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Anaia, Anchiate e Oldemiro. Histórias de Moçambique e Aga Khan à procura do futuro /premium

Centenas de quilómetros em Pemba, norte de Moçambique, e mais uns quantos em Maputo. O Observador foi ver o lado social de Aga Khan e conta-lhe o que está para lá dos caminhos de pó e aldeias isoladas

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O que pesa mais, um quilo de algodão ou um quilo de ferro? Já ninguém cai na rasteira da velha adivinha, um quilo é sempre um quilo e assunto arrumado. Seguindo a mesma ordem de ideias, 45 quilómetros são sempre 45 quilómetros. É um instantinho. Pode mudar a paisagem aqui e ali, mas a civilização não atrasa ou avança umas eras de uma ponta à outra do percurso. Não há, no entanto, teoria simplista ou certeza absoluta que sobreviva à África profunda. Trinta quilómetros numa estrada razoável (para dizer muito), mais 15 de sobressaltos em terra batida, e saltamos da sofisticada comissária de bordo, que nos dá as “boas-vindas a Pemba”, na província mais a Norte de Moçambique, para Anchiate Jahama, a mulher vestida de capulana que mostra orgulhosa a “latrina melhorada” que construiu recentemente no exterior da sua palhota.

A conquista de Anchiate

Um bloco de cimento com um buraco no meio e dois pés desenhados de cada lado, rodeado por quatro paredes de caniço. Um balde com cinzas ou caliço — às vezes sabão — para manter o asseio da latrina e afastar as moscas. “Melhorada”, porque até aqui era “à noite no mato, de manhã no mangal”, explica Anchiate. O dialeto local é o macoa, mas o orgulho que mostra à porta do cubículo que conseguiu erguer não precisa de tradução. “Quando faz necessidade maior ponho água, depois lavo com sabão e uso cinza para lavar as mãos”.

Anchiate mostra o pequeno espaço onde instalou a latrina de cimento

Com o Observador fala num português esforçado para dizer que “está feliz com a aprendizagem” que fez com os técnicos que a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento  (AKDN) disponibiliza na aldeia de Bandar, em Metuge (e noutras da província de Cabo Delgado). Também foi esta formação que seguiu para fazer a pequena estante de bambu e estacas, que está no centro do seu pequeno terreno, para tirar do chão a loiça usada pela família para comer. Tem 41 anos e dois filhos, um rapaz e uma rapariga, e a expectativa é que no que a cuidados básicos de higiene e saúde pública diz respeito, comece nela a mudança geracional. O que é certo é que estas pequenas alterações já a fazem querer mais: “Ajudem-me com cimento”. A mulher abre as mãos para acompanhar o pedido que dirige aos responsáveis que estão à sua frente, quer cobrir o chão à volta da latrina e também fazer uma fossa.

Fora da palhota de Anchiate, Issufo Jamal está impecável na farda bege de autoridade local. É o líder comunitário e também o presidente do Comité de Desenvolvimento da Aldeia, estruturas que a AKDN criou para promover a iniciativa e o envolvimento da sociedade civil nas decisões locais. Palavras provavelmente com excesso de formalismo para o cenário que ali se vê: um grupo de homens e mulheres, a esmagadora maioria descalça, sentados no chão em cima de uma esteira da qual se levantam para receberem as visitas com cânticos e palmas ritmadas.

São eles o tal Comité que Issufo lidera. “Salama”, cumprimenta o líder, num “olá, tudo bem”. É ele que apresenta o “plano de desenvolvimento da aldeia”, “a Bíblia das necessidades”, como prefere chamar-lhe. Um conjunto de grandes folhas amareladas escritas a caneta de feltro que vai passando num quadro. A azul está o que já foi conseguido, a vermelho o que falta. A escolinha (para o pré-escolar) já esteve a azul, mas as cheias acabaram por destruí-la porque “o material não era o melhor”. Os desafios são ainda estruturais: acesso a água potável, aumento da produção, melhoria nos acessos aos serviços de saúde.

O grupo ouve-o atento, mas o sossego não resiste ao apresentador que se segue: o responsável pela área de Saúde e a sua cartolina onde estão coladas embalagens de vários métodos de contraceção. Adul Razaki fala em macoa e vai fazendo perguntas sobre a matéria já dada noutras sessões. Os gestos e risos na plateia não deixam margem para dúvidas sobre o tema da conversa, embora quem vai traduzindo para português vá fintando o grafismo de evidente cariz sexual. “Ele está a falar da importância do planeamento”. A dada altura o tradutor faz o favor de ser fiel ao texto, tal foi a gargalhada geral quando se falou no uso do preservativo. Enquanto Adul falava na sua importância, uma das “mamãs” (é assim que se chama às mulheres) da primeira fila ripostara: “Mas eu aprendi que banana não é bom consumir com casca”.

