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As memórias e as lutas de Angela Davis: "Somos realmente livres?" /premium

O Observador faz a pré-publicação de "A Liberdade é uma Luta Constante", o primeiro livro da ativista e académica americana publicado em Portugal.

Foi uma das vozes que mais alto falou contra a guerra do Vietname; fez partido do partido Black Panther; inscreveu-se no Partido Comunista Americano nos final dos anos 60; figura de protagonismo nas ações feministas iniciadas nessa mesma década; e um dos nomes principais na luta pelos direitos civis. Angela Davis faz parte da história americana da segunda metade do século XX, enquanto ativista, mas também como filósofa, académica e autora.

Nasceu em Birmingham, no estado do Alabama, em 1944. Dividiu estudos entre Frankfurt, Berlim e a Califórnia, onde haveria de ser professora. No início da década de 7o foi acusada — e esteve mesmo presa durante um ano — de um ataque terrorista que motivou a morte de quatro pessoas, acabando por ser absolvida. Ao longo das décadas seguintes foi feroz crítica do sistema prisional e fez parte de movimentos como o Occupy. Já este ano integrou a lista de “100 mulheres do ano” elaborada pela revista Time (que lhe deu o título de “Woman of the Year” em 1971).

Publicou o primeiro livro, “If They Come in the Morning: Voices of Resistance”, em 1971. Este que agora é lançado em Portugal — o primeiro — é um original de 1975. Em “A Liberdade é uma Luta Constante” (Antígona, chega às livrarias esta semana), Angela Davis revela memórias dos primeiros tempos de ativismo, reflete sobre as raízes de movimentos como o dos Direitos Civis ou de atividades de grupos como os Black Panthers; reúne entrevistas várias; e aborda temas como a instabilidade na Palestina ou os motins em Ferguson, depois da morte de Michael Brown, em 1914. O Observador faz a publicação de um excerto, com um discurso de Angela Davis, de outubro de 2013.

A capa de "A Liberdade é uma Luta Constante", de Angela Davis (Antígona)

Discurso proferido na Universidade de Birkbeck (25 de Outubro de 2013)

Dizem que a liberdade é uma luta constante.
Dizem que a liberdade é uma luta constante.
Dizem que a liberdade é uma luta constante.
Oh, Deus, lutamos há tanto tempo.
Temos de ser livres, temos de ser livres. 

O título do meu discurso foi tirado de uma canção pela liberdade que era constantemente cantada no Sul dos Estados Unidos, na época do movimento pela liberdade, no século xx. Os restantes versos evocam o choro, a mágoa, o luto e a morte: “Dizem que a liberdade é uma morte constante / Morremos há tanto tempo que temos de ser livres.”

E gosto da ironia do último verso de cada estrofe:

Lutamos há tanto tempo
Choramos há tanto tempo
Sofremos há tanto tempo
Gememos há tanto tempo
Morremos há tanto tempo
Temos de ser livres, temos de ser livres. 

Claro que há simultaneamente resignação e promessa nesse verso, há crítica e inspiração: “Temos de ser livres, temos de ser livres.” Mas somos realmente livres?

Em 2007, recebi um convite da baronesa Lola Young para dar uma palestra, aqui em Londres, no bicentenário da abolição da escravatura no Reino Unido. Mas, à última hora, não pude viajar, porque a minha mãe faleceu no dia em que eu devia partir para Londres. Por coincidência, este também é um ano de grandes aniversários, aniversários nos Estados Unidos que evidenciam a história da luta pela liberdade negra. Pediram­‑me, por isso, para falar sobre o significado da liberdade nos 150 anos da Proclamação da Emancipação1 nos Estados Unidos e no 50.º aniversário dos acontecimentos cruciais na luta pela liberdade negra no século xx, nos Estados Unidos.

Deixem­‑me começar por evocar alguns desses acontecimentos. Este é 50.º aniversário da “Carta de uma prisão em Birmingham”, escrita por Martin Luther King, na qual ele defendia da seguinte maneira a sua decisão de organizar protestos em Birmingham, onde o acusaram de ser um agitador externo: “Tenho consciência”, escreveu, “da inter­ ­relação entre todas as comunidades e Estados. Não posso sentar­‑me de braços cruzados em Atlanta e não me preocupar com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer parte do mundo é uma ameaça para a justiça em todo o mundo.”

