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Albano Jerónimo, um dos atores mais aplaudidos da sua geração, estreia-se agora numa produção do serviço de streaming com mais assinantes a nível global

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Albano Jerónimo, um dos atores mais aplaudidos da sua geração, estreia-se agora numa produção do serviço de streaming com mais assinantes a nível global

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Albano Jerónimo: “Estamos numa máquina de lavar. Quando o programa acabar, vamos perceber que peças somos" /premium

Prestes a estrear “The One”, a sua primeira série para a Netflix, Albano Jerónimo fala da ambição internacional, de como a pandemia o mudou, da vontade em realizar e da imagem que tem de si próprio.

É em casa, com papos nos olhos — sinal de uma noite curta — que Albano Jerónimo enrola um cigarro, vai para o jardim e liga a câmara do telemóvel para falar da personagem mundana que integra o elenco de “The One”, o seu primeiro trabalho numa série da Netflix, a mesma que conta com outro ator português, Miguel Amorim. Com estreia marcada para o dia 12 de março, a história mostra como a ciência pode ser usada em busca do amor e é a na crista das ondas do mar de Tenerife que o ator dá vida a um professor de surf. Depois de em 2017 ter sido Euphemius, um guerreiro grego na série “Vikings”, numa coprodução entre a Irlanda e o Canadá, este parece ser mais um passo em direção a uma carreira internacional.

Albano Jerónimo estreia-se na Netflix com “The One” a 12 de março

Há um ano, um vírus instalou-se, em tudo e em todos, e graças a ele Albano Jerónimo viu projetos profissionais serem adiados, digressões canceladas e uma oportunidade irrepetível para se reinventar. Aproveitou a adversidade para se confrontar com a suas próprias escolhas, colocou-as em causa e “peneirou a vida”. Garante que a pandemia o está a mudar enquanto homem, no respeito pelo outro e pela sua profissão, não sabe que consequências estão por vir, mas admite que este é o momento certo para se recomeçar do zero. “Estamos numa máquina de lavar a roupa e quando o programa acabar vamos perceber que peças somos, se encolhemos, se alargamos ou se tingimos.”

Aos 41 anos, não se inibe de apontar o dedo às políticas culturais, ou à falta delas, apresenta soluções concretas e mostra-se um “otimista cético”, como diria Jorge Palma, em relação ao futuro. Gosta de se ver como um “agente da comunicação”, quer chegar ao maior número de pessoas possível e por isso aproveitou o confinamento para aprender a tocar um instrumento e aperfeiçoar algumas línguas, ferramentas que acredita aumentarem o seu alfabeto artístico. Se uns o veem como um galã das novelas, outros associam-no a um intenso ator de teatro, Albano dispensa rótulos redutores e prefere não ficar preso a nada. “Faço destes meus papos e destas minhas rugas, que são cada vez mais marcadas, o meu palco e o meu mapa. É isto que me vai diferir de fazer um Hamlet ou um gajo da Finlândia.”

O erro e o medo continuam a ser os seus melhores amigos, tanto na vida como no palco, diz-nos, onde o teatro continua a ser a sua matriz e a criação pode ganhar ainda mais protagonismo. Este ano, vamos poder vê-lo a encenar “Orlando”, de Virgina Woolf, pelo coletivo Teatro Nacional 21, a interpretar Álvaro de Campos no filme “The Nothingness Club” de Edgar Pêra, ou a explorar o humor negro ao lado de Bruno Nogueira, na SIC. Pelo meio, Albano Jerónimo promete continuar a caminhar inquieto e insatisfeito, aqui e lá fora, levando na bagagem a sua urgência em comunicar o que não está bem.

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Trabalhar noutros mercados é, para o ator português, "um espreguiçar" da sua vontade em fazer o que mais gosta: representar

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Como se vai parar a uma série da Netflix?
Com muito trabalho, muita dedicação e com uma equipa de agentes internacionais, é um investimento permanente. Como ator de teatro, já com mais 20 de anos de percurso, chega a uma altura em que começo a otimizar um pouco a minha função e o meu trabalho, começo a apontar baterias para outros mercados. Não é encarado como um sonho de trabalhar lá fora, é mesmo algo que se vai construindo, estamos a falar de um investimento de cinco anos que agora começa a dar frutos. Passei por uma produção espanhola, por outra francesa, pela HBO, nos “Vikings”, e agora chego à Netflix.