No entanto, por ali, o tema é tudo menos ligeiro. Os números do Governo moçambicano estimam que já sejam mais de 2 milhões os infetados com o vírus da Sida no país. Dos infetados, apenas 64% têm consciência do seu estado, pelo que o risco de progressão da doença continua a ser muito elevado. Além disso, segundo a UNAIDS, Moçambique é o terceiro país do mundo com piores valores no que diz respeito a infeções pediátricas. O assunto é, por tudo isto, uma constante nas ações da fundação que tem outra preocupação-base nos cuidados de saúde materno-infantil: a nutrição. Alfredo Chamusso, director da Fundação Aga Khan Moçambique, explica que os níveis de mal-nutrição na província de Cabo Delgado “chegam a ser assustadores”. Aquela é a região de ação da AKDN, apostada sobretudo nos “grupos mais vulneráveis: mulheres e crianças”.

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Militares que assustam e as dúvidas dos pais em mandar filhos para a escola

Não há capulana colorida traçada a rigor, nem lenço impecável na cabeça para receber quem vem de fora que esconda a escassez que por ali se vive. Até porque há uns elementos da comunidade que andam ali à solta em brincadeiras e correrias que não deixam margem para dúvidas sobre a extrema pobreza da região: um grupo de crianças, descalças, camisolas gastas e rotas. O rosto mais expressivo do subdesenvolvimento traz plasmado um sorriso desconcertante. Percebem português, mas não o falam. Falta-lhes os básicos dos básicos. O acesso a informação do exterior corre ao ritmo que leva percorrer a pé os quilómetros dos trajetos poeirentos que separam povoações, num distrito onde a densidade populacional é muito baixa. Não conhecem conceitos como o da “pobreza extrema” ou “subdesenvolvimento”. Mas vivem-nos.

O caminho é longo até que a AKDN consiga o propósito que colocou quando foi criada pelo Imã dos ismaelitas, Shah Karim Al-Husseini: melhorar condições de vida e acesso ao desenvolvimento das populações mais pobres e isoladas do Mundo e sobretudo formar os líderes dos países onde opera. A Fundação Aga Khan Moçambique é uma das agências da AKDN e tem feito este trabalho principalmente na província de Cabo Delgado. Tem 84 colaboradores divididos por vários projetos sobretudo naquela província moçambicana e um orçamento anual entre 8 a 9 milhões de euros, 1 milhão dos quais vem do fundo de Sua Alteza o príncipe Aga Khan. Aquela é a província “mais isolada e com nível de desenvolvimento mais baixo do país”, explica ao Observador Alfredo Chamusso. Os indicadores socio-económicos falam por si: “A taxa de analfabetismo é extremamente alta, mais de 50% da população. “A cobertura de água potável em Cabo Delgado está abaixo de 40% e em energia também é mais ou menos o mesmo número”.

A fé, a fortuna e o poder de Aga Khan e dos ismaelitas que vão ter sede em Lisboa

E ao cenário já difícil daquela província juntou-se no último mês um capítulo de terror, com grupo de radicais islâmicos a tentarem famílias do norte com melhores condições de vida em troca dos seus filhos, recrutados para formação para combate. Foi lá que acabaram por acontecer também os primeiros ataques que foram brutalmente violentos, envolvendo decapitações e ataques com catana. O Governo esteve longas semanas em silêncio antes do presidente moçambicano Filipe Nyussi, que é natural da província, se deslocar lá para uma presidência aberta no final da semana passada, e falar pela primeira vez no assunto e vir prometer que “as Forças de Defesa e Segurança estão no terreno e estamos a fazer tudo para resolver esta preocupação”.

Mas também assustam as povoações que de repente vêm um militar fardado de arma pronta ali mesmo ao lado do furo de água que se dirigem diariamente. “A população sente-se insegura mesmo com a presença dos militares porque isso antes não existia”, diz Alfredo Chamusso que admite que esses episódios de violências são um problema para o trabalho das muitas organizações que cooperam com o Governo no terreno para ajudar ao desenvolvimento das populações. “Não restam duvidas que numa situação de conflitos há sempre uma redução das atividades, se isto continuar teremos poucos estudantes e a nossa intervenção pode reduzir de alguma forma”.

