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No Parlamento Europeu, em Estrasburgo

Estrearam-se quase todos na semana passada. A única exceção é o eurodeputado eleito pelo Bloco de Esquerda, José Gusmão, que conhece há anos os corredores da Europa, como assistente de Marisa Matias. Agora foi pela primeira vez eleito deputado, tal como Manuel Pizarro, do PS, Lídia Pereira, do PSD, e Francisco Guerreiro, do PAN. O Observador acompanhou-os nos primeiros passos pelos corredores de Estrasburgo, onde houve eleições importantes – incluindo o presidente e vice-presidentes do Parlamento Europeu – e onde em breve regressam, desta vez para votar o nome de Ursula von der Leyen para Presidente da Comissão Europeia.

A candidata alemã esteve, aliás, em Estrasburgo numa curta operação de charme onde se encontrou com os eurodeputados do PPE e onde a portuguesa Lídia Pereira conseguiu fazer-lhe uma pergunta “irrevente”. É isso que conta ao Observador, tal como Pizarro explica que ficou incomodado com o britânico Nigel Farage a virar costas ao hemiciclo quando tocou o Hino da Alegria e justifica a eleição de Silva Pereira como vice-presidente pelo seu “enorme talento político”.

Embora “dececionado”, José Gusmão não se mostrou vencido pelas negociações de última hora no Conselho Europeu da véspera que deixaram quase tudo nas mãos dos mesmos partidos e diz acreditar que ainda é possível exportar a “geringonça” para a Europa. E mesmo se, em Portugal, o PAN tem sido apoio regular das medidas decididas à esquerda, o eurodeputado eleito pelo partido diz que não escolhe nenhum dos lados entre a esquerda e a direita: “Há boas porpostas nos dois lados”, diz Francisco Guerreiro.

Manuel Pizarro: “Silva Pereira demonstrou enorme talento político” como ministro

Disseram que a Federação do PS no Porto tinha sido mal tratada pela nacional quando Manuel Pizarro seguiu em nono lugar. O médico disse que o lugar era bom e elegível, quando muitos socialistas no Porto o contestavam. Acabou por ter razão, foi eleito e estreou-se em Estrasburgo esta terça-feira. Ao Observador, no segundo dia em Estrasburgo, confessou que ficou chocado ao ver Farage a virar as costas à mesa no hemiciclo, disse que queria cumprir os cinco anos de mandato, embora não diga nunca a uma nova corrida à câmara do Porto. Admite, porém, que não vai virar as costas ao seu FC Porto e que vai manter o lugar cativo no estádio do Dragão para ver o seu clube quando for a casa aos fins-de-semana. Já a profissão de médico vai ficar em suspenso e terá de abandonar o S. João.

No Parlamento Europeu ficou como efetivo na Comissão de Emprego e Assuntos Sociais e viu o seu camarada de delegação Pedro Silva Pereira ser eleito vice-presidente do Parlamento. Deixou rasgados elogios ao antigo braço-direito de José Sócrates, que  define com alguém com “um enorme talento político”, que “demonstrou isso no exercício de funções públicas no país”. Sobre a Operação Teia, onde foi envolvido, disse que “quem não deve não teme”.

Como foi o primeiro dia em Estrasburgo?
Isto tem uma estrutura muito grande e precisa sempre de um período de adaptação. Por mais experiência de vida e política que alguém tenha quando aqui chega, é sempre um choque, uma realidade muito diferente. O que mais me impressionou foi ver como é mesmo real que uma parte dos membros do Parlamento Europeu são hostis ao Parlamento Europeu e à Europa e acho que se leva isso muito mais longe do que eu estava à espera de encontrar. Haver pessoas que não se levantam quando se canta o hino ou que viram costas quando se toca o hino é um pouco mais do que eu estava à espera de encontrar.

Foi o nono, mas sempre conseguiu ser eleito. Disse na altura que era um bom lugar, mas outros disseram que o Porto merecia melhor.
Como se vê, eu tinha razão em acreditar que foi a coesão da nossa lista, com pouca discussão de lugares e com muita discussão de programa político para Portugal e para a Europa que nos ajudou ao sucesso eleitoral que manifestamente tivemos.

Vai ficar os cinco anos ou vai haver ali um desvio para tentar substituir Rui Moreira na câmara do Porto?
Eu venho com a intenção de cumprir o meu mandato nestes cinco anos. É claro que na política quem afirma muitas vezes que as outras possibilidades não existem é porque está mesmo a pensar nelas. Eu estou concentrado, como fiz toda a minha vida, no trabalho que estou a fazer neste momento, que é ser deputado no Parlamento Europeu.

Vai deixar de exercer a profissão de médico?
Um médico nunca deixa de ser médico. Claro que as condições reais de exercício da minha profissão ficam muito limitadas, muito pouca disponibilidade, mas enfim: continuarei a ver alguns daqueles que são meus clientes há muitos anos e que não posso recusar esse auxílio e logo veremos como é que lido com isso. Naturalmente repito que o meu trabalho é ser deputado no Parlamento Europeu, as outras coisas na ocupação do meu tempo serão secundárias.

