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Humberto Gomes foi, com 43 anos, um dos guarda-redes da seleção nacional de andebol em Tóquio 2020
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Humberto Gomes foi, com 43 anos, um dos guarda-redes da seleção nacional de andebol em Tóquio 2020

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Humberto Gomes foi, com 43 anos, um dos guarda-redes da seleção nacional de andebol em Tóquio 2020

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Andebol após regresso da Venezuela, Donner, a faculdade aos 30 e o futuro como treinador: entrevista de vida ao guarda-redes Humberto Gomes

Não está com Seleção no Europeu que começa esta quinta-feira mas promete ir à final se Portugal lá chegar. Humberto Gomes, mítico guarda-redes, recorda carreira no andebol, estudos e, claro, Quintana.

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Festeja o aniversário no primeiro dia de cada ano mas parece que, de certa forma, as estações não passam por ele. Aos 44 anos ainda é atleta de 1.ª Divisão, internacional português até há bem pouco tempo e fez parte de várias gerações da seleção nacional de andebol. Do tempo em que talvez a equipa portuguesa procurasse “perder por poucos” frente às  principais potências, contra as quais agora joga olhos nos olhos, contra as quais vence jogos ou, lá está, perde por poucos, mas sem que esse seja o objetivo.

Humberto Gomes é uma das referências do andebol nacional e, sem precisar de pensar muito, um dos maiores exemplos de longevidade no desporto português nos últimos anos. Atualmente no Póvoa AC, do principal Campeonato português, o guarda-redes conversou com o Observador sobre o que esta geração de andebolistas, de talento habitual, porém com mentalidade diferente, pode fazer no Europeu de andebol que arranca esta quinta-feira. Portugal entra em campo só amanhã frente à Islândia e Humberto, como sempre, vai estar de olhos postos na bola. Só que, desta vez, fora das balizas e de campo, depois de não ter sido convocado para a competição que se desenrola na Hungria e Eslováquia.

Questionado sobre se a ausência dos convocados tinha sido uma espécie de acordo de cavalheiros com o selecionador Paulo Pereira, Humberto Gomes chamou-lhe uma “conversa” normal, relativa à posição de guarda-redes que “mais cedo, ou mais tarde, teria de ser renovada”. “Claro que me custa, mas o selecionador achou que seria agora a altura ideal. Eu concordei sem problema nenhum”, referiu. Falhará, assim, mais um capítulo de uma geração que foi aos Jogos Olímpicos, que ficou no décimo  lugar no último Campeonato do mundo (2021, Egito) e no último Europeu de 2020 conseguiu a sexta posição (disputou-se na Áustria, Noruega e Suécia) – tudo classificações que nunca tinha conseguido na sua história.

O experiente atleta admite que ficou “um pouco triste” com a “compreensível mudança que teria de ser feita” na baliza mas não se mostra abatido, antes expectante pelo que os seus antigos colegas podem fazer este ano. E, garante, “enquanto jogar” podem contar com ele. Independentemente da função: “Disse ao selecionador que enquanto jogar e ele achar que eu poderei ajudar, mesmo que seja no banco ou de outra maneira qualquer, eu estarei sempre disponível, porque enquanto eu jogar a seleção será sempre um sonho. Claro que eu gostaria muito de ter ido mas de certeza absoluta que os guarda-redes que têm trabalhado na seleção vão dar conta do recado”. Os guardiões que Portugal leva ao Europeu são Manuel Gaspar e Gustavo Capdeville, depois de saída de Miguel Espinha dos 18 eleitos.

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"Neste momento a Seleção portuguesa entra em qualquer jogo e em qualquer competição para ganhar todos os jogos"

A diferença? “Seleção portuguesa entra em qualquer jogo para ganhar”

A palavra longevidade não é usada em vão em conversa e em qualquer texto com Humberto Gomes. Afinal, esteve no Mundial 2003, que se disputou em Portugal e no qual a Seleção Nacional alcançou o 12.º lugar. 18 anos depois, lá esteve ele em nova prestação portuguesa. Para quem vê e acompanha, como que se sente que algo mudou na Seleção, algo que o guarda-redes do Póvoa AC confirma que vai, mais uma vez, para além da qualidade que já é habitual nos atletas nacionais, da baliza às pontas, dos centrais aos laterais, dos pivôs às equipas técnicas. Sendo assim, o que mudou nas últimas duas décadas?

