CDS ruma ao Alentejo e vai (num trator cor de rosa) à vinha a que Pedro Marques não foi

16 Maio 2019

Melo, o minifundiário, e Cristas, a (ex-) ministra, puseram mãos à obra na poda de uvas sem grainha. Um trabalho a que Marques se furtou. Uma medida para a Europa? Erasmus para jovens agricultores.

(artigo em atualização ao longo do dia)

“Ora aqui está um homem que sabe da poda!”. De alicate na mão e pés no terreno, Assunção Cristas elogia o seu candidato ao Parlamento Europeu, Nuno Melo, que tem jeito para a monda de cachos de uva, que é como quem diz, para a poda. Não é por acaso que o dono da herdade do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, António Silvestre Ferreira, tem pudor em tratar o candidato por “Nuno”, como ele lhe pede, mas não tem pudor em tratá-lo por “colega”. É que Nuno Melo não se cansa de dizer, entre risos, que é um “minifundiário” (agricultor que tem uma propriedade de pequena extensão para uso próprio), e, mais, que produz, no seu minifúndio nada menos do que “as melhores laranjas de Portugal”.

Melo e Cristas vão à vinha a que Pedro Marques não foi (e ex-ministra puxa dos galões)

Nuno Melo e Assunção Cristas sentem-se em casa no meio da terra e das vinhas. Ao contrário do PS, pelos vistos. Na terça-feira, Pedro Marques e o ministro da Agricultura Capoulas Santos, estiveram na mesma herdade, mas preferiram ficar à sombra da carrinha estilo trator (cor de rosa) do que subir nela para ir ver as vinhas onde se “mondam” um total de 10 milhões de cachos de uva — para que os cachos cresçam bonitos e saborosos. Foi a deixa perfeita para o CDS apontar aos socialistas e fazer braço de ferro: quem foi melhor ministro da Agricultura?

Sem medo, mesmo sendo a carrinha cor de rosa, o CDS subiu a bordo e pôs as mãos ao trabalho. Enquanto “mondavam” os cachos, de acordo com as indicações que o dono da herdade lhes dava, Cristas e Melo não perderam tempo para dizer mal dos socialistas. Se, de manhã, Nuno Melo tinha dito que sem meios aéreos e sem SIRESP, não havia ministro da Administração Interna, agora foi a vez de Cristas, ex-ministra da Agricultura, falar num ministro da Agricultura inexistente (leia-se, Capoulas Santos que tinha estado há dois dias naquele mesmo sítio com Pedro Marques).

“Um Governo que ocupa o tempo que tem a criticar o trabalho do governo anterior é porque não tem resultados para a presentar”, disse, notando que o atual governo só executou em matéria de fundos comunitários para regadio um terço do que o governo anterior por esta altura já tinha executado.

De alicate na mão e olhos nas uvas, Assunção Cristas puxou pelos galões e recordou memórias do seu tempo de ministra. A primeira visita ao terreno que fez enquanto ministra da Agricultura, em 2011, foi precisamente a esta herdade de 250 hectares, que no pico de produção alberga mil trabalhadores, e que já está nas mãos da família Silvestre Ferreira desde antes do 25 de Abril — e “marcou o meu mandato”. O lema de Silvestre Ferreira, homem palavroso, é de produzir “sabor”, “qualidade”, em vez de quantidade. E Assunção Cristas familiariza-se com a ideia: “Portugal tem de vender sabor, porque não temos uma grande dimensão, mas temos a excelência do sol e da água connosco”.

Ao contrário do atual ministro Capoulas Santos, que, diz Cristas, só executou um terço dos fundos para regadio, no seu tempo de ministra da Agricultura, o Alqueva passou a ter 120 mil hectares de regadio, conseguindo atingir-se em apenas quatro anos de mandato a meta que se pretendia atingir em 10 anos.

Depois dos cachos mondados, os ajudantes da poda estão aprovados? “Estão totalmente aprovados. Se não passarem no teste a que se estão a candidatar, já sabem que têm trabalho aqui“, brincou António Silvestre Ferreira. Mas Nuno Melo foi pronto na resposta: “Então espero mesmo não vir trabalhar para aqui”.

Uma medida para a Europa: Erasmus para jovens agricultores

Uma medida para a Europa por dia é o lema do CDS para esta campanha. Se no primeiro dia os centristas defenderam o “Plástico Zero”, tendo depois defendido também a alocação de mais fundos para as acessibilidades do interior do país, ou para as políticas sociais e familiares, esta quinta-feira foi a vez de defenderem uma medida muito concreta relacionada com agricultura: o projeto “Semente Europa”, que é nada menos do que um projeto estilo Erasmus mas destinado a jovens agricultores.

