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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As imagens do património cristão que o Estado Islâmico destruiu no Iraque /premium

Durante 3 anos, a região do Iraque onde se concentra a minoria cristã viveu subjugada ao Daesh. Os jihadistas foram derrotados, mas deixaram um rasto de destruição. Reportagem fotográfica em Ninawa.

Reportagem na província de Ninawa, Iraque

Zaid Alniser abre um pequeno portão com dificuldade, devido ao acumular de ervas daninhas. Depois, conduz-nos por um estreito passeio de cimento coberto de vegetação e pede cautela. As silvas chegam à altura dos ombros e as pedras do caminho estão soltas. Avançamos de olhos no chão e com os braços a cortar o mato como catanas. Só quando paramos é que nos apercebemos do edifício que se ergue à nossa frente, no centro daquele terreno abandonado: a igreja de Mar Sakis e Bakhos (nome em aramaico dos santos Sérgio e Baco), um dos principais templos cristãos ortodoxos de Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque, a 15 quilómetros de Mossul.

Aos 34 anos, Zaid Alniser é o arquiteto oficial da Igreja Ortodoxa Síria, uma das três principais denominações cristãs do Iraque (a par da Igreja Católica Caldeia e da Igreja Católica Síria). Trouxe-nos na sua pick-up branca, pelo meio da cidade em ruínas, para nos mostrar a crueldade do Estado Islâmico, que, entre 2014 e 2017, ocupou Mossul e as povoações cristãs da planície de Nínive, obrigando cerca de 150 mil cristãos a procurar refúgio no norte do país. Além das centenas de milhares de casas arrasadas, quer pelo grupo terrorista, quer durante os bombardeamentos da coligação internacional liderada pelos EUA durante a batalha pelo controlo da região, foram também destruídas centenas de igrejas, templos religiosos e propriedades cristãs.

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Para Zaid e para os cristãos iraquianos, não há dúvida de que o Estado Islâmico tinha um objetivo muito claro: acabar com os cristãos no país. É a única explicação que muitos encontram para o facto de os terroristas não se terem limitado a ocupar e a utilizar as infraestruturas das cidades que conquistaram para o seu território. As casas dos cristãos — que foram marcadas com o ﻥ (inicial da palavra árabe para ‘nazareno’, usada para identificar os cristãos) — foram destruídas. As igrejas foram atacadas com fúria. Não se tratou apenas de destruir o edifício. Houve crucifixos partidos, estátuas de santos decapitadas e fogueiras nos altares.

É o caso da igreja de Mar Sarkis e Bakhos. Profanada e usada pelo Estado Islâmico para fins ainda incertos, durante três anos, foi queimada pelos terroristas quando tiveram de sair de Qaraqosh, pressionados pelo exército iraquiano e pelas forças internacionais. “O Estado Islâmico queimou a igreja antes de sair da cidade e ninguém sabe bem o que aconteceu aqui durante o tempo que cá estiveram”, diz Zaid, no interior da igreja totalmente enegrecida pelo fumo das chamas que ali arderam até tudo ser consumido. O incêndio fragilizou toda a estrutura do edifício, que espera um restauro completo. “Como está queimada, precisa de muito dinheiro para ser reconstruida. À volta de 150 mil dólares”, explica o arquiteto, que já tem os planos para a reconstrução da maioria dos templos ortodoxos da região.

Bíblia que sobreviveu ao incêndio na igreja de Mar Sarkis e Bakhos encontrada no chão da igreja (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O chão é um monte de pedras onde, por vezes, é possível encontrar uma ou outra folha de papel chamuscada que não ficou reduzida a cinzas. São páginas da Bíblia em aramaico, esclarece Zaid, sem esconder a ironia face aos ciclos da história. “Os santos Sarkis e Bakhos foram mortos no século IV. Eram dois soldados romanos que eram cristãos em segredo. Um dia, recusaram prestar homenagem a Júpiter e aos deuses pagãos e foram torturados até à morte”, conta o arquiteto. Agora, os cristãos foram novamente perseguidos por recusarem aderir a outra religião — desta vez, à interpretação radical do Islão promovida pelo Estado Islâmico.

