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Allegri, o Casanova com toque de Midas que frequenta casinos e ganhou um jackpot chamado Ronaldo /premium

Esteve suspenso por jogos combinados, quebrou o jejum do AC Milan, é tetra pela Juve. Adora cavalos, frequenta casinos, tem fama de Dom Juan. Perfil de Massimiliano Allegri, novo treinador de Ronaldo.

Nunca foi propriamente o tipo de miúdo que achasse muita graça aos estudos. O que queria mesmo era bola. Mas mais do que aprender para ser melhor, sonhava ser o melhor a aprender com o objetivo de mais tarde ensinar. No mundo do futebol, em cada vitória acrescenta qualquer coisa e nas derrotas retira uma aprendizagem. O saber mais faz parte do processo desta figura a quem elogiam “a paciência dentro do ser impaciente”. Massimiliano Allegri, o homem que tem no café das sete da manhã o principal momento do dia, é o novo treinador de Cristiano Ronaldo na Juventus. Aos 50 anos, também ele tem o maior desafio, porque não será propriamente a coisa mais fácil encarnar o papel de professor do melhor do mundo.

O italiano não teve uma carreira propriamente brilhante como jogador apesar do perfil de “bom rebelde”, com e sem bola, dentro ou fora dos relvados. Carreira, no verdadeiro sentido da palavra, conseguiu a treinar. E alcançou o estado de Midas na versão doméstica a partir de 2014, quando assinou pelo conjunto de Turim: quatro anos, quatro Campeonatos, quatro Taças de Itália. Teve a capacidade para enraizar uma liderança assente na “máxima liberdade, máxima responsabilidade”, transformando em ouro qualquer investimento em material mais jovem ou mais experiente, europeu ou sul-americano, que a família Agnelli, a dona do império da Fiat, lhe foi colocando nas mãos. No entanto, o carro de alta cilindrada capaz de atropelar a concorrência interna foi vendo o motor a gripar na hora da verdade quando se lançava naquela autoestrada com prioridade da Champions, incluindo duas paragens abruptas a 90 minutos de passar a última portagem antes da glória.

Em 2015, perdeu por 3-1 com o Barcelona em Berlim. Em 2017, foi derrotado pelo Real Madrid por 4-1 em Cardiff. Nos dois encontros, para quem tiver a memória mais viva, ficou sempre a sensação de que o desfecho poderia ter sido diferente, numa realidade que os números finais contam de forma enviesada. No entanto, num e noutro caso, Allegri assumiu o desaire. Admitiu que o adversário tinha sido melhor. Prometeu fazer tudo para que a próxima fosse diferente. E foi tomando decisões com essa ideia vincada no subconsciente. Acreditava que um dia podia ser campeão europeu pela Juventus. Após o insucesso de 2017, ponderou apresentar a demissão mas houve algo que lhe travou o pensamento. Este verão, assumiu ter recusado uma proposta do Real Madrid, talvez porque algo que lhe tenha travado o pensamento. Parecia estar escrito algures que as estrelas se iriam cruzar para cumprir essa história e ganhou agora um capítulo importante para o epílogo que ambiciona.

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Allegri é o tipo de técnico que, nos treinos, fala com os olhos e pensa enquanto vê. Tem uma filosofia de jogo definida, construiu uma ideia do futebol atual mas adapta-se às circunstâncias que o rodeiam. Foi assim, por exemplo, que abdicou daquele sistema tipicamente italiano dos três centrais com alas a fazerem todo o corredor para potenciar o talento de desequilibradores como Paulo Dybala, um pequeno génio em potência para quem o fator tático é ainda uma amarra. “Mudo a minha mentalidade porque não considero que isso seja uma fraqueza; ao invés, é uma forma de crescer”, destacou em entrevista. Muito se fala sobre as equipas que se constroem à volta de um jogador – e quando se tem o melhor do mundo nas mãos, é normal que isso aconteça.  O treinador da Juve está habituado a construir caminhos diferentes até chegar ao mesmo fim: o sucesso.

