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Alan, 400 jogos na 1ª divisão e 79 na UEFA, exibe a Taça de Portugal conquistada ao Porto em 2016

LUSA

Alan, 400 jogos na 1ª divisão e 79 na UEFA, exibe a Taça de Portugal conquistada ao Porto em 2016

LUSA

Alan."O melhor dérbi madeirense foi no El Mexicano"

É o primeiro campeonato nacional desde 2000-01 sem Alan, oportunidade ideal para espreitar o passado do agora director do Braga, entre bocas de Vingada, Byshovets, Cajuda, Adriaanse, Jesus e Conceição

Boavista, Porto, Sporting, Braga e Leiria. O top cinco da 1.ª divisão 2000-01 é um fenómeno nunca visto e jamais repetido. Além do campeão inédito, o Benfica em sexto lugar. Memorize a data, 27 Maio 2001. Daí para cá, há só um elemento em comum nos 16 campeonatos. É ele, Alan Osório da Costa Silva. Para todo o mundo, Alan. O das tranças. Brasileiro boa onda, colecionador de todos os títulos nacionais (dois campeonatos, duas Taças, uma Taça da Liga e uma Supertaça), o craque de 37 anos deixa o futebol em Junho e assume o cargo de diretor das relações institucionais do Braga. Pois é, Alan está fora de jogo pela primeira vez desde 2001. E agora? Sentado no hall da entrada do estádio, mesmo ao lado do museu, cheio de taças, uma delas levantada por Alan como capitão, o homem responde com um sorriso aberto. Daqueles mal interpretados por Byshovets e Co Adriaanse.

Qual a sensação de viver o futebol por fora?
Há duas semanas, na Suécia, para a Liga Europa [AIK 1 Braga 1], rolou uma lágrima no olho por não estar lá, em campo, pela primeira vez. Os jogadores perfilados, prontos para jogar, e todo o filme da minha vida passou pela minha cabeça. Liguei para a minha esposa e ela disse-me que nunca me tinha visto tão ansioso.

Pesa, a ausência?
Muuuuito. Só espero não sentir mais isso, eheheheh.

A decisão é tua?
Siiiim, e foi uma decisão bem estudadinha. Claro que podia acrescentar muita coisa a alguns jogadores, só que não estou para correr de um lado para o outro, como há cinco anos. Queria era jogar duas vezes seguidas, depois descansava, duas vezes seguidas, descanso e por aí fora.

Mais tranquilo não há.
Pois é, agora quero é tranquilidade. Calma, muita calma nesta hora.

Isso é próprio de um baiano, não é?
Que baiano é esse? Eu?

Não? Os sites dizem que nasceste em Salvador.
Sou do Rio de Janeiro, sou carioca.

Já muitos me perguntaram se sou baiano e houve até uma vez que tive de falar do Rio numa flash-interview. Aí o meu pai ligou-me e perguntou-me quem era o meu pai baiano, eheheheh.

Essa é boa.
Baiano? ‘Tou sabendo, eheheheh. Já muitos me perguntaram isso e até uma vez tive de falar do Rio numa flash-interview. Aí o meu pai ligou-me e perguntou-me quem era o meu pai baiano, eheheheh.

Nascido e criado no Rio?
Tudinho, tudo a que se tem direito.

Cresceste futebolisticamente onde?
Quando tinha 17 anos fui para o Cruzeiro de Belo Horizonte. Daí, mandaram-me para o Ipatinga.

Emprestado?
Éééé, o Cruzeiro tinha muita gente boa: Geovanni, Fábio Júnior, Aristizabal, Sorín, Alex da Turquia, Luisão do Benfica, Cris do Lyon, Marcos Paulo do Sporting.

[primeira interrupção de um adepto para apertos de mão, fotografia, elogios, pancadas nas costas e afins; craque é assim mesmo]

E depois?
Aquilo correu bem no Ipatinga e regressei ao Cruzeiro.

Joguei na Igreja Universal de Deus. Na 2.ª do campeonato carioca [estadual do Rio de Janeiro], eles levavam 15/20 mil fiéis ao estádios nos seus jogos.

Para valer?
Ainda não, porque o time da Igreja Universal de Deus do Rio de Janeiro não me quis libertar.

Como?
Joguei na Igreja Universal de Deus.

Meu Deus.
[Alan escangalha-se a rir]

Jogavam em que divisão?
Na 2.ª do carioca [estadual do Rio de Janeiro]. Nem sei se existe mais, o time. Sei que é levavam 15/20 mil fiéis ao estádios nos seus jogos.

