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RUI MIGUEL PEDROSA/LUSA

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Alvos, ausências e novidades da mensagem política. A rentrée do BE vista à lupa

Houve ataques teleguiados e adversários ignorados, novidades na mensagem, mas também discurso batido. O elefante na sala foi a ausência de Ricardo Robles. Como foram os três dias da rentrée do BE.

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Foi a primeira vez que a cidade de Leiria recebeu o Fórum Socialismo, a rentrée do Bloco de Esquerda (BE). Ao longo de três dias, mais de 400 pessoas assistiram aos 50 debates que compunham o plano das festas. Como em qualquer iniciativa deste tipo, havia motivos de maior destaque e oradores mais populares do que outros. Fazendo um balanço destes três dias, é possível identificar os alvos preferenciais, as ausências mais sentidas e as novidades e vícios do discurso do partido, que já começou a marcar terreno para as eleições de 2019.

Os alvos

Um dos principais visados nas intervenções das mais altas figuras do partido foi Mário Centeno. O Ministro das Finanças faz parte de um governo apoiado pelo Bloco de Esquerda. Mas nem este fator serviu para impedir que o também presidente do Eurogrupo fosse uma das figuras mais criticadas pelos bloquistas.

Desde logo no discurso inaugural, que ficou a cargo de Marisa Matias. A eurodeputada entrou ao ataque e com a mira afinada. Sabia bem a quem se queria exigir e não se conteve nas palavras. “Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno. Ou melhor: nunca saiu de Centeno.” Foi das frases mais fortes que lhe dirigiu, mas não a única.

Marisa Matias ao ataque: “Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno”

Referindo-se às declarações do líder das Finanças sobre a saída da Grécia do seu terceiro programa de ajustamento financeiro, Marisa Matias disse apenas tratarem-se de “uma triste imagem”. “O seu programa nunca foi outro a não ser o da austeridade”, acrescentou mais tarde.

Um conjunto de declarações que veio a encontrar eco ao longo dos três dias de debates mas também, e sobretudo, no discurso de encerramento de Catarina Martins. A líder do BE criticou “o endeusamento do défice zero” que, entende, está por trás da política de finanças do Governo e encontrou um responsável pela sua difusão: o presidente do Eurogrupo. Por essa razão, a deputada não tem dúvidas de que a estratégia de chegar ao défice zero tem entre os seus objetivos o de lançar “Mário Centeno nas suas ambições europeias”.

Mário Centeno foi uma das figuras mais criticadas pelos bloquistas ao longo dos três dias

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Mas não foi o único membro do Governo a ser atacado. O segundo alvo dos bloquistas ao longo do Fórum Socialismo foi António Costa, que Marisa Matias acusou de ter duas faces: a que mostra no exterior e a que exibe para consumo interno. “A Europa sem austeridade, de que falou António Costa na quinta-feira em Itália, é uma ficção”, entende a eurodeputada. Sobretudo se se olhar para as políticas económicas adotadas pelo primeiro-ministro. Ou melhor, para as que adotaria “se não fossem as medidas do Bloco de Esquerda”. Sem elas, “hoje estaríamos em ajustamento permanente”, garante.

Mais uma vez, esta análise era premonitória. Catarina Martins também a fez na intervenção final. A líder não duvida de que é graças ao Bloco de Esquerda que o primeiro-ministro pode atualmente cantar vitória em relação ao aumento do número de escalões do IRS. “Não tem de quê, sr. primeiro-ministro”, ironizou a coordenadora do BE.

Catarina Martins ataca PS, recusa “endeusamento do défice zero” e pede mais investimento para o próximo OE

A crítica feita aos dois socialistas foi feita sempre por oposição às conquistas sociais alcançadas “devido às medidas do Bloco de Esquerda”. Já as acusações dirigidas à direita foram feitas unicamente com uma intenção: a de expor “o cinismo” de PSD e CDS.

