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Assédio e favorecimento. Boris Johnson tem um problema com as mulheres? /premium

Uma relação que pode trazer um conflito de interesses e uma acusação de assédio sexual. Três dias apenas separam os dois escândalos, que já ensombram o Congresso dos tories. Que impacto podem ter?

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“Ele por vezes tem o estilo de um Frank Spencer numa loja de porcelanas. Mas é uma pessoa decente e creio que se preocupa bastante com as mulheres e as raparigas.” A frase foi dita por Penny Mordaunt, ex-ministra da Defesa do Partido Conservador britânico, sobre Boris Johnson, num evento à margem do Congresso do seu partido. Frank Spencer, explica o Huffington Post para as audiências estrangeiras como a nossa, era a personagem principal de uma série de televisão britânica da década de 1970, a Some Mothers Do ’Ave ’Em. Spencer, diz o site, era conhecido por ser “um zero à esquerda que luta por manter um emprego” e que acaba por “trazer infelicidade à mulher”.

É assim, recorrendo à comparação com uma personagem simpática e bem intencionada que só causa desastres, que Mordaunt apelida o primeiro-ministro britânico e os dois recentes escândalos que o envolvem: as suspeitas de favorecimento à empresa de uma mulher com quem mantinha um relacionamento sexual, quando era presidente da Câmara de Londres; e a acusação de assédio sexual por parte de uma jornalista, que garante que Boris Johnson lhe colocou a mão numa coxa, de forma imprópria, num evento de trabalho.

Boris Johnson com a companheira Carrie Symonds à chegada ao Congresso do Partido Conservador (Jeff J Mitchell/Getty Images)

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Outros não foram tão brandos como Mordaunt. A oposição tem aproveitado para atacar Boris Johnson pelo primeiro caso, que já está a ser investigado por instituições públicas. E, dentro do próprio partido do primeiro-ministro, há quem tenha afirmado que a mulher que apresentou a denúncia do segundo caso é uma pessoa credível. A resposta oficial por parte do Governo é negar que tenha havido comportamentos incorretos, num caso e noutro. Mas, com os tories reunidos em Congresso, os dois escândalos já fizeram mossa. Basta olhar para as capas dos jornais: esta segunda-feira, dia do início do encontro do Partido Conservador, pelo menos quatro deles (The Guardian, Daily Mirror, Daily Mail e i) traziam na capa referências ao caso.

Um relacionamento paralelo à atribuição de fundos públicos e uma mão na coxa de uma colega

O primeiro escândalo rebentou na passada sexta-feira, com mais pormenores a serem acrescentados na edição deste domingo do The Times. De acordo com os relatos dos jornais britânicos, Boris Johnson terá tido uma relação de natureza sexual com a empresária Jennifer Arcuri, ao mesmo tempo que as empresas da norte-americana receberam fundos públicos britânicos no valor total de mais de 140 mil euros.

O problema é que Boris, à altura mayor de Londres, supervisionava uma das instituições que atribuiu mais de dez mil euros a uma das empresas de Arcuri. E a empresária terá ainda sido incluída em viagens do presidente da Câmara de Londres acompanhado de empresas, muito embora não cumprisse os requisitos necessários para tal — de tal maneira que as suas candidaturas foram inicialmente rejeitadas, segundo conta o Sunday Times.

Após uma queixa, o caso está agora a ser investigado pelo Gabinete Independente de Conduta Policial, da autarquia londrina, depois de esta ter dito que pode “ter havido falhas em salvaguardar o erário público”. O órgão irá avaliar se há matéria suficiente para o caso ser investigado judicialmente.

Para o primeiro-ministro, não há qualquer conflito de interesses na sua relação com Arcuri. Em entrevista a Andrew Marr da BBC, Boris disse que “não havia quaisquer interesses a declarar” e que tudo foi feito de forma “totalmente adequada”. A sua ministra do Ambiente, Theresa Villiers, partiu para o ataque mais cerrado: “Tudo isto foi exagerado. O primeiro-ministro é muito claro em dizer que tudo se passou se forma correta. Esta parece ser uma queixa motivada por questões políticas”, afirmou. Mas o Partido Trabalhista rejeita a acusação de aproveitamento político: “Há uma avaliação totalmente independente a estes pagamentos, feitos pelo gabinete do presidente da Câmara, que diz que há perguntas sérias que têm de ser feitas”, apontou o líder da oposição, Jeremy Corbyn. “O trabalho do primeiro-ministro é responder a estas perguntas.”