Com o Alan a jogar?
Isso mesmo, 15/20 mil. Tinha uns 16 anos. Aí, depois, apareceu o Atlético Mineiro, rival do Cruzeiro, interessado em mim. Uma confusão do caramba. O que é que acontece?

Isso pergunto eu.
Na época, o Atlético tinha um monte de bons jogadores lá na frente, como Marques, Guilherme e Euller.

E então?
Queriam emprestar-me ao Uberlândia, outro time mineiro.

Queriam?
A confusão aumentou quando queriam assinar comigo sem dizer nada à Igreja Universal de Deus. Essa notícia chegou ao Rio e eles ligaram-me a dizer ‘arruma as tuas roupas, sai daí’. E eu, ‘como?’. Tentei ligar para o meu pai, mas não consegui. Aí, de repente, aparece um carro preto com dois seguranças da Igreja à porta do meu hotel. Um colega meu chama-me a atenção para isso, porque eles estavam à minha procura. ‘O que é que você fez?’ perguntou-me ele e eu ‘nada, nem sei quem são os cara!’ Ganhei coragem, lá desci para falar e eles disseram-me que o bispo não-sei-quem é que tinha mandado o carro para voltar ao Rio de Janeiro. Peguei nas minhas malas e daí fui para outro hotel.

[segunda interrupção de um adepto para apertos de mão, fotografias, elogios, pancadas nas costas e afins; craque é craque e vice-versa]

Mudaste para um outro hotel, e depois?
Dormi e apanhei um avião para o Rio, onde consegui finalmente falar com o meu pai.

E então, Cruzeiro ou Atlético?
Nem um nem outro. O time da Igreja já me tinha vendido para Portugal.

A sério?
Sério, Salgueiros.

Salgueiros?
Primeiro foi o Salgueiros, só me mandaram para o Marítimo quando cheguei a Portugal.

Assim, sem mais nem menos?
Sem mais nem menos.

E tu?
Eu? Disse ’tá bem e fui para a Madeira.

Quando cheguei cá, havia muitos clubes interessados: Salgueiros, Braga, Boavista e Marítimo. Então, acordava numa equipa, dormia na outra, acordava numa equipa, dormia noutra. Fui ao Braga, ainda no 1º Maio. Só que cheguei lá e queriam botar-me à experiência. O meu empresário Adelson Duarte disse que não, que isso não ia acontecer, e fui-me embora. À tarde, já estava a treinar no Maia com o Mário Reis. No outro dia, o Boavista do Jaime Pacheco. Aí, assino pelo Salgueiros e vou passar mais seis meses ao Ipatinga. Quando cheguei aqui, enviam-me para o Marítimo.

Tinhas quantos anos?
Vinte. Há uma história curiosa. Eles trouxeram-me e havia muitos clubes interessados: Salgueiros, Braga, Boavista e Marítimo. Quando cheguei a Portugal, acordava numa equipa, dormia na outra, acordava numa equipa, dormia noutra.

Qual foi o primeiro clube?
O Braga, ainda no 1º Maio. Só que cheguei lá e queriam botar-me à experiência. O meu empresário Adelson Duarte disse que não, que isso não ia acontecer, e fui-me embora. À tarde, já estava a treinar no Maia com o Mário Reis. Lembra dele?

Siiiiim, Mário Reis.
Mal me viu, o Mário Reis disse que queria ficar comigo, só que o Adelson não queria que eu ficasse ali, na 2.ª divisão. Nos dias seguintes, a mesma receita: vai para um lado, vai para o outro. Parecia uma bola de pinball.

Foste parar onde?
Boavista. O Jaime Pacheco queria ficar comigo, só que o futebol do Boavista era diferente. Aí, assino pelo Salgueiros e vou passar mais seis meses ao Ipatinga. Quando cheguei aqui, enviam-me para o Marítimo.

O que se passou?
O Geraldão [central brasileiro do Porto] viu-me a jogar no Ipatinga e ele tinha começado a trabalhar com o Marítimo. Uma coisa leva à outra e lá fui para o Marítimo.

Como?
Belo Horizonte-Porto. Os presidentes de Salgueiros e Marítimo estavam numa reunião comigo e, depois, viajei para o Funchal.

Com o presidente do Marítimo?
Sim, sim.

Já era o
Carlos Pereira? Era, pois.

Finalmente.
Nem digas nada. No meio daquele cansativo vai-não vai, o meu desejo era sair de Portugal o mais rápido possível. Até cheguei a ligar para o meu pai a desistir de tudo e ele é que me deu força, muita força: ‘Filho, vai tudo acabar bem.’ E não é que foi mesmo assim? Palavra de pai tem outro encanto, eheheheheh.

