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Andrea Verdelli/Getty Images

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Andrei Sannikov, antigo candidato da oposição da Bielorússia. "Lukashenko demonstrou ter um medo animalesco" /premium

Andrei Sannikov candidatou-se contra Lukashenko em 2010. Ainda hoje vive as consequências dessa ousadia: foi preso, torturado e exilado. Em entrevista ao Observador, diz porque ainda tem esperança.

Andrei Sannikov já viu este filme — e ele era uma das personagens principais. Em 2010, este ex-diplomata que se tornou numa das vozes mais respeitadas da oposição na Bielorrússia foi o principal adversário nas eleições presidenciais contra Aleksander Lukashenko. O resultado foi trágico. Não o resultado que diz respeito à derrota eleitoral já esperada (o ditador bielorrusso foi declarado vencedor com 80,44% e Andrei Sannikov teve apenas 2,45%), mas antes o resultado que tudo isto teve na sua vida pessoal. Na noite das eleições, em que o centro de Minsk foi palco de protestos e de repressão policial, Andrei Sannikov foi preso juntamente com a mulher, a jornalista Irina Khalip. Atrás de grades, foi sujeito a vários tipos de tortura. Em abril de 2012, foi libertado. Pouco tardou a exilar-se na vizinha Polónia.

É lá que continua — e é a partir da sua casa em Varsóvia que fala com o Observador numa conversa por Skype. Quando lhe perguntamos sobre a comparação entre 2010 e 2020, ele próprio admite que há várias diferenças entre as duas ocasiões — e refere que, de forma improvável, Sviatlana Tsikhanouskaya, a principal adversária de Aleksander Lukashenko nas eleições deste domingo, conseguiu um grau de mobilização inédito: “Lukashenko pensou que ia escolher o adversário mais fraco, que era uma dona-de-casa. Mas ao escolhê-la, escolheu ter o povo como adversário”. Mesmo que, esta terça-feira, se tenha anunciado que Tsikhanouskaya se exilou na vizinha Lituânia. “Ela fez o que pôde”, sublinha.

Quem não faz o que pode, argumenta Andrei Sannikov, é a União Europeia. Quando posa ao computador para falar com o Observador por Skype, o ex-candidato presidencial tem atrás de si duas bandeiras: uma da “Bielorrússia independente” e outra da União Europeia e com “Bielorrússia” inscrito no meio das estrelas amarelas. Apesar das críticas que dirige a Bruxelas, mantém a esperança.

À semelhança do que aconteceu consigo, embora em circunstâncias diferentes, Sviatlana Tsikhanouskaya saiu da Bielorrússia e está agora exilada na Lituânia. Isto apenas um dia depois de ter dito que os resultados eram fraudulentos, que a vencedora era ela e de ter, por tudo isto, exigido uma “transferência pacífica do poder”. É game over [fim do jogo] para ela e, para lá disso, para o movimento pró-democracia e anti-Lukashenko que surgiu em 2020?
É game over para ela. Mas não é game over para a Bielorrússia, não é game over para 2020, não é game over para a oposição e também não é game over para o povo bielorrusso. Vistas as circunstâncias, ela fez mais do que aquilo que estava ao seu alcance. Até porque mesmo quando a campanha dela estava a ganhar balanço já se falava da possibilidade de ela sair do país — inclusive antes das eleições. No final de contas, até ficou depois das eleições. Agora teve de sair. Mas isso não deve afetar a motivação das pessoas.

Andrei Sannikov foi o principal adversário de Lukashenko nas eleições presidenciais de dezembro 2010. Na noite das eleições foi preso. Ficou atrás de grades, por vezes sob tortura, até abril de 2012.

