Índice

    Índice

Dezembro de 2018. Um humorista partilha no Twitter um pensamento mais ou menos profundo sobre as tentativas de Assunção Cristas de ser “cool”, “jovem” e “moderna”. “A Assunção Cristas a falar de qualquer assunto causa-me sempre aquela vergonha alheia de mãe de um amigo que quer ser cool e jovem e, em 2018, ainda diz ‘então putos, tudo baril?'”, escreveu Diogo Faro. 122 likes, 11 retweets, 5 comentários. Dois dias depois (nota mental: melhorar o imediatismo), Assunção Cristas respondeu com um gif. Sim, um gif onde o ator Robbin Williams, de boné para trás, assume o papel de “homem-baril-totalmente-desadequado-à-idade” e atira um “wazupp?”. “Fairplay”, riu Diogo Faro. 189 likes, 15 retweets, 8 comentários.

Noutro registo, Assunção Cristas acorda bem disposta numa manhã de sol, vira a câmara do telemóvel para si, num pouco lisonjeador plano debaixo para cima, com as árvores e o céu azul em pano de fundo, e clique: “Vim só dar uma espreitadela. #aquelaespreitadelanasredes“. 675 likes, 34 comentários no Instagram. É Natal, segue uma montagem humorística feita por alguém, algures na internet: “I wish you a Merry Cristas”, acompanhada de emojis matreiros — 1.620 likes. Desde as férias escolares com os filhos, à apresentação do cão à comunidade virtual, passando pelos votos de bom ano novo com uma foto de família (incluindo agora, claro, o cão) — 1.135 likes –, ou ainda o bestseller do anunciado corte de cabelo — 1.241 likes e mais de 80 comentários. A líder do CDS não tem pudor em abrir a porta da sua vida pessoal e profissional na internet. “É importante as pessoas perceberem que os políticos são pessoas normais”, diz a líder do CDS ao Observador.

Mas não é a única. António Costa, de forma mais institucional, e Catarina Martins, com o telemóvel à mão, também usam o Instagram para mostrar os “bastidores” da sua vida de políticos. Raro é o dia em que a coordenadora do Bloco de Esquerda não deseja um “bom dia” com um raio de sol ou uma flor de jardim aos seus seguidores naquela rede social. E são bastantes: 16 mil, o dobro dos de Cristas. Rui Rio não tem conta no Instagram, mas é assíduo no Twitter onde, assegura uma fonte, é ele próprio que faz as publicações — não partilha a password. Já o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, mantém-se afastado das redes sociais a título individual. Foi o único líder partidário que não se rendeu a esta arma.

“Em 2015 [último ano de eleições legislativas], a narrativa política ainda passava muito pelos media — um acontecimento ou declaração só ganhava credibilidade quando chegava aos media — e agora já é ao contrário. Agora, acontece primeiro na internet e depois é que passa para os media”, explica ao Observador Sérgio Denicoli, especialista em comunicação digital, habituado a observar os fenómenos das redes sociais nas últimas eleições no Brasil e nos EUA.

Certo é que Portugal está muito atrás de outros países nesta matéria. Em 2008, nos EUA, já Barack Obama usava a arma da internet para conseguir a nomeação do Partido Democrata para a corrida presidencial. “Sem internet não haveria Obama. A diferença de compreensão, entre as campanhas de Obama e Clinton, sobre o que se pode conseguir através da política online, tem sido um fator decisivo nesta que é a maior reviravolta na história das primárias presidenciais”, escrevia na altura Michael Cornfield, cientista político norte-americano e diretor de investigação do Projeto Democracia Online da Universidade George Washington, no blog Media & Politics, referindo-se “ao dinheiro que Obama arrecadou online, aos vídeos que postou online e, acima de tudo, aos milhões de pessoas que aderiram online à campanha de Obama”. Começou aí a viragem: Portugal já chegou tarde e, mesmo assim, de forma incipiente.

“Somos pessoas. Também temos dia do pai, também vemos a primavera”

Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda desde 2012, é a líder partidária que tem mais seguidores no Twitter (à exceção do primeiro-ministro). São agora 67,3 mil, sendo que é também a líder que tem página naquela rede social há mais tempo, desde janeiro de 2009, ainda antes de ser eleita deputada à Assembleia da República. É sobretudo aí, a par do Facebook, que mostra o trabalho que faz, por onde anda e o que pensa sobre cada assunto da atualidade, partilhando artigos, ora da comunicação social, ora do “Esquerda.net”, jornal oficial do BE. Faz em média três publicações por dia. Influencer? Sim, mas só à escala dos líderes políticos portugueses.