Marítimo, e agora?
Maravilha. Dois meses depois, conheci a minha futura esposa. Ela é de Viseu e foi dar aulas para o Funchal. Comecei logo bem, eheheheh.

No futebol, quem apanhaste como treinador?
O primeiro de todos foi o Nelo Vingada.

Recebeu-te bem?
Muito bem, um grande profissional.

E a Madeira, não a achaste muito quente?
Aquele calor foi o ideal para mim. Quer dizer, nasci no Rio, onde o clima é muito parecido com o do Funchal. Quando vim para o Norte, nossa senhora. É que eu ainda era magrinho, só pele e osso. Que frio danado. Nem queria sair do balneário. Dizia sempre ‘vamos aquecer aqui dentro e entramos logo para jogar’.

Na primeira época, marcaste um golo ao Porto. Ainda te lembras?
Claro pá, eheheheh. Nas Antas, ao Vítor Baía e com o Jorge Andrade bem perto de mim [na estreia de Mourinho como treinador do Porto]. Bati com a esquerda.

Também jogaste nos bês do Marítimo. Foi para te ambientar?
Isso foi na época do Byshovets, um treinador russo. Aquele gajo batia-me bem na cabeça.

O Byshovets não gostava que a gente treinasse a rir, queria impôr um estilo militar e isso não dava para mim. Ele queixou-se ao presidente e mandaram-me para a equipa B. Só houve uma pessoa que gostou desta decisão: a minha namorada. Ficou mesmo contente, porque os bês não faziam estágio.

Então?
Ele não gostava que a gente treinasse a rir, queria impôr um estilo militar e isso não dava para mim. Não conseguia, simplesmente não conseguia. Ele queixou-se ao presidente e mandaram-me para a equipa B. Só houve uma pessoa que gostou mesmo desta decisão.

Quem?
A minha namorada. Ficou mesmo contente, porque os bês não faziam estágio.

Sacanagem?
Mesmo, ehehehe. Mas só fiquei um jogo [2-1 ao Operário]. Como estive bem, subi novamente para o plantel principal e comecei a jogar regularmente. A meio dessa época, ia só para a equipa B em caso de necessidade de vitória para evitar a descida de divisão. Era eu mais o Danny.

O Danny?
Esse mesmo.

E o Pepe?
Era júnior, tinha uns 17/18 anos.

E já era assim?
Sim, já tinha panca, eheheheh. Sempre foi assim.

E ninguém dos seniores o metia na ordem?
Nos treinos, o Pepe distribuía pancada por toda a gente. Não olhava a nomes. Era bom, bem durinho. Quer dizer, eu gostava assim. O treino tem de ser como um jogo e o Pepe interpretava como eu. No final, amigos como sempre.

A Madeira é uma ilha turística, cheia de tentações. Como é que…?
Havia jogadores que nem queriam saber e saíam mesmo à noite. Eu, às vezes, também esticava o horário um nadinha. Vivia sozinho e não ia passar a noite em casa.

Vivias onde?
No Lido, uma zona boa de barzinhos. Às onze da noite, tinha de estar em casa. Na maior parte das vezes, estava em casa às onze, claro. Só que também me esticava uma vez ou outra.

Isso era o quê?
Com aquele calor, deixava-me estar numa esplanada com amigos e tal.

E o dia seguinte?
O presidente virava-se para a gente e dizia ‘cuidado com os horários’.

E vocês?
Dizíamos-lhe que tínhamos deitado cedo e ele ‘cedo para quem?’. Era divertido, tudo na paz.

Sempre na paz?
Houve uma vez que não, o dia do dérbi Marítimo-Nacional num barzinho.

Nas Vespas?
Não, esse não, foi no El Mexicano. Houve um jantar da equipa nas Docas do Cavaco e depois decidimos ir beber um café no Mexicano. De repente, aparece um jogador do Nacional, há um bate-boca e segue-se a briga. Foi breve, o pessoal acalmou-se e cada um foi para a sua vida. Quando chego a casa, a briga está a passar no rodapé da televisão. E eu ‘xiiii, estamos ferrados amanhã’.

Amanhã?
No treino, com o Manuel Cajuda. Ele vira-se para nós: ‘Já sei tudo e quem ganhou, nós ou eles?’ Dissemos que fomos nós e ele ‘óptimo, está 3-0’ porque tínhamos ganho os dois jogos do campeonato.

Ganharam os dois jogos ao Nacional e não perderam em casa com os grandes.
É, empatámos com Benfica e Porto, ganhámos ao Sporting. Esse jogo foi especial.