“Imaginem o que seria terem aqui no Vale da Rosa estagiários finlandeses, por exemplo, que vinham aqui aprender e que levavam depois o melhor que se faz em Portugal para os seus países — e vice-versa”, disse Nuno Melo na Herdade do Vale da Rosa, onde elogiou o filho de António Silvestre Ferreira, Henrique, que em 2013 ganhou um concurso europeu para jovens agricultores na categoria de projeto mais inovador. O que prova que “podemos ser muito melhor do que os outros”, mas é preciso os outros verem como somos bons.

No final da monda dos cachos das uvas, que não têm grainhas, uma pergunta inconveniente: “Que grainha eliminaria desta campanha?”, perguntou o jornalista. Nuno Melo foi pronto na resposta: “As fake news“, que – queixa-se – o atingiram em cheio no caso do “fake ranking” que o punha há uns dias como um dos eurodeputados menos influentes. “Para esses fake rankings, a simples circunstância de se ser socialista já dá logo mais pontos. Se avaliassem o trabalho, e não a influência, o CDS estava no topo”.

Ao lado dos aviões, Nuno Melo diz que sem helicópteros de combate aos fogos e sem SIRESP “não há Governo”

Tinha acabado de visitar a Embraer, o gigante fabricante de aviões comerciais e militares sediado em Évora, pelo que o tema serviu de mote para lembrar que estamos desde ontem em plena época de fogos. Logo, época em que os meios aéreos deviam estar todos a postos, e o SIRESP em condições de funcionar caso venha a ser chamado. Mas não é isso que está a acontecer. Nuno Melo arrancou o quarto dia de campanha a puxar as orelhas a António Costa: sem meios aéreos no terreno, e sem SIRESP, então isso significa que “não há ministro da Administração Interna e não há Governo”.

LUSA

“Há pouco testemunhámos pela imprensa local, com grande preocupação, o facto de não estarem ainda aqui [em Évora, Alentejo] os dois helicópteros fundamentais no combate aos incêndios que estavam prometidos. São dois, de 20, que neste momento estão em falta. Explicaram-nos como em espaços muito sinuosos do Alentejo, inacessíveis por terra, só os helicópteros são capazes de atacar os fogos. E estamos em época de fogos e não chegaram os helicópteros”, afirmou Nuno Melo aos jornalistas à saída da visita à fábrica de aviões.

Isto junta-se ao facto de haver uma dívida de 11 milhões que “mantém o SIRESP em risco de não ser utilizado no futuro próximo”, e resulta numa combinação explosiva. “Quando não há meios aéreos nem SIRESP, isso significa que não temos ministro da Administração Interna, e não temos governo”, atirou. Nos dois últimos dias de campanha, Nuno Melo e Assunção Cristas têm vindo a lembrar que o primeiro-ministro prometeu, no debate quinzenal de segunda-feira, uma resposta sobre o SIRESP “nas próximas horas”, e de lá para cá têm vindo a contabilizar as horas que passaram sem resposta: na última vez eram já mais de 48 horas.

Nuno Melo durante a visita à Embrer, em Évora LUSA

“Isto é muito grave quando diz respeito a um tema que tão tragicamente significou mais de 100 mortos em 2017, e isto significa que em poucos anos não se aprendeu nada. Passaram-se anos desde 2017 e o governo não aprendeu com os próprios erros. Onde mais falhou, no ataque aos fogos e na coordenação entre os meios, hoje volta a falhar: voltam a faltar meios aéreos e o SIRESP está em risco de não funcionar. O denominador comum é o mesmo: o governo”, afirmou ainda.

A marcar o dia está também uma notícia sobre uma publicação feita nas redes sociais do Patriarcado de Lisboa, onde se apelava ao voto nos partidos que defendiam posições pró-vida em temas como o aborto ou a eutanásia. Na fotografia aparecem juntos o CDS, o Chega de André Ventura e o Nós Cidadãos. Sobre isso, contudo, Nuno Melo chutou para canto: “Nós não somos o Patriarcado”, logo, não podemos comentar em nome de ninguém. Quanto ao facto de ficar ao lado de André Ventura na defesa das mesmas ideias, o candidato centrista pôs a democracia a funcionar: “Perguntar isso equivale a perguntar se incomoda os partidos estarem todos juntos no boletim de voto. A democracia é assim mesmo”.

Depois de um dia passado em Lisboa, a caravana centrista seguiu para Portalegre, onde visitou a IPSS “A casa da Terceira Idade das Carreiras” e seguiu para Évora, onde visitou a Embraer. Tudo para mostrar “bons exemplos”, casos que tratam o interior “pela positiva”. “Porque não temos de tratar apenas em campanha de aspetos negativos”, sublinhou. E nos dois casos visitados esta manhã, “quer através da componente social, quer através da alta tecnologia, mostrámos como é possível ter iniciativas que ajudam ao desenvolvimento das regiões e à fixação das pessoas”, disse.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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