Era um objetivo? Uma meta por cumprir?
São pequenas vitórias e pequenas conquistas que se vão angariando, são sempre estímulos, mas não é o objetivo. Digamos que o objetivo primeiro é trabalhar noutros mercados, contactar com outras pessoas e com outras formas de estar na profissão. Isso dá-me uma outra maneira de abordar o trabalho e aquilo que faço, esse, sim, é o objetivo, ter experiências que me enriqueçam.

Mas isso não passa necessariamente por apostar numa carreira internacional?
Digamos que é uma espécie de preguiçar desta minha vontade, é uma consequência. Tal como há uns anos não me passava pela cabeça encenar e agora estou a encenar, tal como daqui a uns anos gostaria de realizar. Usando a imagem do espreguiçar, é abrir o corpo todo para começar a expandir aquilo que mais amo fazer na vida.

Em que medida é que fazer esta série para uma gigante como a Netflix é diferente de tudo aquilo que já fez?
Passa primeiramente por uma perspetiva orçamental, que me confere enquanto ator uma liberdade incrível no trabalho final. Ou seja, ao passar pelos vários departamentos criativos, como maquilhagem ou cabelos, chego a uma fase, antes de entrar no plateau, em que olho ao espelho e já tenho 70% do meu trabalho feito, só tenho mesmo que otimizar a minha função de ator com o texto e noutra língua, que é outro desafio. É consideravelmente diferente pensar e trabalhar em português. São tudo formas que me deram uma liberdade maior naquilo que faço, não me condicionou. Quando usamos tudo o que há de melhor no mercado, temos a certeza que o nosso trabalho, naquilo que não depende de nós, está salvaguardado. A partir daí há uma liberdade tremenda para espreguiçar e para expandir.

[o trailer de “The One”:]

O que foi mais desafiante? A língua?
Não, necessariamente. Talvez por vir de um mercado como Portugal, que neste momento tem vários atores a dar os primeiros passos, por vezes isso tem um lado muito positivo que é o facto de ser encarado como uma espécie exótica que de repente aparece no panorama internacional e desperta alguma curiosidade. Por outro lado, também acarreta alguma insegurança para quem nos contrata, porque não nos conhecem. Contudo, a partir do momento em que começam a trabalhar connosco dizem que somos altamente treinados e especializados, falamos várias línguas e temos uma experiência teatral importante. No meu caso, um dos realizadores dos “Vikings” que era o mesmo do “Game of Thrones”, uma vez, antes de começarmos a filmar, olhou para o meu curriculum e disse-me: ‘já reparei que és um ator de teatro, não vamos ter problemas nenhuns’. Há uma valorização diferente daquilo que vou fazendo, cá em Portugal nunca me disseram isto. Pensamos que há uma espécie de bloqueio, mas quando se começa a trabalhar no duro percebe-se que essas dificuldades existem maioritariamente na nossa cabeça. A língua poderia ter sido uma problema, no meu caso não foi. O mais difícil acho que foi mesmo ter filmado em Inglaterra, que é um país extremamente frio, filmámos em Bristol e em Newport, que é uma zona marítima super agressiva e depois rodámos no inverno. O mais duro desse processo foram as viagens, estava a fazer a “Morte de Danton”, no Teatro Nacional de S. João, no Porto, e aproveitava as folgas para viajar. Toda essa carga foi bastante exigente.

“The One” é uma série ficção científica e a sua personagem faz par romântico com a protagonista. Como a construiu?
Esta série baseia-se numa organização de cientistas que descobre que somos o par perfeito com alguém, noutra parte do mundo, que está no nosso ADN. A partir daí, há toda encenação mais técnica e burocrática, onde o poder político é associado ao poder social e ao controlo diplomático. Eu dou o lado mais mundano, uma perspetiva mais urbana e mais simples, contrastando precisamente com esse lado técnico. Faço um professor de surf e sou o perfect match da diretora dessa organização de cientistas, sou o comum dos mortais que de repente entra nesta dinâmica técnica. Graças a isso, há um volte face total onde muda a fotografia, o set e a língua, mas há um paralelismo entre uma coisa e outra.