E provavelmente conhecem esta citação: “Estamos presos numa inexorável rede de mutualismo, entrelaçados numa só trama do destino. O que quer que afecte uma pessoa directamente, afecta todas indirectamente.”

"Atrevo­‑me a dizer que a maior parte dos que conhecem a figura de Martin Luther King – e a grande maioria das pessoas no mundo conhecem­‑no – pouco sabem além de que ele teve um sonho. E, claro está, todos nós temos sonhos. A propósito, "Eu tenho um sonho" é o mais divulgado dos seus discursos."

E, então, evoca a História: “Durante mais de dois séculos”, prossegue, “os nossos antepassados trabalharam neste país sem receberem salário; fizeram do algodão, rei; construíram as casas dos seus senhores, ao mesmo tempo que sofriam uma enorme injustiça e uma vergonhosa humilhação, e, não obstante, com uma energia sem fim, continuaram a prosperar e a desenvolver­‑se. Se as crueldades inexprimíveis da escravatura não nos detiveram, a oposição que hoje enfrentamos fracassará seguramente.”

Estamos também a comemorar o 50.º aniversário da Manifestação Infantil de Birmingham. Pode não ser do conhecimento geral que o sucesso da campanha de Birmingham foi possível graças às inúmeras crianças – meninas e meninos – que, no início de Maio de 1963, enfrentaram cães da polícia e canhões de água. Estas manifestações foram transmitidas pela televisão – recorde­‑se que a televisão era muito recente e que foi a primeira vez que as pessoas que não viviam no Sul tiveram oportunidade de assistir aos protestos – e revelaram ao mundo a determinação com que os negros continuavam a lutar pela liberdade.

O ano de 1963 foi também o ano da Marcha pelo Trabalho e pela Liberdade, em Washington, na qual participaram cerca de 250 mil pessoas. Foi o maior ajuntamento de sempre naquela cidade registado até então.

No passado mês de Agosto, houve duas marchas em Washington, uma das quais encabeçada pelos presidentes Obama e Clinton, e a outra por figuras que se apresentam como actuais líderes do movimento pelos direitos civis. Não citarei aqui os seus nomes.

Houve vários eventos que marcaram o 50.º aniversário. Muitas pessoas não sabiam em qual das marchas participar (creio que uma era no dia 24 e a outra no dia 28). Mas no mês passado, em Setembro, realizou­‑se uma série de eventos em Birmingham, no Alabama, que, como sabem, foi onde nasci e cresci.

Esses eventos assinalam o 50.º aniversário do ataque à bomba na igreja baptista da Sixteenth Street e o assassínio de quatro meninas negras. O ponto áureo das comemorações foi a entrega da maior condecoração civil, a Medalha de Ouro do Congresso, às famílias das quatro meninas mortas na explosão; embora a irmã de uma das vítimas, Sarah Collins (irmã de Addie Mae Collins), não tenha morrido, ficou sem um olho e gravemente ferida; até hoje, não recebeu qualquer ajuda oficial para pagar as suas despesas médicas.

O que receio em muitas destas comemorações é que tendem a representar desfechos históricos. São encenadas como pontos altos da História no caminho para uma democracia que acaba por triunfar; uma democracia que pode ser apresentada como modelo a seguir; uma democracia que poderá servir como justificação para incursões militares, incluindo o uso crescente de drones na chamada guerra contra o terrorismo, que resultou no assassínio de um número elevado de pessoas, em especial no Paquistão.

Embora eu seja crítica da administração Obama pelo uso crescente de drones, tenho, ao mesmo tempo, de reconhecer que o seu discurso no 50.º aniversário da Marcha sobre Washington foi uma tentativa de apresentar as lutas pela liberdade como inacabadas e de se centrar numa continuidade ao invés de num desfecho. No entanto, invocando o velho ditado, tenho de dizer que os actos falam realmente mais alto do que as palavras.

Ninguém pode negar que a cultura popular global está saturada de referências ao movimento pela liberdade negra do século xx. Sabemos que Martin Luther King é uma das figuras históricas mais conhecidas do mundo. Nos Estados Unidos, existem mais de novecentas ruas com o seu nome em quarenta estados, na capital, Washington, e em Porto Rico. Mas alguns geógrafos que estudaram essas práticas de atribuição de nomes sugeriram que têm servido para desviar a atenção dos problemas sociais persistentes: a precariedade na educação, na habitação, no emprego e o uso de estratégias carcerárias para ocultar a presença continuada destes problemas.