No caso da AKDN, o impacto mais sentido foi nas faltas dos miúdos que frequentam as escolinhas naquela região. “Os pais não tinham muita certeza sobre se deviam ou não mandar as crianças para a escola. Houve uma redução considerável do número de crianças” a irem às escolinhas.

Anaia das tranças saltitantes e a escola de cimento

Anaia não tem mais de quatro anos e não tem faltado à escola (no vídeo abaixo é a menina que canta no meio da roda). A sua aldeia, Titimar, é no distrito de Chiúre, mais afastado na zona dos episódios violentos. Não para na minúscula cadeira de plástico verde que tem um rato Mickey desenhado. Ora para a direita, ora para a esquerda, ri-se muito, a toda a volta, cochicha. As missangas em que termina cada uma das trancinhas do seu cabelo não têm sossego. É um virote, enquanto o professor vai contando a história.

Ainda não são oito da manhã quando chegamos à aldeia, que está mesmo junto à estrada que conduz ao norte do país, e o grupo de crianças da escolinha já está numa roda a cantar. O professor vai perguntando quem quer saltar para o meio e liderar o conjunto. Anaia espeta o dedo bem acima do seu metro de altura e lá vai sem medos. Na sala, faz o mesmo quando a pergunta é quem quer avançar para o centro e contar a história, mas aí a confiança dá uma volta e quando Anaia avança, o dedo fica pensativo na boca e o corpo vai torcendo em vergonha. O retrato é idêntico ao de qualquer criança em qualquer parte do mundo, o cenário nem por isso. Terra, pó, mais uma aldeia de casa de pau a pique (paus de bambu entrelaçados cobertos com barro) e telhado de capim, um escorrega de pau. Ainda assim tão diferente das crianças da aldeia Bandar — a de Anchiate — não muito longe dali. Basta um troço de alcatrão chegar mais próximo para ditar parte deste destino. Isso e a existência de uma escola dedicada aos que estão em idade pré-escolar.

A escolinha de Titimar tem duas turmas, cada uma com 35 crianças. Não há mais vagas, o que deixa neste momento fora da escola 20% das crianças da aldeia que têm 4, 5 anos . O pessoal é recrutado na comunidade e formado pela AKDN que também financiou a construção do edifício da escolinha. O governo paga os ordenados dos educadores. Cássimo Mário é um deles, ganha uns 600 meticais por mês (menos de dez euros, muito abaixo do salário mínimo que em Moçambique corresponde a 4.255 meticais, cerca de 60 euros) e orgulha-se do seu grupo que “já sabe cantar, contar, manipular objetos. Estão estimulados. Também são ensinados a não andar na estrada”, explica.

Com os pais a trabalhar na machamba, as crianças vão da escola para casa a pé, normalmente com os mais velhos, mas o mato nas bermas muitas vezes acaba por fazê-las desviar para a estrada. As aulas são curtas, das 7 horas às 10h30. O sol nasce pelas seis da manhã e o dia termina cedo, com o escurecer a acontecer a partir das 17h. É Inverno no hemisfério sul. Bom, no caso de Moçambique é a estação seca, já que os cerca de 30 graus que se sentem às 10 e pouco da manhã dificultam a que se chame inverno à estação.

Jacinto forma os educadores e explica ao Observador as vantagens de se conseguir que algumas das crianças de povoações mais isoladas possam estar na escola longo antes do primeiro ano. “Ganham competências e habilidades para irem para o ensino primário”. É tempo de intervalo por ali, no espaço para as crianças brincarem há um baloiço e um escorrega feito de madeira. Não interessa o material, a descida é feita como em qualquer parte do mundo: poucas vezes de frente, quase todas de cabeça. Que a adrenalina é maior.

No muro, Anaia está sentada com as amigas a mordiscar cana doce, outros comem mapira (um cereal). O lanche que levam para a escola é responsabilidade da comunidade e dos pais. “Ajuda a integrar a comunidade” no projeto, diz Alfredo Chamusso que explica que essa é uma forma de garantir “a sustentabilidade destas intervenções”. O mesmo acontece quando se tem o Governo a pagar salários: “Capacitamos os professores, construímos escolas. O Governo continua com o pagamento dos professores. Se tivéssemos de pagar aos professores teríamos o fim do tempo do projeto como limite”. Não haveria garantias de que continuasse depois da saída da rede.