Da noiva abandonada no altar à suspensão por jogos combinados

Uma das principais virtudes de uma pessoa confiante, no futebol ou em qualquer outro ramo ou atividade, é a capacidade para gozar consigo próprio. E é algo que nem todos conseguem – alguns consideram isso mesmo um pecado. Recuando a 2016, agarremos numa frase do técnico numa entrevista mais aberta à GQ italiana. “Allegri é um idiota, dizem. Que joga no casino, que faz apostas em cavalos, que deixou uma noiva no altar. É alguém louco da cabeça”, atirou. Mas afinal, gosta de ir ao casino? Sim. Costuma apostar em corridas de cavalos? Sim. Já deixou uma noiva no altar quando era mais miúdo (25 anos, idade de BI)? Sim. Mas isso faz apenas de si o treinador mais humano do mundo, com gostos normais como qualquer pessoa. E é assim que gosta de pensar na sua figura enquanto técnico e pessoa – é como é, ponto. “A altura mais importante do meu dia é às 7h, quando bebo o meu espresso. Mas o segundo momento mais importante é às 9h, quando levo o meu filho, Giorgio, à escola. Pode ser diferente dos outros mas, para mim, não posso ser um treinador ‘manufaturado’, não posso ser alguém que não sou. Só posso ser quem sou”, destacou num texto escrito e publicado em agosto de 2017 no The Players’ Tribune.

Nascido em Livorno, Allegri é daquelas figuras com páginas a fio na internet com toda e mais alguma informação da carreira de treinador mas pouco ou nada dos primeiros tempos como jogador. Sim, começou pelo Livorno e andou por equipas de escalões secundárias. Sim, era um médio com habilidade de bola no pé. Mas mais do que isso e das passagens por Cuoio Pelli Juventus e Pisa, não há. O caso muda de figura quando assina pelo Pescara em 1991 e se destaca na campanha que levou o conjunto da cidade do Mar Adriático à Serie A. Também aí, no principal escalão, deu nas vistas. Com exibições, com golos – 12 numa liga que encarnava a solidez defensiva como ordem quase militar é de obra e só não evitou a despromoção da equipa. Assinou depois pelo Cagliari, saiu passados dois anos. Assinou depois pelo Perugia, saiu passados dois anos. Assinou depois pelo Pádua mas nem dois anos durou, mesmo com uma fugaz aparição no Nápoles. Voltou ao Pescara e fez mais dois anos.

Em 2001, sofre o principal revés como jogador e que não teve propriamente a ver com uma lesão física mas com uma rotuta parcial na reputação perante os fãs: é acusado com mais futebolistas como Fabio Gallo, Sebastiano Siviglia, Luciano Zauri ou Alfredo Aglietti de viciação de resultado num jogo a contar para a Taça de Itália e fica um ano de castigo sem jogar. Estava então no Pistoiese, passou ainda pelo Aglianese mas nunca mais foi a mesma coisa e a idade também não ajudava – chegava ao fim uma carreira que, não sendo brilhante, merecia um papel secundário na história da Serie A, que passou a principal pelas piores razões. O “bom rebelde” também tinha um lado mau, que até já se conhecia fora dos relvados.

Quando era mais novo, Allegri tinha a alcunha de “Anchova”. Com o tempo, sobretudo na fase de jogador, ficou conhecido como “Casanova”. Quando já era treinador do AC Milan, em 2013, fez as delícias da imprensa cor de rosa quando entregou 300 rosas vermelhas à namorada, Gloria Patrizi. Antes, em 1992, num pequeno artigo do Corriere della Sera que hoje só é recordado por falar de quem falava, era protagonista da notícia que tinha como título “A fuga de um futebolista do altar na hora decisiva”. Uma notícia que falava de um noivo que cancelou um casamento quando estava prestes a acontecer. Uma notícia que falava de um homem que adorava surpresas. Uma notícia que falava de um futebolista que conseguia virar um jogo ao contrário no último minuto (aqui com um bocado de exagero por estar no hype dos tempos no Pescara). Uma notícia que falava de Allegri.

Amor à primeira vista no AC Milan, paixão eterna na Juventus

Como jogador e como treinador principiante a dar os primeiros passos no seu novo papel em jogo, o italiano ia colecionando clubes; fora dos estádios, eram namoradas. Esteve no Aglianese, onde acabara de jogar, foi para o SPAL, assinou pelo Grosseto, mudou-se para o Sassuolo, aceitou o Cagliari. Mas na vida como no futebol, há sempre aquele amor que pode não eterno mas nos faz ver tudo numa perspetiva diferente. No caso de Allegri, foi o AC Milan.

