Antigo selecionador do Afeganistão: “De repente, disseram-me: ‘Nunca mais vais voltar para junto da tua família’” /premium

Petar Segrt foi técnico da equipa nacional afegã e está em Lisboa para apresentar um documentário sobre corrupção no futebol. "Men of Hope" é exibido este sábado no Offside Lisboa. Falámos com ele.

A passagem de Petar Segrt pelo Afeganistão teve tanto de breve quanto de célebre e de traumática. Entre 2015 a 2016 esteve à frente da seleção nacional de futebol e conseguiu unir em torno do desporto um país devastado pelo terrorismo e por conflitos sectários. Mas quando percebeu que a combinação de resultados desportivos não era coisa do passado, e continuava a acontecer durante o seu consulado, apoiou os jogadores nas denúncias e acabou expulso do Afeganistão, sem passaporte e com a vida em risco.

Nascido na Croácia em 1966, o atual selecionador das Maldivas é um dos protagonistas de “Men of Hope / Homens de Esperança” (2019), documentário da dupla alemã Till Derenbach e Andreas Fröhlich que narra uma versão dos breves meses em que dirigiu a equipa nacional afegã, também conhecida como “Leões de Khorasan”. O filme é exibido este sábado, às 15h00, no Cinema City Alvalade, em Lisboa, integrado na segunda edição do Offside Lisboa (festival de cinema dedicado ao futebol e organizado pela Associação Bola na Tela).

Em entrevista ao Observador, Petar Segrt recorda aquele ano de dor e glória e aponta o dedo à FIFA — Federação Internacional de Futebol, que considera responsável pelo perpetuar da corrupção desportiva no Afeganistão. “Ninguém se preocupa com aquele povo, ninguém os quer ajudar”, afirma.

[O trailer de “Men of Hope”:]

Como é que descreve o documentário “Men of Hope”?
Sobretudo, mostra a realidade recente do futebol no Afeganistão. Apareço a falar mais nos primeiros minutos, que são sobre a minha fase como selecionador, e depois os realizadores focam-se mais nos problemas que houve, relacionados com resultados combinados. Foram situações que muito prejudicaram a seleção e o próprio país.

Como é que se tornou selecionador do Afeganistão? Parece um percurso pouco provável, até porque em 2015 o país ainda estava sob ameaça dos Talibãs.
E ainda assim tive um grande êxito. Em oito jogos oficiais, ganhámos seis. Foi uma época gloriosa, antes de ter aparecido a combinação de resultados. A partir daí, tudo se complicou. No meio futebolístico, e talvez para a generalidade das pessoas, será difícil perceber como é que alguém decide ir trabalhar para o Afeganistão, mas achei que poderia ajudar. Tinha, e tenho, uma posição sobre aquele país, e pensei que seria possível mudar alguma coisa na sociedade e unir os afegãos. Durante algum tempo, terei sido capaz de o fazer. Pela primeira vez na história, conseguimos que a seleção se qualificasse para a final da Taça da Ásia. Tínhamos uma equipa muito jovem, composta por refugiados que viviam na Europa – Alemanha, Suécia, Dinamarca, Noruega, Holanda –, mas também alguns que vivam no Afeganistão.

Quando a federação o convidou já sabia que iria trabalhar com refugiados?
Sim, desde o início, e o objetivo era o de construir uma seleção forte com esses mesmos jogadores. Até à minha chegada, os jogadores estavam sempre em guerra uns com os outros. Sabia que tinha uma tarefa difícil pela frente, mas penso que estive à altura. Foi extraordinário, sinto-me um dos principais responsáveis por uma fase de prosperidade no futebol afegão. O dia a dia é muito perigoso para qualquer afegão e, no entanto, havia um entusiasmo enorme em torno da equipa, isso via-se nas ruas e nas televisões. Levámos esperança ao povo, demos-lhe uma forma de entretenimento e toda a gente passou a acreditar que o país, sendo pequeno, poderia ter bons resultados desportivos. A partir do momento em que o secretário-geral e o presidente da federação começaram a interferir, a querer tirar jogadores e a esconder a combinação de resultados, percebi que seria muito difícil continuar. Foi inacreditável.

