Assim que surgiram as primeiras preocupações relativas à Covid-19 em Portugal, diferentes associações de caridade — que garantiam e garantem a distribuição de comida e de bens essenciais às pessoas em situação de sem-abrigo — começaram a sentir as consequências. Às equipas de voluntariado que ao início vacilaram juntou-se outra problemática: agora há mais pessoas na rua a pedir comida e nem todas são sem-abrigo.

No começo, a Comunidade Vida e Paz foi uma das instituições que assistiu à redução de voluntários, mas os alertas que foram sendo feitos ajudaram a contrariar o movimento. “No início vimos redução, mas conseguimos manter as equipas em funcionamento. Em vez de serem sete ou oito elementos por equipa, eram três. Depois com a campanha que fizemos, e com o facto de os voluntários se aperceberem do que está a acontecer, voltámos de certa forma à normalidade. Não sabemos até quando é que vai ser assim”, diz Renata Alves, presidente da associação cujas equipas percorrem quatro itinerários que, no total, abrangem cerca de 90 pontos da cidade de Lisboa. A distribuição é diária, o que muda são as equipas que variam de 15 em 15 dias. “Estamos a fazer o ponto de situação diariamente”, admite, ciente de que tudo pode mudar em menos de 24 horas.

O que mudou também foi o número de refeições distribuídas — que, entretanto, duplicou. Se na segunda-feira da semana passada, 16 de março, entregaram na rua 400 refeições, ontem o número ascendeu a 700-800 refeições. Tal é possível com a parceria estabelecida com as associações Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA) e Noor’Fatima, que alternadamente fornecem entre 500 e 600 refeições à Vida e Paz, encarregue de as distribuir. A união resultou do facto de tanto a CASA como a Noor’Fatima terem ficado temporariamente sem voluntários para fazer as rondas.

Mas o que hoje é uma realidade, pode não ser amanhã. A pandemia não está só a testar a capacidade destas instituições em dar resposta, como também a respetiva adaptação a cenários imprevisíveis.

“Apareceram mais pessoas sem abrigo na rua, mas também famílias carenciadas que não têm condições para preencher a despensa. Já estão a ir para a rua, a ir ter com as nossas equipas outro tipo de pessoas que estão fortemente carenciadas ao nível de géneros alimentares”, continua Renata Alves. Uma realidade também observada por Nurjaha Tarmahomed, presidente da Noor’Fatima. “Não são só sem-abrigos, são famílias. Acontece entregar comida e responderem: ‘tenho o meu marido em casa'”, diz.

Restaurantes encerrados afetam programa Re-food

Renata Alves não põe de lado a hipótese de haver pessoas desempregadas na sequência da pandemia a pedirem comida. Além disso, as limitações impostas pelo isolamento social impactaram algumas atividades dos sem-abrigo. Isto é, fizeram com que deixasse de haver carros por arrumar ou recolha de restos de alimentos em diferentes estabelecimentos. Foi precisamente isso que decretou a suspensão dos 60 núcleos da Re-food. Além da necessidade de proteger todos os intervenientes de um possível contágio, esta associação perdeu grande parte da fonte de alimentos, com muitos restaurante do país a fecharem as portas.

Se no começo do surto a Re-food perdeu voluntários de mais e menos idade — os idosos deixaram de aparecer devido aos riscos associados à Covid-19 e os jovens também, uma vez que as universidades foram encerradas —, agora os restaurantes e os supermercados representam a outra face do problema. “O nosso modelo comunitário é altamente social, há muitos contatos”, explica Hunter Halden, fundador da Re-food. Vai daí que os núcleos espalhados por diferentes pontos do país tenham “suspendido as atividades normais”, ainda que uma percentagem elevada já tenha assegurado apoios temporários e essencialmente locais. “Os nossos beneficiários não estão abandonados”, garante Hunter, acrescentando que esta semana há uma reunião virtual para explorar “novas iniciativas”.

O que não está suspenso é o trabalho que fazemos na comunidade. Em Faro, por exemplo, os voluntários vão ao Banco Alimentar para fazer cabazes e entregá-los em casa dos beneficiários. Há duas qualidades de beneficiários: os que são capazes de cozinhar e os que são sem-abrigo e que não têm condições para cozinhar”, exemplifica Hunter.

