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Rui Ramos

Vencedor: a confusão. O PS não teve maioria absoluta, mas ficou em posição de jogar com todos os outros numa Assembleia pulverizada como nunca (9 partidos). Se a economia arrefecer, como se prevê, vamos passar meses e anos a falar de “estabilidade” e à espera de eleições antecipadas.

Vencido: a alternativa ao socialismo. O PSD e o CDS tiveram a maior derrota de sempre e vão ter outros partidos (Iniciativa Liberal e Chega) a fazer oposição no parlamento. Cristas percebeu o que se passou. Rio, com um resultado inferior ao de Santana Lopes em 2005, não. Dá ideia que perdeu a cabeça, e não apenas as eleições.

Nota final. Vamos continuar a fingir que é possível exorcizar a abstenção com simples explicações técnicas?

Helena Matos

Vencedores. Há vencedores para todos os gostos: o partido dos abstencionistas porque é o mais representativo. António Costa porque ganhou as eleições. Rui Rio porque, segundo se pode concluir das suas palavras, não só ganhou às sondagens como considera ter ganho o partido apesar de o mesmo partido ter conseguido um dos piores resultados da sua história (desde que Ségolène Royal perdeu as eleições para Sarkozy e levou a noite eleitoral a sorrir de forma tão exuberante que Dominique Strauss Kahn chegou a perguntar aos microfones da rádio “Esta mulher já percebeu que perdeu as eleições?” que não assistia a uma reacção eleitoral tão espantosa quanto a de Rui Rio). O PAN porque multiplicou o seu número de deputados e Costa já o tenta integrar nos acordos de governo. A Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega porque ganharam um lugar no parlamento. E temos ainda o BE e o PCP que apesar de terem perdido eleitores viram António Costa a explicar que eles “consolidaram” as suas votações.

Enfim, à excepção do CDS e da Aliança ganharam todos.

Vencidos. O vencido oficial é o CDS. O vencido de facto é o contribuinte. António Costa quer estabilidade. Mas a estabilidade vai custar caro porque BE e PCP têm de controlar os danos eleitorais resultantes dessa prestação de serviços ao PS. Para mais tornou-se evidente nesta campanha que António Costa lida mal com a tensão, o que dá vantagem aos que negoceiam com ele. Em resumo, o contribuinte vai ter muito para pagar. O que se ouviu de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa traduz-se num crescimento do peso do Estado e no aumento da presença do BE e do PCP no aparelho desse mesmo Estado. Em conclusão, mais nepotismo, corporativismo, taxas e impostos aguardam por nós.

Nota final. Nenhum dirigente arriscará nos próximos anos sair do seu partido para constituir um novo movimento: a imagem de Santana Lopes sentado no debate dos partidos sem representação parlamentar foi de tal forma constrangedora que tolhe qualquer um que pense seguir-lhe os passos.

Nota ainda mais final. Aconselha-se vivamente aos jornalistas que dêem um tratamento adulto e profissional ao Chega. Ares enjoadinhos, declarações de repúdio ou fazer de conta que o Chega não existe são um engraçadismo sem graça alguma.

Alberto Gonçalves

Vencedores. O PS, o PS da aliança com leninistas, da manipulação da Justiça, da subjugação do jornalismo, do recorde fiscal, da dívida pública, dos abonos à banca, da corrupção, das bancarrotas, das “famiglias”, dos amigos, de Tancos, de Pedrógão e das agressões tentadas a velhinhos ganhou as eleições que não ganhara em 2015. Na próxima legislatura, os socialistas adoptarão a chacina de crianças e a subvenção do terrorismo para, se o país não rebentar antes, alcançar a maioria absoluta – se o país rebentar, a maioria absoluta estará garantida. Noutra escala, a IL inaugurou institucionalmente o liberalismo no regime. E o Benfica elegeu um deputado.

Vencidos. O PSD e o CDS. Ambas são derrotas peculiares. O dr. Rio fez tudo para que os cidadãos não votassem no partido a que preside. Por hábito, birra ou “utilidade”, alguns votaram e, talvez, asseguraram que o PSD mantém o rumo que não o devolverá ao poder. Quanto ao CDS, teve sorte diferente: uma votação miserável e a certeza de ver enxotada a dona Assunção, uma indecifrável herança do dr. Portas. Mal por mal, é para eles uma esperança.