Identificou “uma direita desesperada, sem programa e que se alimenta de casos”. E deu exemplos concretos: “O PSD aproveita as falhas no SNS para propor a sua privatização”, o CDS, “que desqualificou os comboios”, declara-se indignado “com a sua degradação”.

O alvo escolhido não foi inocente. Afinal de contas, Nuno Melo é o único cabeça-de-lista às eleições europeias já oficializado. O facto de o Bloco de Esquerda ainda não ter anunciado quem apresentará como número um não parece inibir os bloquistas nos ataques aos futuros adversários.

Nestas críticas a PSD e CDS, Catarina Martins destacou uma figura centrista: Nuno Melo. Lembrando a campanha que o partido de Assunção Cristas tem feito em prol de melhorias na CP e na ferrovia, atacou o vice-presidente do CDS com humor: “Segundo me contaram, Nuno Melo até entrou num comboio!”, notou. O alvo escolhido não foi inocente. Afinal de contas, Nuno Melo é o único cabeça-de-lista às eleições europeias já oficializado. O facto de o Bloco de Esquerda ainda não ter anunciado quem apresentará como número um não parece inibir os bloquistas nos ataques aos futuros adversários.

As ausências

A ausência mais notada, tanto no discurso como fisicamente, foi a de Ricardo Robles. Em nenhum dos debates ou intervenções que tiveram lugar nos três dias foi mencionado o caso em torno do imóvel que adquiriu em conjunto com a sua irmã em Alfama. A polémica levou-o a deixar os cargos que tinha dentro do partido e a vereação na Câmara Municipal de Lisboa. O partido ficou internamente abalado e o ex-vereador deixou de aparecer em qualquer palco público. A curiosidade por saber se iria aparecer em Leiria ou por entender como é que o partido ia reagir à situação nesta sua rentrée era, por isso, natural. Não apareceu e nenhum orador ousou sequer nomeá-lo.

Há um ano era uma das figuras mais populares dentro e fora do partido e teve direito a uma intervenção já em jeito de campanha para as autárquicas de 2017. Internamente, “Checa”, como é conhecido pelos amigos, sempre foi apreciado e acarinhado. Raramente falhava iniciativas deste tipo e em muitas delas era orador. O espaço que teve no Fórum Socialismo no ano passado foi o auge dessa ascensão interna, a sua consagração como uma estrela eleitoral do partido. Os resultados que obteve em Lisboa foram a prova de que tinha sido uma aposta vencedora.

O partido ficou internamente abalado e o ex-vereador deixou de aparecer em qualquer palco público. A curiosidade por saber se iria aparecer em Leiria ou por entender como é que o partido ia reagir à situação nesta sua rentrée era, por isso, natural. Não apareceu e nenhum orador ousou sequer nomeá-lo.

Por todos estes motivos, a ausência do ex-vereador não passou despercebida. O Observador falou com alguns simpatizantes que marcaram presença no Fórum Socialismo e a opinião sobre o facto de Robles não ter marcado presença era relativamente consensual. Fazia sentido resguardá-lo. Por ele e pelo partido, que vai enfrentar, no ano político que agora começa, dois atos eleitorais cruciais: europeias e legislativas.

No entanto, sobre a gestão do caso em si, a doutrina dividiu-se. Houve quem defendesse que o partido “resolveu bem a questão”, apesar de ter cometido um “erro de análise política” inicialmente, como Catarina Martins reconheceu, quando saiu em defesa do ex-vereador, numa primeira reação à polémica. Para estes, o caso está encerrado, “até porque foi mais sentido em Lisboa” do que noutras partes do país. Mas também houve quem entendesse que o partido “podia ter estado melhor” e que “este caso foi de facto duro para o Bloco”. O elefante na sala acabou por ser a ausência de uma figura de peso.