Já sabia fazer surf?
Já tinha começado um ano antes por livre e espontânea vontade, então vi ali uma oportunidade de juntar o útil ao agradável. Ainda por cima o surf é um desporto que tem um contacto brutal com a natureza, foi mesmo dar continuidade a esse desejo e a esse gosto. Só tivemos de usar duplos numa cena específica porque o mar estava particularmente picado, mesmo os surfistas profissionais que lá estavam disseram que nem eles entrariam naquele mar, mas tiveram que entrar. Foi um bocadinho assustador.

Essa cena foi gravada onde?
60% do meu percurso é filmado em Tenerife, depois os outros 40% é tudo em Londres, entre Bristol e Newport, durante o inverno passado. Tive de fazer uma cena que estava pendente, então mandaram a equipa toda a Lisboa e acabámos a série cá, foi mesmo por um triz que não apanhámos este segundo confinamento que estamos a viver.

"Não há nada mais triste na minha profissão, e até na vida, do que ficar preso a coisas, a formas, a tiques, a atitudes e a discursos. Eu quero errar, acho sinceramente que o erro é dos melhores amigos que tenho na vida porque me possibilita uma janela brutal de conhecimento, que me faz reeducar permanentemente."

Falando precisamente do momento que estamos a viver, que impacto tem tido esta crise pandémica no seu trabalho? É daqueles atores que está habituado a trabalhar a um ritmo frenético, isso foi alterado?
Alterou totalmente, veio sobretudo expor ainda mais a carência desta profissão e a fragilidade do meio. Tudo isto potenciado pela ausência de uma visão de fundo para a cultura no país e tudo isto foi aguçado com esta pandemia. De uma forma direta, tudo o que eram projetos teatrais foram adiados, houve digressões canceladas, séries e filmes que adiaram duas ou três vezes. Normalmente consigo ter uma perspetiva de um ano e meio de trabalho e de repente isso pura e simplesmente desapareceu. No entanto, estas circunstâncias deram, a mim e à minha estrutura, que é a Teatro Nacional 21, uma grande força de nos reinventarmos. Fizemos três espetáculos online, um deles criado de raiz só para este formato e criámos três bolsas de apoio para jovens artistas. Lembro-me que no ano passado, no Dia Mundial do Teatro, criámos uma programação online para o dia todo, com peças, conversas e leituras, encaramos estes momentos adversos como um estímulo para nos reinventarmos. Tudo isto não branqueia nem apaga a realidade, no sentido em que o nosso dia a dia está cada vez mais precário e o facto de a nossa profissão não estar devidamente legislada veio tirar-nos a pouca roupa que tínhamos no corpo. Neste momento, é uma profissão onde é preciso ter muita sorte, resiliência, um grande espírito de luta e de entre ajuda. Só para dar um exemplo: já contribui com várias ações de ajuda a colegas meus, seja com cabazes de comida ou monetariamente. As verdadeiras consequências, íntimas e emocionais, acho que vamos tê-las daqui a uns tempos. O que estamos a fazer agora é lidar com o prejuízo permanentemente, já há décadas que assim é na cultura, mas hoje em dia é algo que se sente de forma mais crua.

Como se gere essa incerteza e a falta de expectativa?
Com muita inquietação e com muito espírito de luta. Venho de um bairro pobre, fui criado numa vila piscatória, onde era tudo muito pobre, então desde muito cedo que estou habituado a fazer das adversidades mais valias, ou seja, fazer dos meus erros aquilo que me diferencia no mundo. A partir dessa ideia encaro estes tempos como momentos de reinvenção e de confronto pessoal. Acho que este momento me deu a possibilidade única de me confrontar com as minhas escolhas, isso é muito interessante porque consigo recentrar, fazendo uma espécie de update daquilo que posso sou não fazer, revendo as minhas próprias prioridades e colocando as minhas escolhas em causa também. A pandemia é uma forma de peneirarmos a vida e de ver aquilo que queremos ou não para nós.