Também a Legião da Boa Vontade, cuja ronda de caridade atende por norma aproximadamente 200 sem-abrigo em Lisboa e outros 100 no Porto, sentiu o embate com a chegada do surto. “No primeiro momento não tivemos logo um impacto. Foi mais tarde, quando chegou a altura de fazer o programa da ronda”, explica Eduarda Pereira ao Observador. A associação teve como prioridade salvaguardar os voluntários com mais idade — as pessoas a partir dos 60 anos foram aconselhadas a ficar em casa — e também voluntários estreantes. “Não vamos pôr em risco pessoas que nunca fizeram a ronda”, assegura.

Foram desde logo implementadas as medidas da DGS, diz ainda Eduarda Pereira, incluindo o uso de máscaras, gel desinfetante e o distanciamento social. Nos respetivos espaços em Lisboa e no Porto foram criadas zonas devidamente higienizadas, no caso de surgirem casos suspeitos de infeção dentro da organização — foi o que aconteceu, aliás, na Noor’Fatima quando uma voluntária apresentou sintomas de contágio. O trabalho social na Legião da Boa Vontade foi também ele ajustado: “Na ronda de caridade temos três a quatro voluntários quando antes eram seis. Tentámos reduzir a participação voluntária até não não haver aglomeração de pessoas”.

Certo que, atualmente, a Comunidade Vida e Paz tenta aguentar o barco através dos 600 voluntários inscritos. Mas no dia em que algum ou alguns falharem — mais não seja porque ficaram infetados com o novo coronavírus —, a associação está preparada para recorrer ao Banco de Voluntários composto por pessoas que recentemente se disponibilizaram para a ajudar. “Ontem já íamos na ordem das 120 pessoas”, atesta Renata Alves. “Ainda não foi necessário recorrermos ao banco, mas isso não quer dizer que não venha a acontecer no futuro. Temos de ir fazendo o balanço ao dia.”

Forças Armadas para distribuir alimentos? “É uma possibilidade”

Henrique Joaquim, gestor da Estratégia Nacional para as Pessoas Sem Abrigo, em funções desde janeiro, explica que as “respostas locais são as mais eficazes”, ainda que com o suporte da estratégia nacional. Ao Observador, garante que tem acompanhado todos os núcleos de intervenção local (os NPISA), aos quais as associações de caridade tendem a estar associadas.

“Temos como primeira regra tentar manter os serviços básicos de contacto com as pessoas na rua ou em espaços de acolhimento para lhes passar informação, para sossegá-las”, assegura Henrique Joaquim. Este responsável contribuiu desde cedo para sinalizar os sem-abrigo como “grupo de risco” no caso da propagação da Covid-19.

Em cima da mesa, explica ao Observador, está o possível apoio das Forças Armadas: “Iniciámos os contactos e fizemos pedidos de apoio que estão a ser avaliados.” Joaquim refere ainda a possibilidade de os membros das Forças Armadas ajudarem na distribuição alimentar até para “aliviar o esforço dos voluntários”. A esta iniciativa acrescem os 12 espaços de acolhimentos espalhados pelo país criados em coordenação com as autoridades de saúde locais, os quais garantem alimentação, formação quanto às regras de etiqueta higiénica e até despiste de sintomas.

Aqui em Lisboa as pessoas para entrarem no centro de acolhimento passam por uma equipa de profissionais de saúde para fazer esse despiste e só depois podem fazer a higiene pessoal, a alimentação e o descanso. Todos os centros já admitem possibilidade de pernoitar. São várias dezenas de camas a nível nacional — em Cascais também há dois espaços bastante reforçados”. Na capital, aos espaços já operacionais, juntam-se três unidades: dois pavilhões e um edifício cedido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa apto a acolher apenas mulheres. Está preconizado que todos os espaços garantam uma zona de isolamento na eventualidade de surgirem casos suspeitos.

Quanto a uma hipotética escassez de alimentos, Henrique Joaquim garante que, à partida, não existe esse receio e que até ao momento não foi reportada nenhum rutura. “A sociedade civil tem-se mobilizado e as associações estão a conseguir canalizar os donativos que têm. As autarquias reforçaram o apoio a estas organizações. É que isto vai ser uma maratona — e não um sprint”, conclui.