Habitualmente presença assídua, Ricardo Robles foi a ausência mais notada na rentrée do Bloco de Esquerda

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ao longo dos três anos de legislatura, não é comum ouvir o Bloco de Esquerda a falar do PCP. Assim como o contrário também não acontece com frequência. Não é por isso com surpresa que, mais uma vez, saltou à vista a falta de referências aos comunistas durante o fim-de-semana bloquista.

As medidas positivas alcançadas por este Governo foram-no devido à “coragem”, “insistência” ou “arrojo” dos bloquistas. As “falhas”, a “falta de ambição” ou a “insuficiência” do Executivo devem-se exclusivamente ao PS. Este é sempre o binómio utilizado no discurso das várias figuras do BE que intervieram nesta rentrée.

O PCP, nesta análise da legislatura, é ignorado. Quer para o bem — as conquistas –, quer para o mal — os insucessos. Quem sabe se no próximo fim-de-semana o BE não encontrará a sua resposta também no silêncio comunista.

A mensagem política pré-orçamento

Já se sabe que o Bloco de Esquerda parte para as negociações do Orçamento do Estado (OE) para 2019 com três bandeiras na mão: a redução do IVA da eletricidade, o fim das penalizações para as longas carreiras contributivas e mais investimento público, em particular na Saúde e na Educação. Mas, aparentemente, Catarina Martins considerou que não era excessivo sublinhá-las.

“O IVA da energia, da luz e do gás” tem de baixar já no próximo OE e “as penalizações abusivas nas reformas mais longas” não são para continuar. Exigências renovadas na forma mas iguais no conteúdo.

Tem sido apanágio do Bloco de Esquerda nesta fase do ano, em que as conversas com o Governo ainda não começaram, aproveitar as intervenções das suas figuras para solidificar o ponto de partida para as negociações. Mais do que estar constantemente a exigir novas medidas e a trazer novidades para o debate, os bloquistas têm preferido insistir sucessivamente em três ou quatro causas para estabelecer as suas linhas vermelhas.

"Investir. (...) Este é o tempo: investir. Investir onde faz falta para termos uma economia mais forte”, exigiu a coordenador do Bloco de Esquerda no discurso de encerramento.

Aliás, essa estratégia vem de longe. Na campanha para as eleições legislativas de 2015, durante o debate com António Costa, Catarina Martins anunciou pela primeira vez que estaria disposta a sentar-se à mesa das negociações para chegar a um acordo pós-eleitoral com o líder socialista. Para isso, exigia então apenas três medidas: “Se o PS estiver disponível para abandonar a ideia de cortar 1.600 milhões nas pensões, abandonar o corte na TSU e abandonar a ideia do regime conciliatório, no dia 5 de outubro [um dia depois das eleições] cá estarei para conversar sobre um governo que possa salvar o país”, disse então a coordenadora do BE.

E foi esse o caminho que voltou a seguir este ano no Fórum Socialismo. As novidades orçamentais surgiram com o andar da carruagem e das negociações, mas até lá o BE não prevê atirar para o debate público novas propostas.

"É óbvio que já todos os partidos entraram em campanha eleitoral", notou Marcelo Rebelo de Sousa, no fim de agosto, quando questionado sobre o OE 2019

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Por esse motivo, a dada altura da intervenção de Catarina Martins a palavra “investir” já soava a gasto. “Investir. Este é o tempo: investir. Investir onde faz falta para termos uma economia mais forte”, exigiu a coordenadora do partido no discurso de encerramento, prosseguindo com uma série de reivindicações que tinham por base o investimento público. Desde logo a de reservar “1% do [Orçamento do Estado] para a Cultura“, um setor sempre apoiado pelos bloquistas.

Prevê-se que este venha a ser um diploma mais eleitoralista que os seus antecessores. Afinal, 2019 será um ano marcado por três disputas eleitorais: as regionais da Madeira, as europeias e as legislativas. O próprio Presidente da República já alertou para a possibilidade de haver algum eleitoralismo a toldar a discussão. No entanto, a estratégia do Bloco de Esquerda para o Orçamento do Estado parece ser igual a dos anos anteriores. O mesmo já não se pode dizer do tom e do posicionamento eleitoral que começa a adotar.

