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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Bailarinos na varanda, na cozinha e com a tábua de engomar: assim se dança com a pandemia /premium

Os animais de estimação são o público, as aulas fazem-se através da internet, o ruído não incomoda os vizinhos, que aplaudem e pedem mais. Sem estúdios nem palcos, a dança em isolamento não pára.

Há quem esteja em teletrabalho, há quem tente dedicar-se às respetivas profissões pelo menos durante metade do dia. Há quem tenha sido obrigado a tirar férias e muitos ficaram sem emprego. Mas há também quem, em tempos de pandemia, não encaixe propriamente em nenhuma destas opções.

Bailarinos, profissionais mas não só, viram as suas salas de ensaios fechados em meados de março. Era nesses locais que tinham espaço, espaço e ainda mais espaço. Com salas forradas a espelhos podiam correr, saltar, dançar horas a fio sem ter medo de partir nada — como a televisão ou os vasos da varanda, por exemplo. Muitos dos bailarinos passam cerca de oito horas do seu dia em frente ao espelho porque treinar é indispensável. E a verdade é que a Covid-19 pode ter mudado muita coisa, mas não mudou essa necessidade.

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“Nunca deixei de dançar, mas tenho saudades de ouvir os aplausos”

Frederico Gameiros, que faz parte da Companhia Nacional de Bailado (CNB), tem espelhos “a perder de vista” em sua casa. “Passamos oito horas do nosso dia a ver-nos ao espelho, é provavelmente a única profissão do mundo onde isto é possível”, explica-nos o bailarino profissional de 38 anos.

Frederico é um dos cerca de 50 bailarinos da Companhia Nacional de Bailado que, devido à pandemia da Covid-19, foram obrigados, à semelhança de todos os portugueses, a isolarem-se em suas casas, mas também a continuar a praticar e a transformar a suas salas, cozinhas e quartos em espaço de treino. No meio do sofá, dos livros, entre CDs e inúmeros quadros na parede, como um retrato da sua tetravó, e sempre sob o olhar atento de York, o cão.

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“Nunca deixei de dançar, mas tenho saudades de ouvir os aplausos”, começa por desabafar Frederico enquanto York lhe lambe as pernas. Dançar em casa pode soar muito bem, mas aos profissionais exige adaptação e é, por vezes, um pesadelo. Além disso, a probabilidade de ficarem lesionados é bastante mais elevada. “Treinamos num piso específico e próprio para dançar, os soalhos das nossas casas por vezes são irregulares e não escorregam como é ideal. Precisamos de uma superfície lisa e não porosa. Se não tivermos cuidado podemos vir a sair disto tudo com algumas lesões”, explica ao Observador.

O facto de dançarem em casa, num espaço fracamente mais reduzido, faz também com que parte dos exercícios fiquem impossibilitados de serem feitos. Os exercícios a pares são os mais evidentes, mas a lista é imensa e inclui movimentos como saltos e corridas. O treino em casa ficam assim reduzido a alongamentos, flexões, abdominais e alguns exercícios de pernas que numa sala de treinos são feitos com o apoio da barra — agora essa barra é substituída pela tábua de passar a ferro.

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“Nunca imaginámos estar numa situação destas em que estamos a treinar em casa e a tentar, dentro das limitações, fazer as mesmas coisas que fazemos na Companhia”

A tal tábua de passar a ferro é também utilizada na sala da casa de João Costa e Inês Ferrer, em substituição da barra que os ajuda em diversos exercícios. Bailarinos profissionais também na CNB, são namorados e conheceram-se dentro das quatro paredes da Companhia.

A CNB está fechada desde o dia 12 de março e este casal é obrigado também a treinar na sala. Aqui a tarefa complica-se ainda mais porque são dois e a sala não se assemelha ao local onde estão habituados a dançar.

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Começam por desviar a mesa de vidro e as quatro cadeiras para junto da janela com vista para Monsanto, em Lisboa, e colocam um tapete no centro da sala. É ali que treinam, à vez ou juntos, ao lado do sofá e em frente à televisão. Na parede atrás da TV está uma mão cheia de quadros com fotografias do casal e de Inês, tiradas pelo namorado João, apaixonado pela fotografia.

“Nunca imaginámos estar numa situação destas em que estamos a treinar em casa e a tentar, dentro das limitações, fazer as mesmas coisas que fazemos na Companhia”, desabafa Inês enquanto calça, sentada no chão, as suas pontas.

O treino, quando não é feito em conjunto, tem de ser cumprido de forma individual. Escolhem entre si quem faz e o quê primeiro, enquanto o outro membro do casal observa e dá algumas indicações. Naquela sala, ao contrário da sala de Frederico, não há espelhos e só assim é possível perceber o que está a ser bem ou mal feito.

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O bailado também é característico pelos saltos. Esse é um dos exercícios que este casal evita fazer devido à dimensão da sala, mas também para não incomodar os vizinhos. “Ouve-se tudo aqui”, dizem-nos. Saltos também é uma coisa que Frederico não pensa sequer em fazer em sua casa, “é impossível”, conta-nos.