AFP via Getty Images

Mas como é que essa motivação pode continuar? Porque, no final de contas, a sua campanha de 2010 tem semelhanças com a de Sviatlana Tsikhanouskaya, apesar de ela ter sido uma candidata acidental da oposição. Mas há semelhanças no sentido em que tanto a sua candidatura como a dela levaram muitas pessoas para a rua. Mas, se na prática o que acontece em 2020 é o mesmo que aconteceu em 2010, como é que é possível impedir que essa motivação de que fala não seja tomada por frustração?
Tem toda a razão quando diz que ela foi uma candidata acidental, mas está errado quanto à escala das manifestações. Em 2010 não tivemos nada que se assemelhasse ao que existe agora em 2020. É verdade que tivemos uma boa resposta popular, mas desta vez vimos manifestações em todo o país. E acrescento também que, no fundo, não havia desta vez uma candidata da oposição. No meu caso, não havia qualquer dúvida de que eu fazia parte da oposição — e com orgulho! Já Tsikhanouskaya disse desde o início da campanha que ela não era da oposição e que estava simplesmente a calçar os sapatos do marido. Ele, sim, era um candidato de protesto. Mas as três candidatas destas eleições disseram sempre que não eram da oposição. E o fenómeno de Tsikhanouskaya não tem tanto a ver com a sua personalidade quanto tem a ver com o facto de as pessoas que querem mudança terem visto que ela era a única figura autêntica. E por isso apoiaram-na da cabeça aos pés. Desta forma, o principal candidato foi o povo. E se ela tivesse decidido ficar com o povo, creio que ela ter-se-ia tornado numa verdadeira líder política. Não estou a julgá-la, é uma questão factual: ela saiu. Mas não creio que vá haver frustração por parte do povo — pelo menos tanta quanto houve a seguir às eleições de 19 de dezembro de 2010. Porque, dessa vez, as manifestações começaram quase imediatamente assim que houve repressão policial. Desta vez, a repressão começou um ou dois meses antes do dia das eleições. E isso não impediu as pessoas de se manifestarem. Desta vez, no dia das eleições já havia mais detidos e presos do que tinha havido em 2010. E isso não impediu as pessoas de se manifestarem! Por isso, creio que hoje temos nas mãos a melhor oportunidade histórica para a Bielorrússia. Dá para ver que a maior parte dos manifestantes são jovens e isto é extremamente importante, porque eles nunca vão esquecer estes momentos. Aconteça o que acontecer. E isto deixa um espaço enorme para haver esperança.

"Lukashenko demonstrou ter um medo animalesco ainda antes das eleições. E ele calculou mal a situação. Pensou que ia escolher o adversário mais fraco, que era uma dona-de-casa, Tsikhanouskaya. Achava que ela era a mais fraca e por isso ia ceder à pressão. Mas ao escolhê-la, escolheu ter o povo como adversário."

Tocou num ponto interessante, que é o timing da repressão. Em eleições passadas, o mais comum era que até à ida às urnas houvesse uma sensação de primavera. E só na noite eleitoral e também depois é que surgiria a repressão já conhecida, e da qual foi vítima em 2010. Agora estas coisas já acontecem de forma aberta antes das eleições. Este novo padrão representa o quê? Lukashenko está nervoso?
Ele está para lá de nervoso. O medo dele está a crescer. E ele está a agir de forma irracional. Tem razão no que me diz: desta vez este medo ficou à vista ainda antes das eleições. É por isso que Sergei Tsikhanouski está preso, é por isso que Viktar Babaryka está preso. E há também outros líderes presos que não chegaram a concorrer, mas que teriam sido muito eficazes, como Nikolai Statkevich e Paval Sieviaryniec. Tanto um como o outro iam ser candidatos. Portanto, Lukashenko demonstrou ter um medo animalesco ainda antes das eleições. E ele calculou mal a situação. Pensou que ia escolher o adversário mais fraco, que era uma dona-de-casa, Tsikhanouskaya. Achava que ela era a mais fraca e por isso ia ceder à pressão. Mas ao escolhê-la, escolheu ter o povo como adversário. Foi isso que aconteceu. É incrível.

Deixe-me esclarecer isto, porque não estou totalmente seguro do que me está a dizer. Está a querer dizer que Tsikhanouskaya não era uma candidata séria e da oposição?
Sim, absolutamente. Ela fez o que pôde. Mas há factos que apontam para isso de maneira muito clara: não tinha qualquer programa, assumiu que era uma candidata acidental, não sabia responder a questões importantes como a economia e relações internacionais. Foi muito trapalhona em temas sensíveis como a Crimeia e relações com a Rússia. Por isso, não, Tsikhanouskaya não era uma verdadeira candidata com um programa e uma visão clara do futuro. Mas ela fez um trabalho notável ao dizer que a função dela era a de vencer Lukashenko e a seguir organizar eleições sem ele.