Posicionamento para as legislativas 2019

Talvez a novidade desta rentrée do Bloco de Esquerda tenha sido o facto de a estratégia eleitoral para 2019 ter começado a ser revelada. O tom utilizado por Catarina Martins para responder ao primeiro-ministro foi mais duro do que aquele que costuma ser utilizado pela líder bloquista. Acusando o toque de António Costa ter insinuado que as propostas do BE são por vezes irresponsáveis e eleitoralistas, respondeu à letra. “O Governo do Partido Socialista foi irresponsável de cada vez que virou as costas a uma urgência social”, disse. “Está errado quem confunde exigência com irresponsabilidade” acrescentou.

Além de se defender dos ataques do primeiro-ministro, a líder do partido utilizou assim o discurso para desferir golpes no Governo e em António Costa. Uma espécie de 2-em-1 que coloca o ónus das irresponsabilidades no Executivo e sacode a água do capote bloquista.

Além de se defender dos ataques do primeiro-ministro, a líder do partido utilizou assim o discurso para desferir golpes no Governo e em António Costa. Uma espécie de dois-em-um que coloca o ónus das irresponsabilidades no Executivo e sacode a água do capote bloquista. 

Essa tem sido, aliás, uma acusação que a direita vem fazendo desde o início da legislatura a toda a “geringonça”, mas que está a ser utilizada agora pelos partidos que a compõem para se atacarem entre si: a irresponsabilidade. Os fundamentos são, claro, opostos aos de PSD e CDS. Mas há pontos em comum que podem vir a deixar o PS numa luta de um contra todos.

Para criticar a obsessão pelo défice zero, por exemplo, Catarina Martins utilizou exemplos que têm sido as armas de ataque da direita nos últimos meses, como os casos da CP ou do SNS. Apoderando-se de uma série de reivindicações que são tradicionalmente típicas do Bloco de Esquerda mas que estiveram mais adormecidas nesta legislatura, a líder do BE aproveitou para cavalgar a onda e juntar-se às críticas, apontando em várias direções – incluindo PSD e CDS.

A estratégia do Bloco de Esquerda para as legislativas de 2019 deve passar precisamente por este binomio: as conquistas são obra do BE, os fracassos pertencem ao Governo. Quanto à direita, não se poderá aproveitar das fragilidades porque o Executivo de Passos Coelho terá, na visão bloquista, sempre uma quota parte da responsabilidade.

Catarina Martins tem vindo a endurecer o tom do seu discurso

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

No discurso de encerramento, Catarina Martins falou de um Executivo “minoritário do PS obrigado a negociar à esquerda”. Uma frase que ilustra bem a sua estratégia: o Governo é socialista, mas foi a esquerda que o forçou a virar-se para a atual solução, assim deixando margem suficiente para associar os pontos negativos da governação à sua génese socialista. Foi o ponto de partida para as críticas que se seguiram.

O tom da líder do Bloco de Esquerda é agora mais carregado e o aproximar das eleições não vai certamente aligeirá-lo. Prova de que a tendência deve ser a oposta é o discurso que Catarina Martins fez há uma semana num encontro organizado pelo seu partido irmão França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. “Precisamos da coragem para ir mais longe. Mas o Partido Socialista em Portugal, como no resto da Europa, mantém-se alinhado com a ortodoxia neoliberal europeia e vai repetindo que é a Europa que não permite, que os tratados europeus não permitem. Já conhecemos todos as más desculpas de quem não quer mudar nada”, afirmou então.

A mira está apontada para os socialistas e não deverá de lá sair tão brevemente. Os bloquistas querem apostar na antecipação para ganharem terreno na corrida pela recolha dos louros da “geringonça”. Mas não correm em pista única.

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