Notas finais. Entre o BE, o PCP, o PAN e o Livre, um pedaço significativo do parlamento será composto por partidos de natureza totalitária. Se lhes somarmos o PS, perto de dois terços do parlamento pertencem à esquerda radical. Se formos picuinhas e acrescentarmos o actual PSD, e uns pozinhos do CDS, o parlamento quase não existe do lado de cá do estatismo militante. Isto é, literalmente, uma aberração em países do primeiro mundo, mas um dado aceitável se assumirmos enfim que pertencemos ao terceiro. A metade que não se maçou a ir às urnas salva-se do embaraço. Mas não se salva do resto.

O momento da noite. O discurso do dr. Costa voltou a mostrar que ele é exímio a combinar mentiras grotescas com mentiras ofensivas, a pantominice com a vacuidade, o primarismo com a boçalidade, e o socialismo com quaisquer demências que o sustentem no cargo. É o típico homem sem qualidades, o que faz pensar no que serão os homens, e as senhoras, que o aplaudem.

Alexandre Homem Cristo

Vencedores: Iniciativa Liberal (e pequenos partidos). A eleição de um deputado da IL é a única boa notícia à direita. E é uma grande notícia. A liderança de Carlos Guimarães Pinto (pena não ter sido eleito) na IL representou uma lufada de ar fresco no debate político. Campanhas mediáticas inteligentes, irreverência, ideias novas e uma identidade ideológica muito vincada no liberalismo económico e em casos de sucesso no contexto europeu tornaram a sua mensagem muito apelativa. Será muito interessante de seguir o impacto e a influência que a IL terá no comportamento e nas iniciativas legislativas de PSD e CDS. De facto, a partir de agora, nada no parlamento e no sistema partidário voltará a ser como dantes: a eleição de deputados da IL, do Livre e do Chega, assim como o crescimento do PAN, terá um impacto profundo no debate parlamentar e na agenda política.

Vencido: Santana Lopes. A noite tem vários vencidos. O CDS-PP e Assunção Cristas (que está de saída da liderança) são os mais óbvios derrotados. Mas ninguém perdeu como Santana Lopes. Quando criou o partido Aliança, Santana Lopes apostou numa fragmentação eleitoral da direita, que esvaziasse o PSD. Ora, essa fragmentação não aconteceu como previsto e os votos nas novidades à direita foram para a Iniciativa Liberal e o Chega. Santana Lopes, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, não conseguiu chegar aos mínimos para eleger em Lisboa. É difícil imaginar sinal mais claro do fim de uma carreira política. Enquanto partido, o Aliança morreu.

Nota final
Rui Rio discursou, bem-disposto, como se tivesse obtido uma meia-vitória em oposição às sondagens publicadas no último mês. Ninguém lhe explicou que perdeu. De facto, o PSD geriu a noite eleitoral com declarações para dentro, fazendo um braço-de-ferro com as expectativas negativas que chegaram a prever um resultado pior. A ideia de o partido se sentir “recompensado” por ficar à volta dos 30% serviu de recado ao início da noite e os cerca de 28% finais encaixam nesse perfil. Pode não ter sido o pior resultado de sempre do partido – foi “só” o pior desde 1983 em percentagem e “só” o pior em número de votos desde 1976. Mas foi certamente o pior resultado de sempre que foi “festejado” no PSD. Essa “celebração” foi um momento de dissonância cognitiva entre os sociais-democratas, que deixou claro que Rui Rio quer ficar na liderança do PSD.

Miguel Pinheiro

Vencedores: os pequenos partidos. Ao fim de anos e anos de relativa imutabilidade, o Parlamento fragmentou-se de vez. À esquerda, o PAN explodiu para quatro deputados e o Livre tornou-se uma ameaça para o Bloco — o grande desafio é perceber se os cinco partidos conseguem sustentar um governo. À direita, a Iniciativa Liberal e o Chega souberam aproveitar a fragilidade do PSD e do CDS — aqui, o grande desafio é articular PSD, CDS e Iniciativa Liberal e esvaziar o Chega.

Vencidos: Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Ao fim de quatro anos a sustentar o PS, o PCP perdeu cinco deputados e mais de 115 mil votos. Em 2015, Jerónimo de Sousa forçou o partido a aceitar a geringonça como se fosse a maior invenção da humanidade desde o marxismo-leninismo, mas agora foi obrigado a dar uma dolorosa cambalhota e a fugir do PS como um camponês medieval fugia da peste negra. Já Catarina Martins adoptou a táctica da Rainha de Inglaterra, que se resume assim: “Sorrir e acenar, sorrir e acenar”. Mas isso não esconde a inescapável realidade: manteve o número de deputados quando tinha prometido crescer; perdeu quase 60 mil votos; e viu dois concorrentes — o PAN e o Livre — a reforçarem-se.