Que valor é que um médico pode trazer ao Parlamento Europeu?
Como se sabe, na área da saúde vigora o princípio da subsidiariedade.  Isto é, em geral as questões são tratadas ao nível dos Estados e não ao nível europeu. As grandes áreas da saúde pública, se nós olharmos para aquilo que traz mais riscos na saúde aos portugueses e ao conjunto dos europeus, tem muito haver com os comportamentos, com matérias que do meu ponto de vista beneficiavam muito de ser mais reguladas no plano europeu. O consumo do tabaco, o encorajamento de um consumo mais saudável e já agora limitação à alimentação menos saudável ou o encorajamento do exercício físico. Tudo isso pode merecer uma maior atenção da Europa no enfoque de saúde pública que não contraria o que está nos tratados.

Já que falamos nessa dimensão nacional da saúde, o SNS está hoje melhor do que estava em 2015?
Está melhor, mas está longe de estar bem. Temos mais cuidados, mais consultas, mais cirurgias, mais recursos humanos. Por outro lado, as necessidades em saúde da população também vão aumentando e o aumento da capacidade de resposta não compensou inteiramente o aumento das necessidades. Portanto, ainda há muito a fazer para que o SNS corresponda inteiramente às necessidades dos portugueses na segunda década do século XXI.

Teve na terça-feira a primeira reunião com os membros da bancada dos socialistas. O que acha da escolha do novo presidente do Parlamento?
A escolha de um socialista para o Parlamento Europeu não só por socialistas, mas pelo Parlamento é um belo resultado para a família socialista.

Votou nele na reunião?
Votei, votei, votei. E voltámos a liderar o Parlamento Europeu. Essa é uma boa notícia para a família socialista, mas sobretudo para a Europa. Porque, se há partido que sem quaisquer hesitações, defendeu sempre a Europa, os ideais europeus e a cooperação do PES e do Partido Socialista à escala europeia é o grande porta-bandeira dos ideais.

E como avalia o trabalho de Costa na negociação destes cargos de topo. Foi uma derrota?
Não faço parte do grupo dos que estão muito angustiados com a distribuição dos cargos. Em relação às expectativas que existiam há dois ou três meses veremos que o resultado conhecido é muito favorável. É verdade que durante os últimos dias se alimentou uma expectativa razoável de que era possível ter um socialista presidente da comissão europeia e, face a esse resultado, parece um insucesso. Mas, se avaliarmos no geral, os socialistas mantiveram o lugar de Alto Representante da Política Externa, mantiveram, com algum reforço de peso político, a primeira vice-presidência da comissão e, sobretudo, garantimos que a presidência do Banco Central Europeu não é entregue ao atual governador do Bundesbank e isso é que seria péssimo, péssimo para Portugal. E só o facto de ter sido possível que essa decisão tenha sido tomada e tenha sido tornada pública já, não era expectável e tem relevo político a decisão de indicar a senhora Lagarde. É verdade que tem tido uma percurso dúbio nesta matéria, mas não é menos verdade que as suas últimas declarações significam um arrependimento em relação à política austeritária. E, aliás, todos os jornais e comentadores o leram assim. Com a senhora Lagarde estará garantido o prosseguimento do BCE como um espaço de coesão europeia e proteção dos Estados. E não um BCE indiferente à sorte do conjunto dos povos da Europa.

Pedro Silva Pereira eleito vice-presidente é bom para o PS e para o país?
É sobretudo bom para Portugal. Pedro Silva Pereira é uma pessoa com um enorme talento político. Demonstrou isso no exercício de funções públicas no país. Tem demonstrado nos últimos anos aqui no Parlamento Europeu. E Portugal fica com alguém na hierarquia do Parlamento Europeu e isso é muito significativo para nós. O facto de ser da família socialista, para mim que sou socialista, tem um significado acrescido, mas acho sobretudo que é bom para o país.

A direita acusou o PS de esconder o Pedro Silva Pereira durante a campanha. Estava a guardar-se para este momento?
A campanha eleitoral acabou no dia 24 de maio, as eleições foram a 26. Mas eu tenho uma opinião sobre o que aconteceu nessa semana: a direita resolveu gastar toda a sua energia a atacar os socialistas, a atacar os candidatos, a atacar os dirigentes, a atacar o primeiro-ministro. O povo português respondeu-lhe nas urnas. Está dada a resposta.

Tivemos um deputado que era arguido num processo judicial. O seu nome foi recentemente envolvido na Operação Teia, em que há suspeitas de que terá influenciado o Governo para que reconduzisse o diretor do IPO do Porto. Teme que chegue aqui um pedido relativo à sua imunidade parlamentar?
Quem não deve não teme. Como já tive ocasião de dizer ao seu jornal, sobre o processo Teia tudo o que sei é o que li na comunicação social e o que posso garantir é que não tive nenhum envolvimento direto ou indireto nesse processo.

São então mentira os factos que foram saindo na imprensa?
Repito: tudo o que sei sobre o processo Teia li na comunicação social ou vi nas televisões. E não tenho nenhum envolvimento direto ou indireto nas incidências do processo Teia.

Vai continuar a conseguir ir ver o FC Porto ao Dragão estando em Bruxelas?
Há uma grande vantagem nos jogos do Porto, é que são quase sempre ao fim-de-semana. E ao fim-de-semana não há parlamento. Lá me verão, no estádio do Dragão a apoiar o meu clube.