Com o Sporting?
Estava 1-0 para eles, golo do Liedson. Ao intervalo, o Cajuda estava furioso com a gente e dá-nos uma bronca memorável. ‘Vocês pensam que são quem a jogar assim?’ E nós a olharmos uns para os outros, porque até tínhamos jogado bem na primeira parte, a trocar a bola e assim. ‘Se vocês continuam assim, vão perder feio.’ ‘Vocês são uns meninos copos de leite.’

Qual foi o resultado?
Virámos para 2-1, marquei eu o último golo nos descontos. Fomos todos abraçá-lo na linha lateral e disse-lhe ‘calma, estava tudo controlado.’ E ele todo doido, no bom sentido: ‘vocês são todos uns bandidos, disse-vos aquilo ao intervalo para espicaçar’. Ai ai, bons tempos. A ilha ficou toda nossa, maravilha.

Também é no Marítimo que te estreias na UEFA?
Em Sarajevo, na Bósnia. A gente queria chegar e fazer o jogo no mesmo dia.

Porquê?
Aquilo estava tudo destruído, tudo esburacado: os prédios, as ruas, até o nosso hotel. E o Nelo Vingada queria passear, brincadeira. Aquilo parecia uma cidade fantasma. Se não dá para chegar e jogar no mesmo dia, vamos tentar passar rápido por aqui. Então, vem o primeiro treino e eles chateiam um jogador nosso. Perguntámos ao Iliev o porquê daquilo e ele traduz para a gente: ‘não gostam do crucifixo ao peito’. Huuuum. No dia seguinte, vamos jogar. Entrámos no estádio e uma faixa vermelha a cobrir toda a bancada, com a inscrição ‘bem-vindo ao inferno’. Hummmm, outra vez. Isso não vai prestar, disse eu para o Dinda. E ele para mim ‘o inferno é aquilo, o cemitério aquilo ao lado, vamos mas é deixar os gajos ganhar para sair daqui a bem’. Eheheheh.

Começa o jogo e?
Foi duro o início, porque os adeptos cantavam o tempo todo, só que depois controlámos o jogo e até ganhámos 1-0.

Imagino o vosso alívio pelo fim do jogo.
Que nada, só nos sentíamos bem sentados no avião e dentro do território português.

Na crónica desse jogo, li que atiraste à trave.
Pois foooooi [como quem já se esquecera] e ainda tive um golo anulado, até parecido com aquele do Ronaldo à Espanha na Luz. Se aí foi o Nani a meter o pé, lá na Bósnia foi o André, aquele avançado que jogou no Benfica. Era para o ser 2-0 e o André sem saber o que fazer com tanto palavrão na cabeça dele, eheheheh. Pobre André, ouviu de tudo.

Saíste do Marítimo para onde?
Porto.

Grande salto.
Olha, estive várias vezes para assinar pelo Sporting, só que o negócio nunca se fez por isto ou aquilo, sempre dinheiro. E também estive para sair para o Porto ainda na época do Mourinho.

Xiiiiii.
Imagina só, tinha ganho aquilo tudo. Só que houve um jogador que foi para lá no meu lugar.

Quem?
O Maciel, da União Leiria.

Chegaste ao Porto em que altura?
Olha só, naquela época do Del Neri, Fernández e Couceiro, o Marítimo negociou Pepe e Léo Lima. Eu fui depois, em 2005-06.

Sensações?
Aquilo estava um barril de pólvora, com o rastilho muito curto. Imagina, o Porto ganha tudo em 2004 e depois não ganha nada em 2005. Grande volta, não? Pois é, entrei nessa altura. Caraaaaamba, eheheheheh.

Isso é Co Adriaanse, certo?
Certíssimo.

Eras titular?
Eu, Jorginho, Postiga e Lisandro López.

Quaresma no banco?
Nos primeiros dias, o Quaresma deu uma trivela em que a bola saiu-lhe bem e tudo, só que o Co Adriaanse disse-lhe ‘isto não é nenhum circo’. O pessoal ‘porra, este gajo não gosta de futebol’. Banco, Quaresma.

E contigo?
Uyyy, gritava.

Continuavas a rir-te nos treinos?
Agora com a cabeça baixa.

Imagino.
Uma coisa tem de se dizer sobre ele: só jogavam os que estavam em melhor forma. Agora, também tinha as suas loucuras.

Como por exemplo?
Não queria ganhar por um. Delirava com um 5-5 e dizia-nos ‘é isso que leva o público aos estádios, a excitação do golo’.

Ele falava o quê?
Inglês.

E sempre com a cara fechada?
No início, sim. Zero sorrisos. Depois, a meio da época, lá se começou a libertar.

