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Joe Giddens - WPA Pool/Getty Images

Joe Giddens - WPA Pool/Getty Images

Aos 70 anos, continua à espera: Carlos, o príncipe que queria ser rei /premium

A popularidade não é das melhores e há quem tema que seja um "rei ativista". Carlos faz 70 anos esta quarta-feira. Está próximo do seu destino mas nunca um herdeiro britânico esperou tanto tempo.

Os dias voam cada vez mais rápido com o passar da idade. Acontece com os comuns mortais, acontece com os príncipes que passam uma vida inteira à espera de poder reinar. Esta quarta-feira, Carlos Filipe Artur Jorge Windsor completa 70 anos (data que será celebrada com uma festa exuberante e envolta em secretismo). Se se considerar a esperança média de vida de um britânico (cerca de 80 anos; dados de 2016) sobra-lhe uma década para se sentar no trono. A espera tem sido longa e os afazeres empilham-se que nem livros numa biblioteca poeirenta. Herdeiro, príncipe e filho, ele mesmo o diz em entrevista à Vanity Fair: “Há tantas coisas que precisam de ser feitas”.

Herdeiro trabalhador e temido “ativista”

Reforma para muitos com a aproximação ou a chegada dos 70, Carlos continua à espera de exercer a “profissão” para a qual ficou destinado aos quatro anos de vida, altura em que a mãe, a rainha Isabel II, ascendeu ao trono — já no longínquo ano de 1953. A acontecer o cenário em vista, a coroação sucede a uma operação meticulosa de despedida daquela que se tornou na monarca que há mais tempo reina na história do Reino Unido (já lá vão 92 anos de vida, a galope dos 93 que se celebram em abril). Em 2017, a revista New Yorker escrevia que, com receio de que os republicamos aproveitem o intervalo entre a morte de um monarca e o coroação de outro para espalhar “sentimentos anti-realeza”, existe a possibilidade de acelerar este processo — tanto quanto o decoro o permitir — quando chegar a vez de Carlos.

Trabalhos intrinsecamente associados à caridade têm ocupado grande parte da agenda do príncipe, que ao longo dos anos ficou conhecido pelas opiniões fortes que deitou a público — sobre as alterações climáticas ou sobre a medicina alternativa. Há três anos, e depois de uma batalha legal que se estendeu durante uma década, o jornal The Guardian publicou um conjunto de cartas que Carlos tinha por hábito escrever a ministros e a primeiros-ministros. Tais cartas, que a imprensa britânica batizou de “spider memos”, foram protagonistas de uma grande controvérsia. Uma vez ascendendo ao lugar dos reis, a probabilidade de uma situação semelhante voltar a acontecer é bastante remota. “Eu sei que é um exercício diferente ser-se soberano”, diz Carlos num novo documentário da BBC emitido na última quinta-feira. “Não sou assim tão estúpido”, é uma das declarações mais fortes que nele constam e que não vem ao acaso — está relacionada com a fama que tem de ser “intrometido”; há até quem tema que ele seja um “rei ativista”. Carlos prefere ver-se como um “motivador”.

A aproximação da data redonda tem feito com que alguns biógrafos reais se tenham focado em mostrar mais detalhes de Carlos caracterizado enquanto um “um príncipe mimado que vive num mundo hermeticamente selado”, escreve o The Guardian. Para essa caricatura ajudam os relatos que dão conta da existência de um assento de sanita ambulante e de o príncipe viajar com a sua própria almofada e o seu próprio colchão ortopédico. Em algumas receções consta que leva o Martini já misturado por questões de segurança. O frequente criticismo de que é alvo deverá afetá-lo um pouco dado que, segundo Patrick Holden, amigo de longa data, é “um homem algo sensível”. “Corajoso” também. O rótulo de trabalhador, esse, parece que ninguém o questiona. À medida que a rainha, no auge dos seus 92 anos, abranda o passo — em 2017 realizou 296 compromissos reais para os 546 de Carlos –, o trabalho do filho primogénito tem aumentado. A liderança da Commonwealth é exemplo disso. Em abril deste ano a sucessão ficou clara, depois de a rainha Isabel II ter proclamado que esses “eram os seus mais sinceros desejos” e de os representantes dos 53 países-membros terem aprovado, numa reunião à porta fechada no Castelo de Windsor, o pedido feito dois dias antes pela monarca. “Ele trabalha sete dias por semana. Ele precisa de abrandar, este é o homem que janta ridiculamente tarde”, diz Harry, no documentário emitido pela BBC já citado, o qual se foca quase exclusivamente na vida laboral do herdeiro ao trono.