A pergunta “irreverente” de Lídia a Úrsula

Lídia Pereira foi uma surpresa, pela sua juventude, quando foi escolhida por Rui Rio para número dois da lista do PSD a Bruxelas. É a mulher mais nova da bancada do Partido Popular Europeu e só não é a caçula do grupo parlamentar porque há um eurodeputado austríaco, Alexander Bernhuber com 27 anos. Logo no segundo dia de estreia no Parlamento Europeu fez parte do grupo restrito de eurodeputados que conseguiu fazer uma pergunta à escolhida pelo Conselho para ser a próxima presidente da Comissão Europeia, Úrsula Von der Leyen.

Numa entrevista ao Observador em Estrasburgo, na quarta-feira, minutos depois do encontro com Von der Leyen, Lídia Pereira relatava que a pergunta que fez foi considerada “irreverente” por outros colegas e contou como ocorreu esse momento. Confessa que chegou a perder-se no edifício do Parlamento Europeu, mas que agora já se orienta. Ficou como membro da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários e espera utilizar a sua condição de líder da juventude do PPE para influenciar o Parlamento Europeu a partilhar algumas das prioridades com os jovens. De Portugal, antecipa que o que vai ter mais saudades é do mar. E elogia o facto de Rio ter escolhido jovens para encabeçar as listas à Assembleia da República.

Foi escolhida como número dois, um lugar onde uma jovem nunca tinha ido. Agora o presidente do partido, para a AR, colocou jovens a encabeçara as listas. Como viu esta escolha?
Esta renovação deu um sinal muito positivo. Esta nova geração de políticos que se cria aqui no partido é a pensar no futuro. Portanto, quando se diz que os partidos não olham para os jovens, há aqui um sinal diferente que deve ser sublinhado. E penso que é a estratégia a seguir. Esta renovação acontece também aqui no Parlamento europeu com esta nova legislatura, não só com rostos de jovens, mas com outros menos jovens porque 60% dos eurodeputados são novos, nunca exerceram mandatos aqui. Por isso vê-se que há uma certa onda de mudança nas instituições talvez pelos alertas que se têm vindo a verificar nos últimos anos, com os populismos e alguma relutância ao establishment. Os partidos começam também no contexto europeu a dar o seu sinal de abertura. Foi uma excelente escolha do partido e do presidente Rui Rio.

Tem uma dupla condição: é deputada, mas também líder da maior estrutura de juventude do PPE. Isso é uma vantagem para o mandato?
O YEEP, a juventude do PPE, produz uma série de resoluções, são as nossas moções, de muita qualidade sobre várias temas que vão desde a saúde às empresas, da agricultura à ciência. E temos aqui uma possibilidade que nunca aconteceu no passado de fazermos valer a nossa influência no Parlamento, de lutarmos por aquilo que defendemos e por aquilo que às vezes nos poderá parecer inconsequente, que são os nossos policy papers. Temos agora possibilidade de os transformar em legislação europeia que depois tem um impacto na vida diária de cada um. Dos jovens e dos menos jovens.

Quantos eurodeputados tem o YEEP?
Neste momento somos dois: eu, que sou presidente, e o Karlo Ressler, da Croácia vice-presidente. E temos mais duas ex-vice-presidentes do YEPP nórdicas. Duas suecas. A Sara Skyttedal e a Arba Kokalari. Portanto temos aqui uma rede Alumni que é interessante e que nós vamos poder também utilizar em benefício de todos.

E há também vários a trabalhar nos gabinetes.
Há alguns. Não é assim uma grande maioria como nós podemos achar. É óbvio que há mais facilidade, uma vez que estão em Bruxelas podem dar esse contributo e também há a filiação partidária. Aliás, estamos a pensar que no quadro desta nova legislatura podemos reabrir ou reativar o YEPP Brussels Group, que era uma reunião informal, com organização de conferências, com políticos, empresários, professores em que nós possamos também discutir quais é que devem ser as prioridades — um tipo de Conselho Consultivo — para que possamos aproveitar para fazer política aqui dentro do Parlamento.

Tomou posse recentemente. O que mais a surpreendeu?
Achei muita graça na apresentação dos discursos ou até mesmo na cerimónia de abertura, achei esquisito uma certa falta de solenidade no momento em que nos apresentamos. De repente toca o hino da Alegria e já está. E nós voltamos a sair. Depois achei interessante as reações dos vários grupos políticos à apresentação das candidaturas pelos candidatos [a presidente do Parlamento Europeu, na quarta-feira]. A forma como se manifestaram contra ou a favor.

Quase como uma claque.
Como uma claque, sim. É diferente. É um parlamento muito maior. Vemos isso na Assembleia da República, em que também há sempre as reações e os apartes, mas aqui têm uma dimensão maior. Estes primeiros dias têm sido de adaptação, porque há muitas solicitações, muitos jornalistas, muitas pessoas até que trabalham no Parlamento a quererem conhecer, a quererem falar um bocadinho. E, portanto, tem sido bastante ocupado, com pouco tempo para responder a emails. Todo o próprio processo dos presidentes, dos vice-presidentes para se conseguir eleger cada um dos candidatos às posições, tem sido interessante de observar. A realidade nacional é mais simples.

