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Miguel Torga nasceu Adolfo Correia da Rocha a 12 de agosto de 1907, morreu a 17 de janeiro de 1995 em Coimbra, aos 87 anos (Foto: António Cotrim/LUSA)

Miguel Torga nasceu Adolfo Correia da Rocha a 12 de agosto de 1907, morreu a 17 de janeiro de 1995 em Coimbra, aos 87 anos (Foto: António Cotrim/LUSA)

As críticas, os pedidos e os elogios: as histórias guardadas nas cartas para Miguel Torga /premium

Algumas das cartas enviadas para Miguel Torga foram reunidas num volume, editado a 28 de janeiro. O Observador pré-publica quatro — de Agustina, Eduardo Lourenço, Vitorino Nemésio e um preso de Elvas.

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Ao longo da sua vida, Miguel Torga, que morreu há 25 anos, recebeu cartas, muitas cartas. Tantas que, no volume XIV do seu Diário, desabafou: “Cartas e mais cartas. Vou deixando acumular o correio e, quando me resolvo a responder, é de enfiada e em duas penadas. Pareço um telegrafista. É que não sou epistológrafo”. As “coisas” que gatafunhou e sepultou “em envelopes subscritados” integram hoje o espólio de escritores e outras figuras públicas com quem se correspondeu. Entre aqueles que escreveram cartas a Torga contam-se alguns dos nomes mais importantes da cultura portuguesa do século XX, como Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário Soares, Sophia de Mello Breyner ou Cecília Meireles. São as missivas deles, e não as de o autor de A Criação do Mundo, que compõem o volume que será lançado este fim de semana pela Dom Quixote e cuja importância, garante o organizador, se prende com “as achegas que traz para o estudo da história literária, cultural e política do século XX português”.

Apresentadas sem as respostas de Torga, que talvez venham um dia a constituir um outro volume epistolográfico, as cartas selecionadas por Carlos Mendes de Sousa abarcam um longo período temporal e falam sobretudo de literatura, mas também de coisas banais do dia a dia. Numa missiva datada de setembro de 1944, por exemplo, Sophia de Mello Breyner lamenta que “o projeto de virem à Granja no princípio de agosto tivesse falhado”, mas não desiste de convencer Torga e a mulher, Andrée Crabeé, a visitá-la em breve: “Mas não desisto de os ter cá e venho-lhe perguntar se à volta do Douro quer vir estar uns dias aqui em nossa casa. Vou escrever à Andrée [Crabeé, mulher de Torga] a perguntar-lhe se ela quer vir. Pedi ao Fernando Vale para combinar e organizar tudo”.

São sobretudo nomes ligados à literatura que enchem as páginas das Cartas para Miguel Torga, até porque entre as missivas que o escritor recebeu “raros são os exemplos de correspondentes cujo nome não pertence ao meio intelectual ou político”, apontou Carlos Mendes de Sousa na introdução. Mas existem exceções: “É o caso de um leitor (Arnaldo Rodrigues) que escreve da cadeia de Elvas, onde se encontra detido ‘por acusação de tentativa de emigração clandestina’, pedindo alguns livros e dando testemunho do seu entusiasmo pela obra de Torga”. Essa é uma das cartas que o Observador reproduz nesta pré-publicação, juntamente com cartas de Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço e Vitorino Nemésio, amigo próximo do autor.

Agustina iniciou a correspondência com Miguel Torga após a publicação do seu livro de estreia, Mundo Fechado (1948), que enviou aos “maiores das letras”, “aos escritores mais famosos”. A escritora não ficou contente com a ”resposta convencional” que recebeu de Torga, e isso nota-se na carta que reproduzimos, sem data, mas que segundo Carlos Mendes de Sousa foi escrita em 1949, em Coimbra, onde Agustina vivia na altura. Eduardo Lourenço conheceu Torga em 1947, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se tornou nesse ano assistente. Durante o tempo que passou em Coimbra, Lourenço conviveu regularmente com Torga, iniciando um diálogo que se prolongou por via epistolar depois da sua partida para o estrangeiro. Em março de 1950, data da missiva para o escritor, encontrava-se em Bordéus, onde estagiou na universidade graças a uma bolsa do programa Fullbright.