Nos últimos anos, tem tido a sorte ou o privilégio de poder escolher os seus trabalhos. Com esta nova realidade, sente que isso pode estar em causa? É algo que o preocupa?
Essa é uma luta constante. Na qualidade de freelancer, tento sempre juntar o melhor dos mundos, fazendo algo que me dê prazer e onde a minha liberdade artística não esteja em causa. Há uma perspetiva que me interessa manter no meu percurso que é poder escolher aquilo que quero fazer, mas isso é quase uma utopia. Estes tempos vieram dificultar essa escolha, contudo o facto de fazer televisão no formato novela quase há dois anos e meio dá-me um confronto com aquilo que tenho e aquilo que quero fazer. A minha matriz é o teatro, mas o cinema tem surgido cada vez mais, nomeadamente depois da “Herdade”, um projeto que permitiu que algo se encerrasse no meu percurso  e me fez encetar outro caminho. Vou lutar sempre por poder escolher fazer aquilo que mais quero e me dá maior prazer, mas não garanto que de um dia para o outro venha a precisar financeiramente de todos os meses ter uma garantia e falo obviamente em projetos televisivos que são mais certos nesta dinâmica financeira. O meu desejo, e aquilo que tenho estado a viver nos últimos quatro anos, é optar por aquilo que quero fazer, nesse sentido sou um privilegiado, mas é um privilegio que se trabalha. Sou de um meio humilde, não tenho posses financeiras para poder estar em casa e escolher aquilo que mais quero fazer, por isso, é uma luta permanente, mas que até agora tem resultado.

Abordar temas sociais, como a igualdade de género, as minorias ou as diferenças sociais, pode ser um barómetro para essas escolhas?
Acho que sim. A melhor forma de falar sobre estes temas, e que não seja uma coisa panfletária, é criar imagens quase grotescas em cena para expor os mecanismos e os pensamentos destes Venturas, Bolsonaros, Trumps e Putins da vida, é mostrar o modus operandi destas cabeças. Ao desmontar o raciocínio destas estruturas que se vão agigantando, ligamo-nos de outra forma com o espetador. Enquanto agente cultural e agente de comunicação, que é como gosto de me ver quanto ator, é fundamental pegar em assuntos que não estão bem, que são fraturantes entre mim e o outro, porque pretendo deitar abaixo estes guetos e estes muros para falar sobre outras coisas maiores do que nós. Acredito que existe uma liberdade na diversidade cultural, acredito numa sociedade plural e livre, onde todos possamos habitar o mesmo ecossistema. Em última análise, como pai, quero lutar por um mundo melhor.

Bastante crítico das políticas culturais do país, o ator desafia a ministra da Cultura, Graça Fonseca, a acompanhar um processo de trabalho em teatro

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O ato teatral é quase sempre político, agora, neste contexto, torna-se ainda mais?
O teatro é sempre político, acredito que em vez de apoiar a campanha de X ou Y, a minha resposta social numa perspetiva política passa sempre por aquilo que faço. Obviamente, a pertinência do nosso trabalho adensou-se, não sei se nessa perspetiva política, mas poderá estar mais aguçada nesse sentido. Não sei onde que é que isto vai dar, mas sei que estou diferente enquanto homem, enquanto indivíduo que faz parte de uma sociedade. A pandemia mudou-me, aliás, está a mudar-me.

Em quê?
No respeito pelo outro, no respeito pela minha profissão, na fragilidade que é inerente esta profissão, no respeito à vida e em estimar mais as pessoas que amo. Tudo isso reflete-se no meu trabalho, não consigo desassociar uma coisa de outra, porque a matéria prima é sempre a mesma. Acredito que a vida é a construção do pensamento e uma formação permanente, por isso tudo aquilo que estamos a viver vai-nos mudar enquanto espectadores e enquanto fazedores de teatro. Estamos numa máquina de lavar a roupa e quando o programa acabar vamos perceber que peças somos, se encolhemos, se alargamos ou se tingimos. Vamos perceber como tudo isso irá acabar, mas estamos conscientes deste processo e isso é importante.