Ainda se perde no edifício?
Agora já não perco, mas até ontem [terça-feira] acontecia. Não sabia onde é que era o gabinete e estava assim um bocado, como se diz, às aranhas. Portanto, hoje já vou conhecendo os cantos à casa.

Os jovens muitas vezes queixam-se de condescendência e as mulheres de algum paternalismo dos homens aqui no Parlamento. Tem sentido isso?
De todo. Já tivemos uma reunião, em que a candidata a presidente da comissão se dirigiu ao grupo e tive a oportunidade de fazer uma pergunta. E foi bastante bem acolhida. A reação de todos os meus pares à pergunta foi de dizerem: ‘Foi uma pergunta irreverente’, ‘Foi preciso coragem’. Enfim, mesmo na atribuição das pastas não acho que haja qualquer tipo de condescendência. Vou ficar responsável pela Economia, onde vou ser membro permanente e depois sou suplente em ambiente. Não vejo nenhuma condescendência. Ainda por cima numa comissão tão importante e com tanta responsabilidade e, portanto, as pessoas não associam diretamente à juventude. Até agora, tenho sido tratada como os outros colegas.

Como foi a pergunta de Úrsula?
Ela foi vaga e prometeu ser mais concreta no futuro. A pergunta foi relativamente ao tempo que se perdeu e ao tempo que foi gasto no último mês para as negociações para os cargos de topo da UE. Perguntei-lhe como é nós explicamos aos eleitores que perdemos hoje em dia tanto tempo com estas questões administrativas e depois não temos tempo para aquilo que é verdadeiramente necessário: o ambiente, a reforma da zona Euro. Como explicar isto aos nossos eleitores? E também o facto de como, na sequência disso, conseguimos transformar a Europa numa Europa eficaz, eficiente. Portanto, “a Europe thtat delivers’.

E a resposta?
Foi que temos de continuar a trabalhar em compromisso, mas que temos de perceber que hoje é cada vez mais difícil chegarmos a esse compromisso em tempo útil, uma vez que quando 28 estão sentados, é difícil chegar a um consenso, o que dificulta qualquer tipo de decisão. Mas que estará disponível para dar resposta a isto. Perguntei-lhe aliás, especificamente, no caso dos jovens, que somos sempre mais aguerridos e impacientes, numa altura em que sabemos que a nossa geração vai viver pior que a geração dos nossos pais, como nos permitimos perder tanto tempo com estas questões e não investimos na emergência daquilo que podia ser a agenda política.

Ela prometeu se era mais específica?
Sim. Ela virá brevemente, não sei se será na próxima semana ou daqui a 15 dias ela está disponível para ter uma conversa mais informal e para nos esclarecer.

Quais as prioridades para este mandato?
Uma das coisas prementes e que estava no nosso programa eleitoral, que é muito importante perante todos, não só os portugueses mas também os europeus, é a questão da reforma da zona euro. É uma das prioridades da agenda política, como também a questão das alterações climáticas, a questão do ambiente. É absolutamente necessário explicar a todos os membros do Parlamento, da esquerda à direita. Porque a esquerda normalmente transforma as emissões de CO2 e tudo o que as envolva com a ideologia, mas sem pragmatismo e sem uma abordagem realista. E, portanto, temos aqui uma oportunidade de provar aos nossos colegas e de definir uma agenda para o ambiente que envolva também as empresas e todos os stakeholders da sociedade para que percebam que há aqui uma prioridade de transformar aquilo que nós atualmente verificamos em termos de indústria e de adaptação do modelo económico a esta nova emergência porque em causa está sobretudo sustentabilidade. E quando eu digo sustentabilidade não é só sustentabilidade climática, é a sustentabilidade das novas gerações e aqui temos uma oportunidade de fazer diferente. E o terceiro objetivo, que fiz referência durante a campanha, é a questão do Erasmus. Alargar a base social de Erasmus é uma prioridade. Os orçamentos do Erasmus foram crescendo ao longo dos anos, ao longo dos vários quadros financeiros, mas é preciso garantir que todos têm acesso ao Erasmus e às vezes à coisas que não têm a ver com as bolsas: as vagas, os acordos entre as universidades. E, portanto, esse também vai ser um objetivo: garantir que todos os jovens europeus que queiram fazer Erasmus o vão poder fazer num futuro próximo.

O que irá sentir mais falta de Portugal?
Vim na semana passada, por isso não sinto falta de nada ainda. Mas, de Portugal, o que sinto sempre mesmo falta é do mar.  Estar na praia e dar uma caminhada na praia.

José Gusmão: “Não vamos desistir de formar geringonça no Parlamento Europeu”

José Gusmão já está há vários anos em Bruxelas como assistente de Marisa Matias, mas agora subiu um nível: foi eleito eurodeputado. No passado, chegou a ser investigado pela OLAF — organismo anti-fraude europeu — por ser assistente no Parlamento e participar nas negociações da geringonça, mas garante que foi “tudo arquivado”.

Apesar da grande “deceção” que considera ter sido a grande coligação entre PPE, socialistas e liberais para a escolha de altos cargos europeus, José Gusmão diz que não vai “desistir” de tentar replicar a solução da “geringonça” no Parlamento Europeu. Em Portugal, também gostava que continuasse para lá de outubro.