O livro é publicado a 28 de janeiro, próxima terça-feira

O livro Cartas para Miguel Torga, com organização e prefácio de Carlos Mendes de Sousa, será apresentado a 28 de janeiro, próxima terça-feira, às 18h, no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, a localidade de onde o escritor era originário. A sessão contará com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

De Agustina Bessa-Luís

[sem data]

Na página 79 do seu diário, quarto volume, parei. Então a morte do pai do abade de Loureiro mereceu‐lhe uma página do seu diário. A morte, o enterro, a paisagem e um amigo caçador podem render meia dúzia de frases para a posteridade. Uma criaturinha que escreve qualquer coisa e lhe pede duas palavras de crítica não vale nada com certeza. Se não fosse condenável atitude social, já teria apedrejado as janelas da sua casa. Acredito bem que seja um homem atarefado, um médico, um escritor, um génio repleto de responsabilidades. Mas até um deus teria tempo para uma inutilidade mais. Neste momento digo‐lhe tudo isto porque, como o senhor, também sou uma personalidade independente – nem sequer doente de ouvidos e garganta. De qualquer modo não sei porque terei tanto empenho em que os intelectuais leiam o meu livro. Talvez por vaidade pessoal ou coisa assim. Esse meu livro, escrito em vinte horas, com o desleixo de quem conta uma história já fria e parada na recordação, parece‐me ridículo diante do que eu poderia escrever se tivesse tempo e tempo para tal. E a verdade é que, quando penso em escrever, toda a minha vida, todas as pessoas que participam dela, desejos, esperanças, realidades, me parecem simples pormenores. Por isso não compreendo que o senhor, consciente da sua arte e da sua vocação, se alastra em queixumes no seu diário público, ante a sua vida negativa de médico e a sua verdade de poeta e artista. Antes ser cabreiro e fazer belos versos que tolher a inspiração nessa necessidade de convívio, nas palavras citadinas que são obstáculo ao pensamento. Mas quem tem coragem para isso? Eu possivelmente com menos vinte anos que o senhor ainda sonharia essa coragem.

Vejo‐o na rua com a sua face trágica e esse seu santíssimo olhar que parece perdoar a vida de ser má e absurda só porque às vezes as criaturas parecem humanas e próximas de si. Mas ninguém está próximo de si, na verdade. Mentira, interesses particulares, inaptidão, burrice, tudo. Não realize a sua solidão através do mundo e das gentes, mas através de si mesmo. O humano nada tem consigo, mas o senhor é que tem algo com ele. Vulgar e irmão de seus irmãos como acha virtude ser, não escreverá uma boa obra; e escrever uma boa obra poderá ser o seu destino – não o desperdice nem disperse. Pudesse eu convictamente falar assim a mim mesma, mas é talvez cedo ainda.

"Dá a impressão que prefere o homem ao artista, o corpo em desfavor do espírito. Então, não faça versos – cante-os. Não escreva livros – leia os dos outros. O meu por exemplo. Há sempre tempo para uma inutilidade mais."
Agustina Bessa-Luís

Os seus livros não são bons, mas a sua capacidade de sentimento, o génio de perceção sentimental, a individualidade no pensamento fazem de si um grande escritor em potência. O homem de pensamento é em geral mau romancista, pobre ou irreal na efabulação. Mas o que estraga os seus livros, senhor, é o desejo de simplicidade, de naturalidade. Devoção pela natureza humana e botânica é para si a síntese da vida. Mas a arte não é só a natureza. Dá a impressão que prefere o homem ao artista, o corpo em desfavor do espírito. Então, não faça versos – cante-os. Não escreva livros – leia os dos outros. O meu por exemplo. Há sempre tempo para uma inutilidade mais.

Eu devia ter a humildade de lhe dizer que tudo o que deixo ir aqui escrito não é mais que a fanfarronice mistificadora dos tímidos.

M. A. Bessa Luís

De Arnaldo Rodrigues, preso da cadeia de Elvas

Elvas Julho 63

Exm.º Senhor

Talvez ninguém como eu tenha alguma vez lançado um apelo, que são sempre gritos caídos com eco, quando emitidos da frouxa claridade duma cela. A própria voz sai em tons cavos, rapidamente, porque só encontra a estreita resistência dos nossos curtos limites, comparados com os da nossa angústia. Além do estreito convívio naquilo a que chamam recreio, não tenho mais do que a literatura que colocam sobre a banca a que nos sentamos, e onde não encontro a satisfação da sede que tenho.