"Aposto que ele teria dado ouvidos se fosse ela a pedir-lhe para travar o Brexit", diz o cartaz de uma manifestante com uma foto de Boris Johnson e Jennifer Arcuri (OLI SCARFF/AFP/Getty Images)

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O caso será, portanto, investigado. O mesmo não acontece, pelo menos para já, com o segundo escândalo a rebentar três dias depois — e, no entanto, é este que pode causar mais danos ao primeiro-ministro. Eis que a jornalista Charlotte Edwardes decidiu fazer um relato na primeira pessoa sobre um momento que teve com Boris Johnson num jantar da revista Spectator, há bastantes anos, quando ambos ali trabalhavam — e que, na sua opinião, foi um caso claro de assédio sexual.

“Estou sentada à direita de Johnson. À sua esquerda está uma jovem mulher que também conheço”, relata a atual jornalista do Times numa coluna do jornal onde agora trabalha. “É servido mais vinho; mais vinho é bebido. Por baixo da mesa, sinto a mão de Johnson na minha coxa. Ele dá-lhe um apertão”, continua. “A sua mão está na minha perna, cá em cima, e a parte de dentro da minha perna está suficientemente entre os seus dedos para que eu, de repente, me sente muito mais direita no meu lugar.” À saída do jantar, garante Charlotte, confidenciou o que aconteceu à outra mulher, que se sentava à esquerda de Boris: “Ó meu Deus, ele fez-me exatamente o mesmo”, terá dito a jovem em causa, não identificada.

Esta acusação, com rosto, foi grave o suficiente para o Número 10 de Downing Street reagir oficialmente: “A alegação não é verdadeira”, disse laconicamente um porta-voz do Governo. Ao Guardian, fontes governamentais garantiram que Boris Johnson estaria furioso, por a acusação ser “uma treta” e “um disparate”.

Boris Johnson era diretor da Spectator quando, alegadamente, assediou a jornalista Charlotte Edwardes (Cambridge Jones/Getty Images)

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O próprio primeiro-ministro acabaria por falar do assunto de viva voz esta segunda-feira. Questionado pelos jornalistas sobre se a acusação de Edwardes é verdadeira, respondeu simplesmente “Não”. “Acho que aquilo que as pessoas querem ouvir é o que estamos a fazer por elas e pelo país e o investimento que estamos a fazer em formas de unir o país”, acrescentou.

Mas Charlotte Edwardes não parece estar pronta para recuar: “Se o primeiro-ministro não se recorda do incidente, então claramente tenho melhor memória do que ele”, disse à Sky News. Pouco depois, escreveu essa mesma frase na sua conta de Twitter.

As festas da Spectator regadas “a champanhe Ruinart” não são novas. Mas acusações de avanços não consentidos por parte de Boris sim

Que Boris Johnson sempre teve uma vida privada agitada, não há grandes dúvidas. Dois casamentos e várias relações extra-conjugais depois, o primeiro-ministro vive atualmente com a especialista de relações públicas Carrie Symonds. O seu passado, contudo, está recheado de episódios conturbados, como o caso amoroso com Petronella Wyatt, também dos tempos da Spectator. Os tabloides publicaram que não só tinha um affair com a colunista, como a tinha forçado a abortar. Boris inicialmente negou, mas acabou por ser apanhado na curva e isso fez com que o líder dos conservadores à altura, Michael Howard, pedisse a sua demissão como vice-presidente do partido e ministro-sombra para as Artes.

Em 2008, o antigo diretor do Telegraph que contratou Boris Johnson para o jornal, Max Hastings, pediu mesmo ao político — que chegou a ser apelidado de Borisconi por uma colunista do Guardian — que “mantivesse a sua pilinha guardada” durante a campanha para a autarquia de Londres, numa história revelada pelo próprio dez anos mais tarde.

E o ambiente da Spectator dos anos 90 e início da década de 2000, quando Boris foi diretor da publicação, era conhecido pelas festas rijas: “Sempre houve muita brincadeira na Spectator”, ilustrou a biógrafa Sonia Purnell no livro Just Boris: The Irresistible Rise Of A Political Celebrity (sem edição em português, o título poderia ser traduzido como Simplesmente Boris: A Ascensão Irresistível de uma Celebridade Política), descrevendo as “conhecidas festas da revista” como eventos “que juntavam manadas de poderosos homens de meia-idade com bandos de jovens mulheres impressionadas — ou, talvez devêssemos dizer, impressionáveis — em espaços cheios de gente. Havia elogios, alimentados pelos stocks de champanhe Ruinart da Spectator. Boris convidava mulheres jovens e bonitas.”

