do que corre bem também deve ser feita. Em Lisboa, mesmo com as observações críticas, alguém tão relevante no congresso como José Eduardo Martins diz sim. José Eduardo Martins é experiente politicamente, competente, tem legítimas aspirações políticas e disse sim para ir ao lado de uma candidatura que com certeza ele quer vencedora e acredita que pode vencer.

"Se formos ao congresso, quem estava no âmbito da comunicação social e na berra como sendo oposição a Pedro Passos coelho era José Eduardo Martins e Pedro Duarte. A minha observação na altura foi desafiá-los para participarem no combate autárquico"

“Não há relação direta entre resultado autárquico e candidatura legislativa”

Se houver uma derrota vai gorar todas essas expectativas? O leitor Pedro Faria pergunta se Passos se deve demitir se perder as autárquicas?
O próprio já disse o que não o faria. Acho que quando o partido ganha, ganhamos todos. Quando perde, perdemos todos. Há momentos e leituras própria que devem ser feitas. É óbvio que os partidos farão a sua análise, mas não há relação direta causal entre resultado autárquico e a candidatura legislativa e a primeiro-ministro nas legislativas. Tudo aquilo de que possamos falar em relação a sondagens e análises é desmentido pelos 4 anos do mandato da governação do PSD e do CDS. Durante três e quatro anos as sondagens diziam das legislativas que o PS tinha maioria absoluta, três semana antes do ato eleitoral, António Costa ia ser primeiro-ministro pelo partido que ia ganhar as eleições. As sondagens diziam uma semana antes que o PS seria vitorioso e teria até maioria absoluta e quem ganhou as eleições ao arrepio de sondagens foi a coligação PSD/CDS.

Ao PSD e CDS já não basta ganhar as eleições. Só há uma hipótese que é ganhar com maioria absoluta para voltar ao poder.
Não sei se o cenário tão estranho de uma geringonça se vai repetir com a facilidade. Não sabemos se essa situação é repetível.

Mas a direita como não tem a certeza disso, a única forma de voltar a governar é tendo maioria. O partido está a trabalhar no sentido certo para as próximas legislativas para não precisar de terceiros, de desentendimentos à esquerda?
É evidente que o partido está a trabalhar em função do interesse nacional e essa é primeira das razões da existência de um partido, o PSD que já mostrou, nas últimas eleições e no Governo, que a sua ação é em função disso.

Mas o objetivo do partido não é chegar ao poder para governar em função do que entende ser o interesse nacional?
A condução do interesse nacional não é em função da sondagem da semana, mas do que é bom para o país independentemente das sondagens semanais ou mensais cujas lógicas nada têm a ver com um projeto com princípio meio e fim. O ato eleitoral é que esperamos que seja no período normal, no fim do mandato. É nessa situação que se distingue quem faz uma política sempre a pensar na sobrevivência diária e a sacrificar o interesse nacional pelo interesse imediato de satisfazer parcerias políticas que não são tão estáveis com o se julga, ou sobrevivência do poder do primeiro-ministro, ou as asneiras feitas pelos ministros, é sempre feito em função do spin e em prejuízo do país.

Passos está a trabalhar bem para contrariar isso?
Costumo perguntar o que está a ser feito de mal? O país está como está por causa de Pedro Passos Coelho? É responsabilidade dele o crescimento não estar como devia, que não é igual a países como a Espanha ou a Irlanda, que estão sujeitos às mesmas condições internacionais? O problema do país é Pedro Passos Coelho ou de um primeiro-ministro que devia ter o país a crescer mais do que cresce. Mesmo quanto ao défice — o défice é bom — mas o que estava projetado se estivéssemos no Governo era inferior.

"Mesmo quanto ao défice -- o défice que é bom -- mas o que estava projetado se estivéssemos no Governo era inferior."

“Dei um contributo para as medidas extraordinárias para o défice de 2016”

O leitor Manuel Parente pergunta porque lhe custa dar mérito ao Governo pelos número mostrados pelo INE?
O mérito do Governo era se tivesse mais do que isso, ou seja, um défice mais baixo. Se a coligação continuasse no Governo, para 2016, a nossa projeção era de 1,8%. Mesmo no défice, este Governo não cumpriu meta.

O anterior Governo nunca cumpriu as metas do défice a que se propôs…
Então não cumpriu? Quem é que desceu de 11,5% para 3%?