“Eu acredito que para além de termos uma geração com muita qualidade, a grande diferença esteve na mentalidade. Neste momento a Seleção portuguesa entra em qualquer jogo e em qualquer competição para ganhar todos os jogos. E sente e sabe que é capaz disso, mesmo não sendo fácil. E antigamente entrávamos se calhar para ver o que acontecia ou para perder por poucos. Acho que essa é a grande diferença das gerações anteriores, não que não quisessem, mas a mentalidade se calhar não era a ideal”, explica alguém que conhece bem as realidades do andebol nacional desde meios dos anos 90.

Não tem a ver sequer com a formação, visto que “Portugal sempre conseguiu grandes resultados a nível de camadas jovens”, mas admite que quando “chegavam a seniores e à equipa principal notava-se e sentia-se que querer jogar contra uma Dinamarca, uma Noruega ou uma França, acreditando na vitória, era um sonho”. “Hoje em dia não é um sonho. Vamos para ganhar e se eles ganharem é porque foram melhores que nós e nós demos tudo dentro de campo”, frisou.

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Mas essa qualidade, e esta é uma discussão ou uma tentativa de relação causa-efeito que se faz em várias modalidades coletivas, não é proporcional à qualidade geral do Campeonato português. Há bons jogadores, há internacionais, gente que vem de fora para acrescentar valor, participações em competições europeias. Mas a sorte calha sempre aos mesmos: “Sinceramente eu acho que o Campeonato não está melhor, mas os três grandes sim [FC Porto, Sporting e Benfica]. Têm maiores investimentos e isso tem-se visto nos resultados que eles têm obtido nas competições europeias. Claro que os jogadores portugueses que jogam nesses três grandes de Portugal, e com esse avolumar de jogos internacionais, a sua qualidade evidentemente sobe bastante”.

– Acha que o campeonato está a ficar um bocadinho para trás, tirando os três grandes?
– Sinceramente, acho que sim…

Um bom exemplo disso, ou de como as coisas mudam, pelo menos, “é o que tem acontecido aos clubes que não têm, digamos, a máquina do futebol por trás”, dando o seu ABC, clube bracarense onde se formou e de onde saiu titulado, como exemplo do paradigma. “Cada vez mais os clubes têm menos capacidade económica e cada vez menos condições para dar aos jogadores. Assim, quase todos os grandes jogadores vão jogar para fora, ou então já estão nos três grandes. Porque os outros clubes não têm condições para que um miúdo de 18 ou 19 anos queira enveredar pela carreira e seguir o andebol. Chega a uma altura em que não se consegue rentabilizar o trabalho que fazem durante anos e anos nas camadas jovens”, explica.

A promessa (esquecida mas cumprida) e um orgulho entre pai e filho

Chegados à palavra rentabilizar, então é preciso perceber o quão difícil é chegar ao ponto de se ser efetivamente jogador de andebol, até viver disso, eventualmente, ou quem joga apenas pela teimosia, palavra usada aqui num bom sentido. Parece ser o caso de Humberto Gomes: “Neste momento, e falo por mim, com esta idade e para continuar a jogar é porque eu sou completamente apaixonado pelo andebol e pela competição em si. Adoro ganhar, adoro competir e é isso que me tem feito continuar a trabalhar e a treinar todos os dias. Não financeiramente, porque neste momento não é muito compensador jogar andebol, mas acho que o que faz os miúdos quererem jogar andebol é a paixão e o gosto pela modalidade. E querer sempre chegar a um patamar acima, claro”.

