Alfredo Cunha: “Acho que não fotografei muito bem o 25 de Abril”

23 Abril 20171.106

Tinha 20 anos quando fotografou a revolução e é dele o icónico retrato a Salgueiro Maia. Em entrevista de vida, Alfredo Cunha elogia a 'Geringonça' e recorda como "com o Dr. Soares era uma festa".

Em criança, Alfredo Cunha tinha uma certeza na vida: não queria ser fotógrafo. “Não vais a bem, vais a mal”, disse-lhe o pai, que ganhava a vida na fotografia comercial, tal como já fazia o avô. Na adolescência, percebeu que fotografar as amigas trazia frutos. Depois, na fase hippie, o alvo eram os concertos e os festivais de um país ainda sob ditadura, mas onde já se sentiam ventos de mudança.

Na madrugada do 25 de Abril, a mãe chama-o para junto do rádio para escutarem “daqui posto de comando das Forças Armadas“. Liga imediatamente para o jornal O Século, onde trabalhava, pega nas câmaras Nikon F e vai para o Terreiro do Paço, de direta, com a energia inesgotável dos 20 anos aliada à adrenalina. Ainda sem saber se o golpe é de esquerda ou de direita, aponta a objetiva para tudo o que pode. “Devia ter fotografado mais“, lamenta ao Observador, na sua casa em Vila Verde, numa divisão cheia de fotografias que tirou ao longo de 47 anos de carreira.

Dos 40 rolos saíram algumas das imagens mais icónicas da Revolução. Como o retrato de Salgueiro Maia, com o corpo meio de lado, rosto sereno, os olhos fixos na câmara. Atrás do capitão vê-se o aspirante Laranjeira a conversar sorridente com o capitão Tavares de Almeida, já os ânimos eram outros. “Se eu fosse mais velho tinha tido o discernimento de, por vezes, desobedecer e fazer mais coisas”, lamenta Alfredo Cunha. 40 rolos num dos dias mais importantes da História de Portugal? “É muito pouco, devia ter fotografado 120.

Ser conhecido como o fotógrafo do 25 de Abril é uma honra e uma cruz, admite o homem que não sabe parar, que não sabe estar quieto. Acompanhou de perto a Descolonização, esteve na Guerra do Iraque em 2003, viu a queda de Ceauşescu na Roménia. Esteve na fundação do jornal Público, passou pelas três agências noticiosas portuguesas — ANOP, ANP e depois Agência Lusa –, pelas revistas Focus e Visão, pelo 24 Horas, Comércio do Porto, Tal & Qual, Jornal de Notícias, ajudou a fundar “um monstro” chamado Global Imagens. Reformou-se em 2012, muito zangado com o jornalismo. “Não há reportagens, não há nada. É aturar patrões imbecis”, atira.

Aos 63 anos já tem nos planos um livro com 1.000 retratos, que será para publicar em 2018 e um outro, sobre a Guiné, para sair em 2019. “Em 2020 faço 50 anos de carreira e espero fazer uma grande exposição”, diz. Maior do que a que tem atualmente na Cordoaria Nacional, em Lisboa, O Tempo Depois do Tempo, com 500 imagens.

Foi também fotógrafo oficial de dois presidentes da República, primeiro Ramalho Eanes, depois Mário Soares, sobre quem vai publicar um livro em breve, no dia 1 de junho, com todas as fotos que lhe tirou entre 1974 e 2016. Quando se divorciou, Soares deu-lhe conselhos. Mas a amizade não o impedia de se virar para Alfredo Cunha e dizer coisas como “Não tens nada que fotografar, que chatice, estou farto de te aturar!

Em 1991 conheceu a atual companheira, Maria Fernanda, numa ida à Roménia. Ela era médica, ele fotojornalista do Público, a acompanhar o jornalista Luís Pedro Nunes. Nessa viagem, os dois tiveram um grave acidente de viação que deixou mazelas em Alfredo Cunha até hoje. Mas foi esse acidente que o aproximou de Fernanda. Luís Pedro Nunes ganhou um prémio com a reportagem. Alfredo ganhou um casamento feliz.

Na sala de casa onde trabalha tem as paredes forradas a fotografias tiradas por si mas nenhuma sua, do seu rosto. A sessão fotográfica para o Observador foi um suplício. “Já está? Já chega?”, ia dizendo, admitindo que não sabe estar à frente da câmara. As prateleiras estão cheias de livros e revistas de fotografia, prémios que ganhou e discos, muitos discos, sobretudo de jazz e rock. Porque o jovem hippie do início dos anos 70 ainda ali está.

Nasceu em 1953 em Celorico da Beira, viveu três anos Brasil, depois fixou-se em Lisboa, mas eis-nos em Vila Verde. Foi o amor que o trouxe até aqui?
A minha mulher viveu comigo em Lisboa também, mas optámos por morar aqui. Ela é de Guimarães e tem família cá. Esta quinta estava abandonada, nós comprámos e recuperámos a casa. Estamos casados há 25 anos e moramos aqui há 20.

Foi uma mudança grande, deixar a capital e trabalhar a partir daqui?
Sim, mas eu sempre trabalhei a partir daqui para todo o lado. Nunca deixei de viajar, de ir aos sítios. Mais até do que quando estava em Lisboa. Amanhã vou para lá, depois vou para o Funchal, no dia 26 de abril vou para a Guarda… E depois tenho de parar um bocadinho porque ando a ficar muito cansado. E não ando a fotografar nada [risos].