O filme “Men of Hope” faz parte do cartaz do festival Offside Lisboa e passa este sábado no Cinemacity de Alvalade

Vemos no documentário que a sua popularidade era enorme.
É verdade. E há que notar o seguinte: como europeu, sou cristão, e não é muito comum um cristão ter assim tanto respeito por parte dos afegãos. Passei muito tempo com eles, ajudei pessoas e jogadores quando houve ataques bombistas, mostrei-lhes uma outra faceta dos europeus, mostrei-lhes coragem e carácter.

Ajudou a desconstruir alguns preconceitos em relação ao Ocidente?
Penso que sim. Temos realidades muito diferentes, mas acho que gostaram de mim porque dei a conhecer a minha forma de estar e respeitei a cultura deles a 100%, respeitei sempre os jogadores, foi essa a chave do êxito. Não se pode ser selecionador num país daqueles se se mostra medo ou fraqueza, é preciso ser muito forte, só assim se consegue alguma coisa. Quando a federação me despediu, em 2016, o sucesso foi por água abaixo. Penso que no filme se vê bem o respeito que os jogadores me tinham, a forma como se comportaram, por exemplo, na denúncia dos problemas. Os afegãos têm carácter forte, são pessoas decididas, mas há sérios problemas de corrupção no país.

Há a ideia de que o futebol no Afeganistão estava a tentar renascer em 2015 e que quiseram entregar-lhe o comando da equipa para criar um novo impulso. Faz sentido?
Sem dúvida e acho que estávamos no caminho certo. Simplesmente, ninguém percebeu que combinar jogos e corromper jogadores destrói qualquer tentativa de reconstrução de uma atividade desportiva. Lutei sempre pelos jogadores, defendi-os nestas situações, e isso aparece no filme. Parecia-me inaceitável que no século XXI a própria federação de futebol estivesse envolvida na combinação de resultados. Deixe-me dizer que a última vez que visitei Lisboa foi há 11 anos, na altura estava como selecionador da Geórgia e jogámos contra Portugal, foi um momento incrível. Defrontámos Ronaldo, o selecionador era Scolari. Nessa altura, a Geórgia enfrentava uma guerra contra a Rússia e sei bem o que é ter de unir um país em torno do futebol. No Afeganistão, a tarefa foi idêntica.

"Os jogadores não queriam que eu saísse, eu não queria sair, o povo também não. A federação é que tomou a decisão, depois de eu ter dito aos responsáveis que não aceitaria um regresso a situações de jogos combinados. Sou croata, venho da Europa, não poderia aceitar."

O seu trabalho ajudou o país a esquecer os traumas da guerra?
Não posso dizer isso, mas conseguimos, pelo menos, criar um ambiente de esperança. O futebol une as pessoas, muda a maneira de pensar das pessoas, mostra-lhes que podem construir alguma coisa juntas. A época em que estive ali representou isso. De repente, as crianças na rua jogavam à bola, foi como se um sonho começasse a tornar-se realidade. A corrupção matou tudo de um momento para o outro. É assim que as coisas se passam no Afeganistão, infelizmente: num dia, a vida das pessoas parece normal e as crianças vão à escola, mas de repente há um atentado e tudo se perde. É inacreditável. No Afeganistão o sucesso, a paz e o amor estão paredes-meias com a catástrofe.

Está desiludido com o que lhe aconteceu? Ou ainda furioso?
As duas coisas. Os jogadores não queriam que eu saísse, eu não queria sair, o povo também não. A federação é que tomou a decisão, depois de eu ter dito aos responsáveis que não aceitaria um regresso a situações de jogos combinados. Sou croata, venho da Europa, não poderia aceitar. Mas a federação afegã de futebol faz o que quer, não há supervisão, a FIFA não faz nada. Veja-se nos últimos meses a denúncia de jogadoras de futebol que acusaram o presidente da federação [Keramuundi Karim] de as ter violado. Para eles, estas situações são normais, violar pessoas, combinar resultados, é tudo normal. Mas não é. Está mal, é inaceitável. Arrisquei a minha vida para proteger os jogadores nas denúncias e nunca pensei que acabaria despedido. Tiraram-me o passaporte e deixaram-me sozinho em Cabul. Imagine-se o que é estar em Cabul sem documentos, é uma questão de tempo até alguém nos matar.