“O Twitter tem assumido uma importância crescente no debate público”, admite ao Observador fonte próxima de Catarina Martins, que sublinha que a presença da atual coordenadora do Bloco de Esquerda naquela que é vista como a plataforma predileta da ‘elite pensante’, ao contrário dos restantes líderes partidários, já remonta ao período antes de ter funções políticas: ou seja, não se resume a fins eleitorais. “É a Catarina Martins que gere as suas próprias redes sociais, em conjunto com uma equipa que produz conteúdos e materiais gráficos”, diz ainda, realçando que os “perfis dos dirigentes do Bloco nas redes sociais são expressão da sua atividade e proposta política” e que o Bloco “não recorre a qualquer agência de comunicação”.

O Instagram, contudo, é uma exceção. Ainda que também recorra a esta rede social para promover ações políticas e mostrar conteúdo promotor de ideias políticas, é ali que a coordenadora do Bloco de Esquerda se permite ser também Catarina Martins — de forma discreta. Embora pouco ou nada revele da sua vida pessoal, Catarina Martins aproveita o facto de estar num sítio bonito ou num dia de sol para registar o momento e o partilhar nas redes com votos de “bom domingo”, “bom dia” ou “boa tarde”. Raramente passa essa barreira, mantendo a discrição. “Há fotografias que são tiradas pela Catarina Martins fora do contexto da sua atividade política, assim como há fotografias tiradas em atividades públicas”, admite a mesma fonte, sublinhando o intuito “mais pessoal” desta rede social que privilegia as imagens em detrimento das palavras.

Caso diferente é o de Assunção Cristas. Enquanto Catarina Martins cultivou uma rede de seguidores no Twitter que já vai com dez anos, a líder do CDS foi mais errática no seu percurso e mais direcionada para fins eleitorais. “Criei pela primeira vez uma página de Facebook e de Twitter em 2009, quando fui eleita deputada pela primeira vez, e era aí que mostrava a minha opinião e o trabalho político que estava a fazer. Mas depois fui para o Governo [em 2011] e não tive capacidade para continuar a alimentar”, conta ao Observador. Por isso é que, recentemente, desativou a página de Twitter que tinha criado em 2009 (que contava com cerca de 3.700 seguidores), e onde já não tweetava desde 2011, e com as eleições autárquicas à porta, viu-se na obrigação de criar uma nova. “Já não me lembrava da password”, admite. Em março de 2017 criou por isso uma conta nova, que reúne agora pouco mais de 4 mil seguidores.

Residual, contudo. Em Espanha, para não irmos mais longe, o líder do PP, Pablo Casado, conta com nada menos do que 225 mil seguidores, e até o líder do partido de extrema-direita Vox, Santiago Abascal, que nem sequer tem representação parlamentar, conta com 197 mil seguidores — bem mais do que o próprio primeiro-ministro português (83 mil). Quanto a Assunção Cristas, admite que a não adesão ao Twitter em força é uma questão de gosto. “Só entro nas discussões que escolho, não vou a todas”, conta, explicando que, para si, “é a rede social mais difícil, por ser muito imediata”. “É onde estão muitos jornalistas e opinion makers, é mais exigente, requer um grande imediatismo e obriga a uma atenção permanente”, admite.

Cristas prefere o Instagram (o Facebook é mais generalizado e todos os políticos usam como página de promoção de trabalho). “No Instagram sou eu num registo mais pessoal, menos político”, afirma ao Observador, explicando que começou por criar conta “de maneira muito natural”, para partilhar com “amigos”, mas à medida que se tornava mais conhecida do grande público, maior ficou a comunidade, contando agora com 8 mil seguidores, o dobro da comunidade que a segue no Twitter.

“É importante as pessoas perceberem que os políticos são pessoas normais, e é importante haver espaços onde nós somos o que somos. Somos pessoas, também temos o dia do pai, também gostamos de ver a primavera”, diz ao Observador, referindo-se à foto que partilhou onde aparece com o pai, no dia do pai, que se juntou a muitas outras alusivas à sua vida pessoal. Os quatro filhos são presença regular nas fotografias que partilha, embora Cristas admita que tem “alguma cautela” com aquilo que publica. Sim, é mesmo ela que publica. “Às vezes tenho alguma ajuda de membros da equipa, fazem-me sugestões, mas eu é que valido e publico”, afirma.

