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Goldman Environmental Award

Goldman Environmental Award

Azzam Alwash, o “Nobel do Ambiente” que propõe uma Europa para o Médio Oriente /premium

Deixou a vida confortável na Califórnia e voltou ao sul do Iraque para recuperar os pântanos onde cresceu, destruídos a mando de Saddam Hussein. Prémio Goldman, Azzam pede cooperação no Médio Oriente.

Zona natural de água doce do sul do Iraque, uma espécie de oásis recôndito no deserto e o maior ecossistema do Médio Oriente, a Mesopotânea foi adubo para o desenvolvimento da raça humana. Lá se desenvolveram as primeiras civilizações, lá se metodizou a agricultura organizada e se esboçaram as cidades.

Foi naqueles pântanos que Azzam Alwash passou a infância. Mas quando, em 2003, voltou dos Estados Unidos, 25 anos depois de ter saído do Iraque, restava apenas um deserto árido onde os juncos já não cresciam. Os pântanos foram secos propositadamente por Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, quando, nos anos 1990, precisou de ter controlo sobre os grupos de rebeldes que, após a guerra com o Kuwait, se tinham afirmado contra o regime e lá se refugiaram.

Os nomes rimam, mas Azzam nunca andou encontrado com Saddam: nem geograficamente, nem em pensamentos. O engenheiro civil saiu do Iraque para estudar nos Estados Unidos,poucos anos antes de o ex-presidente ter tomado posse. Voltou meses antes de Saddam Hussein ter sido encontrado pelas forças americanas, em 2003, e preso, para mais tarde ser condenado à pena de morte por crimes contra a humanidade.

Azzam Alwash voltou para restaurar o que havia sido perdido na zona onde caçava patos com o pai. Recebeu o prémio Goldman, o chamado “Nobel do Ambiente” , e viaja agora pelo mundo para sublinhar que tudo o que fez foi ajudar a Natureza a recompor-se. Em Vila Nova de Gaia, por altura do Fórum Internacional de Gaia, falou com o Observador e confessou-se crente no dia em que as filhas americanas possam, como ele, trocar o sonho americano pelo calor do deserto, esmorecido pelo vento sentido a bordo dos barcos da Veneza clandestina que boia no meio do Médio Oriente.

Azzam Alwash foi condecorado pelo prémio Goldman em 2013.

Goldman Environmental Fundation

Quando, em 2003, voltou ao Iraque, 25 anos depois de ter partido, o que viu?
Um país cansado. Baçorá, onde passei tempos muito bonitos quando era novo, tornou-se uma cidade fantasma. A guerra com o Irão destruiu-a. Até os cães eram magros. As florestas de palmeiras tinham desaparecido. Era um país que tinha estado em guerra durante 25 anos e pouco tinha a ver com o país que conhecia da infância. Precisava de gente que cuidasse dele.

Pela altura em que voltou, a maior cidade na zona dos pântanos tinha reduzido de 67 mil pessoas…
Para nada. Tinha desaparecido.

O que é que estas pessoas fizeram? Para onde foram?
Estas pessoas dependiam dos pântanos. Pescavam nas águas, caçavam os animais da zona. O desaparecimento dos pântanos levou a que ficassem totalmente dependentes do governo para obterem comida. Alguns migraram para Bagdad para ganharem ao dia, num país sem empregos e sem trabalho. Muitos acabaram refugiados no Irão. Os que ficaram foram organizados em grupos e levados para pequenas cidades, onde dependiam diretamente do governo. Obedeciam às ordens, comiam; não obedeciam, não comiam. As sanções tornaram Saddam mais forte, ironicamente.

"Saddam tinha medo. Eventualmente, os rebeldes poderiam ser usados pelos seus inimigos para o fracassar. E não estava errado em ter medo"
Azzam Alwash

Voltou pelos pântanos?
Sim. Mas não sabia que me ia comprometer para a vida. Pensei ficar por lá dois ou três anos, talvez quatro, com o objetivo de restaurar o máximo que conseguisse dos pântanos e o de criar uma organização que cuidasse deles. Depois ia embora e talvez voltasse todos os invernos para lá passar um ou dois meses.

Dez anos depois de ter voltado ao Iraque e quatro meses depois de ter recebido o prémio Goldman, em 2013, o governo iraquiano estabeleceu os pântanos como primeiro Parque Natural do país. Como se sentiu?
Foi um momento maravilhoso, claro. Eu já andava a defender essa medida há uns quatro anos. Antes do prémio, ninguém me ouvia. Depois pensaram “Ah, o homem conheceu o Obama, deve saber do que fala”. [Risos] O problema é que essa foi uma decisão no papel, nunca foi posta em prática. Precisamos de traduzi-la em ações.

As Nações Unidas chamaram à seca dos pântanos um desastre ecológico e cultural.
Permita-me a correção: o Programa de Desenvolvimentos das Nações Unidas chamou-lhe o maior desastre projetado do século passado.