A fama de playboy de Boris Johnson consolidou-se com os rumores de vários casos extraconjugais (Dave Benett/Getty Images)

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Que Boris Johnson sempre foi uma espécie de playboy, não é, uma vez mais, novidade. Que se movimentava em ambientes onde esse tipo de comportamento não era censurado, também não surpreende ninguém. E, durante muito tempo, a reação do eleitorado britânico sempre foi a de manter bem separada a vida pessoal da vida política, não penalizando políticos pelas indiscrições da sua vida privada. Desta vez, porém, há diferenças. Porque, como afirma o editor Paul Waugh, o caso “vai para lá das inúmeras histórias de infidelidades de Johnson”: “É claro que não temos nada a ver com a sua privada e a maioria dos eleitores não quer saber”, aponta. “Mas há uma grande diferença entre ter affaires consensuais e um alegado apalpão não consentido”.

“Confio nela”, diz ministro de Boris. Casos contaminam política

A prova de que a situação não é igual está na reação dentro do próprio meio, com vários políticos a comentar o caso e com o desconforto notório por parte dos ministros de Boris Johnson durante o Congresso do Partido Conservador, que decorre esta semana.

Em defesa de Boris Johnson sairam apenas, para já, o ministro das Finanças, Sajid Javid, e o deputado Mark François. “O primeiro-ministro disse que a alegação é completamente falsa e eu tenho fé total no primeiro-ministro”, reforçou o primeiro, antes do seu discurso no palco, em Manchester, onde apresentou o programa financeiro dos tories. Já François, conhecido deputado Brexiteer, partiu para o contra-ataque, recuperando a argumentação das “motivações políticas” que tinha sido usada pela ministra do Ambiente no caso de Arcuri: “O facto de estas histórias estarem a sair agora não é acidental”, disse o deputado a um jornalista da Sky News. “As pessoas têm uma agenda para o deitar abaixo, porque estão desesperadas para que fiquemos na UE”, acrescentou.

O ministro da Saúde, Matthew Hancock, também começou por defender Boris: “Ele nunca deu sermões a ninguém por causa da sua vida privada”, sublinhou. Mas também fez uma adenda que mina as declarações de Downing Street: “Conheço bem a Charlotte e confio completamente no que ela tem a dizer”, acrescentou em declarações ao Channel 4. Também a ex-ministra do Trabalho, Amber Rudd, aproveitou para tweetar o seguinte comentário: “Concordo com o Matt.”

Nick Boles — antigo deputado conservador que se tornou independente em abril deste ano, batendo com a porta em discordância com a política dos tories para o Brexit — foi ainda mais longe: “Tendo em conta o que conhecemos de Johnson, isto provavelmente não foi um acontecimento tão raro assim. Não admira que ele se tenha esquecido [que aconteceu]”, atirou no Twitter. O resto da oposição, para já, continua em silêncio sobre o caso. E a ministra para a Igualdade do Governo de Boris Johnson, Liz Truss, diz que precisa de “se informar com mais detalhe” sobre o caso, antes de o comentar.

Mas todo o corrupio de reações mostra bem que a acusação de Charlotte Edwardes não é um assunto de somenos. “Tenho uma sensação forte de que estes dois conservadores séniores [Hancock e Rudd] não vão ser os únicos a apoiar publicamente Edwardes. Ela é bastante conhecida, respeitada e apreciada nos círculos políticos e, em alguns casos, é amiga de alguns conservadores”, apontou a colunista Ailbhe Rea, da revista de esquerda New Statesman. “Quando um membro do Governo apoia publicamente a mulher que acusa o primeiro-ministro de assédio sexual, Boris Johnson pode estar perante uma luta maior do que talvez esperasse.”

Matthew Hancock, atual ministro da Saúde, no Congresso dos tories do ano passado. Este ano, disse "confiar" na mulher que acusou o PM de assédio (Victoria Jones/PA Images via Getty Images)

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No meio de todo o escândalo, expressões como Brexit, eleições, Orçamento do Estado ou Serviço Nacional de Saúde vão ficando relegadas para os rodapés das notícias sobre o Congresso dos tories. O primeiro-ministro, contudo, rejeita aceitar que os escândalos sobre a sua vida privada estejam a ensombrar o encontro dos conservadores: “Não estão, de todo”, afirmou aos jornalistas.

Certo é que alegações de assédio sexual na era #MeToo não podem ser tomadas de ânimo leve, ainda para mais num partido que regista, continuamente, quebras entre o eleitorado feminino. Uma sondagem da YouGov, publicada no final da semana passada, dava conta de que quase metade das mulheres que votam (47%) diz “desgostar” de Boris Johnson. Esse número está a subir desde o final do verão e, com o escândalo de Charlotte Edwardes, pode continuar. Aí, o primeiro-ministro terá um verdadeiro problema com as mulheres.

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