Martin Luther King

Getty Images

Se nos Estados Unidos há mais de novecentas ruas chamadas Martin Luther King, também existem mais de dois milhões e meio de pessoas nas prisões, reformatórios juvenis, prisões militares e cadeias em território indígena. A população desses estabelecimentos constitui vinte e cinco por cento da população mundial encarcerada, contraposta a cinco por cento da população do planeta em geral. Vinte e cinco por cento da população mundial encarcerada serve de alimento ao vasto complexo prisional­‑industrial de dimensões globais, que lucra com estratégias concebidas para ocultar problemas sociais que continuam por resolver desde a época da escravatura.

Além disso, a violência policial e a violência racista de vigilantes de bairro estão no seu auge. O caso Trayvon Martin, nos Estados Unidos, faz lembrar o caso Stephen Lawrence, aqui. Mas também a violência islamofóbica é alimentada por historiais de violência racista contra os negros. Existe simultaneamente uma presença geográfica saturada da cultura do movimento pela liberdade negra e uma ausência de algo que vá além de um conhecimento abstracto acerca desse movimento.

Atrevo­‑me a dizer que a maior parte dos que conhecem a figura de Martin Luther King – e a grande maioria das pessoas no mundo conhecem­‑no – pouco sabem além de que ele teve um sonho. E, claro está, todos nós temos sonhos. A propósito, “Eu tenho um sonho” é o mais divulgado dos seus discursos.

Relativamente poucas pessoas têm conhecimento do discurso sobre o Vietname proferido na igreja Riverside e da maneira como King reconheceu as intersecções e interligações do movimento de libertação negra e da campanha para acabar com a guerra no Vietname. Assim sendo, as noções do movimento pela liberdade no século xx que nos ajudam a cultivar ideias mais complexas sobre geografias e eixos temporais da liberdade são eliminadas.

As representações dominantes do movimento pela liberdade negra são uma série discreta de momentos históricos gerados, em grande parte, pelo boicote aos autocarros em Montgomery, em 1955. E, embora o próprio Martin Luther King tenha começado a ganhar destaque na sequência desse boicote, ele é visto como o orador e o líder do movimento pelos direitos civis.

Ainda que se tenham escrito vários livros, quer académicos, quer de circulação comercial, sobre o papel das mulheres no boicote de 1955, King, que foi convidado para porta­‑voz do movimento quando era uma figura completamente desconhecida – o movimento já tinha sido criado –, continua a ser a figura dominante.

E eu pergunto­‑me: será que algum dia vamos reconhecer verdadeiramente o sujeito colectivo da História que foi, ele próprio, gerado pela mobilização radical? Isso aconteceu desde o início, durante os anos 1930 e 1940, e refiro­‑me, por exemplo, a uma organização que ficou conhecida como Southern Negro Youth Congress, que foi em grande parte extirpada dos registos históricos oficiais porque alguns dos seus líderes eram comunistas.

Como Carole Boyce Davies salientou no seu livro maravilhoso Left of Karl Marx, um dos líderes do Negro Youth Congress (o American Negro Youth Congress e o Southern Youth Congress) foi Claudia Jones. E menciono Jones quer devido ao seu importante trabalho nos Estados Unidos, quer por se ter tornado uma figura­‑chave na organização das comunidades caribenhas aqui na Grã­‑Bretanha, depois de ter sido presa pelo trabalho que fez nos Estados Unidos e, por fim, deportada.

Como podemos contrabalançar a representação de agentes históricos enquanto indivíduos poderosos, indivíduos poderosos do sexo masculino, de modo a revelarmos o papel desempenhado no movimento pela liberdade negra, por exemplo, por mulheres negras que eram empregadas domésticas?

"Durante a década de 1950, cerca de noventa por cento das mulheres negras eram empregadas domésticas. Tendo em conta que a maioria das pessoas que andavam de autocarro em Montgomery, no Alabama, em 1955, eram empregadas domésticas negras, porque será tão difícil imaginar e reconhecer aquilo que deve ter sido, entre essas empregadas domésticas negras, a espantosa fantasia colectiva de um mundo futuro sem opressão racial, sexual e económica?"

