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António Afonso

António Afonso

“Arranjámos uma espécie de buraco onde conseguíamos ficar mais quentinhos." Como quatro portugueses ficaram presos numa gruta em Espanha /premium

António Afonso foi um dos portugueses presos na gruta de Cueto-Ventosa. Conta que dormiam juntos para combater o frio, faziam turnos de 2 horas para ver o nível da água e sabiam que iam sair dali.

Vão jantar e “beber uns copos”. Depois, dormir em terras espanholas. As mesmas onde estiveram presos mais de 50 horas numa gruta — de Cueto-Ventosa — onde esperavam apenas passar trinta. Lá dentro, Carlos, Daniel, Luís e António até dormiram, “mas apesar de tudo não é mesma coisa do que uma cama”.

António Afonso, dos quatro, é o que mora mais a sul. As Caldas da Rainha ficam mesmo ao lado da “meca” portuguesa da espeleologia: Serra de Aire e Candeeiros. “Eles de Valongo é que se dirigem cá constantemente”, diz, em conversa com o Observador, poucas horas depois do resgate. É ali que, em Portugal, se concentra a maioria das atividades.

A equipa de amigos decidiu, desta vez, explorar uma gruta espanhola — a mais profunda da Europa, entre as visitáveis, considerada “o Monte Branco das grutas”: uma gruta com duas entradas, 6,7km de comprimento, um poço vertical de 300 metros, o ponto mais profundo a 780 metros e onde acontecem, em média, 87 acidentes por ano. Há três meses, no verão, três espeleólogas desapareceram na mesma gruta espanhola, localizada no vale do rio Asón, no município de Arredondo, Cantábria. No final, saíram da gruta sãs e salvas.

Os quatro espeleólogos portugueses sabiam que a tarefa não era fácil, mas, há dois anos, já lá tinham ido estudar o nível freático da cavidade inferior e estavam tranquilos porque não havia perigo. Nada fazia prever que no fim de semana chovesse tanto e foi isso que os apanhou de surpresa. Quando chegaram à zona freática, a água estava muito acima daquilo que estimavam. Sem recuo, procuraram uma zona seca e mais confortável, montaram acampamento e esperaram. Quando foram encontrados, ainda tinham comida para mais três dias.

A alternativa a esperar o resgate era uma escalada de 580 metros: “Voltar atrás não era uma atividade, era uma superatividade”.

Nenhum de vocês podia prever que ia cair esta quantidade de chuva?
Claro que não. Nós consultámos os boletins meteorológicos e nada fazia prever esta chuva. Caso contrário nunca teríamos entrado na gruta.

Qual foi o momento em que se perceberam de que não iam conseguir sair?
Só mesmo quando entrámos no nível freático, que é o nível que é suposto começarmos a ter água. Antes disso, na gruta, nunca nos cruzámos com água. A travessia consiste em descer um poço e recuperar a corda; descer outro e recuperar a corda. Primeiro temos os poços, depois uma rede intermédia e só depois se entra na zona freática, que é a parte que tem água.

Os quatro portugueses foram resgatados 50 horas depois de terem entrado na gruta

EPA

Portanto vocês já sabiam que iam encontrar água de qualquer das formas.
Sim, mas o nível freático estava muito mais elevado. Nós já tínhamos vindo reconhecer a parte do nível freático há dois anos e vimos que não havia problema nenhum.

Quando diz que o nível estava muito elevado, era o dobro do esperado?
[Risos] O dobro? Muito mais. Estava, pelo menos, dez metros acima do que deveria estar. Aquilo deveria dar para passar de um lado para o outro com a galeria destapada e a galeria estava completamente tapada. Para ter uma ideia, vamos imaginar que era um slide e tinha de se passar de um lado para o outro. O sítio onde se começa um slide é sempre muito mais alto do que o sítio onde se vai parar na parte de baixo, certo? Então imagine que o nível da água tapava a parte de cima desse slide.

Em que é que pensaram?
Sabíamos que não havia nada a fazer. Era lutar contra o tempo, só. Como sabíamos que a gruta esvaziava dentro de seis horas — pelo menos é o normal naquela gruta —, montámos um bivaque para podermos descansar, dormir umas horas.

"Voltámos para trás, para uma zona mais seca e cujo chão fosse confortável. Por acaso até arranjámos uma espécie de buraco onde nos conseguíamos juntar os quatro e ficar mais quentinhos. Fizemos uma porta com as mantas de sobrevivência e tapámo-nos com elas também."

O que é um bivaque?
É uma espécie de acampamento, para estarmos minimamente confortáveis, conseguirmos dormir e estarmos quentes.