Quando é que viu a sua mulher pela primeira vez?
Num avião da TAP a caminho de Bucareste, em 1991. Ela era médica da AMI e eu ia com o Luís Pedro Nunes fazer uma reportagem.

Reparou logo nela?
Não. Só depois é que nos fomos conhecendo melhor. Foi uma coisa lenta.

"Ainda hoje não percebo como é que não morreu ninguém, foi um milagre. Esse acidente interrompeu-me a vida quase durante um ano."

Durante essa reportagem teve um grave acidente de viação.
Sim, foi um acidente violento, passámos por baixo de um camião e aleijámo-nos bastante, eu, o Luís Pedro Nunes e o Domingos Amaral, filho do Freitas do Amaral. Ainda hoje tenho sequelas. Parti um joelho, parti o ombro, parti o braço, fraturei a caixa torácica, parti várias coisas. Nós íamos a caminho de uma fábrica de pneus, que era o sítio mais poluído do mundo na altura, para fazer essa reportagem na Albânia, junto à fronteira com a Roménia. Íamos a 180 à hora, o carro ficou desfeito. Ainda hoje não percebo como é que não morreu ninguém, foi um milagre. Esse acidente interrompeu-me a vida quase durante um ano.

A Fernanda foi uma das médicas a socorrê-lo?
Sim, os médicos da AMI foram ver se nós precisávamos de alguma coisa quando estávamos a ser assistidos no hospital romeno, que era um bocado complicado. Foram lá dar-nos apoio. Penso que foi o acidente que… Quando ela regressou a Portugal veio saber como é que eu estava, nós contactámos mais, almoçar, jantar, sabe como é que são estas coisas, não é? [risos]

Quem foi o seu primeiro amor?
Deixa cá ver… Acho que foi uma paixão que tive na escola. Uma daquelas paixões assolapadas, mas impossível, porque ela era a professora [risos]. Eu tinha um fascínio por ela!

Mas não foi ela a sua primeira esposa.
Não, mas eu casei muito cedo, com 20 anos. Foi cedo demais. Eu acho que passado uma semana já sabia que o casamento tinha acabado. Formalmente, estivemos casados para aí 10 anos, mas aos cinco já estava acabado.

Então porque é que casou?
Porque ela engravidou… São aquelas coisas que acontecem.

Quando se divorciou, Mário Soares deu-lhe alguns conselhos?
Sim, sim. Ele achou que ainda havia salvação e dizia-me: “Vê lá o que é que podes fazer!”, e eu já não queria fazer nada, já está. E dizia ele: “Pois, agora vais arranjar outra, formas família e é a mesma coisa”. E outros conselhos que agora não se podem dizer aqui.

Entre esses conselhos estava o de comprar um Porsche?
Não, não, eu comprei o Porsche quando ainda estava casado. Comprei porque sempre quis ter um Porsche. Eu sempre gostei de viver os meus sonhos. Quis ter um Porsche, há que trabalhar para tê-lo. O meu primeiro sonho foi uma Nikon F, uma máquina mítica que ainda tenho aí. Há um sonho que ainda não realizei, que é ter um relógio Breitling. E há outro sonho, que é ter um Jaguar. De resto, já tenho livros, já tenho filhos, já tenho a minha casa.

Já não tem é o Porsche.
Agora já não preciso de Porsche.

É neto de um fotógrafo…
Chamado Alfredo Cunha.

E também é filho de fotógrafo. A fotografia esteve sempre tão presente que não havia outro caminho?
Não havia outro caminho. Eu não queria ser fotógrafo e o meu pai dizia: “Não vais a bem, vais a mal!” Eu não queria porque era miúdo, tinha sete ou oito anos e trabalhava, ao fim de semana tinha de ir ajudar o meu pai na fotografia, nos casamentos. E não queria, para mim aquilo era uma escravatura. Depois, comecei a fotografar.

Coisas diferentes?
Sim. Foi uma birra de adolescente. Comecei por fotografar as minhas amigas [risos]. Não tinha carro, mas tinha máquina fotográfica. Ainda tenho aí a minha primeira máquina, comprada com o dinheiro do meu salário. É uma Petri FT, custou quatro contos e quinhentos.

Eles deixaram-lhe algum conselho a que ainda hoje recorra para fotografar?
O meu pai tinha uma visão muito utilitária da fotografia. Ele dizia-me: “Não faças coisas inúteis, que não sirvam para nada.” Ele não gostava de coisas abstratas, gostava de coisas concretas, tinha uma visão completamente comercial da fotografia.

Começou por fotografar as amigas. Depois, na fase hippie, passou para os concertos. © Foto cedida por Alfredo Cunha

Fale-me um pouco da sua infância. Era bom aluno ou não estava muito para aí virado?
Não era bom aluno. Acho que era um miúdo inteligente, mas sempre fui demasiado livre, e nem o meu pai nem a minha mãe me impunham disciplina. Eu faltava à escola, ia para o rio, ia aos pássaros, vadiava. Nunca completei sequer o sétimo ano [atual 12.º].

Com quem é que vivia em Celorico da Beira?
Com os meus pais e os meus irmãos. Éramos cinco, agora já só somos quatro. Tive uma infância fantástica, que me deu uma grande experiência. A minha infância é quase um tirocínio, aprendi desde cedo que tinha de me desenrascar sozinho e que, se fosse palerma, estava feito ao bife. Aprendi a defender-me.

