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Manuel Andrade, madeirense de nascimento, avançado-centro de Belenenses, Sporting e Estoril nos anos 40/50

Manuel Andrade, madeirense de nascimento, avançado-centro de Belenenses, Sporting e Estoril nos anos 40/50

Andrade. "O Peyroteo levou-me para o Sporting"

Aos 90 anos, o único sobrevivente do Belenenses campeão nacional em 1946 respira futebol e fala de Di Stéfano, Peyroteo, Messi, Ronaldo, sem esquecer o melhor de todos: Coluna

Noventa anos. Dificilmente encontrarei um entrevistado tão veterano e, ao mesmo tempo, lúcido. Exímio intérprete do diálogo, a arte de saber falar e ouvir, é um anfitrião por excelência. No quintal da sua casa, ali em São João do Estoril, há pitangas e à discrição. Dá-nos a provar sem rodeios e, depois, ainda nos oferece uma caixa cheia desses frutos para comer no comboio. Único sobrevivente do Belenenses campeão nacional 1946-47, Manuel Andrade é um caso sério de notoriedade.

Menino dos seus 18 anos, o avançado madeirense ainda anda pelos juniores quando é surpreendido pela convocatória do treinador Augusto Silva para o jogo com o FC Porto, relativo à 9.ª jornada do campeonato nacional. Do período de adaptação à marcação impiedosa de Gulhar, com muitos beliscões pelo meio, seguem-se três golos ao lendário Barrigana (3-2). Assinaria mais dois hat-tricks, ao Boavista e Oliveirense, num registo improvável para quem nunca jogara na 1ª divisão. Na segunda volta, a sua regularidade impressiona qualquer um: marca em todos os jogos à exceção de um, no Lima, com o FC Porto (1-0 de Quaresma).

Acaba como melhor marcador do clube, graças a 19 golos, um deles ao Benfica (1-0), a permitir a subida definitiva ao primeiro lugar, e o último deles em Elvas (o momentâneo 1-1), no jogo da consagração belenense. Jogaria mais uma época no Belenenses antes da saída para o Sporting dos Cinco Violinos, a convite de Peyroteo. Precisamente tapado pelo goleador, só faz um jogo, e de carácter particular. Arrepia então caminho para o Estoril, onde joga até 1952. De lá para cá, faz uma vida sossegada, longe dos holofotes da fama e sempre atento ao fenómeno futebolístico. Tanto fora como dentro dos relvados. Ora veja lá.

Como é que vai, sr. Andrade?
Tudo em forma.

Tem visto muito futebol?
Só se for na televisão. Vi aquela Taça não-sei-das-quantas na Rússia.

E então?
Dez paus-de-cabeleira a jogar sempre para o mesmo.

Quem?
Ora essa, o Cristiano Ronaldo. Agora explique-me como é que se dispensa um jogador para ir descansar? Então e os outros, também não estão desejosos de ver os filhos, a mulher?

E de futebol jogado?
Olhe, se eu ainda jogasse, nem aguentava 15/20 minutos a jogar ali. Ele recebe a bola, passa-a e não se desmarca. Pura e simplesmente. A maior parte dos jogadores de hoje não sabe jogar sem bola. No final do jogo, ainda levamos com aquelas mesas redondas, que horror. Aquilo é horrível. Há tipos que se vê pela cara deles que estão fulos e, mesmo assim, não conseguem dar o braço a torcer para dizer a verdade sobre a derrota da sua equipa. Sobre a seleção, os comentadores parece que estão combinados e dizem todos que o Ronaldo é o maior.

E não é?
Acompanho o futebol desde 1944.

Ainda foi a tempo do 10-0 da Inglaterra a Portugal?
Ah pois fui, estava lá no Jamor.

Xiiiii.
Vi o Lawton, avançado-centro, marcar-nos cinco golos. Saía uma coluna escrita por ele todas as quintas-feiras n’A Bola. Na véspera do jogo, ele escrevia sobre como se devia rematar à baliza com o pé esquerdo, com o pé direito e de cabeça. No capítulo do jogo de cabeça, ele dizia que o cabeceamento tinha de ser de baixo para cima. Eu li aquilo e julgava impossível, não tinha força de pescoço para aquilo. Pois bem, um dos golos do Lawton foi mesmo assim: cabeceamento de baixo para cima e o guarda-redes ficou atarantado com a colocação da bola. E vi o Stanley Matthews a pentear-se à frente do seu marcador, o Francisco Ferreira.

Era bom de bola?
Era, sim. O melhor internacional que vi foi o Di Stéfano.