Foi 3,2%…
É muito mais fácil, mesmo muito mais, conseguir fazer a gestão do défice do país mais equilibrado, com uma situação e confiança adquirida, com liberdade de tomar decisões, porque quando estávamos sob resgate não tínhamos liberdade de tomar decisões. Quem deixou o país em condições de poder fazer políticas diferentes daquelas que a troika impunha? Não foi por artes mágicas nem por milagre, como está na moda dizer. O mérito deste Governo seria se tivesse conseguido acompanhar o crescimento de Espanha e Irlanda, se tivesse conseguido baixar o défice para aqueles valores que se fossemos Governo teríamos continuado. Claro que é melhor esta situação do que ter entrado em derrapagem total…

É um milagre a chamada geringonça ter-se aguentado?
Não quero entrar aqui numa lógica de spin mediático. O que sei é que por ironia do destino a venda dos F16 que foi algo que diretamente estive envolvido [como ministro da Defesa]… Dei um contributo para as medidas extraordinárias para o défice de 2016 em valor significativo. Este Governo foi o que, nos últimos oito anos, teve o volume maior de medidas extraordinárias.

"Por ironia do destino a venda dos F16, que foi algo que eu diretamente estive envolvido [como ministro da Defesa]... Dei um contributo para as medidas extraordinárias para o défice de 2016 em valor significativo. Este Governo foi o que nos últimos oito anos foi o que teve o volume maior de medidas extraordinárias."

Mesmo sem elas, o défice era de 2,5%, mais baixo do que qualquer défice do PSD/CDS…
Mas é natural. E se fôssemos Governo quanto seria? Inferior a isso. Nós próprios apontávamos. O desempenho deste Governo é meritório só na medida em que não estragou muito e permitiu que a situação fosse essa. Porque a confiança não regressa ao ritmo necessário para que o investimento…

Mas o investimento privado tem crescido. O público é que não.
O investimento do Estado é péssimo, é o pior dos últimos 20 ou 30 anos Mas os índices de confiança que se traduzem numa capacidade de crescimento mais forte, Portugal cresce menos do que aquilo que os países que estavam na mesma situação que nós.

Um leitor pergunta sobre o encerramento do Instituto de Odivelas e que hoje está ao abandono e vandalizado. Presumo que se esteja a referir ao edifício. As raparigas juntaram-se ao Colégio Militar.
O mosteiro é da responsabilidade deste Governo e não minha. Não se pode dizer que as coisas acontecem e ignorar que se estivéssemos no Governo teríamos ações que conduziriam a que coisas desagradáveis como essa não acontecessem. Há duas questões fundamentais nessa matéria de estabelecimentos militares de ensino: davam prejuízo de 17 milhões de euros por ano com a gestão em separado. Naquela altura de crise era inaceitável que não se conjugasse a sinergia em relação à gestão dos estabelecimentos militares de ensino. E era inaceitável que houvesse discriminação de género no Colégio Militar no século XXI. Portanto, o Colégio Militar tinha e tem capacidade para ter 800/900 alunos e estava a viver com 300 ou 400. Qualquer gestor de senso médio sabe que é preciso aproveitar essas capacidades instaladas faz uma gestão rigorosa e acaba com a discriminação de género.

“Costa é mais habilidoso que Passos”

Tem sido muito cuidadoso nas palavras. Há uns anos deu uma entrevista que provocou queda do líder [Luís Filipe Menezes]. Passos está para ficar?
A história partido é feita sempre de altas tensões em relação ao seus líderes: Sá Carneiro, Marques Mendes, Pedro Santana Lopes…. o que se dizia de Manuela Ferreira Leite quando era candidata contra José Sócrates! Faz parte do ADN do PSD ter essa capacidade de os seu líderes serem sempre altamente contestados.

Mas é a primeira vez que um líder do PSD na oposição não tem um opositor interno….
Parece que há putativos candidatos…

Disse no congresso há um ano: “Nunca se sabe se não voltarei a ser candidato a diretas no partido”. Também todos aqueles que se candidataram a líder chegaram a presidentes do partido: José Pedro Aguiar-Branco e Paulo Rangel são os únicos que ainda não foram, Ainda tem ambições quanto a isso?
Acho interessante a pergunta, mas não contribuo para esse debate porque seria beneficiar o infrator que se chama António Costa.

Mas contribuiu para isso no último congresso…
Tem de compreender o contexto de um congresso em que uma pessoa está a fazer uma análise política, em que se diz que não é tempo para se discutir essa matéria. Colocar a questão hoje, do ponto de vista estratégico, seria beneficiar o infrator. O problema do país não é Passos Coelho. O problemas do país é António Costa. Quem quer colocar esse tema na agenda são os adversários do partido. Volto a dizer: o problema do país não é Passos Coelho, é António Costa, que é um primeiro ministro em regime de substituição.

"Quem quer colocar esse tema [sucessão no PSD] na agenda são os adversários do partido. Volto a dizer: o problema do país não é Passos Coelho, é António Costa, que é um primeiro ministro em regime de substituição."

E numa fase posterior, na eventualidade de se colocar essa disponibilidade…
Não é tema. Quem quer colocar esse tema na agenda são os adversários do partido.

Conhece Rui Rio desde a juventude. Se ele se perfilar, como já disse que poderia fazer, apoia-o?
Ele disse que se essa questão se viesse a colocar era possível.