Em 2010/11, na primeira época no comando dos rossoneri, o treinador conseguiu quebrar um jejum sem vitórias no Campeonato que durava desde 2004 (o que, olhando para a realidade atual, pode não parecer muito – mas naquela fase era). A seguir, ganhou a Supertaça. A afirmação no banco de suplentes estava mais do que conseguida e Allegri começava a pensar a médio/longo prazo, percebendo também que o investimento crescente da Juventus estava a transformar a Serie A num duelo entre um Golias e 19 Davides. Quando renovou contrato em 2012, colocou uma fasquia: treinar apenas até aos 55 anos, sendo que nesse caminho havia uma paragem obrigatória (pelo menos no plano teórico) na Squadra Azzurra. Em dezembro de 2013, e quando as coisas com o todo poderoso Silvio Berlusconi tinham deixado há muito de ser um mar de rosas, assume em entrevista à Gazzetta dello Sport que seria o seu último Natal em Milão. Em janeiro, saiu. No verão de 2104, chegava a Turim.

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A sucessão de Antonio Conte na Juventus não era propriamente a coisa mais fácil porque as três vitórias seguidas da Vecchia Signora na Serie A colocaram a fasquia com uma dose extra de ingratidão: não interessava o período de adaptação, o tempo que todas as equipas necessitam para assumirem uma nova identidade ou o que fazia no plano interno. Ganhar o Campeonato e acrescentar a isso a Taça era mais uma obrigação do que um mérito. Aquilo que interessava mesmo era a Liga dos Campeões. Aquela competição para a qual olhava aos olhos de uma frase que o amigo antecessor lhe tinha deixado na passagem cordial de pasta: “Não se consegue ir comer fora a um restaurante de 100 euros quando tens 10 no bolso, consegues?”.

Resposta? Quase. E por duas vezes, frustradas pelos colossos espanhóis. E tudo porque hoje, com Allegri, a Juventus é uma equipa muito mais forte a todos os níveis do jogo – física, mental e taticamente. “Existem treinadores que são fabricados e os que são naturalmente treinadores. Eu sou um desses últimos”, contou, recordando ainda uma mensagem que Beppe Marotta, diretor desportivo do conjunto de Turim que foi também uma peça importante na contratação de Ronaldo, costuma referir recordando a sabedoria que Nelson Mandela nos deixou: “Eu não perco, ou ganho ou aprendo”. “Essa é a mensagem que a Juve escolheu e por isso só temos de continuar a trabalhar para um dia chegar à Champions”, defende. E é aqui que vale a pena escrever parte desse texto supracitado, que aborda a última derrota na final da Liga dos Campeões frente ao Real Madrid, para se perceber melhor o que pode significar a chegada de Cristiano Ronaldo a Turim para trabalhar com o técnico de 50 anos.

“Nós temos jogadores especiais. Infelizmente, o Real Madrid tem muitos deles também. Na segunda parte, sabia que não tínhamos todas as ferramentas que precisávamos. Tínhamos dois jogadores que mal se podiam aguentar em pé por lesões e o Real Madrid jogou um jogo muito inteligente. Eles estavam relaxados. Eles estava confortáveis.

Para chegar à final, é preciso talento e sorte. Para ganhar a final, é preciso ser melhor do que a outra equipa. E isto pode soar de forma estranha, mas saí de campo nessa noite com paz de espírito porque sabia que não fomos a melhor equipa. Tão simples como isso.

No campo, é muito mais complicado (…) O que é importante é a forma, a disciplina, os instintos. Penso que a parte dos instintos é a mais importante. Quando não se confia nos próprios instintos, quando duvido de mim mesmo, aí é quando cometo erros. Como treinador, aprende-se a maior parte no falhanço (…)”.

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Allegri assume que o futebol é um jogo de pressão mas agarra-se aos pormenores que nos parecem mais pequenos para tentar ser o maior. É por isso, por exemplo, que se prefere imaginar como o jovem técnico que começou do zero como o ex-jogador com uma ponta final de carreira manchada por um erro e não como o manager que é hoje, aquele que obrigatoriamente tem de ganhar o Campeonato e que é avaliado à luz do percurso que faz na Champions. “Adoro tudo isto porque adoro ensinar. Essa é a verdadeira alegria da minha vida. Gosto de fazer os meus jogadores melhores e mais inteligentes”, assumiu.

Se fizéssemos um exercício de pessoalização da descrição do italiano sobre a última final da Liga dos Campeões perdida, ela tinha um só nome: Ronaldo. O português nunca foi propriamente um vilão – e a forma como o Allianz Stadium se levantou a aplaudir o golo de pontapé de bicicleta em abril prova isso mesmo. Mas agora será, certamente, um herói. O melhor do mundo chegou à Juventus. Allegri, o Casanova com toque de Midas, tem nas mãos a musa com a qual todos querem trabalhar. A dúvida é se consegue que fazer desta relação um amor à primeira vista com o sonho europeu da Vecchia Signora

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