O interior amplo da igreja de Mar Sarkis e Bakhos, em Qaraqosh (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O interior da igreja ficou tão irreconhecível que se demora algum tempo a perceber para que lado ficava o altar. Nem uma pequena biblioteca infantil, na lateral do templo, resistiu. Com cuidado, ainda é possível subir ao coro, embora a estrutura de madeira ameace desmoronar-se a todo o momento. A vista é ainda mais desoladora: do cimo, percebe-se a grandeza daquele templo, construído segundo todas as normas ortodoxas, e imagina-se os ritos ali celebrados antes da ocupação. Sobra apenas escuridão, carvão e pedras. Saímos novamente, pelo mesmo caminho coberto de vegetação. Zaid quer levar-nos ao mais impressionante templo ortodoxo da cidade, a igreja de Santa Shmooni, que foi igualmente tomado de assalto e destruído por dentro pelo Estado Islâmico.

Da primeira vez que nos encontrámos, em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, o arquiteto já nos tinha contado a história de Santa Shmooni e de como aquela igreja era especial para a comunidade ortodoxa no Iraque. Zaid queria agora mostrar o local exato onde o “milagre” acontece. Shmooni é o nome que a tradição ortodoxa atribuiu à mulher dos sete filhos descrita num episódio bíblico, no segundo livro de Macabeus. Segundo o relato, os oito foram feitos reféns pelo rei do império Selêucida (império que ocupava todo o Médio Oriente por volta do ano 300 a. C.) e forçados a comer porco, algo que a lei judaica proibia. Tendo recusado, foram torturados e mortos um por um.

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O episódio do martírio dos oito é recordado num grande painel de pedra à entrada da igreja. Mas o mais importante, garante Zaid, é o “milagre” que acontece todos os anos naquela igreja, no dia 15 de outubro, dia da comemoração litúrgica de Santa Shmooni e dos seus Sete Filhos. Segundo a tradição, todos os anos nesse dia as figuras da mulher e dos sete filhos aparecem numa parede do interior daquela igreja. Ou apareciam. Há quatro anos que o templo está abandonado. Situado numa elevação no centro da cidade, a igreja parece intacta por fora. Mas, no interior, repete-se o cenário que vimos na igreja anterior. Aquela também foi saqueada e incendiada pelos terroristas e, agora, permanece fechada à chave.

O interior da igreja de Santa Shmooni ficou totalmente destruído, mas os fiéis já lá colocaram, novamente, alguns sinais, como esta Bíblia (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Lá dentro, além de uma bíblia aberta, encontramos um pequeno livro de visitas. Entre as mensagens em árabe, encontram-se também escritos em inglês e em francês. Procuramos a última entrada do livro antes da invasão do Estado Islâmico, em agosto de 2014. É de 21 de junho daquele ano, “a pedir coisas boas para o país”, traduz Zaid. “Muitos pedem para conseguirem sair do país, para Deus salvar o Iraque e os crentes”, explica o arquiteto, que folheia aquele livro pela primeira vez. O arquiteto não sabe quando vai ser possível restaurar a igreja nem quanto dinheiro vai custar, mas não esconde um desejo: gostava de, no próximo 15 de outubro, ter a igreja totalmente restaurada. Isso permitiria que peregrinação habitual para ver o “milagre” se repetisse, pela primeira vez em quatro anos.

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Com cerca de 25 mil habitantes (muitos deles já regressados a casa depois dos três anos em fuga), Qaraqosh é a maior cidade cristã do país. Por isso, é uma exceção: o número de igrejas supera em larga escala o número de mesquitas. Além dos dois templos ortodoxos, há ainda um grande número de igrejas católicas ali, como a igreja da Imaculada, pertencente à Igreja Católica Síria. Construída a partir de 1932 e inaugurada em 1944, aquela igreja foi construída por voluntários e com donativos dos cristãos católicos de Qaraqosh, esclarece o padre Georges Jahola, responsável pela paróquia.