E por cá?
Estava a dizer-lhe há pouco e interrompeu-me.

Mil perdões, não volta a acontecer.
Esteja à vontade, interrompe-me sempre, temos a tarde toda. Dizia-lhe que vejo futebol desde 1944 e há, pelo menos, um jogador melhor que o Ronaldo.

"O Coluna foi de longe o melhor jogador português, melhor que o Ronaldo. O Coluna é o maior porque sim. Porque assumia o jogo em todos os sentidos, desde a defesa até ao ataque. Controlava todos os movimentos dos adversários e servia os companheiros desde o meio-campo. De vez em quando, até marcava uns golos. O Coluna era o mais completo e o mais perfeito. O Eusébio está lá perto, até era mais espalhafatoso, mas sem a tal perfeição."

Quem?
O Coluna. De longe melhor que ele. Foi o melhor que vi. Aliás, tive a sorte de jogar contra ele. E nem sequer o conheço pessoalmente, não vá pensar que isto é por amizade ou assim. Nada disso, o Coluna é o maior porque sim.

Porquê o Coluna?
Ele assumia o jogo em todos os sentidos, desde a defesa até ao ataque. Controlava todos os movimentos dos adversários e servia os companheiros desde o meio-campo. De vez em quando, até marcava uns golos. Lembro-me de dois em duas finais da Taça dos Campeões, com Barcelona e Real Madrid. O Coluna era o mais completo e o mais perfeito. O Eusébio está lá perto, até era mais espalhafatoso, mas sem a tal perfeição.

E o Andrade jogava como?
Aaaaah, tinha jeito, mas nunca me senti verdadeiramente um jogador de futebol. Não gostava daquilo por aí além.

Começou onde?
Na Madeira.

Tão longe?
Tão longe, não, calma lá. Sou de lá.

Ai é da terra do Ronaldo?
E do Pinga, Carlos Pereira. Há muitos madeirenses bons de bola.

Começou onde, repito-me?
O meu tio/padrinho era um adepto ferrenho do União e levava-me ali ao campo Almirante Reis.

E o Andrade é de quem?
Nacional. Também vou à bola com o União.

Como chegou ao continente?
Em 1930-e-tal, não me lembro se três, quatro ou cinco. Veja nos arquivos qual o ano em que houve uma tentativa de revolução para a independência da Madeira. Como o meu pai era oficial do exército e estava ao lado dos revolucionários, trouxeram-no para cá nesse ano. O resto da família seguiu o mesmo caminho.

Como?
De barco.

Uiiii.
Uiiii mesmo. A viagem durou dois dias e nem saí do boliche. Vomitei o tempo todo. Já nem sabia o que vomitava porque não comia. O que saía então do meu corpo? É um mistério [e começa a rir-se].

Vivia em Lisboa?
Não, em Cascais, ali na Cidadela, dentro do quartel. Sabe quem estava lá?

Nem ideia.
O Peyroteo, que fez lá a tropa. Travei logo conhecimento com ele, uma amizade para a vida.

E estudou em Cascais?
Em Lisboa, nos Pupilos do Exército, aos 10/11 anos. Se pudesse, ainda hoje andava lá. Aquilo é que foram tempos. Uma educação faz favor. Se tivéssemos negativas, estávamos proibidos de sair para casa durante o fim-de-semana. Ficávamos de castigo. Ninguém podia meter o pé em ramo verde, andava tudo na linha senão era o cabo dos trabalhos.

E jogava-se à bola nos Pupilos?
Jogava-se pois.

Lembra-se da sua estreia?
É curioso como a minha cabeça funciona: há coisas que me lembro com exatidão, outras que nem por isso e até parece que se passou um pano por cima dos acontecimentos pela forma como não me lembro de nada, nada, nada. Da estreia dos Pupilos, dá-se o primeiro caso. Era o campeonato inter-escolas ali nas Portas de Santo Antão, perto do Politeama. O primeiro jogo foi com o Afonso Domingues. Eles marcaram primeiro e nós ficámos a olhar uns para os outros, como quem diz ‘começámos bem, sim senhor’.

E depois?
Ganhámos 13-1.

Marcou quantos?
Uns cinco ou seis, já não me lembro. Lembro-me é que o árbitro José Travassos, que já estava retirado, apertou-me duas vezes a mão.

Porquê?
Sei lá, gostou dos golos. Num deles, estava de costas para o defesa e passei-lhe a bola por cima. Virei-me e rematei logo. Não se viam lances destes e o Travassos veio ter comigo para me elogiar.