E querer chegar a esse tipo de patamares, como aqueles a que Humberto chegou, requer sacrifícios, decisões importantes ou até, por vezes, trabalhos redobrados. Como, por exemplo, deixar os estudos para jogar andebol e, muito mais tarde, pegar neles como uma promessa (lembrada por uns, esquecida por outros) e terminá-los com a mesma qualidade com que um guarda-redes de andebol se torna elástico perante uma bola atirada com toda a força. Humberto Gomes, o jovem de 18 anos, escolheu Engenharia Civil na Universidade do Minho, mas muito rapidamente decidiu que ia ser profissional de andebol. “Foi quando entrei na faculdade que deixei de estudar e dediquei-me a 100% ao andebol. E depois com 32 anos quando regressei de Lisboa [passou por Belenenses e Sporting, com títulos até europeus nos leões] para Braga [de regresso à casa mãe ABC], aí sim tomei a decisão de pegar no curso a sério e consegui se calhar fazer o mais difícil, que foi depois de tantos anos sem estudar conseguir acabar um curso de cinco anos em cinco anos”, congratula-se.

Muitos são os jovens que largam os estudos para seguirem sonhos desportivos, os resultados variam e dispersam-se de forma inimaginável e incapazes de serem enumerados, mas exceto alguns escolhidos, aquele chamado Plano B após a vida desportiva, principalmente em modalidades de pavilhão, pode ser importantíssimo. Foi e é para Humberto, que acabou, sem saber, por cumprir uma promessa feita há muitos, muitos anos. Quando tinha os tais 18 anos.

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“Para os nossos pais é sempre complicado dizermos que não queremos estudar mais, ou que não ia estudar mais e ainda por cima seguir uma carreira de andebol. Ainda se fosse futebol, não é? Andebol é assim um bocado para o obscuro, não sabiam o que é que seria o futuro. E eu lembro-me exatamente quando tomei a decisão porque nessa altura, com 18 anos, com o Aleksander Donner [então treinador do ABC] em Braga treinava duas vezes por dia, não tinha carta de condução e a faculdade era em Guimarães. Tinha de ir e vir de autocarro todos os dias e tomei se calhar a decisão mais fácil, que foi apostar tudo por tudo no andebol. Quando tomei essa decisão disse ao meu pai: ‘Não te preocupes, nem que eu tenha 40 anos eu não deixo de jogar sem acabar o meu curso’. Depois quando finalizei o curso, o meu pai, por mais incrível que pareça – que eu já não me lembrava disso –, é que me disse: ‘Tu realmente fizeste o que me prometeste’. O que foi um orgulho muito grande para mim porque correspondi às expectativas que o meu pai tinha”, conta.

Com “duas pequenitas” a seu cargo, o que diria Humberto se um dia destes, vamos dizer com os tais 18 anos, quisessem deixar tudo pelo desporto? Como reagiria o pai? “Eu quando tomei essa decisão, a partir desse dia, não pedi nem mais um cêntimo, nem gastei mais um cêntimo dos meus pais. Fiquei completamente independente. A partir daí eu tomei a decisão e disse aos meus pais que me responsabilizava por mim. Se as minhas filhas tomassem uma decisão dessas e se eu visse que era uma paixão e que elas queriam muito, eu só tinha de apoiar. Porque se eu fiz isso, porque é que elas não haveriam de fazer?”, responde.

Humberto Gomes acha ainda que, continuando no mesmo tema, “agora é mais difícil” seguir uma carreira de andebolista. “O nível de vida está muito diferente. É muito superior. É como digo, ou se joga nos três grandes ou não vale a pena enveredarmos pelo profissionalismo”, explica.

Humberto Gomes em 2016, na baliza do ABC

Numa toada semelhante, agora que já não é profissional, questionar o porquê da Engenharia Civil parecia óbvio, com a resposta a ser também ela, no mesmo sentido, muito simples. Humberto Gomes recorda que “é uma paixão desde miúdo”. “Lembro-me que era miúdo e dizia à minha mãe que adorava matemática, adorava fazer contas, adorava desenhar desenhar prédios, alçados... É uma paixão que eu também tenho e quando deixar o andebol, que nunca irei deixar, o que irei deixar é de jogar, agora de certeza absoluta que irei continuar ligado para o resto da minha vida, irei seguir a minha segunda paixão, digamos assim”, frisa. Ligado para o “resto da vida”. Mas como? “No início gostava muito de ser treinador de guarda redes, mas cada vez mais estou mais interessado em ser treinador principal. Por isso ainda vai demorar algum tempo, que tenho de tirar o curso e tudo, ainda vamos ver”.

