António Costa, Guerra dos Tronos “com esteroides” e paraísos fiscais. Os (poucos) momentos quentes de um debate morno /premium

16 Maio 2019

Portugal serviu de arma de arremesso entre Timmermans e Webber, num debate dos candidatos à Comissão Europeia que não fica para a História.

Seis candidatos, hora e meia de emissão e uma mão cheia de temas. Foi esta a receita do único debate destas Eleições Europeias que reuniu representantes das seis famílias de partidos no Parlamento Europeu que almejam ao possível cargo de presidente da Comissão Europeia — os Spitzenkandidaten, no linguajar técnico de Bruxelas emprestado pelos alemães. Manfred Weber partia como favorito, razão pela qual foi várias vezes atacado nas respostas dos adversários, mas o tom mais aguerrido veio da sua principal ameaça: o socialista Frans Timmermans, que roubou os holofotes.

Entre os temas que provocaram debate mais aceso esteve o clima, o euroceticismo — com direito a sound byte sobre o Brexit e a Guerra dos Tronos — e a austeridade, com o caso português a ocupar o centro do debate. Mas não houve surpresas, nem rasgo; resta o consolo de saber que o debate decorreu num tom educado e que se falou de Europa, mesmo que pela rama. E, num debate tão morno, quais foram os momentos mais quentes e os protagonistas que fizeram subir a temperatura?

A economia. Timmermans trouxe “António Costa” para o centro do debate

O candidato do Partido Popular Europeu (PPE) — grupo onde se incluem os portugueses PSD, CDS-PP e MPT — até foi o primeiro a trazer uma referência a Portugal. O tema era o desemprego, sobretudo o jovem, com enfoque nas economias do sul que recuperam. E eis que Weber recordou a sua visita recente ao Porto para ilustrar como os jovens europeus querem competitividade económica, em vez de medidas como o “salário mínimo europeu”: “No Porto, conheci um estudante que me falou não do salário mínimo — que até foi aumentado pelo Governo socialista — mas sim de empregos, empregos bem-pagos. É nisso que temos de nos focar”, declarou o alemão.

Frans Timmermans monopolizou o debate nas questões do desemprego e economia (PARLAMENTO EUROPEU)

Os restantes candidatos foram tentando colocar as suas buchas sobre o tema, mas com pouco destaque. Nico Cué, da Esquerda Europeia, defendeu o tal salário mínimo europeu que Weber desvalorizou, enquanto que Jan Zahradil dos Conservadores e Reformistas (ACRE) pediu “soluções à medida de cada país” em vez de receitas europeias.

Mas com a vez do socialista Frans Timmermans, rapidamente o debate se recentrou nas economias do sul e no exemplo português. Talvez aproveitando a deixa, talvez por já a trazer preparada, Timmermans agarrou o osso e não o deixou escapar. “Quando António Costa apresentou programas para criar mais emprego e a Comissão Europeia disse que sim, o senhor Weber sempre disse ‘castigue-se Portugal!’”, atirou o holandês de 61 anos, com vasta experiência política, referindo-se à discussão sobre a imposição de sanções que também tinha sido tema no primeiro debate entre os candidatos portugueses às europeias, na SIC.

“Quando António Costa apresentou programas para criar mais emprego e a Comissão Europeia disse que sim, o senhor Weber sempre disse ‘castigue-se Portugal!’”
Frans Timmermans para Manfred Weber, sobre a aplicação de sanções

Weber contra-atacou, naquele que foi um dos momentos mais quentes do debate:  “Todos concordamos que a solidariedade é um tema chave para a Europa, mas a responsabilidade também o é. Devo recordar que nos últimos cinco anos foi um socialista, o comissário [Pierre] Moscovici, o responsável pela pasta do Euro, que foi Jeroen Dijsselbloem, um antigo colega seu, que esteve à frente do Eurogrupo e que empreendeu as reformas necessárias e que hoje é um ministro das Finanças socialista de Portugal que está à frente do Eurogrupo”, afirmou o representante do PPE, referindo-se a Mário Centeno. “Todos devem assumir as suas responsabilidades e os socialistas não devem atacar as suas próprias políticas”, sentenciou.