Nos treinos e nos jogos?
Ele tinha treinos loucos.

Na pré-época com o Co Adriaanse, acordávamos às 7h30 e íamos logo andar de bicicleta uns 3 km até ao bosque. Azar dos azares, apanhámos o maior calor na Holanda dos últimos 50 anos. Aquilo era sufocante, uns 30-e-tal graus. Depois, corríamos uns 6 km. Tomávamos o pequeno-almoço e íamos descansar um pouco. Às dez, mais um treino. Almoçávamos ao meio-dia e treino à tarde. Pedíamos para regar a relva, porque assim o esforço era menor, e ele dizia que a água na Holanda estava muito cara.

Como assim?
Na pré-época, acordávamos às 7h30 e íamos logo andar de bicicleta uns 3 km até ao bosque. Azar dos azares, apanhámos o maior calor na Holanda dos últimos 50 anos. Aquilo era sufocante, uns 30-e-tal graus. Depois, corríamos uns 6 km. Tomávamos o pequeno-almoço e íamos descansar um pouco. Às dez, mais um treino. Almoçávamos ao meio-dia e treino à tarde. Pedíamos para regar a relva, porque assim o esforço era menor, e ele dizia que a água na Holanda estava muito cara.

Chi-ça.
Quando se tratava de treino com bola, era sobretudo finalização. Botava o guarda-redes para a baliza e metia os jogadores a rematar sem parar. Pimba, pimba, pimba. Na pré-época, meu Deus, sugou o nosso sangue.

E os jogos?
Nessa pré-época, ele dizia-nos para ganhar por dez de diferença.

Dez?
Era o acordo dele com a equipa para evitar a corrida no bosque pela manhã.

Alguma vez deram 10?
Nunca, o máximo foi nove. Nessa tarde, nós corríamos que nem um desalmados atrás da bola à procura do décimo e o adversário a pensar que éramos malucos. E com razão, eheheheh.

E o Co Adriaanse?
A dizer para o árbitro ‘finish, finish’. Quando realmente acabou, com 9-0, caímos todos para o chão. O esforço tinha sido brutal. Para uma pré-época, quero dizer. Ele chegou-se ao pé de nós e disse ‘very good spirit’. E nós, opa, queres ver que não vai haver passeio amanhã. Logo a seguir, ele matou-nos. ‘But, nine’ e fazia o gesto com as mãos como quem diz que falharam o objetivo. Na manhã seguinte, todo o mundo cheio de azia a correr no bosque.

E à tarde, alguma borla?
Nem pensar. Ele queria que fizéssemos uma corrida de uma ponta à outra do campo em poucos segundos. Aquilo era um desafio pesado, ainda por cima no final de um treino de intensa pré-época. Ele chamou-me e disse-me ‘Alan, desta risca até ali.’ Eu recuei um pouco, ia fazer mais do que ele pedia. Ele olhou com uma cara de ‘good, good’.

Foram campeões?
De tudo. E à vontade. E jogávamos muito. Só falhamos na Liga dos Campeões, num grupo acessível em que até perdemos em casa com o Artmedia, depois de ter estado a ganhar 2-0. Foi feio. Mais feio foi um outro dia, já estávamos com uns 10 pontos de avanço no campeonato e empatámos 0-0 com o Rio Ave. No dia seguinte, os adeptos do Porto lançaram um very light no carro do Co Adriaanse. Ele ficou maluco, mas aguentou até ao final dessa época.

E a época seguinte?
Era ele, mas saiu ainda na pré-época.

Por ele?
Foram uns assuntos internos. Houve um jogo de pré-época com aquele desafio de ganhar por dez. Como estávamos perto de atingir o objetivo, íamos a todas as bolas como se fosse a última. O adversário, da 2.ª ou 3.ª divisão holandesa, estranhou e começou a dar pau, sobretudo no Raul Meireles. Nós respondemos à letra, com o Pedro Emanuel a dizer ‘chega neles’ ao Bruno Alves. Olha quem, eheheheh. Deu confusão, claro, e o Co Adriaanse queria castigar-nos com uma caminhada até ao hotel.

Qual era a distância?
20 km.

Ouch.
Eheheheheheh.

No hotel, à hora do jantar, era o Co Adriaanse que dava a ordem para os jogadores servirem-se do buffet. Nessa noite, sentámo-nos e esperámos pelo sinal. Ele e todo o staff técnico passaram pela gente, serviram-se de sopa, sentaram-se na mesa e começaram a comer. Nós a olhar para ele como quem diz 'quando é a nossa vez?' Ele levanta-se outra vez, serve-se do prato principal, senta-se e recomeça a comer. Às tantas, o Vítor Baía tomou então uma decisão e levantou-se da mesa, em direção ao quarto. Nós fomos todos atrás dele. E o Bosingwa 'pô, nem uma batatinha?'