"Posso sugerir que em 2019, cem anos depois da Primeira Grande Guerra — altura em que o Iraque foi, de facto, criado — se crie um acordo como o da União Europeia que comece entre a Turquia e o Iraque, com o objetivo de coordenar a água dos rios Tigre e Eufrates? Só é impossível até estar feito"
Azzam Alwash

Enquanto engenheiro civil, o que é que podia fazer para restabelecer o que tinha sido destruído?
O que pensei primeiro foi em deixar a água entrar e deixá-la ser ela a restabelecer o que se tinha perdido.

Em seis meses, resultou.
Resultou.

É verdade que pagou do seu bolso por uma máquina escavadora que destruísse pedra?
Aluguei-a por três dias, por 500 dólares por dia, para escavar áreas específicas de pedra, para que depois a água pudesse entrar. A Natureza fez o resto. Nós só temos de sair do caminho… Claro que eu, enquanto engenheiro civil, não sou um biólogo lá muito sofisticado. Com o tempo, comecei a perceber que, para que a biodiversidade se restaurasse, não bastava só a água, era preciso também que voltassem as cheias, já extintas por ali.

O Nobel do Ambiente determinou zonas de pedra que precisariam de ser derrubadas para que a água voltasse aos pântanos.

O Nobel do Ambiente determinou zonas de pedra que precisariam de ser derrubadas para que a água voltasse aos pântanos.

Antes de ter voltado, os pântanos eram como um oásis gigante no meio do deserto?
Por todas as razões, o sul do Iraque deveria ser um deserto. Mas não é. Foi lá que as antigas civilizações nasceram, onde a irrigação começou, onde se fazia agricultura durante onze meses por ano. A única altura em que não se fazia colheita era no tempo das cheias, em que o sul do Iraque ficava coberto por água. Aliás, cheias essas que acabavam por ter grande importância para a agricultura: a água chegava e levava consigo o sal criado pela evaporação durante todo o ano anterior, renovando a vitalidade das terras agrícolas. Era uma espécie de fertilização natural.

Como se fosse um rim?
Sim. O povo sumério até celebrava as cheias como ofertas da deusa Ishtar. Eles entendiam, naturalmente, que as cheias, apesar de trazerem destruição, também permitiam o empoderamento das terras agrícolas e a continuidade da agricultura no ano seguinte. Havia pássaros, havia peixes, tudo em harmonia com os pântanos. Era um motor para a biodiversidade. O Homem não é estúpido: escolheu este sítio para começar a raça porque era fácil viver aqui.

Até que, nos anos 90, Saddam Hussein secou os pântanos como retaliação para com os muçulmanos shiitas que lá viviam.
Bom, não foi bem uma retaliação. Depois da guerra com o Kuwait, os rebeldes avançaram para os pântanos porque os conheciam bem, enquanto que o exército não conhecia, e porque lutavam com armas pouco potentes. O exército, apesar de ter até tanques, não os podia levar para os pântanos. Eles ganhavam a vantagem de estarem lá escondidos. Saddam sabia que, se houvesse um sítio onde os rebeldes se conseguissem esconder, o Ocidente ia usá-los para minar as suas regras. É preciso lembrar que estávamos em 1991. O Afeganistão usava os Mujahidin para lutar contra a União Soviética. Antes disso, no Vietnam, a União Soviética usou os vietnamitas para lutar contra os Estados Unidos. Quando há povos a viverem no seu ambiente natural, não interessa que tipo de armas têm, vão ter vantagem. Saddam tinha medo. Eventualmente, os rebeldes poderiam ser usados pelos seus inimigos para o fracassar. E não estava errado em ter medo.

Em 2013, quando Azzam voltou ao sul do Iraque, os pântanos tinham-se transformado em deserto.

Agora há outro problema: as barragens da Turquia.
Na essência é um problema, mas gosto de lhe chamar oportunidade. No Iraque, nós criámos infraestruturas para controlar as cheias, mas não para dosear a água para a irrigação. Um dos nossos lagos, chamado lago Tharthar, tem 340 quilómetros quadrados, o que, multiplicado por 3 metros de profundidade, dá 7,5 mil milhões de metros cúbicos de água. Estamos a perder muita água para a evaporação, o que não foi um problema até a Turquia construir barragens.

Tem um plano?
Se chegarmos a acordo com a Turquia na negociação das cabeceiras de água dos rios Tigre e Eufrates, todas as barragens podem ser controladas em conjunto. No Iraque já não há reservas: todas estão do lado da Turquia. Todos os anos, em fevereiro, eu poderia verificar, pelos mapas, a quantidade de neve esperada. Poderia fazer por ter a certeza de que tínhamos espaço suficiente nas reservas. Como? Libertando água. Abria as barragens, gerava a eletricidade necessária e, ao mesmo tempo, provocava cheias artificiais que traziam consigo a biodiversidade que outrora era trazida pela Natureza.