Comité de coordenação comunitária da escolinha de Titimar

A escola de Titimar tem seis meses, foi inaugurada em janeiro. Construída em cimento, telhado de zinco e redes mosquiteiras nas janelas. Naquele distrito, Chiúre, há mais 52 escolinhas do género construídas pela AKDN, e mais acima, em Macomia, também na província de Cabo Delgado, mais 17. Cada uma é acompanhada por um comité de coordenação comunitária, constituído por membros das comunidades que têm de assegurar que as instalações funcionam e que as crianças vêm mesmo à escola. Mas a assiduidade é apenas um dos pontos a precisar de atenção. O educador Cássimo vai fazendo desfilar entre as mãos os cartões com desenhos, enquanto conta a história em macoa, mas a sua atenção ao desenvolvimento das crianças tem de ir muito além do cognitivo. É preciso ir acompanhando também se cada um está bem de saúde, com a higiene cuidada e, sobretudo, alimentado.

Ali está o começo do plano de longo prazo. “Estamos a lidar com futuro líderes deste país e a perspetiva é formar líderes capazes de liderar este país com cabeça, tronco e membros. Não queremos terminar nesta fase, mas seguir também para o ensino primário e por aí fora. Este é um processo de longo prazo”, diz o presidente da Fundação em Moçambique que espera que em 2019 arranque a segunda fase, apostada no ensino primário, com projetos que vão até 2025.

Oldemiro, o menino que pediu melhor educação ao ministro

“Quem aqui fala changana?”. É o dialecto mais falado em Moçambique entre as populações locais, predominante na região de Maputo, onde fica a Academia Aga Khan. O macoa usado em Pemba está a 2.500 quilómetros — num país que às vezes parece que não acaba –, bem como a escolinha de Titimar, longe em tudo desta Academia de elite. O objetivo é integrar, a longo prazo, crianças com menos possibilidades financeiras, de famílias de todo o país, mas aquela Academia Aga Khan tem apenas cinco anos de existência e, por agora, esse objetivo ainda vem longe. Perante a pergunta sobre o dialecto local, o grupo aponta imediatamente para o menino que está na fila da frente: “Oldemiro!”

Oldemiro escreveu uma carta ao ministro da Educação e ganhou uma bolsa para estudar na Academia Ana Khan

É o único que fala o que os meninos moçambicanos falam nas ruas — apesar de a maioria dos alunos dali serem moçambicanos — é o único na escola que tem apoio financeiro a 100%, prestado pela própria academia que está integrada na AKDN. A sua história é de persistência e é apontado como exemplo naquela escola. Tem 12 anos, há um ano ganhou uma bolsa para estudar numa escola bem diferente da escola pública que frequentava e onde um dia encontrou o então ministro da Educação, Jorge Ferrão. “Recebeu a minha carta?”, perguntou-lhe sem cerimónias.

Há muito tempo que já tinha tentado apresentar ao ministro um projeto que ainda tem “de uma organização para ajudar crianças. Precisava de apoio, escrevi uma carta para o ministro da Educação e não chegou, submeti através do município”. E nada. Oldemiro não se deixou ficar e quando apanhou Ferrão pela frente insistiu. “Ele disse que não tinha recebido, nem a secretária tinha dito alguma coisa a respeito”, conta ao Observador. E pronto, ali mesmo, explicou ao ministro os seus planos e a desenvoltura impressionou tanto o governante que acabou por indicá-lo à Academia — outros colegas foram encaminhados para a Escola Portuguesa, em Maputo. Oldemiro chegou lá sem saber falar uma palavra de inglês — a língua em que todos estudam, já que o plano é o do Bacharelato Internacional — e hoje é fluente.

O diretor Mike Spencer com uma aluna

“O que é diferente é o tipo de ensino e a quantidade de alunos numa sala. Na minha antiga escola normalmente havia 60 pessoas ou mais na sala agora só somos 9, o que garante que o professor pode dar atenção a cada aluno e explicar melhor”. Quer ser cientista, gosta de fazer experiência que “envolvam tecnologia”. E tem o discurso que se quer ouvir por ali: “Posso ir para o estrangeiro para concluir os meus estudos, mas também voltar cá para, se eu conseguir ser cientista e já ter projetos concluídos, também sustentar e desenvolver o nome de Moçambique“.

Mike Spencer, o diretor da Academia, reconhece “capacidade excecional” ao miúdo que apanha três chapas (transporte público em Moçambique) todas as manhãs para chegar até ali à Matola onde fica a Academia. Há uns tempos, Oldemiro mostrou-se preocupado: “Disse-me que devíamos focar mais na ciência e ter um dia da ciência. E a escola agendou uma semana da ciência”. “Ensinamo-los a ter uma voz”, atira em jeito de máxima.