Como é que isso aconteceu em concreto?
Foi tudo no mesmo dia. Disse à federação que não aceitava a combinação de jogos, começaram a pressionar-me, quiseram pagar-me para que me calasse, proibiram-me de falar do assunto em público. E a minha resposta foi: “Nem pensar.” De repente, uma hora depois, informaram-me de que não poderia sair do país e disseram: “Nunca mais vais voltar para o teu país ou para junto da tua família.” Apreenderam-me o passaporte e todo o dinheiro que tinha comigo.

O documentário foi realizado pela dupla alemã Till Derenbach e Andreas Fröhlich

Vivia sozinho em Cabul?
Sim, estava a preparar um jogo no Tajiquistão, no âmbito da Taça da Ásia, e a aguardar que alguns jogadores chegassem ao Afeganistão, assim como os meus adjuntos, que viriam da Geórgia e do Montenegro. Poucos dias antes, os jogadores tinham-me contado a história dos resultados combinados. Não era um, eram vários. Já no autocarro, a caminho do aeroporto, para ir para o Tajiquistão, mandaram parar o autocarro, tiraram-me lá de dentro, apreenderam dinheiro e documentos e deixaram-me à minha sorte em Cabul. Foi um momento traumático. Ninguém esperava uma coisa destas. Até os guarda-costas me tiraram. Acabei por conseguir sair do país, através da ajuda de pessoas amigas. Informei a FIFA sobre o que aconteceu e até hoje nada. É isso que me deixa muito desiludido.

Que atitude esperava da FIFA?
Bem, quando 11 jogadores de uma seleção denunciam em uníssono um caso de corrupção, quando são jogadores que nem vivem no Afeganistão, são refugiados que se estabeleceram em vários países europeus, espero que a FIFA não fique calada e procure os responsáveis. O governo afegão não pode fazer nada se a FIFA não fizer. Se fossem jogadores portugueses a dizer o mesmo, ficaria tudo na mesma? Não me parece. Mas como é o Afeganistão a FIFA está-se nas tintas. Ninguém se preocupa com aquele povo, ninguém os quer ajudar. A FIFA não respeita os jogadores nem me respeita a mim, como treinador, e continua a trabalhar com a federação afegã como se nada fosse. O que é isto? Estamos muito mal no futebol.

"Um estrangeiro não pode estar sem guarda-costas ou sem passaporte no Afeganistão. Não é como em Lisboa ou Berlim. Em Cabul, há “checkpoints” por toda a parte, sem passaporte não se consegue andar, não se consegue chegar ao aeroporto."

Chegou a estabelecer-se em Cabul a tempo inteiro?
Passava a maior parte do tempo na Europa e só ia ao Afeganistão de vez em quando, para alguns treinos. Mas como nem sempre era possível treinar lá, íamos para o Qatar e para o Irão. Mas fui o primeiro selecionador que ia tantas vezes ao país.

Era muito perigoso passar longas temporadas em Cabul?
Muito e eu sabia isso desde o princípio. Numa ocasião, houve um ataque bombista muito perto de onde estava a equipa. De vez em quando, recebia mensagens a dizer que me queriam matar, que a minha família estava em risco, etc.  Nem todos estavam contentes com o nosso êxito. Ainda assim, tinha esperança e acreditava. Só nunca esperei que a federação me despedisse daquela maneira. Um estrangeiro não pode estar sem guarda-costas ou sem passaporte no Afeganistão. Não é como em Lisboa ou Berlim. Em Cabul, há “checkpoints” por toda a parte, sem passaporte não se consegue andar, não se consegue chegar ao aeroporto.

Sabia qual era a origem das ameaças?
Nunca soube.

Continua a acompanhar o campeonato afegão? Mantém contacto com os seus antigos jogadores?
Completamente e ainda recebo telefonemas de pessoas do Afeganistão que me pedem para regressar. Tudo isto é muito triste, mas é a realidade e o documentário fala disso. A minha vinda a Lisboa é também uma forma de demonstrar a minha admiração pelos afegãos: só com a denúncia destas situações é que as coisas podem mudar. Quero aproveitar todas as oportunidades para falar disto e espero que vocês, os jornalistas, possam ajudar-me. Sem os jornalistas, a corrupção continuará a ser protegida.

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