Timmermans não se quis deixar ficar: “Weber disse que Portugal deveria ser castigado, mas a verdade é que funcionou. Hoje, a justiça social em Portugal é maior, o emprego cresceu tremendamente, porque eles colocaram um ponto final na austeridade e era isso que mais governos deveriam fazer.” E acabou por ter a última palavra no tema.

Clima. Onde o favorito Weber ficou debaixo de fogo, mas reagiu

O alemão da Baviera de 46 anos luta com um problema de popularidade até dentro do seu próprio país — uma sondagem recente diz que apenas 26% dos alemães sabem quem é Manfred Weber, um homem que não tem experiência governativa. Contudo, são várias as vozes que descrevem Weber como um tipo “simpático”, expressão recorrente nos perfis que dele são escritos — e, como extra, conta com o apoio de peso dentro do PPE da chanceler alemã Angela Merkel.

Weber é frequentemente apontado como favorito à presidência da Comissão, devido à liderança do PPE nas sondagens. E, talvez por isso, não tardou a que os restantes candidatos se unissem contra o alemão durante o debate, aproveitando o tema do clima.

Manfred Weber manteve-se firme na sua posição sobre o combate às alterações climáticas (PARLAMENTO EUROPEU)

Weber até já tinha num debate a dois com Timmermans que era claramente a favor do combate às alterações climáticas — “só uns quantos esquizitóides da direita é que não são”, afirmou — mas neste debate Weber surgiu como o Velho do Restelo do grupo. Defendeu claramente o objetivo da neutralidade carbónica para a UE (fim das emissões de gases de efeito de estufa), é certo, mas optou por focar o seu discurso na defesa daqueles que mais podem sofrer com essa transição económica: “os mais pobres”, “os trabalhadores de indústrias como a automóvel”, as “zonas rurais”.

Os adversário reagiram de imediato, quase em gangue, com a maioria a pedir para responder de imediato: “Detesto a conversa de que isto vai doer aos mais pobres e aos pensionistas. Sabe como é que vai doer? Se não fizermos nada, sobretudo aos mais pobres”, atacou Timmermans. Margrethe Vestager (ALDE), atual comissária europeia, rejeitou a colagem que Weber tinha tentado fazer dos membros do PPE que estão na Comissão às medidas tomadas por esta, dizendo que o governo europeu age “como uma equipa” e que “as preocupações com o clima estão acima dos partidos”.

“Tenho-me reunido com sindicatos que me dizem ‘se aprovar as medidas dos Verdes, vamos ficar sem empregos'.”
Manfred Weber sobre a sua posição no combate às alterações climáticas

Também Ska Keller, dos Verdes, aproveitou para interrogar o popular sobre a razão pela qual o PPE não votou a favor dos limites às emissões de gases no Parlamento Europeu. Weber aproveitou para responder, num dos momentos mais bem conseguidos da sua prestação: “Porque o meu partido está a tentar unir as coisas”, respondeu-lhe quase de imediato. “Tenho-me reunido com sindicatos que me dizem ‘se aprovar as medidas dos Verdes, vamos ficar sem empregos’”, disse, num piscar de olho a um eleitorado que costuma fugir do PPE e que tem preferido os partidos da esquerda ou, mais recentemente, os eurocéticos.

Mas mesmo no tema onde Weber se colocou no centro, Timmermans aproveitou para lhe roubar um pouco do protagonismo. Propondo medidas como um imposto sobre o CO2, sugeriu uma aliança com os Verdes, a Esquerda Europeia e até o ALDE em matérias climáticas. “Vamos trabalhar juntos nos próximos cinco anos para que a crise climática esteja no topo da nossa agenda”, com “uma aliança de Tsipras [da Esquerda Europeia] a Macron [do ALDE]”, disse. A expressão “de Tsipras a Macron” não é nova — o socialista tinha-a utilizado precisamente no passado fim-de-semana, quando esteve em Portugal, ao lado de António Costa. E não é inocente: as sondagens indicam que o grupo dos Sociais-Democratas precisa mesmo de alianças se quiser vir a controlar o Parlamento Europeu.