Então não coloca a hipótese de ela ter sido instrumentalizada por Lukashenko.
Não, não, não. Quando digo que ela não era uma verdadeira candidata digo-o no sentido de que ela não era uma candidata clássica que sabe o que quer e que tem uma equipa de profissionais ao lado dela [risos]. É uma situação inédita e que creio será estudada no futuro.

No dia seguinte às eleições, Sviatlana Tsikhanouskaya declarou-se vitoriosa e exigiu a Lukashenko a "transferência pacífica do poder". No entanto, no mesmo dia, já de madrugada, exilou-se na Lituânia

Natalia Fedosenko\TASS via Getty Images

Muito bem, já estou a entender melhor a sua posição. Permita-me então que volte ao sítio onde estávamos: o medo de Lukashenko. Falou-me num “medo animalesco”, mas não chegou a explicar o que é que está na causa disto tudo. São fatores externos ou internos?
Acima de tudo são fatores internos. Lukashenko não consegue pegar na economia e o seu grande erro foi o tratamento da Covid-19. Esta foi a gota de água para o povo, porque ele ofendeu a população inteira da Bielorrússia com a sua atitude. Ele viu o ódio. E até reagiu quando soube que na Internet havia quem lhe chamasse “Sasha dos 3%” [alcunha que teve origem num meme, criado para passar a ideia de apenas aquela percentagem apoiar Aleksander Lukashenko] e “barata” [insulto que Sergei Tsikhanouski atribuiu ao Presidente da Bielorrússia, dizendo era preciso esmagá-lo, o que levou a um apelo à “revolução dos chinelos”]. Lukashenko viu o ódio e viu algo que ele sabe reconhecer muito bem: o povo está contra ele mesmo e apoia Tsikhanouskaya. Lukashenko olhou para um futuro em que não controlava nem o país nem o povo e por isso é que entrou em pânico. E entrou em pânico várias vezes. Isso foi bem visível quando durante a campanha fez visitas à OMON [unidade especial de polícia] e à polícia anti-motim. Essas visitas foram apenas em parte para mobilizá-los, porque também serviram para Lukashenko ver se eles o poderiam trair. Repare, houve dezenas de milhares de pessoas que saíram de casa para ver Tsikhanouskaya e, ao mesmo tempo, Lukashenko estava a visitar as mesmas forças especiais que depois iria usar contra o povo. Tornou-se muito visível: as pessoas rejeitaram Lukashenko.

Não vou contestar essa sua última frase, mas a realidade também nos diz isto: Tsikhanouskaya está fora do país e não há nenhuma maneira viável para que Lukashenko lhe transfira o poder de forma pacífica. O que está à vista é que Lukashenko conseguiu devorar mais um adversário. Como é que lhe foi possível fazer isto ao longo de 26 anos? E, além disso, crê que Lukashenko tem condições materiais para continuar a fazê-lo?
Até agora, tem sido possível porque ele tem tido dinheiro ao seu dispor. A partir de 2010 começou a ter menos dinheiro, depois de ter roubado as eleições e de ter alienado o FMI, que já nem quer falar com ele. Mas o seu principal apoio tem sido a Rússia e, depois de 2016, com o levantamento das sanções, tem sido apoiado pelo Ocidente. O Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento está a dar-lhe dinheiro, o Banco Mundial está a dar-lhe dinheiro. De forma bastante cínica, devo dizer, porque o Banco Mundial deu 90 milhões de euros a Lukashenko para lutar contra a Covid-19. Mas o pior inimigo de Lukashenko é a economia. E quando digo que a atitude dele perante a Covid-19 foi a última gota não tem a ver com a negação da existência da pandemia. Tem a ver com os insultos dele às pessoas.

Ele subvalorizou o perigo da pandemia. 
Absolutamente. Humilhou as pessoas. E, ao mesmo tempo, as pessoas aperceberam-se de que não precisam deste regime. Porque quando ele se comporta desta maneira, as pessoas começam a organizar-se. Houve um amplo movimento de voluntários: houve pessoas a angariar dinheiro para comprar medicamentos, outras foram ajudar médicos, outras foram ajudar os mais velhos. O comportamento de Lukashenko deixou claro às pessoas o quanto ele as despreza.