E isso aconteceu?
Não, isso não. No hotel, à hora do jantar, era o Co Adriaanse que dava ordem para os jogadores servirem-se do buffet. Nessa noite, sentámo-nos e esperámos pelo sinal. Ele e todo o staff técnico passaram pela gente, serviram-se de sopa, sentaram-se na mesa e começaram a comer. Nós a olhar para ele como quem diz ‘quando é a nossa vez?’ Ele levanta-se outra vez, serve-se do prato principal, senta-se e recomeça a comer.

E vocês, nada?
O Vítor Baía, o capitão, estava à espera do sinal, só que ele não olhava para a gente. De maneira nenhuma. O Vítor tomou então uma decisão e levantou-se da mesa, em direção ao quarto. Nós fomos todos atrás dele. E o Bosingwa ‘pô, nem uma batatinha?’

Beeem, grande espírito de equipa.
Éééééééé. O Vítor telefonou ao presidente e o jantar foi-nos servido nos quartos. No dia seguinte, o Co Adriaanse despediu-se da gente à hora do pequeno-almoço.

Chega o Jesualdo. Jogavas com ele?
Menos. Ia sempre para o banco. Disse-lhe ‘pô, mister, agora trabalho num banco’ e ele ‘mas estás a ganhar um dinheirinho’. Era boa onda, o Jesualdo.

Saíste do Porto?
Fui emprestado para o Vitória, em Guimarães.

Tinha feito a pré-época com o Porto, na Alemanha, e os alemães gostaram de mim. Ainda pensei numa transferência para o futebol alemão, só que o Porto disse que eu ia para o Braga. Ou sim ou sim, não havia como dizer não. Como o Vitória aliou-se ao Benfica e entrou em guerra com o Porto, quiseram mandar uma ferroada ao Vitória e mandaram-me para aqui. Até hoje

Aventura boa?
Foi o Cajuda que me chamou, acabámos em 3.º e apurámo-nos para a Liga dos Campeões. O nosso avançado era o Ghilas, que corria para caramba e xingava todos os defesas desde o primeiro minuto de jogo. Era doido, o cara.

E daí para o Braga?
Foooooi, o Vitória aliou-se ao Benfica e entrou em guerra com o Porto. Aí, o Porto quis mandar uma ferroada ao Vitória e mandou-me para aqui.

Até hoje.
Eheheheh, há males que vêm por bem. Ainda estou aqui e bem, muito bem.

Foi fácil a mudança de Guimarães para Braga?
Tinha feito a pré-época com o Porto, na Alemanha, e os alemães gostaram de mim. Ainda pensei numa transferência para o futebol alemão, só que o Porto disse que ia para o Braga. Ou sim ou sim, não havia como dizer não.

Pois, estou a ver.
Sentia-me desconfortável, a trocar um clube por outro da mesma região, só que o pessoal aqui de Braga recebeu-me bem.

Era quem o treinador?
Jesus.

Porreiro?
Chegou ao pé de mim e disse ‘então, vamos dar uma corrida?’. Lá fomos e eu a pensar ‘olha-me este velho a tentar ir ao meu ritmo’. Comecei a dar uma aceleradinha e ele ‘ei, calma aí, é só para conversar’. Eheheheh. Começou a perguntar-me se estava bem, se a pré-época tinha corrido bem etc etc. Minutos depois, diz-me que vou começar a treinar com o resto do plantel no dia seguinte. E botou-me na equipa principal logo no primeiro jogo.

Correu bem?
No campeonato, nem por isso. Na Europa, chegámos aos ¼ final da Taça UEFA. Eliminámos o Portsmouth, por exemplo. É o jogo em que Jesus faz o sinal de quatro na direção do banco deles. E eu a pensar ‘não atiçes os caras’. Eheheheh. Também jogámos com o Milan e perdemos com um golo do Ronaldinho no último minuto. No fim do jogo, ele deu a camisola ao Jesus, ainda no banco de suplentes. São amigos desde os tempos do Estrela.

E a seguir ao Jesus?
Veio o Domingos. Fomos eliminados bem cedo por uma equipa sueca, na pré-eliminatória. Acho que perdemos os dois jogos e todos começaram a desconfiar da gente, só que demos a volta por cima.

É a época 2009-10?
Isso aí, ficámos em segundo lugar do campeonato e adiámos a festa do título do Benfica até à última hora. Mas esse é um campeonato que devia ser revisto, tantas foram as histórias por fora.