Falava-se de política em casa?
Falava, falava. O meu irmão era de extrema-esquerda, eu era do PC, o meu pai também era uma pessoa que não era favorável ao regime, embora não tivesse uma posição muito definida. E depois havia a minha mãe, que era o centro de equilíbrio da casa, o fator de unificação, geria as diferentes sensibilidades.

Quando é que deixou a terra natal?
Saí duas vezes de lá, a primeira vez com cinco anos e a outra com oito. Da primeira vez que saí fui para o Brasil, estivemos lá três anos em Campo Grande, no Estado de Mato Grosso. Lembro-me de tudo, fui à inauguração de Brasília! Depois vivi em Mangualde, depois na Guarda, depois com cerca de 15 anos fui para Lisboa. Vivi em muitos sítios, porque o meu pai andava sempre a mudar de terra. Por isso eu ia mudando de amigos e de registo, o que me deu alguma instabilidade mas também me deu maior capacidade de adaptação.

Foi bom ser adolescente na Lisboa de final dos anos 60, início dos anos 70?
Foi ótimo! A minha adolescência foi outra festa, era hippie. As primeiras fotos do livro A Cortina dos Dias são dessa fase.

Corria os festivais e concertos, portanto.
Fui a Vilar de Mouros, havia uns concertos em Cascais, era frequentador do Rock Rendez Vous, andava sempre no rock.

Fotografou algumas capas para singles, não foi?
Sim, nos anos 70 e 80. Os Xutos e Pontapés ainda no início, os Rádio Macau…

O primeiro jornal onde trabalha é o Notícias da Amadora, em 1971.
Sim, entrei através do Partido Comunista, porque o Carlos Carvalhas era o diretor do Notícias da Amadora na altura.

Como é que passa, pouco tempo depois, para o jornal O Século?
Fiz um portfólio e fui lá mostrá-lo aos fotógrafos, ao Eduardo Gageiro e ao Fernando Baião. Quem me recebeu foi a mãe do atual Primeiro-Ministro, Maria Antónia Palla. E fiquei logo lá, colaborei dois meses e depois entrei para os quadros. Ela foi a minha primeira chefe.

O facto de trabalharem lá Eduardo Gageiro e Fernando Baião pesou na decisão de ir até ao Século?
Sim, eram dois fotógrafos de que gostava muito na altura, eram referências do jornalismo português.

“Esse acidente interrompeu-me a vida quase durante um ano.” © Foto cedida ao Observador por Alfredo Cunha

Ser conhecido como o fotógrafo do 25 de Abril é uma honra ou uma cruz que carrega?
É as duas coisas. Eu não sou o fotógrafo do 25 de Abril, sou um dos fotógrafos que lá esteve, houve outros que fizeram um trabalho muito importante. Se quer que lhe diga acho que não fotografei muito bem o 25 de Abril. Acho mesmo.

O que é que faltou?
Não devia ter 20 anos, devia ter 30, para ter mais experiência. Devia ter fotografado mais.

40 rolos não foram suficientes?
É muito pouco, devia ter fotografado 120! Vou-lhe falar de dois cenários muito próximos, que foram o 25 de Abril e a Descolonização. Na Descolonização eu percebi o que se estava a passar e, quando fotografei, fi-lo com uma intenção. O 25 de Abril é uma coisa que surge e que eu tenho de fotografar. E tinha de obedecer a ordens, tinha de ir revelar, e por isso perdi muita coisa. Se eu fosse mais velho tinha tido o discernimento de, por vezes, desobedecer e fazer mais coisas. Só que…

Tinha só 20 anos. A idade de alguns dos militares da Escola Prática de Cavalaria que saíram de Santarém em direção a Lisboa.
Pois. Com 20 anos tinha de seguir as indicações que me davam.

Podemos recordar um pouco de como foi esse dia?
Eu já falei tantas vezes desse dia… Para mim é como se tivesse sido ontem. Lembro-me de tudo, está tudo muito presente. Às vezes vou aos sítios e ouço os sons desse dia. Lembro-me que a música do José Mário Branco e do Sérgio Godinho estava proibida na rádio e nesse dia poder ouvi-la, na rádio, na rua. As pessoas faziam questão de pôr o rádio alto. Lembro-me das palavras de ordem, das manifestações. Lembro-me de ficar surpreendido com a primeira manifestação do MRPP, contra o Spínola, logo no próprio dia. “Abaixo a cambadilha spinolista” [risos].

Como foi a primeira abordagem a Salgueiro Maia?
Foi naquela fotografia, ele tinha-me chamado à atenção para eu não andar escondido.

É por isso que prefere esta imagem do Salgueiro Maia à do retrato icónico que lhe fez?
Precisamente.

O primeiro contacto entre Alfredo Cunha e Salgueiro Maia, no 25 de Abril, está gravado nesta imagem.

Como é que o aborda para lhe fazer o retrato?
Eu não lhe pedi, aquilo era uma conferência de imprensa à qual eu cheguei atrasado, ele percebeu e esperou por mim. O retrato foi recusado no Século, atenção. Só é recuperado no Público 20 anos depois, pelo Vicente Jorge Silva.