Os regimes de segregação racial não foram desmontados devido ao trabalho de líderes, presidentes e legisladores, mas antes porque pessoas comuns adoptaram uma postura crítica na maneira como apreendiam a sua relação com a realidade. Realidades sociais que possivelmente pareciam inalteráveis, impenetráveis, passaram a ser vistas como maleáveis e transformáveis; e as pessoas aprenderam a imaginar como seria viver num mundo que não fosse governado tão exclusivamente pelo princípio da supremacia branca. Essa consciência colectiva surgiu no contexto das lutas sociais.

Orlando Patterson argumentou que o próprio conceito de liberdade – tão acarinhado no Ocidente e que inspirou tantas revoluções mundiais históricas –, esse mesmo conceito de liberdade deve ter sido imaginado pela primeira vez por escravos. Na época do movimento pela liberdade negra do século xx, os seres humanos cuja situação mais se assemelhava à dos escravos, à dos escravos dos quais descendiam, eram as empregadas domésticas negras. Referimo­ ­nos a mulheres que limpavam casas, que cozinhavam, que eram lavadeiras.

Aliás, durante a década de 1950, cerca de noventa por cento das mulheres negras eram empregadas domésticas. Tendo em conta que a maioria das pessoas que andavam de autocarro em Montgomery, no Alabama, em 1955, eram empregadas domésticas negras, porque será tão difícil imaginar e reconhecer aquilo que deve ter sido, entre essas empregadas domésticas negras, a espantosa fantasia colectiva de um mundo futuro sem opressão racial, sexual e económica?

Embora não saibamos os nomes de todas essas mulheres que se recusaram a ir de autocarro das comunidades negras pobres até às comunidades brancas abastadas de Montgomery, Alabama, parece­‑me que devíamos, pelo menos, reconhecer a sua conquista colectiva. Esse boicote não teria tido êxito sem a sua recusa, sem a sua recusa crítica. E, portanto, uma figura como Martin Luther King poderia nunca ter ganhado fama.

Fannie Lou Hamer – se alguns de vocês estudaram a história do movimento pelos direitos civis, do movimento pela liberdade nos Estados Unidos, devem ter deparado com o nome Fannie Lou Hamer – foi meeira e empregada doméstica. Controlava os horários dos trabalhadores numa plantação de algodão, nos anos 1960. E tornou-se líder do Student Nonviolent Coordinating Committee (SNCC) e do Mississippi Freedom Democratic Party. Afirmou: “A minha vida inteira, tenho­‑me sentido farta e cansada. Agora, estou farta e cansada de estar farta e cansada.”

Em 1964, alcançou destaque nacional quando reivindicou que membros do seu Partido Democrata da Liberdade no Mississípi, um partido racialmente integrado, tivessem assento no congresso nacional do Partido Democrata à custa de lugares que tinham sido destinados à delegação cem por cento branca do Partido. Em muitos sentidos, ela abriu caminho para Barack Obama. Mas essa é outra história.

Este ano não é só marcado pelas festividades de um 50.º aniversário, mas também pelas comemorações dos 150 anos da Proclamação da Emancipação. É curioso, mas, infelizmente, não fomos chamados para participar em nenhum evento nacional de celebração. Lembrei­‑me de como cá, pelo menos, vocês tiveram oportunidade de festejar o bicentenário da abolição da escravatura, e, claro, creio que a vossa figura marcante é Wilberforce, por isso tiveram também de questionar o facto de uma figura como Wilberforce ser simbólica da abolição da escravatura neste país.

Contudo, não fomos convidados sequer para participar em nenhuma grande celebração. Talvez o mais próximo que tenhamos chegado disso tenha sido o conhecido filme Lincoln, que se centra no esforço para aprovar a 13.ª Emenda. O 150.º aniversário dessa aprovação é daqui a dois anos.

O significado histórico da Proclamação da Emancipação não é tanto o de ter promulgado a emancipação das pessoas de origem africana; pelo contrário, tratou­‑se de uma estratégia militar. Mas, se examinarmos o significado desse momento histórico, talvez consigamos compreender melhor os fracassos e os êxitos da emancipação.

A assinatura da Proclamação da Emancipação, com Abraham Lincoln ao centro

Getty Images

Pensei que talvez não nos tenham convidado para reflectir sobre a Proclamação da Emancipação porque poderíamos aperceber­‑nos de que, na realidade, nunca nos emancipámos verdadeiramente. Mas, seja como for, pelo menos poderíamos tentar compreender a dialéctica da emancipação, porque ainda vivemos com o famoso mito de que Lincoln libertou os escravos e isso continua a ser perpetuado na cultura popular, até mesmo pelo filme Lincoln. Lincoln não libertou os escravos.