Cinco perguntas e respostas para entender o que se passa na Bielorrússia — e a razão do nervosismo de Lukashenko

Mas isto é o suficiente para diminuir o controlo que Lukashenko tem do poder? Falo de questões materiais. Tem a economia na mão? Tem o exército na mão? Tem o aparelho de segurança do Estado na mão?
Ele não controla a economia, não controla o exército (do qual ele nunca fala, se reparar), mas é verdade que tem o controlo do aparelho de segurança. Tanto que está a servir-se dele de forma intensiva nas ruas. Mas não creio que a situação continue a ser tão monolítica como tem sido até aqui. Disse-me há pouco que ele conseguiu livrar-se da adversária dele. Sim, tanto que a fuga da Sviatlana Tsikhanouskaya para a Lituânia foi organizada pelo aparelho de segurança do Estado — eles próprios o confirmaram, tal como a assessora de imprensa dela. Ela saiu do país, mas a mensagem não. Ela não andou a fingir que era uma candidata, o que importa é a mensagem: que precisamos de novas eleições sem Lukashenko. Isto não tem nada a ver com uma candidata, tem tudo a ver com as pessoas a exigirem que Lukashenko saia do poder.

"Ela não andou a fingir que era uma candidata, o que importa é a mensagem: que precisamos de novas eleições sem Lukashenko. Isto não tem nada a ver com uma candidata, tem tudo a ver com as pessoas a exigirem que Lukashenko saia do poder."

Falemos sobre essa bandeira que tem do seu lado direito: a bandeira da União Europeia, com “Bielorrússia” escrito no meio com o mesmo amarelo das estrelas. Ontem, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, exigiu uma contagem fidedigna dos votos. Nesta fase, era isto que esperava de Bruxelas?
Não. Esperava antes que voltassem a uma política de sanções. A suspensão das sanções em 2016 por parte da UE foi um erro fatal. Para mim ficou claro que se não o fizessem Lukashenko iria recorrer à violência. E nós temos informação de confiança que aponta para que tenha havido tortura nas detenções e prisões [nesta campanha]. A Bielorrússia é membro da Convenção contra a Tortura, portanto havia razões para aplicar sanções pelo menos contra os diretores das prisões onde estes ativistas foram torturadas. Foram utilizadas armas, as pessoas foram presas, incluindo candidatos. Mas nada aconteceu! Houve algumas expressões muito amenas de inquietação por parte da UE. Para mim é muito confuso ver como, de cada vez que muda a guarda em Bruxelas, eles parece que se esquecem da relação da Europa com a Bielorrússia. As pessoas que decidiram suspender as sanções contra Lukashenko e o seus comparsas já não estão lá. E estas novas pessoas parece que não sabem o que fazer. Vão ler os livros de História, vão ler os vossos documentos! Neles verão que qualquer suavização da postura de Bruxelas perante ditadores leva sempre a novas agressões. Isto põe a vida das pessoas em risco.

Mas o que é que acredita que está a impedir Bruxelas de tomar uma posição mais assertiva perante a Bielorrússia? É o medo de uma nova Geórgia de 2008 e uma nova Ucrânia de 2014?
É falta de vontade política e falta de estratégia. Nunca tiveram uma estratégia para a região — não é só para a Bielorrússia, não há estratégia também para a Ucrânia ou para a Rússia. Estão sempre a reagir aos acontecimentos e nem sempre o fazem bem. E nota-se uma incapacidade para assumir riscos de forma calculada. Eu sempre previ que Lukashenko vai contribuir para pôr em perigo a segurança na fronteira da UE. E veja o que está a acontecer: há uma central nuclear na fronteira com a Lituânia que foi construída pelo Kremlin mas que é obra de Lukashenko; e há exercícios militares russos no território da Bielorrússia. A UE subestima a importância da Bielorrússia na região, que para mim é de uma importância crucial.