A igreja da Imaculada, em Qaraqosh, está fechada. A estrutura do edifício precisa de ser estabilizada antes das obras de restauro (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Porém, em 2014, quando Qaraqosh foi tomada pelo Estado Islâmico, a igreja tornou-se num edifício de serviço para os terroristas. “Durante a ocupação, usaram-na como enfermaria para os soldados deles e como armazém de medicamentos”, conta o sacerdote. Num pilar ainda é visível o símbolo do Estado Islâmico pintado com tinta preta. “Não há deus além de Alá e Muhammad é o seu profeta”, lê-se na mensagem, assinada: “O Estado Islâmico”. Em frente ao altar está a marca da grande fogueira que foi ateada pelos terroristas duas semanas antes de fugirem da cidade. “Após a libertação, as pessoas pediram ao bispo para limpar a igreja. Ainda sem casa, queriam que houvesse missa aqui”, recorda o sacerdote.

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Perto dali, a igreja católica dedicada aos santos mártires Behnam e Sarah sofreu danos consideráveis por dentro e por fora. Um morteiro atingiu a torre sineira durante a violenta batalha entre os combatentes do Estado Islâmico e as forças internacionais e deitou-a abaixo. Agora, está à espera de ser reerguida. Por dentro, o cenário repete-se: só se vê negro. Não houve igreja na planície de Nínive que não tivesse sido incendiada, o que significa que a maioria do património e da arte sacra ficaram reduzidos a cinzas. Esta é a que está num estado mais avançado de restauro e é aqui que se fazem as missas regulares para a comunidade católica.

À volta de Qaraqosh, dezenas de pequenas aldeias e vilas sofreram a mesma ocupação por parte do Estado Islâmico. Karemles, “uma vila com uma grande história, de oito mil anos”, nas palavras do padre local, Tahbet Yousef, não escapou a um destino semelhante. Os terroristas pegaram fogo à igreja e à sacristia, destruindo permanentemente tesouros antigos e pedras tumulares de grandes figuras do Cristianismo iraquiano. Salvaram-se os manuscritos e os documentos antigos, que o sacerdote conseguiu resgatar da igreja na noite em que fugiu do Estado Islâmico, duas horas antes da invasão: um livro dos Evangelhos do século XIII e dezenas de textos antigos.

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À entrada da vila situa-se o templo de Santa Bárbara, um dos mais antigos do país. Lá, o Estado Islâmico decidiu abrir túneis para os seus snipers se movimentarem livremente. “Foi o primeiro edifício deles”, explica o padre. Na mesma vila, duas das quatro escolas já não existem. “Uma foi queimada e a outra ficou tão estragada que teve de ser demolida. As outras duas ficaram parcialmente danificadas, já as reconstruímos.”

Também em Teleskuf, uma outra vila nos arredores de Mossul, “um míssil destruiu parcialmente a igreja”, conta o padre Salar Boudagh. Entretanto, graças ao financiamento de organizações católicas, a igreja já foi reconstruída e hoje já há celebrações regulares com a comunidade que já conseguiu regressar a casa depois do final dos confrontos, no ano passado. Tal como em Qaraqosh, também aqui “a primeira coisa que pediram foi para reconstruir a igreja”, revela o sacerdote.

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Um jardim de infância gerido por freiras dominicanas e um orfanato de freiras caldeias foram também destruídos à bomba. As crianças órfãs vivem agora em Alqosh, uma vila na zona do Curdistão, com as freiras, mas quase sem condições. Quando viu o que os terroristas tinham feito à igreja — nomeadamente às estátuas, crucifixos e ao altar — o padre Salar Boudagh não teve dúvidas: “O objetivo era destruir a religião, não o edifício”.

O Observador viajou para o Iraque juntamente com outros meios de comunicação europeus a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS/ACN)

Texto de João Francisco Gomes; fotografia de João Porfírio

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