Também vivemos com o mito de que o movimento pelos direitos civis de meados do século xx libertou cidadãos de segunda categoria. Os direitos civis constituem, como é óbvio, um elemento essencial da liberdade que foi reivindicada na época, mas não foi só isso e talvez possamos voltar a este ponto mais tarde. Eric Foner, num livro intitulado The Fiery Trial: Abraham Lincoln and American Slavery, escreveu, e passo a citar:

De todos os documentos que moldaram a História dos Estados Unidos, o da Proclamação da Emancipação talvez seja o mais incompreendido de sempre. Ao contrário do que reza a lenda, Lincoln não libertou os quase quatro milhões de escravos com um golpe de pena. A Proclamação não se repercutiu nos escravos nos quatro estados fronteiriços, porque eles não se tinham rebelado. E também isentou determinadas partes da Confederação ocupadas pela União. Feitas as contas, deixou cerca de 750 mil escravos em cativeiro.

É evidente que as narrativas populares sobre o fim da escravatura geradas pela proclamação desse documento de emancipação por Abraham Lincoln apagam a intervenção dos próprios negros. Mas eu diria que há uma coisa pela qual Lincoln deve ser aplaudido: foi suficientemente arguto para perceber que a única esperança de ganhar a Guerra Civil era criando a oportunidade de os negros lutarem pela própria liberdade. Foi essa a importância da Proclamação da Emancipação.

O filme passou nos cinemas aqui? Lembram­‑se de uma das primeiras cenas, que consiste numa conversa entre dois soldados negros? Penso que talvez seja a cena mais importante do filme, portanto, quem chegou atrasado perdeu o momento mais importante.

E, a propósito, gostaria de evocar W.E.B. Du Bois e o quarto capítulo de Black Reconstruction, que definia a consequência da Proclamação da Emancipação como uma greve geral. Du Bois usa o vocabulário do movimento operário. E, na verdade, o quarto capítulo, “A Greve Geral”, é descrito da seguinte maneira: “Como a Guerra Civil se traduziu em emancipação e como o trabalhador negro ganhou a guerra com uma greve geral que transferiu o seu trabalho de um proprietário de terras confederado para o invasor do Norte, em cujas fileiras do exército os trabalhadores começaram a organizar­‑se como nova força de trabalho.”

Du Bois argumenta que a retirada e a concessão de mão­ ­de­‑obra pelos escravos foi o factor decisivo para ganhar a guerra. E aquilo a que ele chama “um exército de mão­‑de­ ­obra em greve” acabou por fornecer os duzentos mil soldados “cuja evidente capacidade de combater foi decisiva para o desfecho da guerra”. Entre esses soldados estavam mulheres como Harriet Tubman, que foi combatente e espia e teve de lutar durante muitos anos para lhe concederem, mais tarde, uma pensão de soldado.

No rescaldo da guerra, encontramos uma das épocas mais encobertas da História do país: o período da Reconstrução Radical. Continua a ser, indubitavelmente, a época mais radical de toda a História dos Estados Unidos da América. Uma época que raramente é abordada nos textos históricos. Assistimos à eleição de negros para cargos públicos, ao desenvolvimento do ensino público. Aliás, os antigos escravos lutaram pelo direito ao ensino público; isto é, a educação sem custos, ao contrário do que acontece aqui. Entre parêntesis, deixem­‑me acrescentar que a luta foi pelo ensino não mercantilizado. E diga­‑se que as crianças do Sul, as crianças brancas pobres que não tinham acesso à escolarização, conquistaram esse direito como consequência directa das lutas dos antigos escravos. Foram aprovadas leis progressistas que desafiavam a supremacia masculina. Esta época raramente é reconhecida.

"O Ku Klux Klan e a segregação racial, tão dramaticamente posta em causa pelo movimento pela liberdade de meados do século xx, não foram criados durante a escravatura e sim como uma tentativa de controlar os negros livres que, de outra forma, teriam tido muito mais sucesso em fazer avançar a democracia para todos."