Em 2016, Bruxelas anulou as sanções contra o regime de Lukashenko. Aqui, Merkel recebe um ramo de flores do ditador bielorrusso, que mediou as negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia em 2015

MAXIM MALINOVSKY/AFP via Getty Images

Não pode dar-se o caso de, na verdade, a UE estar a sobrevalorizar essa importância? Volto a referir os exemplos da Geórgia de 2008 e da Ucrânia de 2014. Falou de riscos calculados. Olhando para o que se passou naqueles dois casos, não acha que uma política mais assertiva perante a Bielorrússia iria assustar umas quantas pessoas em Bruxelas?
E então? Eles que se assustem! Disse-me que eles podem estar a sobrevalorizar a importância da Bielorrússia. Eu mantenho que estão a subvalorizá-la. Mas estão a sobrevalorizar a importância de Lukashenko. Porque a ideia de que Lukashenko é um fator de estabilidade é falsa. Ele é um fator de instabilidade. Por isso as pessoas que se assustem! Estamos a falar preservação da nossa segurança, estamos a falar da redução de ameaças securitárias para a Europa. Não é só para a Bielorrússia. Estamos a falar de bielorrussos que estão a lutar por valores europeus e Bruxelas está calada.

Vamos então falar de uma hipótese puramente académica: e se Vitebsk [região da Bielorrússia na fronteira com a Rússia] se tornar na nova Crimeia?
Nunca! Nunca. Não temos nada que seja comparável ao que se passa na Crimeia ou em Donbass. Não temos divisões com uma visibilidade tal na Bielorrússia. Não há qualquer base para o mundo russo na Bielorrússia. A única coisa que há do mundo russo na Bielorrússia é Lukashenko. Não temos um pretexto para que a Rússia interfira — o que não exclui a hipótese de a Rússia interferir na mesma. Mas não vejo uma razão para que eles façam isso, nem vejo o que é que eles têm a ganhar com isso. A Rússia está a perder em todo o lado e interferir [na Bielorrússia] por mera estupidez e sem ter em conta as perdas inevitáveis… Não me parece que isso seja provável. Além disso, há uma atitude fundamentalmente diferente dos russos em relação aos bielorrussos. Infelizmente, aos olhos deles, somos parte da Rússia. E, por isso, qualquer tipo de gesto de agressão contra o povo da Bielorrússia seria considerado como um gesto de agressão contra a própria Rússia. Creio que Putin compreende isto. Ao contrário do que se passou na Ucrânia, a opinião pública não estará ao lado dele se ele decidir atacar a Bielorrússia.

À semelhança do que já tinha acontecido em anteriores eleições, com destaque para as de 2010, as manifestações da oposição foram reprimidas com violência por parte da polícia bielorrussa

Natalia Fedosenko/TASS

Falando na Rússia, estas eleições deram lugar a alguns movimentos inesperados. Olhe, por exemplo, enquanto falávamos recebi um alerta a dizer que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, exigia à Bielorrússia que libertasse os jornalistas russos que foram detidos na noite das eleições. E depois houve também a mensagem de Vladimir Putin a Aleksander Lukashenko na noite das eleições. Formalmente era uma carta de congratulação, mas nela o Presidente russo avisava claramente que a Bielorrússia se devia aproximar da Rússia. É certo que as relações entre estes dois países nem sempre foram pacíficas e que Lukashenko joga com isto — fazendo da Bielorrússia um pêndulo que ora cai para a UE, ora cai para a Rússia. Mas podemos falar disto agora, prevendo-se que o pêndulo volte para o lado russo? Ou estamos perante outra dinâmica?
Em parte, isto tem a ver com esse tal pêndulo. Lukashenko montou um espetáculo com isto da Wagner [no final de julho foram detidos na Bielorrússia 33 mercenários da Wagner, empresa de segurança russa com ligações ao Kremlin]. Ele tentou dizer ao Ocidente que a Rússia é agressiva e que só ele próprio pode defender a Bielorrússia — isto apenas para conseguir dinheiro. Agora, a relação entre a Rússia e a Bielorrússia não é a mesma coisa que a relação entre Vladimir Putin e Aleksander Lukashenko, que, já agora, se odeiam mutuamente. Não me parece que Putin fique triste no dia em que Lukashenko sair. Mas, como se costuma dizer, dentro do Kremlin há várias torres — e cada uma delas tem a sua opinião sobre como se deve lidar com a Bielorrússia. A carta de parabéns de Putin é inevitável e as palavras de “amizade fraterna” entre os dois povos fazem parte da retórica do costume. Mas a Rússia não anda a prestar muita atenção aos problemas de Lukashenko e não estão contentes por ele próprio os acusar de quererem derrubá-lo com a ajuda de grupos como a Wagner. Mas o assunto já foi arrumado pelo embaixador da Rússia em Minsk, que disse que aquilo tinha sido tudo obra de um terceiro grupo.