O Andrade ia ver jogos dos seniores?
Sempre que nos deixassem, aos domingos, depois do almoço. Saíamos dos Pupilos e íamos ao Belenenses, em que atravessávamos todo o Monsanto, ou íamos ao Sporting, ali no Lumiar, ou ainda ao Benfica, nas Amoreiras, onde é agora o Liceu Francês.

Iam como?
A pé, ora essa. Sempre a pé. Éramos jovens, cheios de vigor.

O Andrade foi sempre avançado-centro?
Joguei no WM (3-2-5) e cada um fazia o que queria. Vejo os indivíduos de hoje a jogar e vejo-os com espaço para receber a bola. Na minha altura, o meu lugar, o de ponta-de-lança, era difícil de ter a bola. Tínhamos um homem atrás de nós, outro a cercar-nos pelo lado direito e mais um pela esquerda. Por isso mesmo é que admirei sempre o Matateu: conseguia driblar dois ou três dentro da área. Nunca tinha visto nem nunca mais vi. Bom, talvez o Messi. Às vezes, ele parte do meio-campo e ninguém o pára. Dentro da área é a mesma coisa. Com aquela técnica, é impossível.

Olhe, lembrei-me de outro madeirense: o Mota. Chamávamos-lhe o gesso.

Esse era aquele do Estoril que jogava ao lado do Bravo?
Xiii, o Bravo era burro que se fartava. Palavra de honra. No comboio, dava-lhe o jornal ao contrário e dizia-lhe ‘olha, falaram aqui bem de ti’. Ele lia aquilo a mexer os lábios como se estivesse realmente a ler. Era eu e o Vieirinha, os que brincavam mais.

O Vieirinha do Porto?
Não, esse era outro. Com esse, por acaso, tenho uma história engraçada.

Conte.
O Estoril vai ao Porto e o defesa-esquerdo lesionou-se a meio do jogo. Naquela indecisão do quem vai jogar e tal, assumi o lugar. Cheguei-me ao pé do Vieira, Carlos Vieira, e disse-lhe ‘ouça lá, não percebo nada disso, nunca joguei aqui, garanto-lhe que não vou dar-lhe pontapés, quanto muito puxo-lhe a camisola.’ E ele, muito simpático, concordou. Digo-lhe uma coisa, o Carlos Vieira era um extremo muito veloz.

Fui campeão dos 80 e 90 metros. E de 4x80. E fui campeão nacional de salto em comprimento, com 6,25. Bom, numa das jogadas, faço-lhe uma placagem mesmo à frente do árbitro, que era o Joaquim Campos, com quem me cruzava todos os dias no Rossio, quando cada um ia para o seu emprego. Ele vê a ação e digo-lhe que 'é melhor assim que dar uma trancada'. Ele concordou. Só que, às duas por três, dão-me um pontapé nas costas. Você nem imagina a dor. Fiquei aflito, quase sem respirar. Ainda no chão, olho para cima e vejo quem me agrediu. Levanto-me, vou direito ao Vieira e dei-lhe cá uma pêra.

Dificultava-lhe a vida, era?
Não, qual quê: fui campeão dos 80 e 90 metros. E de 4×80. E fui campeão nacional de salto em comprimento, com 6,25. Bom, numa das jogadas, faço-lhe uma placagem mesmo à frente do árbitro, que era o Joaquim Campos, com quem me cruzava todos os dias no Rossio, quando cada um ia para o seu emprego. Ele vê a ação e digo-lhe que ‘é melhor assim que dar uma trancada’. Ele concordou. Só que, às duas por três, dão-me um pontapé nas costas. Você nem imagina a dor. Fiquei aflito, quase sem respirar. Ainda no chão, olho para cima e vejo quem me agrediu. Levanto-me, vou direito ao Vieira e dei-lhe cá uma pêra.

E?
Ele caiu, parecia uma tábua. Uma daquelas pêras bem dadas, em que o braço acompanha o corpo. Tem de ser assim. Se for para dar um murro sem mexer o resto corpo, só o braço, não serve para nada. Aprendi isso com o meu grande amigo Guilherme Martins, um dos melhores boxeurs do país, com quem treinava com alguma regularidade. Claro, o Joaquim Campos viu aquilo e meteu-me fora do campo. Eu só lhe disse ‘saio, sim senhor, mas não vou sozinho’.

O Joaquim Campos também expulsou o Vieira?
Claro que sim. E o Vieira só não apanhou mais porque…

Porque?
O caminho para os balneários estava dividido: ele ia para o lado direito e eu para o esquerdo, só que a polícia não me deixou passar para a direita. Senão o Vieira levava um enfardamento que nunca mais me esquecia.