Donner fez por Humberto o que raramente fazia por alguém…

Dizer “ainda vamos ver” aos 44 anos quando já não se é profissional da modalidade revela pouca vontade de a deixar, podemos dizê-lo, e Humberto demonstra mesmo isso, apesar de não balizar um possível abandono. “Não vou dizer que daqui a um ano estarei por cá, daqui a dois estarei por cá, eu não sei. O que eu sei é que fisicamente sinto-me muito bem e que o clube está contente com o trabalho que tenho feito. Eu sinto que ainda faço alguma diferença dentro de campo e enquanto isso se mantiver irei continuar a jogar. Quando começarem as pernas a fraquejar, quando já não me apetecer ir treinar ou isto ou aquilo, aí será altura de dizer stop“, garante.

E continua: “Só quando a competição já não me disser nada ou quando a vontade de ganhar não for a mesma, nessa altura, ou quando o corpo pedir para parar de jogar, dedico-me a treinar guarda-redes”.

Tal como vem sendo moda, apesar de ser verdade, noutras modalidades, Humberto Gomes, que quer assim que o seu destino passe pelo banco e pela orientação de atletas, refere que a “principal virtude que um treinador tem de ter é ser um bom gestor de homens”. “Nós somos todos diferentes. Uma equipa é feita de 13 ou 14 indivíduos que têm cada um a sua personalidade, cada um tem a sua maneira de reagir aos problemas e acho que o treinador para além de perceber de tática tem de ser um excelente gestor de homens, porque penso que… Eu dou um exemplo muito rápido e muito fácil. Eu tenho dois atletas comigo, se gritar para um, ele se calhar vai abaixo completamente e outro talvez vá reagir de maneira diferente e vai mostrar que eu estou errado. Por isso é que eu digo que um treinador tem que ser um excelente gestor de homens”, pormenoriza.

"Um parafuso a menos" é o que dizem os andebolistas sobre os guarda-redes, segundo Humberto Gomes
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Foi um dos guarda-redes escolhidos para os inéditos Jogos Olímpicos
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Humberto Gomes não foi convocado para o Euro 2022, mas diz estar disponível para ajudar a seleção de qualquer forma
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Diz que os Jogos de Tóquio, mesmo com a Covid-19, foi uma experiência inesquecível
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Se há uns anos lhe dissesem que ia a uns Jogos, Humberto diria que era "mentira"
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Mais uma vez, impunha-se uma questão: agora Humberto tem 44 anos mas, quando tinha 24, as coisas também eram assim? Ri-se e diz que não, que “antigamente era mais militar”. “Se quiséssemos andar para a frente tínhamos de obedecer e fazer. Hoje em dia se falarmos torto para um miúdo de 14 ou 15 anos eles desistem e vão para outra modalidade ou qualquer coisa do género“, salienta, dando ainda a sua opinião sobre o porquê de isto acontecer: “Por um lado, a nível da oferta do desporto, de modalidades, de clubes, é muito maior, e por outro eu acho que a paixão já não é a mesma. Esta geração hoje em dia tem feito grandes coisas pelo andebol português, além de termos conseguido grandes resultados. Eu vejo miúdos cada vez mais apaixonados e a querer praticar porque tivemos aí uma altura que não foi nada fácil. E se lhes chateássemos muito a cabeça eles desistiam e iam embora”.

Com mais de 20 títulos em Portugal, Aleksander Donner, que morreu em 2013, é um dos treinadores mais marcantes do andebol português. Durante a conversa com o Observador o seu nome já tinha sido referido e importava agora confirmar se tinha sido o técnico que mais marcou Humberto Gomes. “Sem dúvida, foi quem me formou e me fez acreditar em tudo”, responde o guarda-redes com simplicidade, não esquecendo ainda o atual selecionador nacional Paulo Pereira, “que incutiu uma mentalidade vencedora nunca vista na Seleção de Portugal”.