Ou seja, está aberto o caminho para que as relações entre a Bielorrússia e a Rússia sejam reatadas, nomeadamente no que toca aos subsídios energéticos?
Não imediatamente, porque a Rússia vai querer alguma coisa em troca. Propriedades. Pode ser algo na área dos fertilizantes minerais, como a potassa [da qual a Bielorrússia é um dos principais produtores a nível mundial]. Ou então a fábrica de camiões de Minsk, porque a Rússia tentou substituí-la com uma fábrica russa, mas sem sucesso.

No fundo, é um regresso ao ponto de partida. E por isso insisto de novo na questão da frustração. Mas agora já não falo da população bielorrussa que se opõe a Lukashenko, falo antes de si, que concorreu contra Lukashenko, foi preso e agora está exilado. Como é que está a sua frustração hoje em dia?
Eu já passei por vários picos de frustração. Quando me demiti [da carreira diplomática em 1996] estava longe de imaginar que Lukashenko poderia durar tanto tempo no poder. Depois disso, passaram cinco anos até às primeiras eleições, que foram em 2001. Aí tive esperanças, mas percebi da pior forma que há pessoas traiçoeiras que se fazem passar por líderes, como Uładzimir Hančaryk. E a partir daí comecei a acreditar que não ia ser uma batalha rápida e que como tal tinha de me preparar para uma longa caminhada. E é assim que vejo as coisas desde então. Tenho uma coisa a meu favor: nunca mudei de profissão. Eu era diplomata da Bielorrússia independente e é isso que continuo a ser, apesar de quem tem o poder nas mãos.

"O que se passa hoje em dia na Bielorrússia neste momento causa-me emoções difíceis, mas também me deixa muito orgulhoso. Esta resistência é tão bonita. De um lado vemos estes animais que querem bater nas pessoas, partir-lhes as pernas. E do outro vemos as caras tão bonitas dos jovens, que se manifestam de tantas formas, mas sem agressividade."

É uma frustração assimilada que ainda assim não o impede de, pelo menos, tentar.
Completamente. Temos de tentar, temos de perceber que nada neste mundo se faz sem trabalho. A liberdade merece-se. Além disso, do ponto de vista histórico sou otimista, porque sei que a democracia tem muito mais longevidade do que a ditadura. As ditaduras são fenómenos discretos e as democracias persistem. Não são perfeitas, mas estão a desenvolver-se. Inevitavelmente a Bielorrússia tornar-se-á livre e democrática. É algo a que devemos aspirar, mesmo em dias como o de hoje. É esta esperança que deve guiar as pessoas.

Mas não deixa de ser irónico que “Tri Tcharapaqui” [“Três Tartarugas”, em português], que é uma das músicas mais célebres daquele que é também um dos músicos mais célebres na oposição da Bielorrússia, Liavon Volski, tenha no refrão a frase “não esperes nada, não vai haver surpresas”…
É verdade, é [risos]… O que se passa hoje em dia na Bielorrússia neste momento causa-me emoções difíceis, mas também me deixa muito orgulhoso. Esta resistência é tão bonita. De um lado vemos estes animais que querem bater nas pessoas, partir-lhes as pernas. E do outro vemos as caras tão bonitas dos jovens, que se manifestam de tantas formas, mas sem agressividade, apesar de serem tratados que nem escravos. Mas não há agressividade da parte deles — não é que não resistam quando são agredidos, mas não estão a planear nenhum tipo atividade agressiva. Para mim, estão a fazer História. E é uma História linda.

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