Não quis falar sobre o veto de PCP à ideia de ser a Marisa a liderar a bancada da esquerda europeia, diz que nunca lhe apontaram o dedo por ser irmão de Daniel Oliveira e confessa que na próxima época irá partilhar a gamebox (bilhete de época em Alvalade) com um amigo, até porque conta andar muito por Portugal — o que considera uma obrigação.

O Bloco já tem um companhia no hemiciclo. Para dançar o tango são precisos dois. E para cantar a internacional também? O que ganha o BE em ter aqui duas pessoas?
Em primeiro lugar, ganhamos uma capacidade de cobrir mais áreas temáticas. Isso já se vai manifestar com a distribuição das comissões. Nós colocámos na nossa campanha um ênfase muito forte nas questões do Estado social, do trabalho e da resposta às alterações climáticas. E a distribuição de comissões que já se está a desenhar no nosso grupo permitir-nos-á estar em muitas das comissões que vão ser determinantes para esse tipo de trabalho, nomeadamente na comissão que trata das questões de indústria e energia, em que estará a Marisa. Na comissão de Economia e na comissão de Emprego e Direitos Sociais em que estarei eu e também na Comissão de Direitos Humanos em que estará a Marisa. E, portanto, teremos um quadro de responsabilidades mais alargado que nos permite, de alguma forma, dar corpo à concretização do nosso programa, obviamente no quadro dos dossiers que vierem a colocar-se no caminho do Parlamento.

É o Bloco a recuperar algum peso, que até já teve três eurodeputados durante algum tempo com o Rui Tavares. Essa nova força nota-se na bancada do GUE/NGL (esquerda europeia)?
O GUE teve dinâmicas contraditórias e ainda estamos a ver também uma coisa importante de como o GUE se pode relacionar com outras bancadas na busca de pontes e de trabalho conjunto. Um dos aspetos mais significativos do trabalho da Marisa ao longo destes últimos 10 anos é a capacidade que a Marisa teve de ter pontes com outras famílias políticas dentro do Parlamento Europeu, o que aliás é imprescindível para aprovar algumas das coisas que ela conseguiu fazer aprovar nas mais variadas áreas. Desde o tempo em que era deputada na área da saúde até ao tempo em que passou para a economia e aprovou o primeiro e único relatório crítico do BCE que alguma vez foi aprovado nesta casa. E obviamente implica compromissos consideráveis e a capacidade de diálogo que nós achamos que é importante manter. Ou seja: uma das nossas preocupações vai ser a de procurar furar esta lógica de um grande Bloco Central que abafe todo o debate democrático dentro do Parlamento Europeu e que, enfim, a confirmarem-se as escolhas de que se está a falar, significaria um realinhamento das principais instituições europeias à direita em relação ao último ciclo político. Aliás, pouco suportado naquilo que foram os resultados eleitorais.

É uma desilusão os S&D juntarem-se aos liberais. Ao PPE sempre se juntaram, mas não é uma inversão de ciclo, por exemplo, tendo em conta o exemplo português e espanhol? Isto não destrói a ideia de que é possível uma geringonça europeia?
É verdade que o alinhamento dos socialistas aqui no Parlamento Europeu com a direita é histórico, mas é evidente que no rescaldo da experiência portuguesa, que ainda por cima é seguida com muita atenção pelas famílias das outras forças políticas que estão envolvidas nessa solução política, nós gostávamos que tivesse sido um exemplo catalisador para novos entendimentos no Parlamento Europeu. E devo-lhe dizer que não vamos desistir [de formar uma solução como a geringonça no Parlamento Europeu] porque até agora os resultados que se avizinham com essa manobra de reaproximação e de refundação de um Bloco Central europeu são dececionantes. A dois níveis: em primeiro lugar porque a principal coisa que se está a discutir são cadeiras, são lugares. Não existe, não temos visto qualquer espécie de debate de nenhuma destas grandes famílias políticas sobre os problemas que a UE enfrenta e sobre as soluções que são necessárias para a crise ambiental, para a crise migratória, para a crise social. Muitas das questões que têm alimentado a extrema-direita europeia, nada disto está a ser discutido. Todas estas reuniões à porta fechada têm como único objetivo distribuir lugares. A primeira farsa que cai é a escolha dos candidatos à presidência da comissão europeia, que já estão todos afastados. O processo do Spitzenkandidat é uma farsa. E sobretudo cai o debate democrático que mais interessa às pessoas, que é: quais são as respostas que a União Europeia tem para dar para os seus problemas concretas. E o nosso empenho será em construir com as famílias, com todos os deputados que não estejam disponíveis para fazer parte deste negócio para apresentar alternativas e apresentar propostas que quebrem este Bloco Central, que é constituído para que tudo fique na mesma.

Há esperança com esta composição parlamentar conseguir essa maioria mais à esquerda?
Não há uma maioria no Parlamento Europeu. As maiorias e as minorias formam-se um pouco de acordo com os temas que nós vamos discutindo. Se estamos a falar de política económica, a fronteira é uma; se estamos a falar de crise migratória a fronteira é outra. Agora, o que nós pensamos que é importante é que há um número crescente de deputados de várias famílias políticas que compreendem de forma cada vez mais clara que este cozinhado não vai resolver o problema nenhum da União Europeia. E que portanto é preciso começar a criar outros espaços de debate que no fundo tratem desse assunto. Que à margem deste debate de cadeiras discutam e apresentem propostas para os reais problemas.