A veia humorística é mesmo de Assunção Cristas ou é sugerida por alguém? Aí divide-se. “Eu gosto muito de humor, o meu marido é das pessoas com mais sentido de humor que conheço e gostamos de nos rir de nós próprios”, conta ao Observador, sublinhando que não fica “ofendida” com comentários menos simpáticos nas redes. E é por isso que, quando esses comentários têm graça, responde na mesma moeda. Às vezes, admite, é alguém que lhe dá a sugestão para reagir: “Às vezes dizem-me ‘o que achas de pores isto?’ Mas a maior parte das vezes sou eu que faço essas reações”. De resto, o domínio dos emojis e das hashtags, esse, é da própria.

Falar sobre a família, apresentar-se como pessoa de família, como Cristas faz nas redes sociais e no podcast semanal que lançou recentemente é, segundo Sérgio Denicoli, especialista em comunicação digital, um “trunfo” importante que os políticos começam a usar. Foi o que aconteceu com os movimentos que levaram à eleição de Trump e Bolsonaro: “Os políticos passaram a expressar muito mais o seu pensamento pessoal, a defender abertamente os valores como a família, coisa que antes não faziam”, diz, realçando aqui o papel do Instagram, que “ajuda a mostrar o lado pessoal”, em detrimento do Twitter, “onde estão maioritariamente os formadores de opinião”.

O primeiro primeiro-ministro nas redes sociais

E o primeiro-ministro? Ao contrário do Presidente da República, que não tem presença em nenhum tipo de rede social, António Costa inovou ao marcar presença assídua e estratégica nas novas plataformas onde podem estar eleitores escondidos: no Twitter, onde tem conta desde abril de 2016 (formou governo em novembro de 2015), tem mais de 84 mil seguidores, e no Instagram tem mais de 31 mil.

E a verdade é que é o primeiro a fazê-lo. Pedro Passos Coelho não usava as redes sociais como método de comunicação. Costa usa: o Twitter oficial serve para mostrar trabalho feito, fazer declarações, transmitir conferências de imprensa em direto e promover ações do governo. Já o Instagram é usado para mostrar os “bastidores” da vida de primeiro-ministro, promovendo igualmente a narrativa política, mas mostrando um lado B do governante, mais descontraído e como se as câmaras não estivessem lá (na verdade estão, porque todas as fotos usadas são tiradas pelos dois fotógrafos oficiais do primeiro-ministro, Paulo Vaz Henriques e Clara Azevedo).

Foi o que aconteceu, por exemplo, no dia do pai, quando, num registo particularmente pessoal, o primeiro-ministro divulgou uma foto com os filhos e com ar de férias; ou durante a tragédia dos incêndios, em agosto do ano passado, quando publicou fotografias no seu gabinete para se mostrar a controlar a situação remotamente. Sempre num plano profissional e institucional, contudo. Aqui, não há #espreitadelanasredes, mas quase.

A lógica “Trump” e um combustível chamado “conflito”

Caso diferente é o de Rui Rio, que criou uma página de Twitter há apenas quatro meses (chega agora aos 4.464 seguidores), mas que já se tornou célebre. “Dou hoje início ao meu Twitter oficial. Nada melhor do que o Dia da Restauração para o fazer. Porque estou aqui por Portugal”, escreveu no dia 1 de dezembro. Certo é que, tendo começado o mandato à frente do PSD com alguns problemas de comunicação interna e externa, Rui Rio não perdeu tempo a deixar algumas pessoas boquiabertas ao recorrer a um tom próximo ao que é utilizado por Donald Trump no Twitter, atacando regularmente a comunicação social (neste caso a SIC e o Expresso), com recurso à ironia.

A estratégia e o tom utilizados no início surpreenderam por fazerem lembrar os que são usados pelo presidente norte-americano ou pelo recém-eleito presidente brasileiro: mesmo sem factos que o sustentem, tentar desacreditar a comunicação social para que os eleitores passem a dar primazia às redes sociais onde não há mediação e, pelo contrário, há um controlo direto da mensagem — o “mundo ideal” dos políticos, nota Sérgio Denicoli ao Observador: “Os meios de comunicação social são incómodos, levantam questões, fazem interpretações. A partir do momento em que um político sabe que tem ali uma via aberta, aproveita. Esse seria o mundo ideal para eles”.

O caso do ataque direto de Rio ao jornal Expresso não foi inédito. Antes, através da página oficial do PSD, o líder do partido já tinha levantado polémica ao atacar uma jornalista do Público: “A rigorosa Sofia Rodrigues do @Publico continua a sua cruzada e, hoje, ‘informa’ que dois membros da CPN ameaçaram demitir-se. Estamos ansiosos pelo próximo trabalhinho para ficar a saber os nomes dos dois ameaçadores”, escreveu.