A relação entre o público e a arte também pode mudar?
Tive a oportunidade de fazer alguns espetáculos e digressões com as salas a meia casa e sinto que há uma avidez tremenda, as pessoas estão com uma ressaca cultural enorme, há uma sede em sair de casa e ir a um evento cultural. O meu desejo é que isto venha potenciar esta vontade das pessoas em terem uma vida cultural mais ativa, que ir ao teatro seja como beber água, uma necessidade inerente à nossa condição. Acredito que toda esta seca nos vai aproximar, isto poderá eventualmente chamar mais atenção para as problemáticas da profissão e do meio, pelo menos estamos a trabalhar nesse sentido. O mais importante é que não se quebre a relação com o público, que as pessoas por medo ou por desconhecimento comecem a cortar nestes hábitos que são tão necessários. Espero verdadeiramente que isto possa ter uma reviravolta interessante e traga uma onda de adesão a uma vida repleta de cultura.

Perante as dificuldades, sente que o setor está unido?
No meu raio de ação e no meu círculo de amigos foi potenciada a solidariedade e a consciência pelo outro, na perspetiva de que se o outro não está bem, eu não estou bem. Adoraria que este fosse o desígnio destes tempos, que nos unisse mais, mas não sei responder a isso de forma concreta porque é meio indefinido. Que temos assistido a movimentos coletivos em prol da cultura? Sem dúvida. Que as pessoas estão cada vez mais desesperada e unidas nesse desespero? Sem dúvida. Agora que isso se reflita em consequências concretas já depende muito do nosso Governo e aquilo que o nosso Governo tem feito, nomeadamente na pessoa da ministra da Cultura, tem sido uma série de atitudes para separar o meio, formas de estar que dispersam a classe artística. Espero e desejo que isto se reflita de outra forma, mas vai depender muito de um diálogo estabelecido pelo espectador, se o espectador aderir acho que aí, enquanto agentes culturais, somos imbatíveis.

"Há uma ausência total de pensamento cultural para um país, há um desinteresse por estas questões, parece que não há uma identificação com a cultura. A partir do momento em que o próprio Governo não insere isso no seu Plano de Recuperação de Resiliência, percebemos a pertinência que a ideia de cultura ocupa na cabeça destas pessoas."

Nas suas redes sociais não se inibe de criticar frequentemente líderes de opinião e até a própria ministra da Cultura. Falta um planeamento estratégico?
Primeiramente acho que devíamos convidar a ministra da Cultura a assistir a um processo de trabalho em teatro, desde o início dos ensaios até ao espetáculo em si, para ver como se gerem orçamentos, a vida das pessoas e todas as dificuldades. Vamos convidá-la a assistir a isso numa estrutura pública, como o D. Maria, o São Luiz ou o S. João. Por vezes sinto que há uma distância, que os políticos são umas pessoas e nós somos outras. Somos todos pessoas, não nos esqueçamos disso. Quero acreditar que este desfasamento existe por falta de conhecimento, mas acho sinceramente que acontece por uma falta de vontade enorme em perceber o que se passa.

Qual o caminho certo a seguir?
Poderíamos cruzar o ministério da Cultura com o ministério da Educação, coisa nunca antes feita em Portugal. É incompreensível que nunca se tenham juntado estes dois ministérios, como é que não se criam ações e planos de trabalho de programas escolares com uma perspetiva cultural. Outra solução passa por se fazer um levantamento de todas as estruturas sociais e culturais que existem no país, nomeadamente no nosso interior. Esses pólos poderiam dinamizar culturalmente de forma mais ativa e consciente as próprias comunidades onde estão inseridas. Depois é necessário legislar esta profissão do princípio ao fim, o estatuto de intermitente deve ser mesmo trabalhado, desenvolvido e falado na Assembleia da República e é preciso criar um fundo concreto de apoio para a cultura, como acontece na economia, onde para o Novo Banco foi disponibilizada uma massa de dinheiro inacreditável. Não sou político, mas estando de fora espanta-me sempre que quem está dentro não tenha estas iniciativas, esta perspetivas sobre as coisas. Há uma ausência total de pensamento cultural para um país, há um desinteresse por estas questões, parece que não há uma identificação com a cultura. A partir do momento em que o próprio Governo não insere isso no seu Plano de Recuperação de Resiliência, percebemos a pertinência que a ideia de cultura ocupa na cabeça destas pessoas.