Carlos é conhecido por adormecer à secretária e por acordar com notas coladas no rosto. Madrugador, costuma estar à secretária pelas 8h45, onde fica até às 10h a tratar da correspondência, caso tenha compromissos agendados — se a agenda estiver vazia, essa tarefa prolonga-se até à hora de almoço. Um dia de trabalho pode acabar facilmente às 00h, com a pausa a meio da tarde para o chá a ser regular. “Não conheço muitas pessoas que, a seguir ao jantar, voltam para a secretária”, diz Patrick Holden, já citado pelo The Guardian. “Ele é incrivelmente disciplinado.” É também este amigo de longa data quem expressa gratidão por o Reino Unido ter um herdeiro tão focado na sustentabilidade e no meio ambiente. No documentário da BBC os filhos de Carlos relatam que chegaram a recolher lixo com o pai nas férias quando eram mais novos e que, já crescidos, não suportam ter luzes desnecessariamente ligadas em casa — William atira, diante das câmaras, que tem uma espécie de perturbação obsessiva compulsiva com os interruptores que terá sido influenciada pelo pai.

O príncipe em abril de 1969

Keystone/Hulton Archive/Getty Images

As visitas que realiza ao estrangeiro, sendo que as mais recentes foram à Gâmbia, ao Gana e à Nigéria, são “quase estatais”. Não é rei, mas é normal ser recebido como se fosse quando aterra num país que não o seu. Em Nice, por exemplo, viagem feita em maio e acompanhada por jornalistas, os hinos britânicos e franceses entoaram e a chegada teve direito a honras militares. Em Atenas, paragem que se seguiu, Carlos recusou beber um café gelado com uma palhinha de plástico, o que fez notícia na Grécia mas também em jornais britânicos. Semanas depois, a cadeia de fast food McDonald’s anunciava que a partir de setembro as palhinhas de plástico seriam trocadas por suas semelhantes de papel em todos os restaurante no Reino Unido e na Irlanda. Quem apoia Carlos chama-lhe de “visionário” por ter começado a alertar para o problema que representam os resíduos de plástico já na década de 1970 e pelo facto de ter defendido a agricultura biológica muito antes do seu tempo.

A relação de Carlos com a imprensa é bem mais relaxada que a dos seus filhos, que já foram apelidados de “control freaks” no que à sua cobertura noticiosa diz respeito. Harry e William, e a respetivas mulheres, não deixam de reunir, no entanto, imprensa positiva para a família real britânica. Não foi por acaso que cerca de 2 mil milhões de pessoas acompanharam o casamento de Harry e Meghan Markle via televisão — sem contar com os milhares que esperaram horas às portas do Castelo de Windsor para ver a nova “princesa” passar numa carroça que a levou depressa demais. A ainda recente notícia do bebé real a caminho tornou-se preocupação de todos e transcendeu a realidade do casal — estamos à espera de saber se é menina ou menino e, consoante o sexo, que nome terá.

A morte da princesa Diana, em 1997, abalou a popularidade da monarquia britânica mas, 20 anos depois, cerca de três quartos dos britânicos acreditam que o Reino Unido estaria “pior” sem a família real e sem a rainha Isabel. Mas será que este sentimento será prevalente quando Carlos ascender ao trono? Em 2017, a The New Yorker assegurava que o herdeiro ao trono, então com 68 anos, era um “homem extremamente impopular”. Mais recentemente, a publicação australiana news.com.au escreve que Carlos é o futuro rei que, na verdade, ninguém quer. Há também quem critique o facto de Carlos raramente ser fotografado na companhia dos netos — talvez numa tentativa de contrariar isso, a fotografia mais recentemente divulgada pelo Palácio de Buckingham mostra o herdeiro ao trono a segurar a mão do neto Louis. Ainda assim, é difícil de esquecer o momento em que Carlos levou Meghan Markle ao altar no casamento do seu filho mais novo, em maio último. O momento descrito por alguma imprensa como “emocionante” e “inesquecível” terá ajudado certamente a imagem que o público tem do herdeiro ao trono.