Quem manda. Há quatro anos, António Costa ensinou ao país que o importante não é ganhar as eleições — é conseguir mandar. Agora, além de saber quem consegue mandar, convém perceber outra coisa — durante quanto tempo. O PS conseguiu mais votos e mais mandatos, mas perdeu estabilidade.

Nota final. Assunção Cristas não foi vencida — foi humilhada. E tudo indica que o CDS corre agora o risco de entrar numa mini-guerra civil para decidir se é mais conservador ou mais liberal, num movimento de crescente depuração que nunca acaba bem. Quanto a Rui Rio, o seu discurso foi claro: parece que não perdeu e, eventualmente, talvez até tenha vencido. Se o líder do PSD realmente acredita nisso, não vale a pena contrariar.

Última nota. Parece que em Portugal houve em tempos um político influente chamado Pedro Santana Lopes.

Filomena Martins

Vencedores: Iniciativa Liberal, Livre e Chega. PAN. E António Costa. Os três novos partidos que entram no Parlamento (a que se junta o quadruplicar de deputados do PAN) mostram que os portugueses ainda procuram alternativas e que quando as há fogem do bloco central que Rui Rio reforçou em vez de se distanciar dele e até do bloco central geringoncial que anulou a esquerda à esquerda do PS, como se continua a ver pela queda do PCP e até pelo Bloco (perderam juntos 175 mil votos, por muito que Costa ache que os portugueses gostaram da geringonça). Da extrema-esquerda, à extrema-direita, passando pelos liberais libertários, há a certeza de que o debate político vai ganhar outra animação e a expectativa de que com as subvenções garantidas alguns possam crescer de simples movimentos para instituições. Já o líder socialista entra neste bloco positivo porque de facto venceu folgadamente e esta foi a primeira vez que o conseguiu em legislativas. Mas não foi a vitória robusta com que chegou a contar e falhou a maioria: o PS terá de continuar a engolir que tal feito apenas tenha sido conseguido por José Sócrates.

Vencidos: Assunção Cristas, Santana Lopes e Jerónimo de Sousa. Com a subida do PAN, e o facto de o Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega terem conseguido eleger deputados, é ainda mais arrasadora a derrota do ex-primeiro-ministro e ex-presidente das câmaras de Lisboa e da Figueira da Foz: parece incrível como não conseguiu os 2% que lhe dariam a eleição por Lisboa. A CDU continua a sua queda contínua desde as autárquicas: se ainda faltava provar alguma coisa, este domingo mostrou a Jerónimo — ou a quem lhe seguirá, melhor dizendo –, que precisa regressar às suas velhas batalhas, à luta sindical, para garantir a sobrevivência e deixar-se de geringongices, daí o caderno de encargos que apresentou a Costa para lhe dar o seu apoio. Sobre o CDS, os números dizem tudo: conseguiu por pouco ficar acima do PAN, mas com pouco mais de 4% e passando de 18 para 5 cinco deputados: em poucos minutos Cristas percebeu a hecatombe e saiu de mansinho, mas deixa vazio um lugar que pode ajudar a definir o futuro da direita.

Nota final. É difícil encaixar Rui Rio nesta avaliação: o líder do PSD está claramente no lado dos perdedores, mas, como a fasquia chegou a estar tão baixa, os 28% (menos 9 pontos e 400 mil votos que os socialistas) acabam por não parecer tão maus. Só que o pior está para vir: agora, com a direita toda esfrangalhada, vai ser preciso definitivamente haver quem a agregue. Com mais um parceiro (o Iniciativa Liberal), o novo líder centrista que vier (e a forma como se posicionar), Santana afastado (e nunca se sabe o que o orgulho ferido pode provocar), o desgaste de estar no Parlamento e os críticos a irem-lhe às canelas todos os dias (devem começar já esta segunda), Rio vai ser testado até ao limite. E não se costuma dar bem com isso. Marcelo bem se pode preocupar.