Nunca pensou que era uma pena esta imagem nunca ter sido tornada pública?
Nós não tínhamos o atrevimento de pensar que as nossas fotografias eram boas, tinham de nos dizer que o eram. Eu sabia o que estava a fazer, mas não ia considerar uma fotografia minha boa. O Mário Zambujal dava-me logo dois estalos na cara [risos].

Mas mais tarde, nos anos 80, sabia que tinha aquele retrato ou caiu no esquecimento?
Eu sempre gostei dela. E fiquei até um bocado indignado por eles a terem rejeitado. Reparei que ao longo dos anos tenho muitas fotografias que se tornaram ícones de qualquer coisa. Por exemplo a dos contentores representa a Descolonização, tenho outra do fim da guerra civil em Moçambique, depois a do Douro, que se tornou um ícone do Norte do país….

A foto só foi tornada pública em 1994. “Eu sempre gostei dela. E fiquei até um bocado indignado por eles a terem rejeitado.”

Soube logo do 25 de Abril naquela madrugada. Porque é que estava acordado a uma hora tão tardia? Suspeitava de alguma coisa?
Não, é que eu trabalhava à noite e chegava muito tarde a casa. Quando cheguei, fui ouvir música com o meu irmão, estávamos a conversar e a minha mãe diz: “Olhem que está a haver qualquer coisa, ouçam lá a rádio.” Quando começo a ouvir “Daqui posto de comando das Forças Armadas” percebo que tinha chegado o dia. Porque já há mais ou menos dois meses esperava-se que acontecesse qualquer coisa. Podia era haver dois golpes, ou de esquerda ou de direita, porque havia também a hipótese do golpe de Kaúlza de Arriaga. Quando vi a cavalaria na rua fiquei assustado porque o Kaúlza de Arriaga também era gente da cavalaria. A gente só tem a certeza do que aquilo é à tarde, quando eles cercam o Carmo e disparam contra o Carmo! Porque até aí havia muitas dúvidas.

Quando falou com Salgueiro Maia não percebeu de que lado ele estava?
Percebi, mas isso era ele. Por exemplo, os fuzileiros tomaram conta da PIDE mas, no início, era para defender. Com o precipitar das coisas é que… Porque há duas forças de fuzileiros, e a que chega primeiro e vai embora veio para defender o regime. Ainda há muita história para contar.

O que é que falta contar?
O Adelino Gomes já conseguiu juntar os vencidos e os vencedores, no livro Os Rapazes dos Tanques. Mas ainda faltam alguns vencidos contarem as histórias deles.

O Alfredo e o Adelino Gomes vão voltar a contar histórias juntos como a do cabo apontador José Alves Costa, que num momento crucial se recusou a disparar contra a coluna de Salgueiro Maia?
Há uma história em que a gente talvez pegue, nos 50 anos [do 25 de Abril]. Se estivermos cá ainda.

"Não é por ser de direita ou de esquerda, é porque não era preciso vender o país. Tenho uma filha a trabalhar na Índia porque estes merdas venderam o país."

Vou pegar nas três perguntas que, n’Os Rapazes dos Tanques, vocês fizeram aos homens que estiveram de arma na mão no dia da revolução. Primeira: o que de melhor trouxe o 25 de Abril para o país nestes 43 anos?
O melhor foi a liberdade e a democracia. As pessoas não imaginam o que é não viver em democracia, é uma coisa horrível.

E o pior?
Pessoas como o Passos Coelho, por exemplo. Pessoas do Governo anterior que venderam o país. Venderam! E vai ser muito difícil recuperarmos outra vez. Não é por ser de direita ou de esquerda, é porque não era preciso vender o país. Eu tenho uma filha a trabalhar na Índia porque estes merdas venderam o país. Tem uma formação superior em Relações Internacionais e Comunicação Estratégica, e não conseguia um ordenado maior do que 600 euros, então foi-se embora. A juventude foi-se embora.

A última pergunta é quem são, para si, as figuras do país dos últimos 43 anos.
Inevitavelmente o Mário Soares. É uma pergunta difícil porque fica muita gente de fora, mas para simbolizar a cultura, um homem da minha terra, Eduardo Lourenço. E a figura que simboliza a luta das mulheres e a cultura, que trabalhou num jornal onde não entravam mulheres, Maria Antónia Palla. Não só pela influência que teve na minha vida, mas pela influência que teve no jornalismo português, a nível da integração das mulheres. Estes nomes, para mim, são símbolos de muita coisa.

"Acho que o país está fantástico, livrámo-nos daqueles cromos. Quando o primeiro-ministro vai à televisão já não é preciso pensar o que é que nos vai acontecer a seguir e quanto é que custa."

O revés do livro Os Rapazes dos Tanques foi a chegada a tribunal de um diferendo que tem com Eduardo Gageiro… Ele acusa-o de assinar fotos que ele tirou.
Eu conheço-o há 40 e tal anos e ele esteve sempre em diferendo com alguém. Já perdeu vários processos em tribunal e tudo indica que este também vai acabar mal para o lado dele, porque ele faz acusações e não apresenta uma única prova.

Mas a que fotos é que ele se refere, especificamente?
Agora já não percebo porque, de cada vez que vamos a tribunal, aumenta o número. Começou por uma, depois passou para três, depois para 10, agora já nem sei. São muitas.