O Andrade era assim?
Nem por isso, só que não aceitava má criação nem jogo baixo. Fosse adversário ou companheiro de equipa. Olhe, uma vez, dei dois murros nas trombas do Nunes que ele andou de óculos escuros durante quase um mês.

O Nunes?
Num treino, vou atrás dele para roubar a bola e dá-me com o pé para trás. Acertou-me no joelho, de propósito. Na jogada seguinte, pumba pumba, toma lá. Acabou aí o treino. Havia tipos mauzinhos no futebol, como o Baptista do Atlético. E um outro do Atlético, de que agora não me lembro o nome. Esse julgava-se esperto. Uma vez, durante um jogo, deu-me uma e eu ‘então?’ Ele, de pronto: ‘desculpa, julgava que eras o Nunes’. Ah pronto, deixei passar. Uns minutos depois, ele dá-me outra vez. Viro-me para ele e questionou-o. Ele vem com aquela lenga-lenga do ‘ah desculpa, julgava que eras o Nunes.’ À terceira, fui eu quem lhe deu forte e feio. Quando ele me perguntou o porquê, disse-lhe ‘ah desculpa, julgava que eras o Jaburdas, um jogador do Atlético que se chamava Valente Marques’. Brincamos, não? Futebol é para se jogar com bola, nada mais. Como fazia o San Lorenzo, sabe?

O San Lorenzo da Argentina?
Esse, não há outro. Que equipa fabulosa. Eles vinham cá a Portugal e faziam autênticos brilharetes. Jogavam de olhos fechados e, ao intervalo, metiam os suplentes a fazer malabarismos para encantar o público. E encantavam. Uma tarde, ganharam 10-3 a alguém, Sporting ou Benfica ou um misto dos dois. Nem queria saber, a malta saiu bêbeda com tanto festival de bola. O San Lorenzo jogava para a frente, como os ingleses de outros tempos e de agora. Não é como o resto da malta.

Como?
Então, eles correm 50 metros para a frente e depois passam a bola para trás uns 25. Faz que vai e não vai? Mas o que é isto? Um pouco como o Barcelona, sabe? Muito se fala daquele futebol, nunca gostei. Se não fosse o Messi, eles não ganhavam metade do que ganharam. Gosto é de meia bola e força, como os ingleses, lá está.

E diga-me isto: como é que passou do Pupilos para a 1.ª divisão nacional?
Joguei sete anos nos Pupilos e, um dia, fomos treinar para o Sporting.

Assim do nada?
Conhecia o Peyroteo, como lhe disse, e ele encarregou-se de nos colocar lá num treino dos juniores.

E então?
Não gostei muito, porque o treinador não nos ligou nenhuma. E decidimos ir ao Belenenses, na vez seguinte.

Nesse dia?
Não, não podíamos sair assim do Pupilos. Demorou para aí uns 15 dias.

E o Benfica?
Nunca fui à bola com o Benfica. Não sei bem porquê. Na altura, o Benfica era dos carroceiros, dos tipos mal-formados. Não era bem assim, claro, mas tinham essa fama. Nunca fui à bola com o Benfica, embora admita que são o melhor clube nacional da atualidade. Gosto da atitude deles.

Então e o Belenenses?
Fomos lá e ficámos logo.

O Andrade jogou pelo juniores?
Num ano, fomos desclassificados do campeonato de juniores por minha causa.

Porquê?
Tinha a identidade falsificada. Mudaram-me a identidade para poder jogar nos juniores. Um dia, chegou um senhor ao Belenenses e perguntou-me a idade. Quinze, respondi-lhe. Ora bem, a minha identificação dizia 18. E como eu marcava quase todos os golos do Belenenses, o clube foi eliminado para evitar mais problemas com a justiça. Se fosse hoje, eu levava cá uma talhada. Ou então o clube resolvia-me o problema. Como realmente aconteceu.

O Andrade marcava a quem?
Não me lembro de tudo, só de um jogo em que marquei cinco golos ao Sporting, a um bom guarda-redes chamado Marques, num campo cheio de lama em que as bolas de couro pesava para aí uns 100 quilos.

Como é que dá o salto de júnior para sénior?
É uma história engraçada, sabe? Estava em casa e recebi uma carta registada do Belenenses. Uma carta registada era invulgar, quanto muito um postal. Abri a carta e era a convocatória para estar nas Salésias às tantas horas de domingo. Está bem, pronto, vou até lá.