João é bailarino profissional há cinco anos e Inês há oito e já perderam a conta ao número de espetáculos em que participaram a representar a CNB. Por serem um casal e por treinarem maioritariamente juntos, não quer dizer que dancem sempre juntos nos espetáculos, pelo contrário. “Dançámos juntos duas ou três vezes, se tanto. Na Companhia é raro dançarmos sempre com os mesmos pares, à exceção do par principal, esse par à partida, e por norma, é sempre o mesmo. Vamos variando, mas sim, já aconteceu sermos o par um do outro em espetáculos”, conta-nos João enquanto estica a perna, apoiado na tábua de passar a ferro.

À semelhança de Frederico, João e Inês também têm saudades do palco, mas mais do que dos aplausos, têm saudades de “ter casa cheia”. “Temos saudades de poder estar em palco, de voltar ao estúdio e de voltar à rotina de um bailarino”, concluem.

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Ballet na janela, do centro de Lisboa, para o mundo

Isadora Valero Meza foi também uma das bailarinas da CNB que aceitou o pedido do Observador, mas com uma condição: “Podem fotografar-me a treinar, como faço todos os dias, mas ia pedir para não entrarem em casa, tenho a minha mãe aqui comigo e não quero expo-la a qualquer perigo”. O pedido foi, obviamente, compreendido e rapidamente uma solução foi arranjada. “Vamos fotografá-la através da janela de sua casa”, dissemos. Assim foi.

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Nasceu em Caracas, Venezuela, onde iniciou a sua formação aos 8 anos na Academia do Ballet Clássico Nina Novak. Ainda na Venezuela, foi convidada pelo Ballet Teatro Teresa Carreño, sendo a bailarina mais jovem, para interpretar papéis solistas no “Lago dos Cisnes”, “Romeo e Julieta” e “O Quebra Nozes”.
Recebeu em 2008 uma bolsa de estudo para a Escola Superior do Hamburg Ballet na Alemanha. Passou pelo Reino Unido com a companhia Northern Ballet e em 2015 integra finalmente a CNB onde foi bailarina principal em “A Bela Adormecida”, “Lago dos Cisnes”, entre outros espetáculos.

Foi num bairro típico do centro de Lisboa que fotografámos o treino de Isadora. De maillot vermelho vivo e na sua pequena varanda da sala fez o treino, para que toda a gente que passasse a pudesse ver. “Às vezes venho aqui enquanto estou a fazer alguns alongamentos”, conta-nos a bailarina.

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Começou a dançar ballet mas agora é “semi-profissional” de flamenco

Os dias de Inês Eisele, professora de matemática, são passados sobretudo entre aulas feitas através do Zoom, com os alunos de uma escola de Lisboa. Consegue trabalhar transformando o seu escritório na sala de aula em tempos de pandemia.

O gosto pela dança surgiu quando por influência da mãe, logo aos cinco anos, começou a ter aulas de ballet. Foi só na faculdade que ganhou o gosto pela dança com origem na região da Andaluzia, na Espanha. O flamenco é sobretudo uma simbiose entre a música, o canto e a dança, cujas origens remontam às culturas ciganas.

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“Não tenho a certeza se são 13 ou 14” os anos que Inês conta a dançar flamenco. Não se considera profissional “quanto muito, semi-profissional”, explica-nos a rir. “Estou a brincar, faço-o porque amo esta dança”, explica-nos.

Desde sempre que tem aulas de flamenco na Juventude da Galiza, na Escola Célia Neves, em Lisboa, e quem a motiva para a dança em tempos de pandemia é a professora Mabel que se grava, também sozinha e em casa, e envia os vídeos para as suas alunas treinarem.

Inês fá-lo na cozinha, em frente ao fogão e ao lado da cesta de laranjas, por cima de um estrado que lhe foi oferecido por um casal amigo, o Darryl e a Rita. “Este estrado, ou tablau em espanhol, foi das melhores prendas que me deram nos últimos anos. Permite que consiga sapatear de uma forma segura e o som nem se compara”, explica-nos a professora de matemática.

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O piso, novamente o piso. À semelhança do que atormenta os bailarinos da CNB, também o piso é uma das principais preocupações de quem dança flamenco. É importante por uma questão sonora, mas sobretudo por um questão física. Um piso não adequado pode criar lesões nos pés, joelhos ou coluna e, por isso, este estrado de madeira foi a “salvação” de Inês. A professora Mabel alertou para isso mesmo: “Cuidado com esses pisos de mosaico, porque isso faz muito mal ao vosso corpo”.

“Consigo ouvir o som limpo e definido e a madeira amortiza o impacto dos pés no chão”, exemplifica. Com o computador em cima do fogão e a ver os vídeos da professora Mabel, Inês passa cerca de duas horas por dia naquela cozinha a dançar, como se estivesse num enorme estúdio, forrado a espelhos. Inês já experimentou treinar no escritório, mas o seu sítio de “eleição” é mesmo a cozinha.

No entanto, o convívio com as restantes colegas mantém-se. “Se calhar mais ativo agora, porque estamos todas longe e não nos vemos há muito tempo”. As restantes 10 colegas e a professora trocam diariamente centenas de mensagens através do Whatsapp e é aí que partilham vídeos e fotos dos seus treinos. Isto enquanto as salas de ensaio não reabrem e os palcos não voltam a receber a dança que por agora se guarda em casa

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