Carlos levou Meghan Markle ao altar a 19 de maio

Dominic Lipinski/ - WPA Pool/Getty Images

O príncipe e a amante de sempre

Em maio, o jornalista da Vanity Fair que acompanhou uma viagem real na Europa conversou com correspondentes de longa data, habituados há muito a cobrir a família real, em geral, e o príncipe Carlos, em particular. O consenso então descrito é que a vinda da Camila, mulher de Carlos há 13 anos, deixou-o bastante mais feliz. “Ela fez uma diferença abismal nele. Agora, ele está muito mais feliz”, alguém atira. O casal é visto com frequência a falar e a rir entre si. O fotógrafo Alexi Lubomirski, que ilustrou o artigo que a Vanity Fair publicou a propósito dos 70 anos de Carlos, diz que, assim que o casal se entreolha, há “uma faísca nos seus olhos”. “Sentimos que eles são um jovem casal apaixonado.” Dito desta forma parece fácil pôr de lado o passado que os une, em particular o anterior casamento de Carlos com aquela que ficará para sempre conhecida como a princesa do povo.

Carlos e Diana tiveram 13 encontros antes de se casarem. Em fevereiro de 1981, um príncipe 13 anos mais velho pediu Diana em casamento. A então jovem de 19 anos deixou escapar um intenso “Amo-te tanto, amo-te tanto!”, ao que Carlos respondeu: “O que quer que o amor signifique”, uma declaração fria que ele voltaria a usar numa entrevista e que, por isso, ficaria famosa. A união de ambos ficou marcada por um intenso frenesim mediático e pelo alegado amor incorrespondido de Carlos. Segundo os documentários divulgados em 2017, altura em que passavam 20 anos da morte de Diana, a princesa do povo terá ouvido o príncipe dizer ao telefone “Hei de amar-te para sempre”. Noiva de Carlos, Diana descobria que o futuro marido tinha um caso amoroso com Camilla Parker Bowles, atual Duquesa da Cornualha. Em 1995, Diana haveria de dizer, numa polémica entrevista à BBC, que eram “três” pessoas na relação — “Éramos três no casamento, por isso, acho que era uma multidão”.

Chris Jackson/Getty Images

A 9 de abril de 2005 — 9 anos após o primeiro divórcio e 8 anos após a trágica morte de Diana — Carlos e Camila casam-se numa cerimónia civil. Agora que o tão aguardado salto na carreira de Carlos parece mais perto do que nunca, Camila é vista como uma figura essencial de apoio ao futuro rei. Por altura do casamento, ambos acordaram e insistiram que a duquesa, aquando da ascensão de Carlos, ficasse conhecida enquanto “princesa consorte”. Mais de dez anos depois, a opinião do público sobre Camila parece ter mudado e é possível que esta herde o título tradicional de “rainha consorte” — ainda que, no que a este assunto diz respeito, as opiniões sejam amplamente divergentes. A relação de Carlos e Camila nem sempre foi sido vista com bons olhos por parte da rainha, a julgar pela biografia não autorizada (Rebel Prince) que Tom Bower lançou no início do ano. Após a separação de Carlos e Diana, o herdeiro à coroa terá pedido à rainha que esta não se intrometesse, ao que Isabel alegadamente respondeu: “Não quero ter nada que ver com essa mulher má”.

“Ela vai dar-lhe muita força e confiança para que ele desempenhe o trabalho para o qual nasceu. Ele vai ser um rei melhor por a ter a seu lado”, assegura Penny Junor, dedicada a escrever sobre a família real britânica, ao Sunday Express. Ao fim de tantos anos — a relação de ambos começou no início dos anos 1970 — o afeto entre Carlos e Camila é bastante visível: ainda no artigo já citado da Vanity Fair, uma fotografia do casal dá conta da mão de Camila na perna de Carlos, um gesto normal para um casal apaixonado, mas pouco ou nunca visto entre figuras da monarquia. O carinho demonstrado publicamente está ainda presente em novos selos lançados para comemorar as sete décadas de vida do herdeiro.

As celebrações vão, porém, além das fotografias oficiais que têm sido divulgadas. Consta que a rainha estará a preparar uma “festa extravagante”, cujos convites já foram enviados em segredo. Segundo a imprensa britânica, a festa deverá acontecer esta quarta-feira à noite no Palácio de Buckingham e entre os convidados estarão membros da realeza europeia, incluindo, a título de exemplo, os reis da Suécia. O banquete será “reluzente”, digno de um futuro rei.

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