Uma deputada jovem do PPE com consciência ambiental podia-se juntar ao GUE numa proposta sobre o ambiente?
Sim. Nós já tivemos propostas aqui no Parlamento Europeu que recolheram apoios de praticamente todas as bancadas. Vá, excetuando a extrema-direita. Por exemplo, o relatório do BCE que eu já referi, ou as propostas que a Marisa fez de embargo da venda de armas a territórios ocupados pelas organizações terroristas. Ou de embargo à compra de combustíveis desses mesmos territórios. Essas foram propostas com uma abrangência política enorme porque mesmo dentro das famílias políticas existe uma grande diversidade política das organizações. E depois existem deputados com preocupações próprias. Portanto, nós encaramos esta grande deceção inicial com a dança das cadeiras, como uma oportunidade de ganhar uma boa parte do Parlamento para iniciar debates a sério, que é o que as pessoas esperam de nós. Não é isto. Não é este espetáculo.

Sempre disse que queria ficar com uma pasta ambiental. O Bloco é o grande partido do ativismo ambiental em Portugal ou o PAN está a ocupar esse espaço?
Nós queremos partilhar a preocupação com a emergência climática com o máximo de forças políticas. Obviamente, temos a nossas perspetiva particular sobre o assunto. Nós tivemos, por exemplo, um debate com o PAN sobre a questão dos vistos gold porque o PAN achou que os vistos gold podiam ser um instrumento de política ambiental. E nós achamos que com o que se sabe hoje dos vistos gold, do ponto de vista da promoção da lavagem de dinheiro, da corrupção, de toda a espécie de criminalidade financeira, achamos que é um instrumento inaceitável para a política ambiental, mas também temos tido pontos de convergência assinaláveis com o PAN em questões ambientais — pontos de convergência esses que continuaremos a trabalhar. Nós não achamos que haja partidos de mais preocupados com a agenda climática, achamos que há partidos a menos.

O José Gusmão não é propriamente novo nestas andanças de Bruxelas e já foi assistente de Marisa Matias vários anos. Foi até investigado pela OLAF (organismo anti-fraude do Parlamento Europeu), por estar num grupo de trabalho da geringonça ou, pelo menos, em reuniões do Bloco de Esquerda e trabalhar para o Bloco no Parlamento Europeu. Está tudo resolvido a sobre esse assunto?
Sim. Basicamente, nós explicamos as situações todas em causa e, pronto, o processo foi arquivado e é uma questão resolvida. Não deixa nenhuma memória agridoce. Aliás, uma das questões que estava em causa foi o facto de ter participado nas negociações da geringonça. E, como depois tivemos oportunidade de chamar a atenção dos serviços, fi-lo durante dias em que meti dias precisamente para esse efeito. Não víamos e continuamos a não ver qualquer incompatibilidade entre uma coisa e a outra e foi um trabalho que eu tenho muito orgulho de ter feito.

E essa constituição da geringonça é para continuar no próximo mandato? Isto agora falando do ponto de vista nacional.
Eu penso que esta solução política permitiu resolver, enfim, combater o cenário de catástrofe social em que a direita tinha deixado o país. Agora é importante para o novo ciclo político procurar encontrar novos entendimentos que respondam a questões de fundo. Por exemplo, a nossa capacidade para refundar e modernizar os serviços públicos numa ótica de gestão pública e de cuidados de saúde, de escola pública, de vocação universal e gratuita. E achamos que esta questão da emergência climática também passa muito por políticas nacionais, por investimento público — que foi um dos parentes pobres da solução política dos últimos anos, muito pobre, mesmo. E nós achamos que o debate sobre a continuação desta solução política deve ser esse debate: deve ser o debate sobre quais as grandes prioridades, as grandes escolhas, em torno das quais se pode construir uma nova solução política como aquela que tivemos durante os últimos quatro anos.

O Bloco está então disponível para continuar?

A disponibilidade do Bloco para esse debate é total. Achamos é que ele precisa de partir daquilo que foram as principais limitações da governação dos últimos anos: conseguir levantar o Serviço Nacional de Saúde da destruição da direita e da falta de investimento do atual governo; conseguir refundar também os direitos do trabalho — avançou-se muito pouco no combate à precariedade e na promoção da contratação coletiva durante estes anos, inclusive agora mesmo aprovaram-se, com o apoio da direita, propostas muito nocivas. E é óbvio que todos estes debates convocam o Partido Socialista para uma definição que nós estamos a ter alguma dificuldade em perceber qual é.

Ainda nesse aspeto, Mário Centeno foi além daquilo que eram as metas orçamentais exigidas por Bruxelas. Isso podia ter sido, de alguma maneira, transformado em investimento público?
Claro. Enfim, que ele foi além das metas é a realidade dos números. E o que nós achamos é que a economia portuguesa teria muito a ganhar se esse excesso de zelo — se as centenas de milhões de euros que serviram para dar uma boa impressão junto do Eurogrupo — tivessem sido investidas em algumas das áreas estruturais da economia portuguesa, que irão determinar a nossa evolução económica e, portanto, a sustentabilidade das nossas contas públicas. Eu penso que nós não tivemos uma política de austeridade durante estes anos, mas não tivemos uma política de crescimento tão intenso quanto poderíamos ter tido se de facto tivéssemos feito essa aposta, enfim, até ao limite das nossas capacidades. E isso significava exigência do Partido Socialista, que nós aceitámos cumprir, como as metas orçamentais com Bruxelas e ir além e muitas vezes muito além era perfeitamente dispensável e não serviu os interesses da economia do país.