Durante esse período, assistimos à criação dos estabelecimentos de ensino a que hoje chamamos universidades historicamente negras e houve desenvolvimento económico. O período não durou muito: desde o rescaldo da abolição da escravatura – tomemos 1865 como data – até 1877, quando a Reconstrução Radical foi derrubada. E não foi só derrubada, foi apagada dos registos históricos. Por isso, na década de 1960, enfrentámos questões que deviam ter sido resolvidas na década de 1860, cem anos antes.

Aliás, o Ku Klux Klan e a segregação racial, tão dramaticamente posta em causa pelo movimento pela liberdade de meados do século xx, não foram criados durante a escravatura e sim como uma tentativa de controlar os negros livres que, de outra forma, teriam tido muito mais sucesso em fazer avançar a democracia para todos.

E, assim, percebemos o desenvolvimento dialéctico do movimento de libertação negra. Por um lado, temos o movimento pela liberdade e, por outro, uma tentativa de o limitar, de modo a caber numa estrutura muito mais pequena, a estrutura dos direitos civis. Não quer isto dizer que os direitos civis não sejam extremamente importantes, mas a liberdade é muito mais ampla do que os direitos civis.

À medida que esse movimento cresceu e se desenvolveu, inspirou­‑se – e por sua vez inspirou­‑as também – nas lutas pela libertação em África, na Ásia, na América Latina e na Austrália. Tratou­‑se não só de adquirir os direitos formais de participar plenamente na sociedade, mas sobretudo de adquirir direitos concretos – emprego, ensino gratuito, cuidados de saúde gratuitos, habitação a preços acessíveis – e também de pôr fim à ocupação policial racista nas comunidades negras.

Assim sendo, nos anos 1960, foram criadas organizações como o Partido dos Panteras Negras. (E devo dizer que o Partido dos Panteras Negras foi fundado em 1966, o que significa que em breve deveríamos comemorar o seu 50.º aniversário!) Pergunto­‑me como vamos abordar, por exemplo, o Programa dos Dez Pontos do Partido dos Panteras Negras. Deixem­‑me resumir esse programa, para compreenderem o que está a impedir que sejam feitos esforços para garantir uma grande comemoração do 50.º aniversário do Partido dos Panteras Negras.

O primeiro era: “Queremos liberdade.”

O segundo, pleno emprego.

Terceiro, não permitir que os capitalistas continuassem a roubar as nossas comunidades negras oprimidas. Ou seja, o programa era anticapitalista!

Quarto, queremos habitações decentes, próprias para alojar seres humanos.

Quinto, queremos ensino decente para o nosso povo, ensino que exponha a verdadeira natureza desta sociedade decadente. Queremos um sistema de educação que nos ensine a nossa verdadeira história e o nosso papel na sociedade actual.

E sexto – que é especialmente importante, em vista da tentativa da direita de desfazer os pequenos passos dados pelo governo de Obama para disponibilizar cuidados de saúde aos pobres nos Estados Unidos –, queremos cuidados de saúde inteiramente gratuitos para todas as pessoas negras e oprimidas.

Sétimo, queremos o fim imediato da brutalidade policial e do homicídio de negros, outras pessoas não-brancas e todas as pessoas oprimidas nos Estados Unidos.

Oitavo, queremos o fim imediato de todas as guerras de agressão. Estão a ver como isto ainda é tão actual.

Nono, queremos liberdade para todos os negros e oprimidos detidos em prisões federais, estaduais, regionais, municipais e militares dos Estados Unidos. Queremos julgamentos por um júri de pares para todas as pessoas acusadas de alegados crimes à luz das leis deste país.

E, por fim, décimo: queremos terra, pão, habitação, educação, roupa, justiça, paz e controlo popular comunitário da tecnologia moderna.

Angela Davis detida em 1970 por fazer parte do movimento Black Panther, o Partido dos Panteras Negras

Getty Images

O que é tão interessante neste manifesto é que retoma os programas abolicionistas do século xix; e, claro, a vanguarda abolicionista do século xix reconhecia que não se podia acabar com a escravatura abolindo­‑a simplesmente; era preciso criar instituições que integrassem antigos escravos numa democracia nova e em desenvolvimento.

O Partido dos Panteras Negras foi fundado em 1966, o seu programa recapitula as preocupações abolicionistas do século xix e continua a ecoar as preocupações abolicionistas no século xxi.