Para entrar ali, os candidatos são sujeitos a provas de avaliação de mérito. “A ideia é saber identificar excelência, capacidades, encontrar alunos com potencial”, explica o diretor. Formar para depois devolver ao país. “Formar líderes para o futuro, com presença local, mas mente internacional”, remata Cheinaz Vissram, portuguesa e membro da comunidade ismaili (que tem o príncipe Aga Khan), que é voluntária na escola — e também mãe de alguns alunos. Também explica que o facto de pertencer à rede criada pelo líder espiritual dos ismaelistas, a escola tem carácter “não confessional” — uma característica dos restantes projetos da AKDN

“Toda a gente faz os testes, independentemente da condição financeira”, explica. Se ingressarem, os alunos encontram aulas diferentes do comum: há pouco chalk and talk — o quadro e o professor não são o centro, mas sim outras atividades como a dança, música e todo o tipo de experiências dentro e fora da sala de aulas. “O ensino não é baseados em conteúdos, mas no contexto”, diz Adília Cabral que dá aulas de português e de educação física ali na academia. Foi formada por um programa da rede AKDN e conseguiu entrar na formação porque quando lhe pediram para desenhar o que era a aprendizagem desenhou uma comunidade normal e crianças a jogar neca (o jogo da macaca).

É uma das seis academias Ana Khan pelo mundo, está prevista uma para Lisboa

Em alguns casos, a percentagem das propinas é paga consoante a disponibilidade financeira das famílias e a escola tem 50% dos cerca de 100 alunos com algum apoio, até porque a propina anual fica entre os 7 mil e os 9 mil euros, bem longe da capacidade financeira do mundo a que querem chegar. E o plano de ampliação da escola é ambicioso e com olhos postos nesse objetivo de receber alunos de todas as província do país, principalmente das mais isoladas.

As instalações da Matola são novas, estrearam em janeiro. Vários blocos de dois pisos, paredes laranja, ocupam apenas uma ínfima parte do terreno de 22 hectares onde também já estão a nascer dois blocos para residências para o internato. “Faz muita diferença se eles puderem concentrar-se na escola e ao fim do dia não irem para os problemas das famílias”, argumenta o diretor. Laura Brandão, gestora do projeto de obra explica que, além dos “seis blocos residenciais”, o terreno vai ainda ter “90 apartamentos para futuro arrendamento”. Servem para financiar a escola que pretende ser auto-sustentável. O projeto todo, financiado pela AKDN e pela Agência Francesa para o Desenvolvimento, está estimado em 58 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de euros).

Os seis alunos sentados dos poufs estão prontos para ir de férias, as aulas acabaram agora, ao contrário dos outros miúdos moçambicanos já que na academia é seguido o calendário escolar do hemisfério Norte. Estão a par dos valores de liderança que a escola faz gala em incutir aos alunos e falam afinados sobre as vantagens daquela escola”. Malaika, no meio da fila da frente,  até diz que o que pensa “que a escola quer é que sejamos líderes, organizados e façamos um bom trabalho”. Mas o que é isso de ser líder? “É ser uma pessoa integra e que respeita opinião dos outros e que a tenta implementar com consentimento dos outros”, responde Oldemiro.

E achas que vais ser líder, Malaika? Ela ri-se e dispara: “Estou a pensar em ser presidente um dia. Em segundo plano vou ser professoras de educação física. Eu acho que vai dar”. O Ali, de 13 anos, “gostava de ser advogado no futuro. E vou ser sincero, eu não gosto de falar muito mas acho que tenho a capacidade para ser um advogado”. A Maria Cláudia quer ser actriz. Tudo normal. E o Helzer? Mais normal ainda, para um rapaz de 12 anos.

– Quero ser jogador de futebol.

– Como o Ronaldo?

– Sim… talvez melhor [ri-se]. Foi sozinho, deixou a Madeira, deixou a família, os amigos e conseguiu. Ele é uma inspiração para mim.