"A jogar fora ganhámos por muitos e o Donner resolveu dar oportunidade aqui ao miúdo na segunda mão em casa. Fui titular e defendi tudo e mais alguma coisa"

Mas foi Donner quem apostou em Humberto e, apesar de não se lembrar do seu primeiro jogo de sénior, recorda o primeiro jogo pela Seleção, “numa Taça Latina”, e a estreia na Liga dos Campeões pelo ABC, quando Aleksander Donner se comportou de forma estranha, muito provavelmente no bom sentido. “Não foi bem na Liga dos Campeões, foi numa pré-eliminatória que o ABC foi e jogámos contra o Hapoel Rishon de Israel. A jogar fora ganhámos por muitos e o Donner resolveu dar oportunidade aqui ao miúdo na segunda mão em casa. Fui titular e defendi tudo e mais alguma coisa. Ele bateu palmas quando saí. Mandou-me sair faltavam dez minutos para acabar o jogo e bateu palmas de pé, que era uma coisa inimaginável no Donner porque ele tanto fazia isto como me fez coisas como no primeiro minuto de jogo eu ter sofrido um golo e ele tirar-me do campo, por exemplo”, recorda sobre o treinador ucraniano, que entre risos diz ter sido um “comandante” na tal altura mais “militar” do desporto. “Nós tínhamos de fazer aquilo que ele dizia e mais nada. Mas a verdade é que ele tinha resultados e fez grandes jogadores. Por isso cada um [voltando ao selecionador Paulo Pereira] na sua altura foram e são excelentes”, concluiu.

Sem problemas, Humberto Gomes assume agora junto dos “miúdos” o papel de “contador de histórias” porque tem “muitas”. E afirma que por vezes explica aos mais jovens coisas que provavelmente eles nem entendem muito bem: “Eu digo-lhes que, por exemplo, o Donner dizia ‘olha tens de dar cambalhotas da linha de fundo até a linha de fundo’. E eu dava, nem questionava o porquê, porque ele é que sabia e ele é que mandava. Hoje em dia se mandamos um miúdo dar cambalhotas de um lado ao outro, eles perguntam ‘mas porquê? porquê isto?’. Eu acho que foi a grande diferença. Ele viu em mim qualquer coisa porque na altura em que comecei a treinar eu nem sabia ser guarda-redes. Se calhar viu altura, viu envergadura, viu qualquer coisa, viu que eu gostava de trabalhar e que obedecia a tudo o que ele dizia para fazer. E é o que eu digo aos miúdos também hoje em dia, é preciso saber semear para depois colher”.

O regresso “sortudo” a Braga e a importância da psicologia

Humberto Gomes deixou o ABC em 2002. Andou pelo Gaia, pelo São Bernardo, veio a Lisboa jogar por Belenenses e Sporting, regressando a casa em 2009. No entanto, e definindo-se como um “felizardo e um sortudo numa carreira de conto de fadas”, quando regressa a Braga sente um “distanciar gigantesco da massa associativa do ABC em relação ao clube”. “Lembro-me perfeitamente que eu disse ‘nós temos que dar a volta a isto porque o ABC é o ABC’. E passados cinco anos de eu ter regressado fizemos uma época fantástica e acho que foi a melhor época, não digo da minha vida, mas foi uma excelente época em que nós ganhamos quase tudo [Campeonato, Supertaça e Taça Challenge, uma competição europeia].

"Eu próprio trabalhei com um psicólogo porque bloqueava completamente dentro de campo quando jogava"

“Foi um orgulho gigantesco, porque ver o pavilhão Flávio Sá Leite novamente cheio e ver toda a gente a puxar pelo clube e nós conseguirmos conquistar da maneira como conseguimos. Foi uma época de ouro”, garante, relacionando ainda, de certa forma, a mudança de mentalidade no clube no espaço de menos de uma década com a “mentalidade desportiva que existe em Portugal”.” Se estivermos na mó de cima e a ganhar toda a gente nos conhece, bate nas costas, pavilhões cheios, por aí fora. Quando as coisas começam a não correr tão bem começam não ir apoiar a equipa a não ir ver os jogos. O ABC tinha passado por vários anos sem ganhar um título e se calhar por isso também as pessoas se afastaram um bocado do clube, para não falar de uma grave crise económica”, relembra.