Entretanto, alguns apoios foram anunciados…
Dos 30 milhões que orgulhosamente a nossa ministra da Cultura disse que iria disponibilizar, posso dizer que tenho colegas que ainda não receberam nada desde o primeiro confinamento. Existe uma desorganização, uma falta de respeito e de consideração para com as pessoas. A solução passa muito pelo diálogo, por uma aproximação e o que se passa agora é um afastamento cada vez mais evidente. Ela disse, na entrevista que deu ao Luís Osório, que por mais que tenha soluções para a cultura, que não tem, “eles estarão sempre insatisfeitos, nunca saberei o que poderei fazer”. Isto é de uma arrogância tremenda e super ofensivo, enquanto praticarmos este tipo de raciocínio não desenvolvemos. Obviamente há que convocar as grandes estruturas culturais do país, o CCB, Serralves, a Casa da Música, o São João, o D. Maria e criar de facto um pensamento entre elas, mas não há sequer um vislumbre de um horizonte deste género, estamos a remediar permanentemente. A pandemia é uma grande oportunidade para se fazer um reset e recomeçar do zero e isso não está a ser aproveitado.

Para Albano, os diretos no Instagram de Bruno Nogueira são uma espécie de "placebos que não podemos deixar nunca"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Há quem o veja como um galã e um sex symbol, outros veem-no como um intenso e completo ator de teatro. Que imagem tem de si próprio?
Neste momento, vejo papos nos olhos, porque estive a trabalhar até tarde, uma ferida no nariz, que foi feita pelo Bruno Nogueira na série que fizemos para a SIC, uma falha na barba… Galã? Não é bem a minha zona. Acredito que o meu trabalho é sobre a comunicação, aquilo que eu faço é algo que está acima de mim. Nesta perspetiva, sou uma espécie de peça de barro que vai sendo moldado por um realizador, um encenador, um texto ou um autor. O que me interessa é fazer coisas que não são do meu conhecimento, que estão fora da minha zona de conforto, os rótulos são redutores, reduzem o meu trabalho, o meu ângulo e o meu raio de comunicação. Quero chegar ao maior número de pessoas possível e se me moldar a uma forma de estar, se criar uma persona social, e há muitas pessoas no meio que o fizeram e são reféns dela, acho que vou ficar um fóssil e eu não quero fossilizar. Não quero ficar preso a dogmas ou a formas de ver o trabalho ou os outros. Não há nada mais triste na minha profissão, e até na vida, do que ficar preso a coisas, a formas, a tiques, a atitudes e a discursos. Eu quero errar, acho sinceramente que o erro é dos melhores amigos que tenho na vida porque me possibilita uma janela brutal de conhecimento, que me faz reeducar permanentemente. Faço destes meus papos e destas minhas rugas, que são cada vez mais marcadas, o meu palco e o meu mapa. É isto que me vai diferir de fazer um Hamlet ou um gajo da Finlândia.

Tem conseguido alcançar esse poder de comunicar?
Preso muito a minha liberdade, se estiver solto destas coisas todas, acredito que posso comunicar melhor e assim chegar a mais pessoas. Gosto muito de ser visto como um agente de comunicação. O Romeo Castellucci diz que o trabalho dele enquanto encenador começa quando o som sai da boca do ator e percorre o caminho até ao público, ele trabalha nesse arco. Esta franja que ele fala é exatamente a minha zona de trabalho. Penso como é que isto chega ao público? Com que qualidade? Com que intenção? É muito delicado, são precisos muitos anos, não tenho idade para ser especialista nesta zona, mas para lá caminho.