Paraísos fiscais. Margrethe Vestager puxou dos galões de comissária europeia

A representante do ALDE — mas não candidata ao lugar de presidente da Comissão, já que o partido dos liberais se declarou contra este modelo —, esteve morna durante grande parte do debate, recorrendo frequentemente a chavões e frases vagas. No tema dos impostos sobre as grandes empresas e na evasão fiscal, contudo, brilhou. O que não surpreende, se tivermos em conta que Vestager tem liderado o combate à evasão fiscal de grandes empresas como a Google ou a Amazon na Europa, no seu cargo como comissária europeia da Concorrência.

A dinamarquesa de 51 anos aproveitou o salva-vidas que lhe foi atirado pelo moderador e cavalgou o momento: “É muito generoso quando diz que algumas empresas só pagam 5% [de impostos], quando há algumas que só pagam 0,5%, como a Apple”, sublinhou.

A comissária europeia para a Concorrência, Margrhet Vestager, distingiu-se no tema do combate à evasão fiscal das grandes empresas (PARLAMENTO EUROPEU)

De seguida, enumerou os países onde a política fiscal tem favorecido este tipo de práticas — “A Irlanda, o Luxemburgo, os Países Baixos, Malta, o Chipre” — e prometeu que “a mudança está a caminho”. Questionada, contudo, se definiria estes Estados-membros como “paraísos fiscais” dentro da União, Vestager evitou a controvérsia com grande jogo de cintura: “Para mim, paraísos fiscais são países onde toda a gente paga aos seus impostos”, disse, com um sorriso.

Os restantes candidatos arriscaram algumas frases fortes nesta matéria: “Alexa, quando é que a Amazon vai começar a pagar os seus impostos?”, questionou Timmermans, enquanto que Weber manteve o tom mais sério e anunciou que, embora seja a favor da liberdade de mercado, defende uma taxa para áreas específicas como a área digital. Jan Zahradil recusou taxas iguais para toda a Europa, dando liberdade a cada Estado, mas sugeriu mecanismos como a troca de informações sobre as empresas com lucros acima dos 750 milhões de euros. Nico Cué foi no sentido oposto e pediu “harmonização dos impostos a nível europeu”, pedindo para passar “das palavras bonitas às ações duras”.

“Para mim, paraísos fiscais são países onde toda a gente paga aos seus impostos.”
Marghrete Vestanger questionada sobre se países como a Irlanda ou o Luxemburgo são paraísos fiscais

Mas o palco, neste tema, foi de Vestager, que colocou o dedo na ferida ao nomear os Estados prevaricadores. Resta saber quanto vale esse bom momento, tendo em conta que o ALDE não a elegeu como candidata à presidência, que o partido não é o favorito e que dentro da sua própria família política podem surgir outros nomes fortes como alguns vindos do campo de Emmanuel Macron, como relembrava recentemente o Politico. Talvez o cargo de comissária da Concorrência, esse, continue a ser da dinamarquesa.

Euroceticismo e migrações. Os temas onde os mais pequenos brilharam

É preciso reconhecer que dois dos principais sound bytes da noite nestes tópicos pertencem a Timmermans. O primeiro foi ao classificar a situação no Reino Unido, relacionada com o Brexit, como “a Guerra dos Tronos com esteroides”. O segundo foi ao declarar que “cada vez que alguém morre no Mediterrâneo, a Europa perde parte da sua alma”. Mas não só de frases fortes se faz um debate e, neste tema, a retórica de Timmermans e as propostas concretas de Weber (10 mil funcionários para a Frontex, um “Plano Marshall” para África) foram atropeladas pelos discursos fortes dos representantes dos partidos mais pequenos, que deram troco às duas maiores família no Parlamento Europeu, que têm dominado a Comissão Europeia ao longo dos anos.

Senão, vejamos. Nico Cué, sindicalista belga de 62 anos da indústria do aço, fez jus ao cargo de representante da Esquerda Europeia. Destacou a sua própria história como filho de um emigrante (um espanhol das Astúrias fugido ao franquismo) para pedir solidariedade, reforçou que as migrações podem ser uma “oportunidade” demográfica para a Europa e atacou o discurso mais musculado de Weber nesta matéria, acusando-o de apresentar uma “solução final para as migrações”.