A leitura transporta-me, eleva-me fazendo-me esquecer mais, o mundo que lá fora me abre os braços e que eu só posso retribuir até que o peito toca as grades frias. Não peço mais do que um ou dois livros, que V. Ex.ª tenha criado.

De outra forma qualquer biblioteca mos emprestaria ou daria. Depois das Odes, Novos Contos da Montanha, Bichos e o 8.º volume do diário, fiquei ansioso por ler qualquer coisa mais do mesmo autor. É aqui que mais me lembro de tudo isso, e digo baixinho a “Ode à poesia” que decorei sem querer.

"A leitura transporta-me, eleva-me fazendo-me esquecer mais, o mundo que lá fora me abre os braços e que eu só posso retribuir até que o peito toca as grades frias. Não peço mais do que um ou dois livros, que V. Ex.ª tenha criado."
Arnaldo Rodrigues, preso da cadeia de Elvas

Preso por acusação de tentativa de emigração clandestina, aguardo julgamento. Não sei ainda quanto tempo estarei. Mas se acaso o meu apelo for atendido eu que moro perto de Leiria, um dia irei agradecer-lhe. Escrevo, imaginando o homem pelo escritor, e se tal for como penso, os livros, ou livro virão.

Grato por tudo subscrevo-me

Arnaldo Rodrigues

Cadeia Civil – Elvas

De Eduardo Lourenço

Bordéus, 7 de Março de 50

Senhor Doutor

Não estivera eu com o pé no estribo para descer a essa «nesga de terra debruada de mar», e a presença dela que o seu livro me trouxe seria quase uma traição à já pouco bem equilibrada calma que se goza em terra alheia. Acrescento todavia que seria uma punhalada de que se morreria com gosto e quase como em casa, pois cada página é terra nossa e conserva bem os passos seus, as suas esperanças e amarguras. Estas, muitos não lhas perdoarão, porque nada se detesta mais do que quem nos desperta, mas eu prezo-as particularmente e participo delas como posso. Cada uma das tiras da pequena manta de retalhos é evocada com tons que colam, ternos uns, ferozes outros, eu crio que justos na maioria. Os lisboetas vão queimá-lo em efígie ou então ignorá-lo «lisboetamente». Em todo o caso ninguém lhes tirará do lombo, a marca de rebanho, que depois de ter sido a terra de Álvaro Pais e Ferão Lopes, a liberal e romântica de Garrett, é hoje — a de agora. Este laconismo é um achado. Não sei se a polícia terá a mesma opinião, mas o mais certo é que não terá nenhuma porque não lerá e se ler não perceberá. Em compensação, tenho a impressão de que lhe vai ser difícil escapar à nomeação de «cidadão honorário» do resto das províncias e a uma consagração no Ribatejo que raras vezes recebeu tão bela homenagem em duas páginas. Espero conversar de tudo isso dentro de semanas, mas a minha impressão é que o livro será um autêntico êxito. Daqui lhe envio um abraço de agradecimento pela sua lembrança. Com o livro entre mãos é como quem está já a meio do caminho.

"Os lisboetas vão queimá-lo em efígie ou então ignorá-lo «lisboetamente». Em todo o caso ninguém lhes tirará do lombo, a marca de rebanho, que depois de ter sido a terra de Álvaro Pais e Ferão Lopes, a liberal e romântica de Garrett, é hoje — a de agora."
Eduardo Lourenço

Lembranças amigas para a Sra. D.ª Andrée e um abraço do

Eduardo Faria

P.S. Levarei os livros comigo.
E.

De Vitorino Nemésio

Lisboa, 4 de Julho 1940.
Av. Tenente Valadim, 357, 4.o Dt.

Meu caro Rocha,

Eu estou tão seco ou tão bruto que levei todo este tempo para lhe falar dos Bichos. Um livro é como um filho: V. teve o filho, lavou‑o, enxugou‑o e mostrou‑o à meia dúzia de seres para quem pensa que vale a pena gerar, e o resultado, quanto a mim, é isto que está vendo. Mas V. sabe o estado em que estou e perdoa. Desse estado só lhe digo, por hoje, que vai melhorando o mais que pode melhorar um estado torto. Os que contracenam comigo é que dão tudo para essas melhoras, como é da minha lei. E eu, que fui tantos anos um ser que se supunha ou era caiporamente desaparelhado, desentendido, reconheço agora que, pelo menos de há quinze anos para cá, nunca me faltou nada senão capacidade de dar um bocado que fosse do muito que os outros têm esbanjado comigo. Homem de sorte e bicho harmonioso, queimado por suas próprias mãos.