Goldman Environmental Prize

A Turquia está disponível para negociar?
Já me disseram que, se o governo iraquiano fosse à Turquia com estas ideias, havia acordo.

Porque seria uma situação favorável aos dois?
Sim. A Europa também começou com um simples pacto entre a Alemanha e a França, cinco anos após o fim da Segunda Grande Guerra, pela coordenação na produção de aço e de carvão. Sete anos depois, tornou-se a Comunidade Europeia do Aço e do Carvão (CECA) e, após mais cinco anos, foi criada a Política Agrícola Comum (PAC). Vinte anos depois, formou-se a União Europeia. Está certo que a União está agora a perder uma parte com o Brexit, mas o que eu quero transmitir é que foram precisas duas guerras mundiais para a Europa perceber que a competição nunca é a resposta. A resposta é a cooperação. No Médio Oriente, podemos recriar uma espécie de Europa se cooperarmos economicamente. Podemos continuar a ter fronteiras, mas deixamos as pessoas e o comércio circularem. Isso interessa muito à Europa.

Porquê?
Porque se não tivermos um acordo para água, vamos ter seca. A seca causa migrações. Se a Europa pensa que são graves os problemas de há dois anos na Síria, que causaram bastante migração para a Grécia e para Itália, então que espere até haver seca no Iraque e 15 milhões de pessoas a quererem ir embora. Os europeus têm todo o interesse em ver os países do Médio Oriente terem um acordo para a água. Posso sugerir que, em 2019, cem anos depois da Primeira Grande Guerra — altura em que o Iraque foi, de facto, criado — se crie um acordo como o da União Europeia que comece entre a Turquia e o Iraque com o objetivo de coordenar a água dos rios Tigre e Eufrates? Só é impossível até estar feito.

De que é que se lembra quando passava os dias com o seu pai nos pântanos?
(Suspiro) O meu pai era engenheiro de irrigação. Era um homem muito ocupado e, por isso, eu não o via assim tanto. Poucas vezes era só pai e filho. Das poucas vezes que me lembro de estar com ele nos pântanos, vêm-me memórias do barco na água. Lembro-me do peixe e do calor — estava sempre muito quente. O barco balançava nos lagos e, com o vento, vinha uma brisa que nos arrepiava pelo corpo adentro.

Quando saiu do Iraque e foi para os Estado Unidos, a 12 de julho 1972, foi para estudar?
[Risos] Eu não queria estar no Iraque. Se ficasse, teria de trabalhar para o governo. Não queria. Ainda estudei dois anos na Universidade de Baçorá, mas, depois, a ideia era ir acabar o curso aos Estados Unidos e voltar ao Iraque, cumprir os dois anos de serviço militar obrigatório e, depois, trabalhar como engenheiro civil lá, se aceitassem o meu curso. Se não aceitassem, eu tinha estudado nos Estados Unidos, podia trabalhar em qualquer lado.

Não foi isso que aconteceu.
Pois. Os meus colegas acabaram o curso em julho de 1980, mas eu só o acabei em dezembro desse ano. Na realidade, o que aconteceu foi que, sem saber, salvei-me. No intervalo entre a minha formatura e a dos meus colegas, o Iraque entrou em guerra com o Irão. Já não pude voltar ou seria um soldado na guerra. Quem quer ser um soldado na guerra?

Ficou à espera que a guerra acabasse?
Completei o PhD em engenharia civil e a guerra ainda continuava. E por lá fiquei até maio de 2003.

"Poucas vezes era só pai e filho. Das poucas vezes que me lembro de estar com ele nos pântanos, vêm-me memórias do barco na água. Lembro-me do peixe e do calor — estava sempre muito quente. O barco balançava nos lagos e, com o vento, vinha uma brisa que nos arrepiava pelo corpo adentro"
Azzam Alwash

Entretanto, casou e teve duas filhas nos Estados Unidos…
Na universidade conheci uma mulher linda, loira de olhos azuis, muito atraente. Apaixonámo-nos, casámos e eu dizia-lhe “espera até te levar ao Iraque e veres aquele paraíso natural”. Tenho duas filhas maravilhosas, americanas, uma vive na Califórnia e outra está em Nova Iorque a estudar medicina.

Mas voltou sozinho.
[Risos] Só estava contar o melhor lado da história. Divorciei-me. Parte do preço de ter voltado ao Iraque é estar longe da família. Agora vou aos Estados Unidos apenas duas ou três vezes por ano. Faltei aos primeiros romances das minhas filhas, faltei aos bailes da escola, às provas de soletração, às primeiras dores do coração. Valeu a pena? [Pausa] Profissionalmente, valeu. Emocionalmente, não valeu. Quem pagou o preço mais alto foram as minhas filhas.

O que é que elas pensam do pai?
De certeza que têm remorsos, só nunca me falaram deles. Talvez quando estiverem bêbadas e eu velho. Espero que um dia vejam o que eu fiz [pausa] e compreendam porquê.

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