Como?
A pé, sempre a pé. É verdade que o Belenenses pagava os táxis ida e volta, só que, dessa vez, fui a pé. Entrei na cabine, equipei-me e o Augusto Silva manda-me ir a jogo como avançado-centro. Imagine, só tinha 18 anos e ia jogar com o FC Porto.

Aos 15 minutos, perdíamos 2-0. O central que me marcava chamava-se Guilhar, bastante incomodativo, sempre a chamar-me nomes e a beliscar-me. Não embarquei nesses esquemas e marquei três golos. Ou seja, um hat-trick. Mas um hat-trick de verdade não daqueles que se ouve falar agora a torto e a direito. Um hat-trick de verdade são três golos seguidos. Como este do Belenenses-FC Porto, de 0-2 para 3-2. Há jogadores que marcam o 1-0, depois o 4-1, finalmente o 6-2. Isso não é hat-trick. Hat-trick são três golos seguidos.

E que tal?
Aos 15 minutos, perdíamos 2-0. O central que me marcava chmava-se Guilhar, bastante incomodativo, sempre a chamar-me nomes e a beliscar-me. Não embarquei nesses esquemas e marquei três golos. Ou seja, um hat-trick. Mas um hat-trick de verdade não daqueles que se ouve falar agora a torto e a direito. Um hat-trick de verdade são três golos seguidos. Como este do Belenenses-FC Porto, de 0-2 para 3-2. Há jogadores que marcam o 1-0, depois o 4-1, finalmente o 6-2. Isso não é hat-trick. Hat-trick são três golos seguidos.

Imagino a festa.
Qual festa?

A dos golos.
Não havia nada disso, nem abraços nem nada. Era golo e íamos para o meio-campo. Fossem golos bons, maus ou valiosos, ninguém ia ter comigo. Não é como agora, com corridas, abraços e coreografias. Não, nada disso.

Nessa época, o Andrade também marca a Sporting e Benfica. Isso não mexe consigo?
Nem pensar, não havia cá disso. Hoje, sim, há muito. Naquele tempo, falou-se do hat-trick na 2ª feira, através das crónicas do Tavares da Silva e do Cândido de Oliveira. Na 3ª, já ninguém se lembrava. Não é como agora: um jogador marca três golos num dérbi em Alvalade e ainda hoje se fala disso, 20-e-tal anos depois.

E, já agora, também marquei ao FC Porto lá em cima. Aí, digo-lhe, acho que o Barrigana facilitou.

Como?
Nesse jogo, ele saltou comigo e deu-me uma joelhada. Uma joelhada bruta. Tive de sair de maca e tudo.

Intimidou-o, foi?
De chamar nomes? Não, não era disso. Se me saiu um ‘vai à merda’, já foi muito. Disse-lhe só que lhe espetava a biqueira da bota nas costas na próxima vez. Quando reentrei, há um lance parecido com o anterior e marquei.

E o golo ao Benfica, esse é que alterou o campeonato?
Há coisas de sorte e outras de perspicácia, estudo.

Estudo?
O Artur Quaresma, por exemplo. O homem estava sempre em cima de mim. Quer dizer, só nos treinos à 3.ª e 5.ª feiras. No domingo, dia de jogo, também lá vinha ele com a conversa.

Qual conversa?
Dizia-me sempre como é que os defesas adversários se comportavam. Eu, que não sabia de nada, ouvia com atenção. O Quaresma era um tratado a jogar futebol e um senhor da cabeça aos pés. Nunca o consegui tratar por tu. Com o Sporting, por exemplo, disse-me que o Manecas era um defesa leal. E era, de facto. E que o seu forte era a antecipação. Por isso, dizia-me o Quaresma, tens de chegar primeiro que ele à bola.

Qual foi o resultado?
Ganhámos e fiz um golo ao Azevedo.

E com o Benfica?
Ah, é verdade, esse golo foi sorte. O Augusto Silva tinha feito sinal para trocar de posição com o Armando. A coisa não estava a correr assim muito bem. Na altura da troca, recebo por acaso a bola no peito, deixei-a cair e atirei à baliza. Foi um golo de sorte, porque não rematei com convicção. Ou melhor, não rematei para aquele sítio. Rematei apenas. A minha vantagem é que eu sabia onde estava a baliza, estivesse onde estivesse. Sempre fui assim. A maior parte dos jogadores de hoje não sabe nada disso e é vê-los a acertar em tudo menos na baliza. Mas os que têm essa orientação são sensacionais.

Como quem?
Olhe, digo-lhe um golo de sorte: o do Figo à Inglaterra. Claro que ele rematou com convicção, claro que ele queria que a bola fosse à baliza, só que para isso é que passou por entre as pernas de um defesa e entrou no ângulo. Foi cá um limpeza. Bestial. Como aquele sueco do Manchester United.