Nico Cué, Ska Keller e Jan Zahradil, representantes dos partidos mais pequenos, deram cartas na discussão sobre migrações e euroceticismo (PARLAMENTO EUROPEU)

Também no que diz respeito ao crescimento do euroceticismo, foi curto e grosso e afinou pelo tom dos partidos da sua família (em Portugal, PCP e BE): “Não admira que as pessoas se virem para os extremos”, lamentou. “É preciso fazer uma escolha: ou se é submisso aos mercados ou se apoiam as pessoas. E o que tem sido feito? Corta-se-lhes as pensões, reduz-se-lhes os salários.” Aos grandes partidos, deixou a mensagem “Vocês são responsáveis.”

O checo Jan Zahradil, que tem no seu grupo parlamentar vários partidos eurocéticos (o PiS da Polónia, os Democratas Suecos, os Finlandeses ou os Fratelli d’Italia), optou por uma defesa moderada da sua área política, evitando a retórica mais dura que muitos dos seus membros teriam utilizado ao defender as “pessoas comuns” que sentem “a sua forma de vida tradicional ameaçada” pela UE. “Sou a favor da integração europeia, mas quero uma UE que faça menos, mas melhor. Não acho que ‘mais Europa’ é a resposta para todos os problemas, como o PPE e os S&D têm feito.”

Ao ataque de Timmermans que lhe relembrou que o Governo polaco do PiS critica a UE, mas que os polacos continuam a querer permanecer nela, Zahradil não se assustou e deu troco: “75% dos meus cidadãos não querem aderir ao Euro”, relembrou, dizendo que “ser a favor da Europa não significa estar a favor de tudo o que vem da Europa”.

“Sou a favor da integração europeia, mas quero uma UE que faça menos, mas melhor. Não acho que ‘mais Europa’ é a resposta para todos os problemas, como o PPE e os S&D têm feito.”
Jan Zahradil, dos Conservadores e Reformadores Europeus, que incluem alguns partidos eurocéticos

Já Ska Keller, líder dos Verdes de 38 anos e repetente na candidatura ao cargo, repetiu várias vezes a palavra “solidariedade”, mas não se ficou por aí. Sobre as migrações, classificou como “totalmente inaceitável” o que se passar com as mortes a céu aberto no Mediterrâneo. “Os italianos dizem-lhes para telefonar à Líbia, mas na Líbia ninguém atende o telefone, há uma guerra civil a decorrer lá”, relembrou.

Jean-Claude Juncker está de saída do cargo de presidente da Comissão Europeia. Quem se seguirá? (EPA/STEPHANIE LECOCQ)

Sobre o crescimento do radicalismo nos países europeus, a candidata focou-se “nos nacionalismos” e aproveitou para, à semelhança de Cué e Zahradil, colar Weber ao problema: “Como partidos europeus, temos de tomar uma decisão: colaboramos com as forças extremistas? Infelizmente o PPE decidiu fazê-lo, na Áustria e com Órban”, disse, referindo-se ao primeiro-ministro húngaro e ao seu partido, o Fidesz, cuja expulsão do grupo dos populares foi discutida.

No final do debate, uma ideia pairava no ar. Timmermans foi o mais agressivo e aquele que parece ter vindo mais treinado, mas, contas feitas, todos tiveram o seu momento num debate que não foi particularmente marcante. Talvez a falta de empenho e de atenção se explique pelo facto de que não é certo se um destes seis candidatos será mesmo o presidente da Comissão Europeia. Embora tenha sido assim em 2014, pela primeira vez, com Jean-Claude Juncker, desta vez há alguns líderes europeus (como Macron) e alguns partidos (como o ALDE) com dúvidas sobre a relevância dos Spitzenkandidaten. Como se não bastasse, os tratados não são claros: neles, diz-se apenas que a eleição do presidente da Comissão é feita “tendo em conta os resultados da eleição para o Parlamento Europeu”.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: cbruno@observador.pt
Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina
134

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)