Para Denicoli, esta estratégia tem um nome: “conflito”, e é nada menos do que o “combustível” das redes sociais. “O combustível das redes sociais é o conflito. Para quem quer ser falado é importante o conflito, a agressividade. O que é polémico ganha sempre mais mediatismo. Se há um problema no governo ou num partido, usa-se o Twitter para criar uma outra narrativa e desviar atenções”, acrescenta o doutorado em comunicação digital pela Universidade do Mundo, explicando que é precisamente isso que Trump faz.

Se resulta? Fonte do PSD acredita que sim, sobretudo porque “não há mediação”, “diz o que pensa” e é isso que chega “aos opinion makers que estão no Twitter”. Denicoli também concorda que “tem funcionado” do ponto de vista dos políticos, mas é uma forma de fazer política mais “belicista” que, no limite, não é boa para a sociedade. “Os media são mais diplomáticos, ouvem os dois lados, enquanto a falta de mediação do Twitter estimula o conflito”, explica.

No caso de Rui Rio, o estilo não é novo e já enquanto presidente da câmara do Porto, mesmo sem redes sociais, era conhecida a agressividade relativamente à comunicação social, chegando a servir-se do site da Câmara Municipal do Porto como arma de arremesso contra os jornais que o visavam.

Mas agora, depois de um período inicial mais combativo, a conta no Twitter de Rui Rio tem moderado os ataques aos jornalistas e à comunicação social, e serve sobretudo para fazer combate político, expor as opiniões do líder do partido sobre assuntos que estejam no topo da agenda, ou transmitir em direto eventos que contem com um discurso de Rui Rio.

PCP institucional e deputados criativos

Apesar de, em Portugal, o fenómeno das redes sociais na política não ter chegado (ainda) com estrondo, a verdade é que, à escala portuguesa, já está massificado. Entre líderes partidários, deputados, primeiro-ministro, já não há quem não use pelo menos alguma destas plataformas (o fenómeno só ainda não chegou à Presidência da República, talvez porque Marcelo Rebelo de Sousa pareça, ele próprio, uma rede social). Todos os partidos, movimentos ou espaços de reflexão política têm páginas próprias nas redes sociais e é sobretudo através delas que ganham elã. A página do PAN (Pessoas, Animais, Natureza) no Facebook, por exemplo, tem mais de 153 mil “gostos”, ainda que a página pessoal do deputado único do PAN não tenha mais do que 12 mil.

O caso do PCP é ainda mais diferente: o partido tem presença nas redes, sim, mas o secretário-geral Jerónimo de Sousa não, e nenhum dos seus rostos é particularmente influente — o deputado António Filipe, com mais de 11 mil seguidores no Twitter, é o mais ativo, tendo o eurodeputado João Ferreira, rosto da nova geração comunista, menos de 500 seguidores.

“O PCP intervém na internet por via da sua página e das suas contas no Facebook e no Youtube, tendo retomado atividade em período pré-eleitoral nas páginas da CDU (com contas no Facebook, Twitter, Youtube e Instagram)”, explica o gabinete de imprensa do PCP numa nota enviada ao Observador, evidenciando o uso eleitoral que é dado às plataformas de rede social em detrimento do uso pessoal associado aos líderes ou aos principais rostos do partido. Ou seja, “a intervenção nas redes sociais destina-se primordialmente à divulgação das posições políticas, à valorização da atividade partidária e outros elementos de esclarecimento e informação que a cada momento se julgam necessários”.

De um modo geral, a maioria dos deputados tem os seus perfis de Instagram públicos e é lá que começa a ousar fazer um misto de publicações políticas e pessoais. Mariana Mortágua, por exemplo, com mais de 6 mil seguidores, publicou em outubro — em pleno período de debate do Orçamento do Estado — uma foto com o gato, acompanhada da legenda “Orça quê?”.

Pedro Mota Soares, por outro lado, também não resiste a partilhar algumas fotos de paisagens ou das corridas habituais que faz: a última foi uma fotografia tirada depois da meia maratona de Lisboa, onde acrescentou a hashtag da campanha eleitoral “#aEuropaéAqui”.

Ou Duarte Pacheco, deputado do PSD, que surpreendeu muita gente com as suas fotografias no ginásio, onde mostra estar em grande forma. É aí que tenta dar conselhos aos seguidores: “A prática de desporto é fundamental para a saúde física e mental, pois não só reforça o nosso sistema imunitário, protegendo o corpo de doenças, como nos liberta do stress do dia a dia. Logo a atividade física deve ser desenvolvida ao longo do ano e não só na véspera do verão”, escreveu em setembro.