O Ibrahimovic?
Esse. Um dia, meteu um pontapé de bicicleta e a bola voou de um lado para o outro. Bestial. É preciso sorte em determinados momentos.

E o jogo do título, o Elvas-Belenenses?
Só lhe digo isto: o primeiro jogador do Belenenses a tocar na bola foi o guarda-redes Capela, quando foi buscar a bola à baliza. Um-zero para eles no primeiro minuto. Até ao intervalo, fizemos pouco, muito pouco. Só houve um lance de perigo e foi incrível o falhanço.

De quem?
Meu [Andrade começa a rir-se que nem um perdido]. O Rafael cruza e eu estou ali a menos de um metro da baliza, sem ninguém a incomodar-me. Só que deixo de ver a bola. O sol encadeia-me os olhos e dou um pontapé ao calhas, por instinto. Sabe onde foi parar a bola? Ao mesmo sítio de onde ela veio, ao Rafael.

Eheheh [começo a rir-me que nem um perdido].
Só demos a volta na segunda parte, quase no fim. E o mérito nem foi dos marcadores do golo.

Foi de quem, então?
Do Vasco, um back direito já evoluído para a época. Ele passava o meio-campo e ia à linha de cabeceira para cruzar. Como era um indivíduo com quase dois metros de altura, fazia desaparecer qualquer adversário. Ora, o Vasco foi duas vezes lá à frente e marcámos os dois golos de jogadas suas.

Eis o Belenenses campeão 1946-47, com Andrade no meio na fila de baixo

E a festa?
Viemos de carro e parávamos em todos as aldeias, vilas, cidades, sempre com buzinadelas, até de noite. Chegámos a Lisboa por volta da meia-noite, demos duas ou três voltas ali ao Mouzinho Albuquerque ou lá o que é. Estava muita gente, isso sim.

E o Andrade ficou até que horas a pé?
Eu, o Vasco e o José Pedro fomos embora mais cedo.

Como?
De comboio, desde o Cais do Sodré.

Como lhe correu o ano seguinte no Belenenses?
Menos bem.

Então?
Fartei-me daquilo.

Assim, de repente?
Há uma explicação: o argentino Alejandro Scopelli, antiga glória do Belenenses, chegou às Salésias para ser o treinador e pediu ajuda ao capitão Amaro para orientá-lo. Começaram aí os problemas.

Quais?
Certa vez, ainda na época do título em 1945-46, o Amaro chegou-se ao pé de mim e pediu-me para lhe levar a mala. Olhei para ele, dei uma gargalhada e disse-lhe que só podia estar a brincar comigo. Então eu não levava mala nenhuma, porque íamos dormir fora de casa só uma noite, e não precisava de muda de roupa, porque é que ia levar a dele? Foi a minha sentença.

Porquê?
No primeiro treino do Scopelli, não fui tido nem achado. Perguntei ao mister se se tinha esquecido de mim e ele nada. Fez duas equipas e nada de me incluir. De repente, mete-me a back direito dos suplentes. Virei-me para o Sèrio, o guarda-redes da minha equipa, e disse-lhe ‘aguenta-te’. Bom, sempre que a bola vinha ter comigo, corria para a baliza do Sério e marcava golos.

Na própria baliza?
Ah, pois.

E o Scopelli?
Perguntou-me o porquê daquilo, disse-lhe simplesmente que era avançado-centro e rematava sempre para a baliza mais próxima. O Scopelli ficou a olhar para mim, perguntou-me se não devia estar a trabalhar e, olhe, aquilo deixou de ser para mim. Para mim e não só. O José Pedro também saiu. E o Capela também. Comecei a faltar aos treinos e dediquei-me ao trabalho, isso sim.

Onde?
Ainda estive umas três semanas na lota de Santos, só que acordava às três da manhã para pegar às quatro e sair ao meio-dia. Aquilo não era para mim. Queixei-me e perguntaram-me para onde queria ir. Na véspera, tinha lido num jornal que ia abrir a companhia Hidroelétrica do Zêzere, que estava a fazer as obras da barragem de Castelo de Bode. Lá fui fazer uma prova de contabilidade e imagine o meu espanto quando vi que o subchefe da contabilidade tinha sido meu colega nos Pupilos e que o chefe dos serviços era o doutor Coelho da Fonseca, ex-presidente do Belenenses, ex-presidente da AF Lisboa e também aluno dos Pupilos. Comecei a trabalhar na hidroelétrica a 11 Junho 1946. Reformei-me em 1983. Nunca faltei a um dia de trabalho enquanto joguei futebol.