Mas tiveram de voltar um pouco atrás no trajeto, certo? Ou montaram-no nas galerias?
Sim, voltámos para trás, para uma zona mais seca e cujo chão fosse confortável. Por acaso até arranjámos uma espécie de buraco onde nos conseguíamos juntar os quatro e ficar mais quentinhos. Fizemos uma porta com as mantas de sobrevivência e tapámo-nos com elas também. Não é só pela água, mas lá dentro transpiramos bastante. Num ambiente de 12 graus e humidade de 99%, rapidamente podemos entrar em hipotermia e isso não podia mesmo acontecer.

Faziam turnos para se manterem acordados?
Sim. A cada duas horas, cada um de nós ia ver o nível freático porque, segundo nos disseram do resgate, não é normal demorar tanto tempo a baixar o nível da água e nós estávamos convencidos que em seis horas o nível iria baixar.

Ansiedade não havia porque nós já estamos habituados a fazer atividades. Inclusive já passamos vários dias a dormir dentro de grutas. A maior ansiedade era para com os nossos familiares, por não terem notícias nossas, e para com os três colegas que cá estavam fora. Nós estávamos tranquilos.

Durante quantas horas fizeram esses turnos?
Nós devemos ter demorado entre 20 a 22 horas até chegarmos àquela sala e verificarmos que estava com aquele nível de água. Desde então até sairmos — nem quantifiquei as horas porque deixei de olhar para o relógio —, fizemos sempre esses turnos de duas em duas horas.

Dava para dormir?
Dava, claro. Se não descansássemos, depois de 50 e tal horas, não dizíamos coisa com coisa sequer.

Imagino que desse para passar pelas brasas, mas imagino também que houve alguma ansiedade.
Não, não. Ansiedade não havia porque nós já estamos habituados a fazer atividades. Inclusive já passamos vários dias a dormir dentro de grutas. A maior ansiedade era para com os nossos familiares, por não terem notícias nossas, e para com os três colegas que cá estavam fora. Nós estávamos tranquilos porque ainda tínhamos mantimentos para vários dias.

Quantos?
Pelo menos três dias. Depois, a partir daí, talvez começássemos a racionar os mantimentos.

António Afonso tem mais de 20 anos de experiência como espeleólogo

Enquanto especialista, qual era o pior cenário de desfecho?
Se agora continuasse a chover como nestes dias, da forma como nos surpreendeu, a equipa de resgate não chegaria ao pé de nós. A única coisa a fazer era montar a gruta toda para podermos sair, através de cordas. Mas a vertical era de 580 metros! Já nos estávamos a imaginar, cansados, a ter de fazer a gruta toda ao contrário, e subir estes 580 metros.

Não seria impossível, mas seria difícil?
Bastante difícil. Se calhar demoraríamos dias.

Nos momentos em que estavam todos acordamos, como se passava o tempo?
Pensávamos no que é que os nossos familiares poderiam estar a pensar. Não nos passou mais nada pela cabeça senão isso.

Se esta cavidade já era conhecida pelo esforço que exige, ter de voltar atrás não era uma atividade, era uma superatividade.

Em algum aspeto, este episódio pode comparar-se ao dos rapazes da Tailândia?
Não, porque a gruta não é igual. Eles ficaram presos com água a tapar as duas saídas. Nós não. Tínhamos sempre maneira de sair de lá porque só tínhamos água a tapar a saída de baixo.

Mas subir seria, a nível físico, um esforço muito grande, certo?
Claro. Se esta cavidade já era conhecida pelo esforço que exige, ter de voltar atrás não era uma atividade, era uma superatividade.

Como foi encontrarem-se com a equipa de resgate?
Ficámos contentes e já esperávamos. Nós estávamos a verificar o nível freático para entrarmos para dentro de água. A equipa chegou quando nós íamos sair.

Vocês são uma equipa de sete. Quem cá estava fora?
A Beatriz, a Carina e o Marco.

À esquerda, Vitor Gandra, o presidente do Alta Relevo Clube de Montanhismo, reunido com a equipa de sete espeleólogos

António Afonso

Pregaram-lhes um susto.
Apesar de terem acionado a equipa de resgate, eles estavam confiantes porque nos conhecem bem.

Qual é que foi a atividade mais dura que fez?
Fiz uma de vários dias aqui na Gandara, aqui na Cantábria, em que estive sem cá vir fora três ou quatro dias. Essa foi a mais dura e também acaba por ser treino para muitas situações que possam acontecer.

O António já faz isto há quantos anos?
Há mais de 20. Eu pertenço a várias associações de espeleologia e cada uma é, para mim, um grupo de amigos.

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