Houve mesmo um bloqueio ou pelo menos o PCP foi um dos partidos que votou contra, na reunião da bancada do GUE, que Marisa Matias liderasse?
Espero que compreenda que eu não irei abordar essa questão. Aliás, a Marisa já teve oportunidade de esclarecer que foi encontrada uma solução provisória. Portanto, o processo não está encerrado.

Há, portanto, a possibilidade de Marisa ser líder da bancada?
Todas as possibilidades estão em cima da mesa.

É economista e há pouco estava a criticar o facto de a economia portuguesa não ter continuado a crescer muito, de uma forma mínima. A culpa é do euro? O euro é descartável ou necessário noutros moldes?
Durante muito tempo a esquerda andou a dizer isso praticamente sozinha e hoje eu que é praticamente consensual que o euro está mal construído, que a união monetária engendrou desequilíbrios entre as economias que compõe o euro que são, a prazo, insustentáveis. Uma união económica e monetária não pode ter economia que têm excedentes sistemáticos e economias que têm défices sistemáticos. Para que a união económica e monetária possa funcionar, nós temos que ter mecanismos na união de compensação destes desequilíbrios porque se não a consequência é a desagregação económica e política a prazo.

Lagarde no BCE não será o caminho que mais agradará ao Bloco de Esquerda.
A Christine Lagarde é uma pessoa que, para além de representar uma viragem para pior na política monetária da União Europeia, põe em causa a própria credibilidade da instituição. Portanto, é uma péssima solução. E tudo isso será ainda mais grave se de alguma forma for disto que falamos quando falamos de uma nova maioria que foi aquilo que a determinada altura foi prometido através deste acordo entre os socialistas, os liberais, a direita, os verdes e por aí fora. Parece que esse acordo é bastante menos abrangente e é bastante menos inovador. Estas são soluções extraordinariamente dececionantes e que indiciam prioridades muitos preocupantes para a União Europeia. Ou seja, uma total incapacidade de responder às questões que, neste momento, estão a preocupar as pessoas.

O familygate desdobra-se e conhece várias formas. Ultimamente, foi a filha da Helena Roseta, Filipa Roseta por ser candidata por um partido embora a mãe seja deputada de outro. Agora nsa Europeias nunca levantaram problemas pelo facto do número dois do BE ser irmão Daniel Oliveira?
Não. O nosso parentesco é razoavelmente conhecido e nunca ninguém me disse. Mas, convenhamos, também era uma tese um bocado abstrusa. Seria preciso aceitar das duas umas: ou que o Bloco escolhia comentadores da SIC ou que a SIC tinha influência nas listas do Bloco para as europeias. Nenhuma das teses parece particularmente credível.

Julgo que tem gamebox [lugar de época no estádio de Alvalade].
Tenho, sim.

Vai conseguir renovar? Ser eurodeputado é um bocadinho diferente…
Pois. Eu tinha gamebox. Vou passar a ter gamebox a meias porque precisamente, por definição, vai haver uma série de jogos que eu não vou poder ir ver. Ainda não sei muito bem. Como já disse noutras circunstâncias, eu tenciono ter uma presença permanente em Portugal. Ou seja, acho que os eurodeputados têm, aliás como acontece com os deputados nacionais, responsabilidades de contacto com o país em que foram eleitos. De alguma foram, é o seu círculo eleitoral. E que isso obviamente exige uma presença física constante. Portanto, eu irei fazer vaivém. Ou seja, estarei em Bruxelas e em Estrasburgo para os trabalhos das comissões, para as sessões plenárias, paras as reuniões paralelas, para as reuniões de grupo. Estarei todos os fins-de-semana em Portugal, a não ser por iniciativas internacionais excecionais, mas tenciono ter um trabalho de contacto com associações, com movimentos, com sindicatos que do nosso ponto de vista é parte integrante do trabalho dos eurodeputados. Ir a jogos do Sporting não é, mas, enfim, continuarei a ter presença regular em Portugal.

Francisco Guerreiro: “Não sou de nenhum. Há boas propostas da esquerda e da direita”

Francisco Guerreiro é primeiro eurodeputado na história do PAN e o único representante português na bancada dos Verdes no Parlamento Europeu. Nos primeiros dias em Estrasburgo teve uma agenda sempre preenchida com várias solicitações de jornalistas. Por culpa desses pedidos, reuniões de bancada e tráfego intenso nos elevadores do Parlamento terminou a entrevista com o Observador — que durou menos cinco minutos, na última quarta-feira — a correr para o plenário. A campainha já tocava a chamar para mais uma votação.