Onde jogava?
Fui para o Sporting, a seguir ao Belenenses.

No Sporting?
Um ano, nada de especial.

Porquê?
Muitos complots, não tinha paciência para aquilo. O Peyroteo foi muito simpático em lembrar-se de mim, depois da saída do Belenenses. Eu passava muito pela loja de desporto do Peyroteo, na Rua do Almada, e cumprimentava-o para dois dedos de conversa. Um dia, estava lá um dirigente chamado Vitorino e acertámos a transferência.

Chegou a jogar?
Era suplente do Peyroteo. Ou seja, não jogava [Andrade volta a contagiar-me com o riso]. Nunca joguei oficialmente. Só particulares, em Espanha.

A peseta valia meio tostão. Aqui era como se não tivéssemos dinheiro, lá era uma festa. Agora que falo disso, veio outra memória à cabeça, ainda com o Belenenses, fomos inaugurar um campo em Viana do Castelo e recordo-me perfeitamente de ser uma terra de moças bonitas. Bonitas mesmo. Viana do Castelo, nunca mais me esqueci.

Já lá tinha ido?
Já, já, com o Belenenses. Fomos a Córdoba. Não me lembro nada desse jogo, só da cidade. É engraçado, não é? A memória prega-nos partidas. Lembro-me que Córdoba tinha uma avenida que era o dobro da Av. Liberdade de Lisboa. O dobro, veja lá.

E gosta de Espanha?
Não, não vou à bola. Naquele tempo, a Espanha era mais atrasada que nós. Pedia para o taxista parar e o carro só encostava uns 25 metros depois, por falta de travões. Os taxistas andavam sempre de bata todas sebosas. E nós fazíamos fogo.

Faziam fogo?
A peseta valia meio tostão. Aqui era como se não tivéssemos dinheiro, lá era uma festa. Agora que falo disso, veio outra memória à cabeça, ainda com o Belenenses, fomos inaugurar um campo em Viana do Castelo e recordo-me perfeitamente de ser uma terra de moças bonitas. Bonitas mesmo. Viana do Castelo, nunca mais me esqueci.

E a Espanha, com o Sporting?
Fomos a Madrid, Barcelona e Bilbao. Só não joguei em Madrid, na tarde em que o Jesus Correia marcou seis golos ao Atlético Aviación, que só depois passou a Atlético Madrid. Acabou 6-3 e o Jesus Correia marcou os golos todos.

Era simpático, o Jesus Correia?
Uma jóia, um dos poucos que não alinhava nos complots. Era um homem simples e sem manias, como o Veríssimo e o Barrosa. Já o Canário, por exemplo, era um veneno.

E o Azevedo?
Era um homem acessível, todo jingão, sem peneiras nenhumas. Como jogadores, o Sporting tinha um plantel do melhor que há. Como pessoas, aproveitavam-se muito poucos. Havia ainda o Cândido de Oliveira, o mestre. Com ele, podia falar de outras coias que não futebol.

Como por exemplo?
Cinema.

Gostava?
Muito, muito. Chegava a ir a duas ou três sessões no mesmo dia, geralmente ao sábado. Ia ali ao Éden ver os musicais.

Só?
Sim, os westerns nunca me impressionaram. Eles morriam duas ou três vezes no mesmo filme. Não, isso não. Gostava era de musicais e ver aquelas actrizes em grande estilo, como o Edilia Amare e a Ava Garner. Eram uma brasas a preto e branco, imagine-as a cores.

O Andrade acompanhou essa mudança?
E digo-lhe, foi das melhores coisas que se fizeram. Elas todas às cores, que maravilha, que categoria.

Dispersámo-nos um pouco. Falávamos do Sporting. Não jogou em Madrid, e depois?
Joguei 10/15 minutos em Camp Nou e fui titular em Bilbau.

Jogou pouco mesmo.
Só se jogava por assinatura.

Como?
Eu vivia aqui e trabalhava em Lisboa. Por isso, viajava diariamente de comboio e era preciso uma assinatura, posteriormente validada pelo fiscal.

Uma assinatura é como se fosse agora o passe?
Isso mesmo, era preciso assinatura para se jogar no Sporting e na seleção.

Um ano no Sporting, e depois?
Como não gostei do ambiente, decidi jogar perto de casa e escolhi o Estoril.