As perguntas para Humberto Gomes iam surgindo de forma muito natural, pelo que a palavra crise trouxe à baila a questão de o internacional português por mais de 90 vezes ter dito numa outra entrevista que todas as equipas deviam ter um psicólogo. Sobre isso, disse que se baseia nos “tantos anos” que tem de competição, em como todos os jogadores “reagem de maneira diferente às coisas, quando o jogo corre mal ou quando há lesões”. “Acho que é fundamental e eu próprio trabalhei com um psicólogo porque bloqueava completamente dentro de campo quando jogava. Trabalhámos durante um ano e sei da minha experiência e do que ouvi que é fundamental que cada clube tenha um psicólogo”…

– Porque nem tudo é um mar de rosas?

“Exatamente, nem tudo é um mar de rosas. Os jogadores da Seleção agora vão estar um mês longe da família, fora de casa e cada um de nós reage à sua maneira. Uns têm mais saudades, outros têm menos saudades, uns sentem mais falta das filhas. E quando as saudades começam a aparecer, as coisas dentro de campo já não começam a correr bem e acho que era preciso uma pessoa que ajudasse a que isto não fosse tão bravo e tão grave“, conclui, elogiando ainda o selecionador Paulo Pereira por fazer “muito esse papel”.

Guarda-redes de andebol? “Eles dizem que somos completamente loucos”

Humberto Gomes passou todos estes (muitos) anos de andebol ao mais alto nível em Portugal, sem sair, sem idas ao estrangeiro, sem aventuras longe das fronteiras nacionais. Confessa que teve uma proposta “no ano passado” mas que foi exemplo quase único na sua carreira. Além disso, havia muitas coisas a considerar: “Com a idade que eu tenho, já estou a trabalhar, já tenho família, filhas, tinha que uma proposta tentadora, que valesse a pena arriscar e ir para fora e isso não surgiu. Agora durante a minha carreira não houve muita abordagem…”.

Explica ainda que “antigamente era muito mais complicado o jogador português ir lá para fora” e que é “muito mais fácil hoje em dia”. As razões não lhe são totalmente claras, mas afirma que “olham agora para o jogador português de maneira diferente”. Não só “existem muitos jogadores a jogar lá fora, como agora é mais fácil viajar”.

“Correste comigo, remataste comigo e marcaste golo comigo”: a arrepiante mensagem (e tatuagem) de Rui Silva para Quintana

Como qualquer miúdo, Humberto Gomes também olhou para o futebol. “Gostava muito de ter jogado futebol 11”, referiu. Com a infância passada na Venezuela, voltou a Portugal aos dez anos e “tinha um primo que jogava no ABC”. Confessa que, nessa altura, “nem sabia o que era andebol e foi a primeira vez a ver a modalidade” que cedo o “apaixonou”, até porque “o resultado final tinha sempre muitos golos de ambos os lados”. “Quando somos miúdos queremos é golos. Lembro-me perfeitamente que nesse ano, quando entrei no sétimo ano, o desporto escolar era andebol. Eu fui logo jogar andebol e quando cheguei ao desporto escolar ninguém queria ir para a baliza. Não me perguntem porquê, se era medo, e eu disse ‘eu vou, eu vou para a baliza’. Começou aí uma caminhada longa. O treinador lá achou que eu tinha algum jeito para aquilo. A seguir a esse ano ele convidou-me para ir jogar federado e começou aí”, atirou sobre uma posição que admite, todos os outros jogadores acham que “é preciso ter um parafuso a menos para se ocupar”. “Eles dizem que somos completamente loucos, eu acho que não. É gostar do que se faz, mas depois, claro, ter uma qualidade que é não ter medo, isso é evidente”, acaba por confessar.

Por todos, por Humberto, mas sobretudo por Quintana

É uma experiência inesquecível, se me dissessem há uns anos que eu ia estar nuns Jogos Olímpicos eu ia dizer que era mentira, que era impossível. Mas com o trabalho que todos nós fizemos, conseguimos lá estar e foi um momento único e fantástico. Pena foi a Covid-19, que não deixou que os pavilhões estivessem cheios e a aldeia olímpica fosse como costuma ser.  Nós estivemos com alguns atletas que não era a primeira Olimpíada e disseram que o ambiente não tinha nada a ver. Mas para nós foi fantástico e tenho a certeza absoluta que se Portugal conseguir ir aos próximos Jogos [Paris 2024] acho que o resultado será bem melhor”, frisou Humberto Gomes de forma concisa sobre a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (disputados em 2021), em que a equipa de andebol se tornou a segunda Seleção portuguesa de uma modalidade de pavilhão a ir a uns Jogos.