O eurodeputado do PAN — que ficou nas comissões de Orçamento, Agricultura e Pescas — diz que o edifício do Parlamento Europeu em Estrasburgo não é amigo do ambiente, mas admite ser incapaz de o mudar sozinho. Francisco Guerreiro tinha prometido que ia viajar sempre em companhias aéreas em que pagasse um extra para compensar a pegada ambiental. Agora, admite que não consegue fazê-lo em todas as agências, mas vai mudar a empresa de eletricidade em Bruxelas para uma que só utiliza energias renováveis.

Na sequência da polémica da Moita e questionado sobre se o PAN se importa mais com o burro ou o cigano, Francisco Guerreiro afirma: “Somos a favor dos direitos humanos e dos direitos da cidadania. E não priorizamos uns em relação aos outros“.

Como foi o primeiro dia aqui em Estrasburgo?
Foi bastante produtivo e não tive grandes dificuldades porque já temos uma equipa pré-formada. Os nossos assessores conseguiram fazer com que o meu processo fosse muito rápido e fosse muito célere a integração. Eles conhecem os cantos à casa e ainda bem. Portanto, isso facilita bastante. A nível dos Verdes europeus também temos tido essa facilidade. Portanto, têm-nos acolhido de um modo muito profícuo. E, portanto, tem sido feito um trabalho de acompanhamento bastante bom. Portanto, não tenho tido dificuldades de maior, portanto é tudo muito novo e à medida que vamos conhecendo melhor as infra-estruturas e as ordens de trabalho e as dinâmicas de trabalho também vamos melhorando, mas é uma questão de tempo.

Viu alguma coisa aqui no edifício que achasse um atentado contra o ambiente?
O edifício não foi propriamente construído tendo em consideração o ambiente. Isso é claro. Não só pela dinâmica de as escadas não serem muito acessíveis, de não terem tanta acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, termos um grande dispêndio energético, possivelmente por causa do ar condicionado. São áreas muito grandes, difíceis de climatizar. Também não tem propriamente painéis solares, painéis eólicos que possa gerar a sua própria energia e diminuir assim também a dependência energética da rede e podermos ter aqui uma componente mais auto-produtiva de energia verde. Portanto, não me parece que isso haja, mas pode ser desconhecimento meu. Pode ser que haja esse investimento.

Alteraria isso se pudesse?
Não sei se é possível o deputado do PAN só conseguir fazer essa alteração, mas se virmos mecanismos para sugerir, certamente. Tem de ser pensado numa escala macro, quanto é que custa, o tempo de adaptação, a necessidade. São questões que não se resumem a um desejo. Têm de ser estudadas para se apresentar.

Disse ao Observador que ia pagar a taxa da pegada ecológica por andar de avião. Conseguiu fazer isso nesta primeira viagem para Estrasburgo?
Há agências que não consigo fazer. O que eu vou fazer é: vou alterar na minha casa o contrato de energia para uma empresa que produz 100% de energias renováveis, que é a Coopérnico. Não fico ligado a uma empresa que tem mix energético ou que produz energia com combustíveis fósseis. Infelizmente é a única, mas é uma companhia energética que fomenta esta descentralização de energia 100% limpa. Portanto, é mais um modo de eu conseguir fazer a compensação desta pegada.

É de esquerda ou de direita?
Eu não sou de nenhum. Não sou de nenhum.

Não consegue identificar-se no campo ideológico? Tal como o partido.
Não é não nos conseguirmos identificar, é: não nos queremos identificar porque não há identificação possível. Portanto, nós promovemos um paradigma diferente desta dicotomia de esquerda e de direita, que não se restringe ao estatismo e ao produtivismo, de apoiar propostas pelas propostas. E há boas propostas da esquerda e da direita e há propostas que só nós é que apresentamos. Portanto, no fundo é ter uma visão não tão antropocêntrica da nossa sociedade e a nossa responsabilidade para com os seres humanos, para com o ambiente e para com as restantes espécies tem que ser, obviamente, reforçado. E se há algo que nós não vemos nestes paradigmas, que nós respeitamos pela sua componente histórica e pelos partidos que estão assim cimentados, mas não representam a nossa visão.

Qual será o papel do PAN no grupo dos Verdes, tendo apenas um deputado?
Vai ser um trabalho de tentativa de influência positiva. Estamos na comissão de agricultura, de pescas e do orçamento. Portanto, queremos fazer esse trabalho dentro das comissões para mudar positivamente a Europa.

Houve aqui uma polémica recentemente que envolveu o PAN sobre a comunidade cigana, na Moita. O assunto já foi relativamente esclarecido. Mas eu perguntava-lhe se o PAN se importa mais com o burro do que com o cigano?
Essa pergunta não tem qualquer cabimento porque obviamente isso já foi explicado. Somos a favor dos direitos humanos e dos direitos da cidadania. E não priorizamos uns em relação aos outros. Agora, como é óbvio incidente foi esclarecido, portanto a nossa nota foi pública. Não há nada mais a dizer.

Já alguma vez assistiu a uma tourada ou largada de toiros?
Não.

O Observador fez pequenas entrevistas a um estreante de cada um dos partidos políticos nacionais com representação no Parlamento Europeu. O PCP recusou dar a entrevista e o CDS não tem qualquer novo representante no hemiciclo, não tendo por isso sido incluídos nesta série de pequenas entrevistas. Nesta visita ao Parlamento Europeu, o Observador viajou a Estrasburgo a convite do Parlamento Europeu.