Quais?
A história do banco de suplentes, a história do túnel.

Xiiii, pois foi.
Foi o Braga-Benfica, em que o comité suspendeu o Vandinho e o Mossoró. Falaram que o Vandinho agrediu, mas ninguém viu. Pegou quatro meses, acho.

E tu, onde andavas?
Fui cumprimentar o Ramires no final do jogo e ele fez um teatro danado, como se lhe tivesse dado um tapa. Depois fui falar com o Jesus para acalmar o pessoal e ele só me dizia ‘vocês só jogam bem contra a gente’. Como se isso fosse pouco, teve a briga. O assunto arrastou-se e até fui interrogado para saber se tinha agredido ou não o Ramires. Pegaram o Vandinho, capitão, por quatro meses e o Mossoró por cinco jogos. Foi pesado para a gente, perdemos dois titulares, e o Benfica nada. Aí é tramado. Mesmo assim, lutámos até ao fim.

[terceira interrupção de um adepto para apertos de mão, fotografias, elogios, pancadas nas costas e afins; vida de craque é f***]

A vingança serviu-se fria no ano seguinte?
Ahhhhhh rapaz, aí foi bom. Na meia-final da Liga Europa, calhámos com eles. Na Luz, perdemos 2-1 com um golo de cabeça do Vandinho. Digo-te, o Vandinho não cabeceava nada. Nada, nada. Zero, ele fechava os olhos. A bola bateu-lhe na nuca e nós dissemos uns para os outros ‘é agora, vamos ganhar finalmente ao Benfica’.

[quarta interrupção de um adepto para apertos de mão, fotografias, elogios, pancadas nas costas e afins; quem é craque da bola, não tem descanso]

E ganharam.
Jogão em Braga, tanto nosso como deles. Canto e golo de cabeça do Custódio. Eles tentaram, tentaram, tentaram e não conseguiam entrar na nossa área. Perto do fim, o Vandinho dizia que não aguentava. Aguenta, aguenta, dizíamos uns para os outros. E aguentámos. Quando o árbitro apitou para o fim, caímos todos de cansaço, alívio e felicidade.

O Braga na final da Liga Europa.
Grande feito. E quem nos acompanha para a final? Caiu o Porto [Alan faz uma careta].

É mau?
Preferíamos uma equipa desconhecida, claro. Acho que era o Villarreal, o adversário do Porto na ½ final.

Vocês estavam fartos do Porto, não?
Nunca tínhamos sorte com o Porto. Nem em Dublin. Falhámos um golo na cara do Helton, num jogo entroncado entre duas equipas que se conheciam muito bem. Fizemos tudo para ganhar, só que não deu. Foi pena, faltava aquela assinatura para sair em beleza.


Calma, vingámo-nos do Porto. E por duas vezes, na final da Taça da Liga e na final da Taça de Portugal.

Pois foi, 1-0 na Taça da Liga. Com um penálti teu.
Fooooi. E foi uma pressão danada, porque tinha falhado um penálti na ½ final, com o Benfica. Bati forte e o Artur defendeu. Quando chega a hora do penálti, há aquela do quem vai bater, quem vai bater. Digo ao Mossoró para segurar a bola e recuo no campo, com o Peseiro a fazer sinais a dizer que era eu quem devia bater. O Fabiano, guarda-redes do Porto, atira-se ao Mossoró ‘vou pegar, vou pegar’ e vira as costas. Quando chega à linha de baliza e dá meia volta, estou eu com a bola na mão.

Uyyyy, suspense.
Ouço o Helton a dar instruções ao Fabiano desde o banco e eu ‘ò Helton, ’tá bem ’tá’. Avancei, atirei devagarinho e o Fabiano foi para o outro lado.

Um-zero.
Intervalo logo a seguir. Na segunda parte, dominámos uns 25 minutos e criámos mais que situações suficientes para o 2-0. Na parte final, o Porto avança finalmente e decidimos só meter um homem lá na frente. O resto é tudo cá atrás. Foi segurar, segurar, segurar. Quando acabou, nem sabia como festejar.

Ehehehehe.
Foi bonita a festa no relvado, com toda a família.

No ano seguinte, o Braga perde aquela final da Taça de Portugal para o Sporting.
Que sensação horrível, perder uma final a ganhar 2-0 e contra dez.

Lembras-te do quê?
O Sporting fez 2-1 e eu pensei que ainda desse para controlar. O Sporting vai e faz o 2-2 no finalzinho. Quando vamos para prolongamento, continuámos ao ataque. Nos penáltis, todo o mundo já estava meio assim desanimado. Olhava para eles e nem os reconhecia. Perguntam-nos quem é o primeiro e eu assumo.