E, depois deste exórdio, que também lhe era devido, vamos aos Bichos. É um lindo livro que nasce cheio da terra das suas unhas. Um livro absolutamente seu, com todos os sinais desse instinto maravilhoso, dessa frescura de exprimir e talhar que V. tem. Os bichos, propriamente, nem lhes falta falarem. V. fez uma transposição do homem para o bicho; humanizou o bicho. Os psicólogos de laboratório poderão dizer que a sua psicologia não é rigorosamente animalista, à Fabre; V. manda‑nos bugiar com aquela ternura do sapo, com aquele galo Tenório que ainda é mais trasmontano do que V., com aquele gato mais português que o D. Afonso Henriques e tantas outras altas personalidades irracionais que o seu gadanho criou e que valem mais, como representantes cá do luso nateiro, do que todos os navegadores que têm corrido para aí retórica à barba longa desde as festas de Guimarães. Eu queria escrever‑lhe com assento sobre os Bichos, mas por ora não estou nas condições de o fazer. Fiquei‑me, em leitura atenta, pelos contos que não conhecia, e até uns sublinhados que fiz para documentar cá as minhas impressões me não servem para nada ao fazer desta, porque a Gabriela está ali com o seu livro na mão e não o larga por nada do seu gadanhinho afectivo, receptivo e tenaz. Fique‑se, pois, com esta, e espere que a gente jante.

Sábado, 6. Faltou‑me tinta e tive que jantar. Já tenho o livro livre. A Gabriela andou para aí empeçada com umas vírgulas, mas lá lhe escreveu uma carta do seu sangue. – Agora, nós. Quando o Mago «passava o pé de algodão pelo cachaço da velha» era um grande gato. Os ciúmes da Faísca, a dor da ninhada do Zimbro («isto de gado fêmea quer assistência»), os amores da Boneca e da Moira‑Negra, são coisas admiráveis. E que sabedoria das nações que V. tem!: «a pior condição do bicho: ter unhas e recolhê‑las na melhor altura». «O escolhido da Moira‑Negra», que «desde o prestígio ao luar tinha perdido tudo»; aquelas baforadas de frescura que lhe atravessavam as ventas; aquela «luz clara, fria», que «começava a tirar às coisas todo o sonho» – belas coisas. Eu estou a gostar dos seus Bichos com um critério de professor. Parece o Cruz Malpique a respigar passos de escritores porreiros na Seara Nova… A isto cheguei…

"Eu queria escrever‑lhe com assento sobre os Bichos, mas por ora não estou nas condições de o fazer. Fiquei‑me, em leitura atenta, pelos contos que não conhecia (...). Fique‑se, pois, com esta, e espere que a gente jante."
Vitorino Nemésio

Agrada‑me que V. estabeleça que «uma alma não se conhece assim sem mais nem menos». Mas para mim o melhor do seu entendimento animalista está n’«aquele finíssimo véu que ao mesmo tempo mantinha» o Bingo «em puro bicho e lhe deixava ver à distância de um passo o degrau da pessoa».

Volto ao Tenório, à «amostra de crista que trazia do ovo», depois «dobrada sobre o ouvido». «De madrugada cantava por grata fidelidade àquele amanhecer longínquo em que acordara com a vida dentro de si.» A Cega‑Rega é uma maravilha, a que eu contudo tirava umas coisas de «comunhão do húmus» e de «limbo purificador».

Amigo: Aqui vai um abraço do coração pelo livro e por tudo. Quando nos tornaremos a ver? Fico cá o mês de Agosto a cavar a vida. É o tempo da Figueira e da pescada; já não há pescada, nem camionette, nem coisa nenhuma. Vamos a ver o que é que a vida tem ainda no saco para nos dar.

Mais um abraço, e saudades à Andrée.

Seu Nemésio

Fotografia de capa: ANTONIO COTRIM/LUSA

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