Então Rui Rio, beneficiou o infrator?
Não. Ele disse: caso se venha a colocar… Considero que essa matéria discutida hoje é o benefício do infrator. Julgo que Rui Rio também acha isso.

Mas ele disse que podia avançar para a liderança.
O que ele disse foi: Quando essa questão se vier a colocar. Que será em Congresso.

Pode-se colocar daqui a um ano. Se estivermos a falar de um Congresso ordinário.
Logo veremos. O que sei é que sei hoje de Rui Rio é que ele esteve ele esteve na apresentação do candidato do PSD do Porto, ao lado de Passos Coelho, juntamente com outras figuras nacionais, a apoiar o candidato Álvaro Almeida.

"O que sei é que sei hoje de Rui Rio é que ele esteve ele esteve na apresentação do candidato do PSD do Porto, ao lado de Passos Coelho"

Ele tem alimentado esta possibilidade de ser candidato.
Não sei.

Só se é a única pessoa que não sabe.
Ele diz que não. Diz o contrário, que não aceita que falem em nome dele.

Por isso disse-o ele de viva voz.
Se for acreditar na comunicação social, seria terrível. Já disse que era candidato a Presidente da República, depois não era, depois era, depois não era. Depois só ia se fosse levado ao colo. Isto foi a expressão da comunicação social que, em relação ao Rui Rio que eu conheço, e não vai ao encontro da personalidade dele. Por isso faço uma destrinça entre aquilo o próprio diz, e o próprio só disse isto…

Disse a si?
O que importa é publicamente. Ele disse que, se essa questão se colocar, logo se verá.

É capaz de dizer o mesmo?
Não cedo a pôr em causa o meu principio que é transformarmos esta discussão como sendo aquela que é relevante para resolvermos problemas do país, quando não é. Neste momento, o PSD tem um liderança incontestada dentro o partido, ainda bem sufragada no ato eleitoral. Nós temos é que nos pautar pelos atos eleitorais, não é pela sondagem aqui, sondagem acolá. Neste momento, o problema do país não se chama Passos Coelho, chama-se António Costa, primeiro-ministro em regime de substituição, porque quem devia estar lá era o primeiro-ministro que ganhou as eleições e que só por uma situação de arrumo parlamentar fez com que o resultado fosse este.

Acha que António Costa é politicamente mais hábil que Passos Coelho?
Acho que é mais habilidoso, o que é diferente.

“O Presidente não é diferente dos outros. Nem em termos de notoriedade”

Como vê a circunstância de Passos Coelho passar a maior parte dos debates quinzenais calado? Acha que devia enfrentar sempre o primeiro-ministro?
Em alguns debates é ele e noutros é o líder parlamentar. É uma prática que já aconteceu no passado com outros líderes. Acho que depende do debate em si e da circunstância. Também podemos ter o reverso da medalha que é dizer que há um desgaste excessivo se se tornar repetitivo. Muitas vezes pode não haver um tema de atualidade que justifique isso. Portanto, acho bom que se faça esse equilíbrio.

Confirma o que disse Assunção Cristas sobre os conselhos de ministros, em que assuntos como a banca não foram discutidos?
Confirmo o que disse Pedro Passos Coelho.

Que foi?…
Ele disse que aquilo que do ponto de vista das discussões em Conselho de Ministros, os ministros sempre foram livres de colocar e discutir as questões que eram importantes do ponto de vista político. A matéria do Conselho de Ministros, é reservada. Havia briefings públicos onde se exprimiu o que era passado no Conselho de Ministros.

Assunção Cristas esteve bem ao revelar que a resolução do BES não foi discutida?
Não acho que seja relevante, neste momento, estarmos com discussão em torno disso, quando o que importa é fazermos a avaliação de porque é que este Governo não põe o país a crescer mais do que deve, porque o défice é maior do que aquele que era possível. E porque o investimento não regressa como deve regressar. E porque as empresas não têm condições para exportar mais. E a balança de transações ser mais forte do que é.

O Presidente da República tem sido um bom árbitro do sistema?
O Presidente da República não é muito diferente dos outros no passado. Nem no grau de notoriedade. Tem idiossincrasias próprias da sua personalidade, mas se formos ver os índices de popularidade dos primeiros mandatos (de Mário Soares, de Jorge Sampaio, de Cavaco Silva) todos eles tinham altos índices de popularidade.

Perguntei-lhe no sentido de ser mais próximo do Governo e, aparentemente, mais distante do PSD.
Se for ver o retrato das observações de um primeiro mandato, é sempre de que o Presidente da República parece fazer sempre mais a convergência em relação ao Governo do que às oposições. Todos se queixaram mais ou menos disso. Portanto, não vejo aqui uma grande diferença na linha de atuação deste Presidente em relação à linha dos anteriores. Agora, há uma personalidade própria, mais fácil, de empatia mais direta com as pessoas, com grande experiência comunicacional que parece exponenciar coisas que, do ponto de vista estatístico, não vejo grande diferença.

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