Herman Wallace, membro do Partido dos Panteras Negras, que alguns de vocês talvez conheçam, era conhecido – nos círculos que continuam a empenhar­‑se em campanhas para libertar presos políticos – como um dos Três de Angola. Foi libertado no dia 1 deste mês, depois de ter passado 41 anos na solitária, e morreu a 4 de Outubro, três dias depois de conquistar a liberdade. Se estiverem interessados em Herman Wallace, vejam o trabalho dele, a sua colaboração num projecto artístico chamado A Casa Que Herman Construiu. Uma artista pediu­‑lhe para imaginar a casa em que gostaria de viver, sobretudo tendo habitado durante quase meio século numa cela de dois metros por três.

Aos 66 anos, outro membro do Partido dos Panteras Negras, Assata Shakur, que obteve asilo político em Cuba depois de fugir de uma prisão estado­‑unidense na década de 1980, foi recentemente designada um dos Dez Terroristas Mais Procurados do mundo. Assata Shakur, que é escritora e artista e reconstruiu a sua vida em Cuba, está agora vulnerável a mercenários do tipo Blackwater, que podem querer reclamar a recompensa de dois milhões de dólares oferecida pela sua captura, pelo facto de o seu nome ter sido colocado na tal lista.

E devo dizer, num aparte, que quando soube disto, em Maio, me lembrei de quando eu própria fiz parte da lista dos Dez Mais Procurados. Não fiz parte da lista dos Dez Terroristas Mais Procurados, porque creio que na época ainda não existia, mas puseram­‑me na lista dos Dez Criminosos Mais Procurados. E fui descrita como armada e perigosa. Uma das coisas que me lembro de ter pensado foi: “Que história é esta? O que é que eu posso fazer?” E depois percebi que aquilo não tinha nada que ver comigo; não tinha nada que ver com o indivíduo. Tratava­‑se de mandar uma mensagem ao grande número de pessoas que as autoridades pensavam que conseguiriam dissuadir de se envolverem nas lutas pela liberdade daquela época.

Assata Shakur está entre os dez terroristas mais perigosos do mundo, segundo o Departamento de Segurança Interna e o FBI. Contudo, quando penso na violência que pautou a minha juventude em Birmingham, no Alabama, onde se punham bombas constantemente e se destruíam casas e se destruíam igrejas e se destruíam vidas, vejo que até hoje ainda não rotularam esses actos como terroristas.

O terrorismo, representado como externo, como vindo de fora, tem, na realidade, muito de fenómeno interno. O terrorismo moldou em grande parte a História dos Estados Unidos da América. Reconhecer a continuidade entre as lutas antiesclavagistas do século xix, as lutas pelos direitos civis do século xx e as lutas abolicionistas do século xxi – e quando digo lutas abolicionistas refiro­‑me, acima de tudo, à abolição do encarceramento como modo dominante de punição, à abolição do complexo prisional­‑industrial –, reconhecer essas continuidades requer que contestemos a ideia de desfechos que isolam o movimento pela liberdade do século xx em relação aos movimentos dos séculos anterior e posterior.

Angela Davis em outubro do ano passado

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Cabe­‑nos a nós não só reconhecer essas continuidades temporais, mas também reconhecer as continuidades horizontais, as ligações a toda uma série de movimentos e lutas actuais. E faço questão de mencionar especificamente as lutas correntes pela soberania na Palestina. A Palestina, onde há pouco tempo os Palestinian Freedom Riders decidiram contestar as práticas de apartheid do Estado de Israel.

Mas o meu discurso já vai longo. E, apesar de criticar esta ideia de desfechos, sinto­‑me obrigada, pelas limitações de tempo, a encerrar a minha palestra aqui, esta noite. Por isso, gostaria de a concluir com um começo. No mundo inteiro, as pessoas dizem: queremos lutar juntas, enquanto comunidades globais, para criar um mundo livre de xenofobia e racismo. Um mundo do qual a pobreza tenha sido eliminada e onde o acesso aos bens alimentares não esteja sujeito às exigências do lucro capitalista. Eu diria um mundo onde uma empresa como a Monsanto seja considerada criminosa. Onde a homofobia e a transfobia possam ser verdadeiramente consideradas coisas do passado, juntamente com a punição carcerária e as instituições de confinamento para pessoas com deficiências, e onde toda a gente aprenda a respeitar o ambiente e todos os seres vivos, humanos e não humanos, com quem coabitamos.

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