Pelo sim, pelo não, aqui fica o primeiro registo de um golo do possível futuro craque moçambicano:

Longe, no mato, a escola que forma e o grupo que poupa e dança

De volta a Pemba, em Bilibiza (posto administrativo do distrito de Quissanga), o Instituto Agrário está a ser reabilitado pela AKDN, como parte do investimento da rede no apoio à formação técnico-profissional. O edifício não é alterado desde a década de 80 (altura em que foi criado) e são precisas mais de duas horas, a partir da capital da Província (Pemba) para percorrer os 120 quilómetros até lá. O trajeto — parte em estrada de terra batida — dá a ideia do isolamento e faz daquele instituto um verdadeiro oásis. São várias as organizações sociais que trabalham naquela região, no apoio à escola que forma técnicos em agropecuária e floresta. A Fundação Aga Khan é a que assinou um acordo de 10 anos, com o Governo, para o gerir. É financiado pela Cargill, o Instituto Camões e as embaixadas do Japão e da Noruega.

“O edifício ficou abandonado nos tempos do conflito armado”, diz Fernando Silva que gere o projeto de reabilitação. A escola tem capacidade para 300 estudantes e estão as ser construídas instalações para os professores não terem de fazer quilómetros diariamente para darem aulas naquele local recôndito. Os alunos têm dormitórios e também 171 hectares de terra à disposição para porem em prática o que aprendem nas aulas e 25% da produção individual é para seu benefício pessoal. Arroz, milho, mandioca, alfaces, tomates. Não há nada que aquela a terra não produza e o caminho até lá mostra bem a diversidade que o terreno por ali é capaz de produzir: embondeiros, cajueiros, mangueiros, planta da mandioca fazem parte de uma paisagem que tem tanto de variado como de denso. Além da aprendizagem individual, os estudantes são incentivados a apoiar as comunidades vizinhas. Por ali a agricultura é a principal forma de atividade. Mais perto da costa, ali não muito longe, é a pesca que reina.

O que nos leva de volta a Bandar, onde esta viagem começou. “Poupança, ué”, grita Iussufo. O grupo de 18 pessoas, quase todas mulheres (há quatro homens), responde “ué”. Põem-se em pé, dão as mãos e começa a reunião. Vaja Valentim tenta explicar em português como funciona o grupo mas prefere deixar para o líder do Comité de Desenvolvimento da Aldeia porque as palavras não lhe saem na língua oficial do país (quanto mais recôndita a localidade mais comum é), só no dialeto local. Iussufo diz que os grupos funcionam por 9 meses, ao fim dos quais o dinheiro que conseguiram poupar é distribuído pelos seus membros.

O grupo da poupança em volta do cofre

O estímulo à poupança é um dos objetivos, mas também dar capacidade de investimento a algumas pessoas. “Não têm de se deslocar a Pemba para usar o banco”, diz. Até porque a deslocação até à capital da província não é fácil sobretudo na época da chuva e, por vezes, é preciso dinheiro para investir, por exemplo, em atividades relacionadas com a pesca, a atividade reinante por ali. O cofre de dinheiro que está no grupo serve de banco para emprestar aos que precisam, mas com juros.

Há todo um ritual à volta do cofre. Vem envolvido numa capulana, uma das mulheres abre-o e conta o dinheiro: 15344 meticais (cerca de 200 euros). Depois cada mulher diz quanto poupou naquela semana (os grupos reúnem-se semanalmente), a média são 110 meticais (1,50 euros), e deposita a sua poupança no cofre. Quem falta à reunião paga uma multa e ao fim de dois meses os membros do grupo podem pedir dinheiro emprestado, que têm de devolver em três meses mais juros de 10%. O cofre vai, assim, emagrecendo e engordando. As contas ficam fechadas no nono mês, que é aquele em que o dinheiro que está na caixa é distribuído pelos membros do grupo. A reunião a que o Observador assistiu rendeu 1650 meticais ao cofre de novo fechado e embrulhado. Iussufo saca do telemóvel e num instante faz a soma: a caixa passa a ter 16.994 meticais. Estamos em África, merece música.

O dinheiro fica guardado, à responsabilidade de três pessoas diferentes (a que tem a caixa e duas que têm chaves) e perto, para se tiver de responder a necessidade dos membros do grupo. É o primeiro passo para um bastante mais largo que a AKDN inscreve nos seus objetivos para o futuro: “Que os grupos possam emergir como um mercado de serviços financeiros digitais, explorando as imensas potencialidades fornecidas pelas tecnologias de informação e comunicação”. Talvez seja coisa para a geração de metro e pouco que, ali atrás, vai brincando, rindo e dançando para os disparos fotográficos, desestabilizando as contas das “mamãs” da poupança que lá os têm de ir mandando calar. Talvez.

O Observador viajou para Moçambique (Maputo e Pemba) a convite da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento

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