Por Quintana, o Andebol português é olímpico

E foi uma experiência ainda muito marcada pela morte de Alfredo Quintana, antigo guarda-redes do FC Porto que morreu no final de fevereiro de 2021, dias após ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória num treino dos dragões.“Por nós e por ele [Alfredo Quintana]” tinha sido o mote deixado por Paulo Pereira para o agora épico torneio de qualificação que resultou nuns inéditos Jogos Olímpicos para Portugal. Sobre o amigo e colega, Humberto recorda uma “tristeza enorme”.

“Eu soube do que tinha acontecido antes de toda a gente. Quando me ligaram e disseram o que tinha acontecido nem queria acreditar. Não queria acreditar porque o Quintana sempre foi um rapaz alegre, de bem com a vida, amigo do amigo, saudável, desportista, jogava bem… Só futebol é que não jogava bem, mas basquetebol jogava bem, vólei também e andebol nem se fala. Foi um choque para todos, eu imagino…”, recorda o jogador do Póvoa AC, que além do “choque para todos”, recorda como os “colegas de equipa do FC Porto passado uns tempos estavam a treinar no sítio onde tudo aconteceu”.

“Foi um momento muito doloroso para todos, mas Deus assim quis. Eu sou muito católico e acho que por algum motivo Ele quis que assim fosse. Só espero é que ele esteja bem onde estiver e que a pequenina dele tenha muito orgulho no pai que teve. Foi muito duro, uma semana antes eu tinha tido jogo contra ele e ele estava super bem, falámos das pequeninas, da dele e das minhas. E uma semana depois…”, recorda sobre o luso-cubano com quem “partilhava o quarto nos estágios”. “Ficou uma amizade para a vida que, infelizmente, acabou da pior maneira”, lamenta.

“Não sou um sobrevivente. Sou um guerreiro extraordinário”. Morreu o bom gigante, Alfredo Quintana. Tinha 32 anos

“Vou ao Europeu se eles forem à final”

Seguindo em frente na conversa, para o presente e futuro, sem esquecer o que o passado dá, nem quem lá ficou fisicamente, voltámos ao Euro 2022, na medida em que o Observador queria saber o que Humberto Gomes achava que Portugal poderia fazer e quem são os principais favoritos à conquista do cetro europeu. “Um Europeu é sempre muito mais difícil do que um Mundial, teoricamente. Acho que as grandes seleções que praticam andebol no mundo são europeias. E claro, temos a Espanha [vencedora das duas últimas edições] eterna candidata, a França, Dinamarca, Noruega, Alemanha… Portugal, a mentalidade que eles têm, que de certeza agora irá perdurar durante muitos e bons anos na seleção, espero que para sempre, é a de entrar dentro de campo sabendo perfeitamente [que pode ganhar] e respeitando o que temos à frente”.

“Nós temos consciência que podemos ganhar e temos possibilidades e capacidades para ganhar. E é nesse espírito com certeza que eles vão jogar já na sexta feira contra a Islândia. Nós temos vários jogos com a Islândia, perdemos por um, ganhámos por um… Vai ser um jogo complicado e muito importante porque entrar com o pé direito numa competição destas é fundamental como se viu no último europeu, quando nós ganhamos à França no primeiro jogo. Acho que dá uma enorme dose de confiança e acho que vai ser fundamental”, garante alguém que viveu estes momentos como ninguém, de uma posição bastante privilegiada.

E fica a promessa: “Infelizmente ou felizmente, só vou ao Europeu se eles forem à final. Se forem à final, eu vou. Se não chegarem lá irei ser mais um a apoiar pela televisão”.

Jogar para objetivos diferentes? Nem por isso, porque Humberto que ganhar. Sempre

Agora no Póvoa AC e com o tal domínio de FC Porto, Sporting e Benfica, Humberto Gomes joga agora por outros objetivos. A pergunta “se vive bem com isso?” foi feita de forma até algo inocente, mas a resposta, mesmo que entre muitos risos, pareceu muito, muito honesta: “Sinceramente não lido muito bem com isso porque quero ganhar. Falo muitas vezes com uns colegas do Póvoa e sei perfeitamente que é difícil nós ganharmos a um FC Porto, ou Benfica ou Sporting. Porque eles têm uma capacidade diferente da nossa, têm mais internacionais, mais estrangeiros, mas a verdade é que se nós estivermos num dia muito bom e eles num dia muito mau, a gente tem possibilidades de ganhar. Mas claro que é muito difícil”.