Na 1.ª divisão?
Sempre na 1.ª. Houve um ano em que ficámos em 5.º lugar. Éramos uma equipa bem boa, dávamos abadas em casa ao Vitória e Braga, já aí os mais próximos dos grandes em matéria de fio de jogo.

Lembra-se de algum golo?
Claramente, como se fosse agora, um ao Vitória em piquei a bola por cima do guarda-redes. Anos mais tarde, encontrei o guarda-redese ele falou-me disso.

Quem era o treinador do Estoril?
Tantos, tantos. Um ficou-me na memória, era o Petrak. Extremo-esquerdo do Porto, depois do Estoril. Era um malandro a jogar à bola, bem duro, e transformou-se um bom treinador. Encontrava-o muitas vezes no café da arcada e conversávamos muito. Excelente pessoa, que me ensinou o segredo de confrontar os defesas mais rudes.

Qual era a tática?
Como os centrais não me largavam a braguilha, como se costumava dizer, ele dizia-me para rematar de pronto quando apanhasse a bola a jeito.

E?
Tinha de ser um pontapé longo. Ou seja, tinha de acertar na bola e depois no homem. Ele dizia-me ‘dás uma biqueirada na bola e apanhas-lhe a perna’.

Se tivesse feito isso ao Scopelli é que era.
[Andrade refastela-se no sofá a rir] Scopelli? Nunca mais o vi.

E o Amaro?
Vi-o uma vez, ali entre o Cais Sodré e os Restauradores. Na altura, trabalhava na Sidónio Pais, curiosamente uma rua que aparece muitas vezes numa novela portuguesa de agora. Bom, adiante. Passei por ele, olhei olhos nos olhos e ele nada. Como jogador e capitão, Amaro foi o melhor jogador do Belenenses que vi. Melhor até o Matateu. Como pessoa, não presta para nada. Fez-me a cama.

"Tenho 90 anos de idade, mais dois filhos, seis netos e três bisnetos. Nunca imaginei ver os meus filhos com 60-e-tal anos. Os dois foram judocas e um deles, o António Roquete, foi mesmo a quatro Jogos Olímpicos. Depois, foi porta-estandarte de Portugal nos Jogos em Los Angeles-1984"

Ainda jogou uns anos no Estoril.
E fartei-me, outra vez.

Outra vez.
Já não tinha feitio para aquilo.

Aquilo o quê?
Salários e prémios de jogo em atraso.

Quando é que ganhava no Belenenses?
Mil e cem escudos, mais 200 em caso de vitória. Esses 1100 era o salário de todo o plantel. Quem fosse capitão, como o Mariano Amaro, ganhava mais cem escudos. E quem fosse internacional português, também ganhava mais cem escudos.

E no Estoril?
Não me lembro. Sei que o prémio de jogo era 200 escudos. E sei também que fiquei a arder com 40 contos. Tenho um palpite que houve um diretor que recebeu esse dinheiro por mim.

E então?
Um belo dia, dirigi-me a um senhor chamado Armando Areia, que enterrou muito dinheiro no Estoril e acabou, como eu, por sair descontente.

Ele pagou-lhe?
Não, qual quê. Pedi-lhe 10 contos para levar a minha mulher e o meu primeiro filho à Madeira. Para que eles conhecessem a minha idade.

E?
Ele assinou um cheque.

Que foto de Andrade num Benfica-Estoril: o corpo bem alinhado e o mergulho do keeper Bastos

Maravilha. Tem quantos filhos?
Dois filhos. Mais seis netos e três bisnetos. Tenho 90 anos, feito este ano a 23 Maio, e nunca imaginei ver os meus filhos com 60-e-tal anos.

O que fazem os seus filhos?
Andaram os dois no judo e o António foi mesmo a quatro Jogos Olímpicos.

Estás a falar-me dos Jogos Olímpicos, Jogos Olímpicos?
[Andrade volta a sorrir com gosto] Jogos Olímpicos. Foi a quatro Jogos, chamava-se António Roquete e foi porta-estandarte de Portugal nos Jogos Los Angeles-1984.

Viu-o combater?
Em Portugal, sim. Ele tem uma série de medalhas nos Open por essa Europa. Nos Jogos, não tinha televisão quando deu o combate dele nos Jogos em Montreal [1976]. Foi com um inglês e ele deu-lhe um ensaio de pancadaria, pelo que me disseram. Sabe o que fez o árbitro? Deu a vitória ao inglês.

Que história.
Ele dava uma boa entrevista. Numa próxima vez, vem cá e bate ali na porta ao lado. É onde ele mora.

E posso apanhar mais pitangas?
Esteja à vontade, leve a árvore e tudo.

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