Pedro Benevides

Vencedores. Costa — O PS sai claramente reforçado nestas eleições. De todos os partidos da “geringonça” foi o único que cresceu, quer em número de votos quer em número de mandatos. Mais, depois dos ataques de que foi alvo na campanha eleitoral por parte de PSD e CDS, pôde assinalar a “derrota histórica da direita”. E agora pode negociar à esquerda com a voz mais grossa porque tem um peso que não tinha antes. Ou seja, tem aquilo que os socialistas desejavam a partir do momento em que perceberam que não havia hipótese de maioria absoluta: ter mais soluções disponíveis para governar. Incluindo governar sozinho.

André Silva — O PAN pode não contar para muito nas geometrias variáveis que se formarão no parlamento a partir de agora, mas quadruplicar o numero de deputados é claramente uma vitória.

Joacine Katar Moreira, Carlos Guimarães Pinto e André Ventura — Pequenos partidos com poucos meios e exposição mediática muito mais reduzida do que os chamados grandes conseguiram entrar no Parlamento. Nem todos acrescentarão o mesmo à democracia portuguesa e terão tudo a provar na Assembleia da República, mas foi assim que o PAN começou há quatro anos. E hoje tem o seu próprio grupo parlamentar.

Vencidos. Assunção Cristas permanecerá durante muitos anos como um caso de estudo eleitoral. Depois de uma vitória histórica nas autárquicas em Lisboa, por falta de comparência do PSD, perdeu o pudor de dizer ao país que era a candidata a primeira-ministra da direita. Com um PSD mergulhado em crises internas, assumiu no Parlamento as dores da oposição ao governo de António Costa. Mas depois, inexplicavelmente, houve o caso dos professores e a seguir, talvez com receio do sucesso do Chega, o partido assumiu para as europeias uma retórica tão colada à direita que foi penalizado nas urnas. A aura do CDS esfumou-se e, mostrando que tinha percebido todos os sinais, Cristas virou a agulha abruptamente. Não foi a tempo. Saiu sem glória, ainda antes da contagem dos votos ir a meio, sabendo já que a bancada do partido tinha levado um arraso.

Confirmaram-se também as previsões de que a “geringonça” não foi meiga para o PCP. Jerónimo perdeu votos, perdeu mandatos e não conquistou nenhum dos objetivos a que se tinha proposto. Foi a força política mais prejudicada à esquerda. Assim sendo, reeditar o que aconteceu nos últimos quatro anos serve para quê? O discurso de derrota deixou pistas para o que aí vem. Os comunistas não se opõem a um governo minoritário do PS, mas desta vez talvez seja melhor fazer como se fez “durante décadas”, negociar caso a caso.

Finalmente, o Aliança. Primeiro as europeias, agora as legislativas. Esta é já a segunda derrota eleitoral de Santana Lopes e terá doído mais num contexto em que outros partidos com menos exposição mediática (de cuja falta Santana Lopes tanto se queixou) conseguiram fazer entrar deputados na Assembleia da República. De Santana nunca se poderá dizer que terminou a vida política. Mas este resultado prova que o ex-líder do PSD nunca conseguiu explicar verdadeiramente o que tinha de novo para trazer à vida política portuguesa.

Nota final. Nove partidos com assento parlamentar vão trazer qualquer coisa de novo à rotina parlamentar. Novo não quer dizer necessariamente bom, mas é o que é e mais uma vez teremos uma legislatura diferente das outras. Houve surpresas e confirmações, houve vencedores e vencidos e houve também aqueles que ficam ali a meio do caminho. É o caso de Rui Rio.

Quem visse a festa que se fez no hotel Marriott, em Lisboa, poderia pensar que o PSD estava prestes a regressar ao poder. Na verdade, Rui Rio ficou taco-a-taco com o pior resultado de sempre conquistado pelo partido. Ficou inclusivamente abaixo da percentagem conseguida por Santana Lopes em 2005, embora tenha conseguido eleger mais deputados. Ainda assim, face ao descalabro do CDS, de facto “não foi um desastre”. O PSD conseguiu segurar-se numa noite violenta para a direita. Rio não confirmou as piores expectativas que se chegaram a desenhar a meses das legislativas, e pode eventualmente vir a conseguir poder negocial com Costa se a “geringonça” não encaixar todas as peças.

Também o Bloco ficou ali numa zona cinzenta. Perdeu votos, embora tivesse mantido o grupo parlamentar. Não saiu prejudicado como o PCP, mas dificilmente ficará sozinho a aprovar medidas de um governo PS, que ainda por cima reforçou a bancada. Não foi uma noite má para o BE mas o partido vai, muito provavelmente, perder o poder que conseguiu ter até aqui.

[Começa agora a prova dos nove. O filme da noite eleitoral]