Tu?
Fui o primeiro a bater. Se eu falhasse, ia ser a pior coisa porque ia deixar a malta toda mais nervosa. Fui e marquei ao Patrício. Eles vão e 1-1. Falham André Pinto, Éder e Salvador. Só eu é que marquei, putz.

Sérgio Conceição era o treinador. Que tal é?
Tem o estilo dele, né? Ferve em pouca água.

Fervia contigo?
Fervia, também. Fervia muito, só que a gente já sabe levar. É a experiência a falar mais alto, mas pronto.

Um ano depois, a mesma cantiga do 2-0 para 2-2.
Nesse dia do Sporting, saí completamente em baixo. Estava em final de contrato e nem sabia se ia voltar ao Jamor.

E então?
Renovei o contrato e voltámos ao Jamor. Agora com o Porto. Logo no início, 2-0. O Porto morto, morto, morto. Na segunda parte, 2-1 do André Silva e 2-2 do André Silva. Ahhhh não, de novo.

Penáltis?
Disse-lhes logo que não ia ser igual ao desempate do ano passado. Vamos tirar isso da cabeça, falei logo. Águas passadas não movem moinhos, não. Vamos lá, vamos lá.

O que mudou de cabeça de um ano para o outro nos penáltis?
Não se explica, é o momento. Nas duas vezes, estávamos no fundo do poço e só conseguimos dar a volta uma vez. A maior diferença é atitude dos adversários: o Sporting estava com a cabeça fresca e o Porto sem cabeça, resultado de uma época com maus resultados. A chave foi essa.

Bateste o primeiro penálti?
Nem bati, fui suplente nesse dia. Eles marcam, nós marcamos, eles falham, nós marcamos, eles marcam, nós marcamos, eles falham e nós todos a rezar pelo Marcelo [Goiano]. Ele bate bem, o Helton adivinha o lado, só que a bola é bem metida. Foi um momento mágico, inesquecível. A festa no relvado, a festa no balneário, a viagem de autocarro para Braga, a viagem no autocarro aberto em Braga.

Isso não é a época em que marcas dois golos ao United, em Old Trafford?
Pois é, que noite. Encontrei-me com o Anderson, aquele do Porto, antes do jogo, e disse-lhe ‘ó, vou deitar e rolar, vou fazer um golo’.

Confiança, hein.
Olha só o Anderson para mim: ‘um não, você vai fazer dois’.

Dupla confiança.
Pô, isso é demais, não? O Anderson insiste nos dois e pede-me para lhe dar um abraço ao banco. Ao banco deles, que doideira é essa? E ele ‘então faz só um sinal na minha direção’. Bom, a verdade é que chego lá e golo de cabeça, após cruzamento do Hugo Viana, 1-0. Pimba. A maior festa e, a caminho do meio-campo, viro-me para o banco a fazer o tal sinal. O Anderson aos saltos e os caras do Manchester a olhar para ele, lógico. Daí a pouco, o Éder dá um nó cego na linha, cruza e eu avanço para o primeiro poste. Pimba, 2-0. Havia alguém que dizia no meio da festa ‘só espero que este sonho não acabe’.

Acabou quanto?
Antes do intervalo, 2-1 para eles. Na segunda parte, 2-2 e 3-2. Deram a volta, era um Manchester United de categoria: Vidic, Giggs, Kagawa, Rooney, Carrick, Nani, Van Persie, Chicharito. Nem lembrei mais dos meus dois golos, fiquei puto com o resultado. Só quando cheguei a Braga é que liguei o telemóvel e vejo o monte de mensagens a falar bem dos golos. Aí, sim, resolvi ver os golos. Bonitos, sim. Eheheheheheh.

Também marcaste ao Galatasaray, em Istambul.
Bem boa, essa noite. Ganhámos 2-0.

Uauuu, calaram os turcos?
Huuuum, nada, eles continuaram a cantar o tempo todo. E, dentro do campo, o Felipe Melo bateu forte em toda a gente. Marcou o Ruben Micael e depois eu, a passe do Éder.

Como é que viveste o golo do Éder à França?
Xiiiiiiii, que maravilha, foi o que mais mereceu. Depois de tudo o que se passou, de o compararem a um poste, a um cone e isso, enchi-lhe o telemóvel de mensagens, tipo ‘calou todo o mundo, agora todos gostam de você’. O Éder já passou por muito, desde pequeno. Como futebolista, partiu um pé, quebrou o joelho e nunca desistiu. Nunca, isso é inesquecível.

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