Da última vez que falei consigo não tinham conseguido chegar a um acordo em tribunal.
Isso seria o melhor. Nunca percebi esta atitude dele porque sempre o respeitei, sempre achei que ele era um grande fotógrafo, nunca tive o mínimo atrito com ele, e de repente, para aí em 2013, ele sai-se com essa. E eu sujeitei os meus negativos à peritagem, quando podia ter-me colocado numa posição cómoda e exigir que ele apresentasse provas. Na peritagem, a Torre do Tombo concluiu que eu tinha razão. O julgamento ainda não está concluído, não sei quando é a próxima sessão, mas já há um parecer da Torre do Tombo.
É um assunto que me chateia muito. Não percebo o que o move, nem percebo como é que ele fez livros comigo sobre o 25 de Abril, e exposições, e só 40 anos depois é que se apercebeu? E as fotografias de que ele fala estão publicadas em livros de coautoria! Aliás, isso foi-lhe chamado à atenção. Mas não posso falar do processo.

O Alfredo fotografava com Nikon e Eduardo Gageiro com Canon. Há 10 anos já tinham feito uma comparação de negativos, não foi?
Sim, e com testemunhas! Ele ficou esclarecido e até me pediu desculpas. Agora diz que isso nunca aconteceu… Isto é muito aborrecido. Preocupa-me porque sei que vai acabar mal para o lado dele, financeiramente. Ele faz acusações gravíssimas sem apresentar qualquer prova. Preocupa-me, mas não posso desistir do processo porque isto tem de ser esclarecido.

Disse-me que decidiu partir para a justiça também porque, numa manifestação da CGTP, se sentiu em perigo porque Eduardo Gageiro estava a chamá-lo publicamente de fascista.
Exatamente! Isso foi muito complicado. E mesmo na manifestação dos 40 anos do 25 de Abril fez uma cena. Um dos organizadores, o António Duarte, teve de o chamar à atenção. Estava a insultar-me, e ele tem 80 anos, eu não lhe posso dar um estalo, que era o que me apetecia, não é?

Contentores dos retornados das ex-colónias junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa

Houve outro momento que marcou a sua carreira, que foi a Descolonização.
Para mim, tem tanta importância quanto o 25 de Abril, sendo que a Revolução foram três dias e a Descolonização foi um trabalho de meses, em diferentes países.

De que forma é que assistir de perto à saída dos portugueses e aos processos de independência, uns mais tumultuosos do que outros, o afetou?
Afetou-me muito. É preciso cuidado com o que se diz da Descolonização, porque ela foi feita como pôde ser feita, os soldados não queriam dar mais um tiro. A Descolonização devia ter sido feita quando nós tínhamos a guerra ganha, em Angola e em Moçambique. Mais em Angola. Era nessa altura que devia ter negociado. A partir do momento em que os soldados depõem as armas e dizem que acabou, como é que se vai negociar quando já não há força militar? Houve erros, mas fez-se o que se podia naquela altura. A prioridade era trazer um milhão de portugueses para cá e isso foi feito.

"A Descolonização devia ter sido feita quando nós tínhamos a guerra ganha, em Angola e em Moçambique. Mais em Angola. Era nessa altura que se devia ter negociado. A partir do momento em que os soldados depõem as armas e dizem que acabou, como é que se vai negociar quando já não há força militar?"

Também acompanhou com atenção o PREC, o incêndio no Chiado, assistiu à queda de Ceauşescu na Roménia, esteve na guerra do Iraque em 2003. Alguma vez se sentiu em perigo de vida?
Não… A gente quando tem a máquina à frente nunca morre, as coisas passam-se do lado de lá [risos ]. Tenho um grande amigo, que escreveu um texto para A Cortina dos Dias, que é o João Silva. Ele ficou sem as duas pernas. E dizia-me isso, que a máquina é um perigo porque pensamos que do lado de cá estamos seguros. Tenho tido sorte. Nesta foto de Nassíria [aponta para a parede], no Iraque, nós, eu e o Domingos Andrade, saímos daquele edifício a arder um minuto antes de aquilo ir pelo ar.

Foi por pouco.
Mas a situação mais perigosa que vivi foi em Fátima. A primeira foto do livro sobre Fátima é uma vista de cima, da procissão das velas. Eu subi ao alto da torre. Só que, quando estava a fotografar, o sino começou a tocar muito alto e eu saltei. Por acaso saltei para o lado certo porque, se saltasse para a frente… Aí é que eu fiquei com medo depois. Olhei lá para baixo…

Alfredo Cunha tinha acabado de sair do edifício quando ele explodiu, no Iraque.

Disseram-me que não bebe, que não fuma, que quando vai em reportagem para fora não há escapadinhas, não há saídas à noite. Que vai 100% concentrado em trabalhar. Tem algum passatempo para lá da fotografia?
Faço exercício físico, por causa da coluna. Vou fazer 64 anos e acho que estou razoavelmente bem.

Disseram-me também que não deixa que ninguém lhe toque nas máquinas, nem que seja para lhe aliviar o peso das costas.
Não deixo mesmo, ninguém tem de mexer no equipamento. É que, sempre que alguém mexe, muda qualquer coisa.