No entanto, é esse o “espírito” que Humberto quer para o Póvoa AC, um espírito que “ainda não tem, mas que consiga ter rápido para chegar a um top quatro”. “Acho que é um clube recente que tem hipóteses de fazer uma história engraçada e bonita, mas para isso temos que ir melhorando ano após ano e acredito que se continuarmos a trabalhar, não só os jogadores, como a equipa técnica e as pessoas que fazem o clube, da maneira que eles pensam e da maneira que eles trabalham penso sinceramente que, mais ano menos ano, podemos estar ali a lutar para o quarto lugar”, diz com confiança.

Humberto Gomes, aqui no Mundial de 2020, frente à Suécia

A Covid-19 já tinha sido referida aquando da passagem de conversa sobre os Jogos Olímpicos, mas é um fator importante para a forma física (e mental) de um atleta. Em todo o mundo vários desportistas, profissionais ou não, ficaram a treinar sozinhos ou como podiam. Humberto Gomes não é exceção, com a agravante idade, claro. Assim, como é que aos 44 anos Humberto se aguenta na máxima forma? “Eu tenho a sorte de ter uma casa grande e de ter um pequeno ginásio, com uma passadeira, uma elíptica e uma pequena máquina de musculação. Na altura em que estávamos confinados em casa, nunca parei. Claro que é completamente diferente o treino de pavilhão do que o treino em casa, mas tentei não parar porque sabia perfeitamente que com a minha idade se parasse ia ser muito mais complicado depois voltar à boa forma. Ou ia demorar muito mais tempo em relação aos outros”, frisa.

E admitindo que a “idade não perdoa”, conversas com um amigo que deixou de jogar há dois anos e agora “custa-lhe fazer qualquer coisa” fazem Humberto pensar da seguinte forma: “Tento não parar e continuar a treinar e mesmo quando deixar de jogar vou ter que continuar a treinar porque uma boa forma física é ótimo para a saúde. Mesmo quando for para velho. A minha mulher também já me disse que quando deixar de jogar não posso ficar em casa, se não dou em maluco”.

A universidade, a tese e a radioatividade

Há mais ou menos dez anos que Humberto Gomes deixou outra carreira: a do andebol universitário. Já com tantas coisas na cabeça e com tantos remates para defender, literais e figurados, na vida, o andebolista admite que na Universidade do Minho jogava muito pela “vertente do convívio”, mas… “Adoro competir, adoro ganhar e todos os anos tínhamos um grupo engraçado, muito amigos uns dos outros e fiz grandes amizades. Sempre que me pediam e eu pudesse, dizia sempre que sim a jogar e era um orgulho”, refere, admitindo ainda que tal vontade podia vir “provavelmente” do facto de ter perdido algumas coisas da universidade.

Eu sei perfeitamente que não tive aquela vida académica que 90% dos estudantes universitários têm. Mas tive outras coisas que colmataram essa falta ou essa falha. Nós tínhamos 20 jantares de curso e eu fui a um ou dois. Foi a vida que eu quis, foi a vida que eu escolhi. Não me arrependo rigorosamente nada porque fiz na mesma grandes amigos na universidade e ainda hoje qualquer coisa que eu precise de engenharia falo com eles.. Eles ajudam e sabem que tem um amigo com o qual podem contar”, rematou.

Já “inscrito na Ordem dos Engenheiros” e com “mestrado feito, falta só entrar a tese”. “Queria ver se finalizava o mestrado este ano, mas não estou a ver como, porque agora comecei a trabalhar na área”, finalizou o estudante cujo trabalho final para o grau de Mestre será sobre “radioativadade nos materiais de construção”. “É uma tese mais teórica que é para não dar muito, muito trabalho e não ir fazer muitas experiências ao laboratório”, admite no fim da conversa.

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