Que projetos se mantiveram este ano e quais os que ficaram pelo caminho?
Há uma mão cheia de coisas que foram adiadas, entre elas o filme do Rodrigo Areias, achamos por bem adiar esse filme porque o queremos fazer sem máscaras. No primeiro confinamento, fiz um filme com o Edgar Pêra, o trabalho dele não é nada linear, está sempre à beira do erro e eu adoro isso. Chama-se “The Nothingness Club” e é um filme baseado na obra do Fernando Pessoa, desempenho o Álvaro de Campos, que é desde sempre o heterónimo que mais me fascina e mais me despenteia os sentidos. Creio que vai estrear ainda este ano, é um filme que tenho muita expectativa, não quis ver nada durante as filmagens, por isso, estou curioso sobretudo pelo trabalho feito, pela entrega que houve. Pelo sentimento inerente aos tempos que vivemos, houve uma vontade tremenda de estarmos ali, tenho quase a certeza que isso se vai refletir no resultado final. A peça “Orlando”, que estou a encenar no Teatro Nacional 21, mantém-se e vai estrear no final do ano, depois iremos fazer uma digressão com ele pelo D. Maria, Rivoli, Viseu, Viana do Castelo, Famalicão e Guimarães. É um projeto que me orgulha imenso, não só pelas temáticas inerentes ao texto da Virgina Woolf, mas pelo grupo de pessoas e artistas que se quiseram juntar a ele. Também no fim do ano vou fazer um filme com a Margarida Cardoso e uma série com o Pedro Varela, com um teor social bastante forte e que nunca foi feito em Portugal. Neste momento, estou a preparar uma coisa que ainda não posso falar abertamente, é projeto internacional que não passa pelo teatro. Estou em modo casting desde agosto, fiquei com o papel e é algo que me dá um prazer e um medo incríveis. É outro passo, vamos ver o que vai dar.

O seu trabalho no futuro pode passar mais pela criação?
Acho que sim, é uma extensão do meu amor por aquilo que faço e representa uma responsabilidade diferente. Durante o confinamento preocupei-me em tirar cursos online, em melhorar o francês, o alemão e o inglês ou a aprender a tocar um instrumento. Tudo isto faz-me ter mais ferramentas e aumentar permanentemente o meu alfabeto para comunicar e, assim, conseguir chegar às pessoas de diferentes formas. Gostava de desenvolver isto, de não ficar por aqui. Se passar por encenação, por realização ou por dar aulas, que passe. São formas de não me cristalizar, de andar sempre em movimento.

"Um dos realizadores dos 'Vikings', que era o mesmo do 'Game of Thrones', uma vez, antes de começarmos a filmar, olhou para o meu curriculum e disse-me: ‘já reparei que és um ator de teatro, não vamos ter problemas nenhuns’. Há uma valorização diferente daquilo que vou fazendo, cá em Portugal nunca me disseram isto."

Acabou agora de gravar uma série com o Bruno Nogueira para a SIC. É a primeira vez que se cruzam profissionalmente, como correu a experiência?
Adoro o Bruno, já somos amigos há muitos anos, mas, de facto, nunca tínhamos tido a oportunidade de nos encontrarmos profissionalmente. Não pude fazer os programas “Último a Sair” e “Os Contemporâneos” e agora finalmente abriu-se uma janela para trabalharmos juntos, dentro de todas as medidas recomendadas pela DGS. Foi um shot de diversão pura e dura, soube muito bem fazer isto nestes tempos. Nunca tinha feito este tipo de registo mais cómico de humor negro em televisão e fazer isto com ele foi fantástico, acho que não o poderia ter feito com outra pessoa. Estrear-me neste registo com ele foi uma coisa meio infantil, senti-me mesmo no recreio da escola.

Que efeito têm em si os diretos no Instagram com ele?
Trazem-me essencialmente uma conversa com os amigos. A quantidade de pessoas que acompanha, adere, precisa e gosta destas conversas faz-me ter um sentido de responsabilidade saudável. Há sobretudo a noção de que aquilo que estamos a fazer não é para nós, começa em nós, no Bruno neste caso, mas que tem uma expressão maior. Acrescenta-me o facto de saber que estou a fazer companhia, que estou a contribuir para algo que faz um bem que me ultrapassa. Recebo abordagens na rua e mensagens de pessoas a agradecerem, isto não tem preço. Não são as pessoas que me veem numa novela e que gostam de me ver trabalhar, são pessoas que dizem: ‘nem sabes, é isto que me tem safo a quarentena’ ou ‘vocês são a companhia para a minha família, é dos momentos altos do nosso dia’. Não posso quantificar uma coisa destas, é receber, sorrir, agradecer e continuar a estimular. Os diretos são uma espécie de placebos que não podemos deixar nunca, é um movimento espontâneo que se foi agigantando, mas só se foi agigantando por causa das pessoas e elas merecem que isto aconteça. Nestes tempos, que seja uma espécie de elixir.

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