É verdade que quando vai em reportagem acorda às 7h da manhã para trabalhar e fica até a meia noite a ver fotos? Descreveram-me um Alfredo Cunha obcecado pelo trabalho e que tem de tirar 1.000 fotos por dia.
1.000 no mínimo. Tem de ser. No outro dia tive uma discussão com o Luís Pedro [Nunes] no Nepal, para uma reportagem para o Expresso. Aliás, cortámos relações — que reatámos no próprio dia –, porque estávamos a perder tempo precioso a aturar um palerma! A certa altura levantei-me e disse: “Ó Luís Pedro, não aturo mais este gajo. Viemos do outro lado do mundo, não é para ficar aqui dentro a ouvir isto”. Levantei-me e vim-me embora. O Luís Pedro ficou furioso.

Esteve também na equipa que criou o jornal Público, em 1989, mas decide deixar o projeto, que era de referência no país, para ir para o 24 Horas, em 1998. Porque fez essa troca?
Eu não fui para o 24 Horas, fui para a Visão. O grupo é que era o mesmo, a Edipresse, que tinha várias coisas, a Visão, o 24 Horas, o Tal & Qual e umas revistas de televisão. Fotografei para os três, e para outra publicação de cujo nome não me recordo.

A primeira máquina que comprou. A Petri FT, uma das 40 máquinas que guarda em casa, ainda funciona. © Ricardo Castelo / Observador

Não ficou lá muito tempo. Porque decidiu sair?
Um ano. Saí porque também não gostava das pessoas, nem da lógica daquilo. Antigamente a gente podia sair dos sítios quando não gostava das pessoas, e eu sempre saí. Saí do Público quando o Vicente Jorge Silva deixa de ser diretor e se dá a grande cisão, com vários diretores. Só quando o José Manuel Fernandes entra é que o Público recupera alguma estabilidade.

O facto de se ter chateado com o seu grande amigo Luís Vasconcelos pesou na decisão de sair da Edipresse?
A minha zanga com o Luís Vasconcelos foi uma coisa pessoal e que já está resolvida há muito tempo. Pesou, pesou. Mas não tinha razões para ficar. Saí por divergências com o Luís Vasconcelos e com o Cáceres Monteiro, que era o diretor da Visão.

Ainda antes destas trocas, foi fotógrafo oficial do Presidente da República António Ramalho Eanes, entre 1976 e 1978, e depois de Mário Soares, entre 1985 e 1996. Foi muito diferente trabalhar com os dois?
Completamente, não tem nada a ver. Eanes era um homem austero, havia um caminho e não se podia sair dali. Como pessoa gostava, e gosto, muito dele.

Essa maneira de ser torna o trabalho do fotógrafo mais difícil?
Sim, é mais difícil. Com o Dr. Soares era uma festa!

Quando é que conheceu Mário Soares?
No comboio Sud Express, quando ele regressou do exílio. Vai ser a primeira foto do livro. Eu fui esperá-lo a Vilar Formoso para acompanhar a viagem até Santa Apolónia. Achei que era um personagem fantástico.

"Mário Soares manda o segurança tirar-me o rolo. Eu não dei, fui falar com ele e disse-lhe: Olhe, dou-lhe o rolo mas vou-me embora.' 'Não tens nada que fotografar, que chatice, estou farto de te aturar!'"

Conte-me uma história curiosa de ambos.
Há uma história com o Eanes que é muito divertida. Numa visita à Roménia, o Eanes estava com o Ceauşescu e, a certa altura, vira-se para mim e diz: “Então? Tem havido problemas aí com a segurança destes tipos?” E o tradutor traduziu isso para o Ceauşescu [risos].

Como é que o ditador reagiu?!
Ficou assim um bocado… O Eanes passou à frente, na maior, nem ligou. Com o Dr. Soares tenho uma história fantástica, do dia em que ele mandou o segurança tirar-me o rolo da máquina.

Porquê? O que é que estava a fazer?
Estava a fotografá-lo a dançar. Ele não queria que fotografasse, mas eu…

Estava a dançar com uma mulher.
Óbvio. Tinha saias e não era o Bispo [risos]. Ele manda o segurança tirar-me o rolo. Eu não dei, fui falar com ele e disse-lhe: “Olhe, eu dou-lhe o rolo mas vou-me embora.” “Não tens nada que fotografar, que chatice, estou farto de te aturar!”, aquelas coisas que ele tinha. Lá me mandou levar o negativo no dia seguinte. Eu levei o negativo ao gabinete, ele olha e diz: “O negativo é isto?” E deitou-o fora. Tinha estes episódios. E dizia coisas inacreditáveis. Eu estava a fotografar e ele perguntava-me: “O pá, isso tem rolo?” Porque quando fizemos as fotografias oficiais eu estava a fotografá-lo e o rolo nunca mais acabava. O que aconteceu foi que o rolo não engatou e estive 10 minutos a fotografar em branco. Ele percebeu e ficou furioso: “Eu não tenho tempo para aturar incompetentes!”, dizia ele [risos].

Nunca se chatearam a sério?
Não, não. Chegámos a discutir, mas na medida em que se pode discutir com o Presidente. Uma vez eu cheguei atrasado e ele diz-me: “Quem é que espera: é o Presidente que espera por ti, ou és tu que esperas pelo Presidente?” E eu disse que era eu que esperava. “Então se és tu que esperas, porque é que eu estou à espera há 10 minutos?!” Às vezes era cada bronca… Uma vez ele estava a receber um embaixador e cheguei atrasado, não me apercebi que o embaixador estava atrasado e entrei pela porta por onde deveria entrar o embaixador. E ele avança para cumprimentar o embaixador e era eu [risos]. “Tinhas de ser tu!”, disse ele [risos].

