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Ao longo da sua vida, Miguel Torga, que morreu há 25 anos, recebeu cartas, muitas cartas. Tantas que, no volume XIV do seu Diário, desabafou: “Cartas e mais cartas. Vou deixando acumular o correio e, quando me resolvo a responder, é de enfiada e em duas penadas. Pareço um telegrafista. É que não sou epistológrafo”. As “coisas” que gatafunhou e sepultou “em envelopes subscritados” integram hoje o espólio de escritores e outras figuras públicas com quem se correspondeu. Entre aqueles que escreveram cartas a Torga contam-se alguns dos nomes mais importantes da cultura portuguesa do século XX, como Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário Soares, Sophia de Mello Breyner ou Cecília Meireles. São as missivas deles, e não as de o autor de A Criação do Mundo, que compõem o volume que será lançado este fim de semana pela Dom Quixote e cuja importância, garante o organizador, se prende com “as achegas que traz para o estudo da história literária, cultural e política do século XX português”.

Apresentadas sem as respostas de Torga, que talvez venham um dia a constituir um outro volume epistolográfico, as cartas selecionadas por Carlos Mendes de Sousa abarcam um longo período temporal e falam sobretudo de literatura, mas também de coisas banais do dia a dia. Numa missiva datada de setembro de 1944, por exemplo, Sophia de Mello Breyner lamenta que “o projeto de virem à Granja no princípio de agosto tivesse falhado”, mas não desiste de convencer Torga e a mulher, Andrée Crabeé, a visitá-la em breve: “Mas não desisto de os ter cá e venho-lhe perguntar se à volta do Douro quer vir estar uns dias aqui em nossa casa. Vou escrever à Andrée [Crabeé, mulher de Torga] a perguntar-lhe se ela quer vir. Pedi ao Fernando Vale para combinar e organizar tudo”.

São sobretudo nomes ligados à literatura que enchem as páginas das Cartas para Miguel Torga, até porque entre as missivas que o escritor recebeu “raros são os exemplos de correspondentes cujo nome não pertence ao meio intelectual ou político”, apontou Carlos Mendes de Sousa na introdução. Mas existem exceções: “É o caso de um leitor (Arnaldo Rodrigues) que escreve da cadeia de Elvas, onde se encontra detido ‘por acusação de tentativa de emigração clandestina’, pedindo alguns livros e dando testemunho do seu entusiasmo pela obra de Torga”. Essa é uma das cartas que o Observador reproduz nesta pré-publicação, juntamente com cartas de Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço e Vitorino Nemésio, amigo próximo do autor.

Agustina iniciou a correspondência com Miguel Torga após a publicação do seu livro de estreia, Mundo Fechado (1948), que enviou aos “maiores das letras”, “aos escritores mais famosos”. A escritora não ficou contente com a ”resposta convencional” que recebeu de Torga, e isso nota-se na carta que reproduzimos, sem data, mas que segundo Carlos Mendes de Sousa foi escrita em 1949, em Coimbra, onde Agustina vivia na altura. Eduardo Lourenço conheceu Torga em 1947, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se tornou nesse ano assistente. Durante o tempo que passou em Coimbra, Lourenço conviveu regularmente com Torga, iniciando um diálogo que se prolongou por via epistolar depois da sua partida para o estrangeiro. Em março de 1950, data da missiva para o escritor, encontrava-se em Bordéus, onde estagiou na universidade graças a uma bolsa do programa Fullbright.

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