"Fui lá fazer o primeiro dia mas sempre disse que não voltava a um sítio onde já fui feliz. Sou muito amigo de Marcelo [Rebelo de Sousa], dou-me muito bem,"

Foi sondado por Marcelo Rebelo de Sousa para fotógrafo da Presidência?
Não fui sondado, surgiu foi a hipótese. Quem é o fotógrafo oficial e que foi sondado deste o princípio foi o Rui [Ochoa]. Fui lá fazer o primeiro dia mas sempre disse que não voltava a um sítio onde já fui feliz. Sou muito amigo de Marcelo, dou-me muito bem, ele editou-me um livro, Sá Carneiro – Retrato de um Homem. Também inaugurou a minha exposição, era para ter estado meia hora e esteve três horas. Mas essa hipótese de ser fotógrafo oficial nunca se pôs. Até porque eu vivo em Vila Verde e não quero sair daqui. Eu e a minha mulher estamos bem aqui.

Toda a gente fala na hiperatividade de Marcelo, na sua enorme capacidade de trabalho. Mas também me disseram que o Alfredo Cunha não fica atrás.
Não sei, não sei. Fotografo muito e tenho uma obsessão pelo rigor técnico. Produzo e edito todas as minhas fotografias, ninguém lhes mexe. E isso dá-me muito trabalho.

Lançou recentemente o livro Fátima – Enquanto Houver Portugueses, sobre o santuário e os muitos fiéis que por lá passam.
Ainda antes, em dezembro, lancei um livro muito bonito, sobre a Felicidade [levanta-se e vai buscar o livro, editado por Patrícia Reis, editora da revista Egoísta, e que não está à venda]. Fui acusado de só fazer coisas pessimistas e pediram-me para fazer isso.

Revê-se nessa acusação?
Respondo que se estou numa guerra não posso andar a fotografar flores, não é? Mas este só tem fotografias felizes.

Em 1974 foi preso na Guiné-Bissau, por andar a fotografar.

Foi difícil encontrá-las?
Não, tenho muitas fotografias de felicidade, de festas, de situações agradáveis. A tendência para publicar é que é sempre as desgraças.

Está a viver uma fase de vida feliz?
Estou a viver uma boa fase, tanto a nível pessoal como a nível político. Acho que o país está fantástico, livrámo-nos daqueles cromos. Quando o primeiro-ministro vai à televisão já não é preciso pensar o que é que nos vai acontecer a seguir e quanto é que custa.

Voltando ao livro de Fátima, é católico?
Sou.

Acredita nas aparições?
Não sei se aquilo se passou assim. Sei que me sinto confortável lá, gosto de lá ir, sinto-me bem. Se é assim ou não é — até acredito que não, pode ser uma construção de crianças — não sei. Entretanto gerou-se ali um movimento, e estas coisas não acontecem por acaso.

Rezou quando teve o seu acidente em 1991?
Não, nem nunca rezei. Nem rezava quando era miúdo. A minha avó pagava-me para eu rezar e para ir à missa, mas mesmo assim não ia.

Uma mãe a pedir na Baixa de Lisboa com os filhos, gémeos, ao colo, em 1988.

O que é uma fotografia à Alfredo Cunha?
Não sei… Começaram a dizer isso há pouco tempo, se calhar é pela coerência do meu preto e branco, do princípio ao fim.

Só?
[Hesita]. Aquilo que acho das minhas fotografias é que são muito diretas, muito clean. As pessoas encontram logo um motivo, introduzo logo uma visão, não deixo que haja elementos de distração nas fotografias, aquilo que nós chamamos de ruído.

A tal função utilitária que defendia o seu pai.
Completamente.

Já conta quase com 50 anos de carreira. Nunca pensou em deixar a fotografia e ir fazer outra coisa?
Acho sempre que nunca fiz nada de jeito, estou sempre a recomeçar. Mas isto é verdade, tenho sempre grandes angústias existenciais. Às vezes acho que é da câmara e então mudo de câmara, depois afinal não é da câmara… Mas acabo sempre por fazer um trabalho coerente, apesar de mudar de câmaras. Essas mudanças obrigam-me a ter de reaprender, a rever e a estar sempre atento.

Essa insatisfação é o seu segredo para tirar boas fotografias?
Não sei se é o segredo nem sei se são assim tão boas. Sei que são as fotografias que gosto de fazer. Algumas reconheço que são bastante interessantes. Mas não são todas. Agora, como tenho uma forma de fotografar e de processar, isso dá-lhes coerência. Eu estou a trabalhar num projeto com mil retratos e é engraçado que tenho retratos desde os anos 60 até agora e são coerentes, têm a mesma abordagem.

Deixar a fotografia é que não lhe passa pela cabeça.
Não sei ir para a rua sem a máquina fotográfica. Isso está fora de questão. Não sei viver sem as fotografias. O que deixei foi o jornalismo. Isso para mim acabou.

Em 2012 deixou o jornalismo. "Não há reportagens, não há nada. É aturar patrões imbecis, aturar pessoas que pagam indemnizações com dinheiro emprestado pelo banco e que depois não pagam ao banco…"

Reformou-se em 2012 mas não tem parado desde então, com outros projetos. Porque é que quis deixar o jornalismo?
Estava a perder o meu tempo. Estava a trabalhar e a ganhar dinheiro mas estava a perder o meu tempo.

Porque já não há espaço para as grandes reportagens?
Não há reportagens, não há nada. É aturar patrões imbecis, aturar pessoas que pagam indemnizações com dinheiro emprestado pelo banco e que depois não pagam ao banco… Uma coisa estranha. E não estou para aturar aquela gente. Estou a falar nomeadamente da família Oliveira, da Controlinveste, que considero que tiveram um comportamento quase delinquente. Destruíram instituições, fecharam jornais e revistas, parece que, onde põem a mão, desfazem e fazem dinheiro. Uma coisa inacreditável. Não me interessa essa gente e portanto vim-me embora. Produzi mais desde que deixei de ser jornalista do que nos últimos 10 anos da minha carreira.

Foi um dos criadores da Global Imagens, um banco de imagem fotográfica jornalística e cuja ideia já tinha tentado criar no Público.
Sim, fui um dos pais do monstro. É uma boa ideia, mas está mal feita e dá prejuízo, quando podia dar muito lucro.

O que é que está a faltar?
Falta não deturpar o jornalismo, ou seja, não é pôr toda a gente a trabalhar para todo o lado. O que se deve comercializar é o remanescente, não é estar a comercializar antes. Porque os jornais têm de ter a sua identidade, as suas equipas, os seus jornalistas e competirem entre si. Se se normaliza, fica tudo igual. Dizem todos a mesma coisa, a agenda mediática é andarem todos uns atrás dos outros sucessivamente.

As suas fotografias favoritas são as que escolheu para a exposição “o tempo depois do tempo”, que está na Cordoaria Nacional?
Não, é uma narrativa para a exposição e para aquele espaço. É uma escolha que começa com 5.000 fotografias e que depois vai depurando. Falta sempre alguma coisa. Estão lá 500 fotografias mas, se estivessem 1.000, continuavam a faltar coisas.

Então como é que podemos saber quais são as suas imagens favoritas?
Costumo dizer que a minha fotografia favorita são umas 50. Aquela [aponta para a parede] do miúdo, o Jeremias, com os cães, é uma delas. Foi feita em Moçambique. A das vindimas. A da Descolonização, as do Iraque. Aquela do Salgueiro Maia.

Moçambique, 1993. O Jeremias.

Todas, todas a preto e branco. Porque é que não usa cor?
A cor distrai-nos do essencial.

Por falar em essencial, num texto que escreveu no livro A Cortina dos Dias, com fotografias que tirou entre 1970 e 2012, agradece à sua mulher Maria Fernanda e deixa a promessa “da nossa grande viagem, tantas vezes adiada”. Para além de querer saber se já fizeram a grande viagem, gostava de saber até que ponto a fotografia lhe roubou tempo para estar com a família e os amigos. Tem três filhos. Com tanto trabalho, foi um pai ausente?
Não… Ou fui um pai muito presente ou muito ausente. O trabalho rouba-me muito tempo da família, então tento compensar. Como trabalho muito de casa… Acho que os jornais me prejudicaram mais do que a fotografia. No Jornal de Notícias eu trabalhava 12, 14 horas por dia. Mas já fizemos a grande viagem!

Em 2020 completa 50 anos de carreira. Que título num jornal o faria feliz?
Em relação ao meu trabalho? Sinceramente, considero-me uma pessoa feliz, com uma vida feliz, com sorte. A fotografia deu-me tudo, a profissão correu-me bem. Não tenho grandes desejos porque as coisas correram-me bem! Tenho uma família de quem gosto, e penso que eles também gostam de mim [risos], tenho os meus cães, faço as minhas coisas. Estou sempre a congeminar e é isso que quero, continuar a congeminar coisas como se estivesse a começar a profissão. Estou a congeminar um livro sobre a Guiné, outro sobre a Índia — já lá fui várias vezes, tenho milhares de fotografias da Índia, mas quero lá voltar mais duas ou três vezes, para o trabalho ficar mesmo bom.

© Ricardo Castelo / Observador

É isso que quero, continuar a fazer coisas e a ter sonhos de adolescente. Um dos grandes problemas da minha vida é ter sonhos de adolescente, de quando tinha 20 e 30 anos. Tenho os mesmos sonhos, ambições profissionais, os sonhos que os jovens têm. Há pessoas que pensam que já têm isto e aquilo, mas eu funciono como se não tivesse nada, preocupo-me com o futuro, com o emprego, com o que vai acontecer no país. A questão é que já não sou propriamente adolescente. Mas acho que, apesar de tudo, estou menos instalado do que a maior parte das pessoas da minha idade.

Que fotografia é que não fez e gostava de ter feito?
Isso acontece-me muito, ver fotografias e dizer que gostava de a ter tirado. Deixe cá ver… Gostava muito de ter estado nas Torres Gémeas, porque acho que é o acontecimento que virou o mundo. Gostava de ter fotografado aquilo.

Agora com o digital é que… Aconteceu-me duas vezes até agora o cartão avariar, com milhares de fotografias lá. Aconteceu-me agora na Índia. E foi logo na única vez em que eu não levei o portátil, para à noite copiar as imagens para o portátil. O cartão avariou e nunca mais. Aconteceu-me agora na Índia. Depois a minha filha diz: “Já tens tantas! Tens do mesmo sítio onde já estivemos.” Pois, mas faltam aquelas! [risos].

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